DEMOCRACIA
OU DEMAGOGIA
Em períodos eleitorais, antes e
durante as variadas campanhas, deparamo-nos, habitualmente, com a confrangedora
qualidade do discurso e do debate com que os candidatos procuram convencer os
eleitores do valor das suas propostas. Salvo meritórias exceções, e não sendo
possível ter um conhecimento exaustivo de tudo o que ocorre na totalidade do
território nacional, a amostra relativa às eleições autárquicas, a que vamos
acedendo diretamente ou pela comunicação social, coloca-nos perante um conjunto
de slogans tantas vezes anedóticos, propostas muitas vezes estéreis e debates
que resvalam, frequentemente, para o chamado “lavar de roupa suja”.
O panorama preocupante da política
atual, mais evidente quando se olha à escala micro das eleições locais, é uma
consequência direta, quiçá inevitável, da perversão da atividade política,
tanto no que respeita aos seus fins como aos meios utilizados. Efetivamente, no
berço da civilização ocidental, a Grécia Antiga, a política desenvolveu-se como
resposta à necessidade que os gregos sentiram, há cerca de três mil anos, de
conferir ordem, segurança e justiça às suas comunidades que, a partir dessa
época se foram organizando sob a forma de cidades-estado. Numa delas, Atenas,
no séc. V a. C., o aperfeiçoamento das respostas a essas necessidades
consubstanciou-se no aparecimento daquela que é considerada a primeira
democracia da História. Nessa democracia, exercida de forma direta, os cidadãos
(politkoi) tinham como obrigação, a par do culto aos deuses, dedicarem-se ao
governo da cidade-estado (polis), sendo a política considerada como a arte de
governar a polis. Na cidade de Atenas, o cidadão tinha, pois, o dever supremo e
inalienável de se consagrar à sua polis, e essa obrigação, decorrente do seu
estatuto, conferia-lhe uma dignidade superior à dos outros habitantes da
cidade: mulheres, jovens, metecos (estrangeiros) e escravos. Esta forma direta
de exercer o poder político concretizava-se através da participação dos
cidadãos nas assembleias públicas, propondo, debatendo e aprovando as melhores
leis, escolhendo e sendo escolhido para o exercício de tarefas executivas ou
judiciais e cumprindo, escrupulosamente, as suas obrigações militares. A
finalidade última da política era, pois, a construção de um estado mais forte,
mais próspero e mais justo. Para alcançar esse fim, os atenienses lançaram mão
de uma metodologia cujas marcas perduram até aos nossos dias. Efetivamente, a
retórica e a argumentação foram-se tornando gradualmente como os meios adequados
e legítimos a que o cidadão podia recorrer para obter a adesão dos seus iguais
às propostas que apresentava, em detrimento dos meios tradicionais: a força
física, militar, económica ou de origem familiar. A força da razão foi-se
impondo à razão da força.
As democracias contemporâneas,
ainda que inspiradas na democracia ateniense, foram-se corrompendo face ao
modelo original, na medida em que o cidadão foi perdendo poder e estatuto. Sob
a forma de democracias representativas, retiraram protagonismo ao cidadão comum
e entregaram a responsabilidade política a uma elite de supostos especialistas,
os políticos, que atuam como detentores exclusivos do poder de decisão sobre o
modo como as comunidades se organizam. Aos cidadãos resta o poder, cada vez
mais ilusório do que real, de, esporadicamente, escolher, de entre os membros
dessa elite, aqueles que ocuparão os cargos governativos. O gradual e
sistemático afastamento entre o cidadão e o poder político tem contribuído para
que esse poder tenha vindo a ser capturado por interesses económicos privados
que, na medida em que vão controlando os meios político-partidários, vão
garantindo que a função da política deixe de ser a de servir todos e passe a
estar ao serviço dos interesses de uma pequena minoria de privilegiados. Os
nobres fins da política na democracia ateniense têm vindo a ser substituídos
por fins mesquinhos e egoístas nas democracias contemporâneas, ao ponto de já
se caracterizar este início de século com o epíteto de “pós-democracia”.
A perversão da democracia passa,
ainda, pelos meios utilizados para a obtenção do poder. A qualidade do discurso
e o seu papel na política contemporânea estão a anos-luz do que acontecia na
democracia ateniense. Hoje, não só a retórica política é pobre do ponto de
vista lógico, argumentativo e linguístico, como deixou de ser o instrumento
privilegiado para persuadir os cidadãos. O discurso político contemporâneo, que
se esgota no momento do voto, não passa de um conjunto de slogans publicitários,
alguns deles tão mal-amanhados quão manhosos, que apelam aos sentimentos mais
egoístas e populistas e visam apenas provocar uma adesão acéfala dos eleitores
aos candidatos, mais do que às propostas e às ideias por eles apresentadas. As
ideias diferentes, a razão questionadora, o pensamento autónomo, são sentidos
como uma ameaça e, por isso mesmo, tratados pelo poder dominante como devaneios
de idiotas inconsequentes.
Nesta época de eleições, importa
estar atento a esta forma, que os antigos gregos apelidariam de “demagógica”,
de fazer e estar na política e recuperar para essa atividade alguma da nobreza
e dignidade que foi perdendo nas últimas décadas.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
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