quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ENTRE A GRANDE DEPRESSÃO E A GRANDE REGRESSÃO

Na segunda década do séc. XX, o mundo assistiu ao primeiro momento de grande afirmação do capitalismo como ideologia política e económica, nos Estados Unidos da América. A expansão económica foi tal que o comum dos mortais acreditou no sonho de um enriquecimento fácil e permanente ao alcance de todos. Quando os americanos deram por ela, em 1929, a mais brutal crise económica abateu-se sobre as suas vidas, que muitos não suportaram continuar a viver, e declarou-se no famoso “crash” da bolsa de valores de Wall Street. Entrava-se no período da “grande depressão” que afetou, já nessa altura, sobretudo a economia europeia, muito dependente da americana, em consequência da 1ª guerra mundial. Desta depressão, os USA só sairiam anos mais tarde, com o estímulo trazido à sua economia com o deflagrar da 2ª grande guerra na Europa e com a política do New Deal, implementada pelo presidente Franklin Roosevelt, que atribuiu ao Estado um papel mais regulador da atividade económica e iniciou um programa de construção de grandes obras públicas, injetando rendimento e consequente poder de compra na população, criando, com isso, condições para a retoma capitalista através desse estímulo ao consumo.
Este é, aliás, um dos fatores-chave do capitalismo, tanto para o seu sucesso como para as suas crises. Se o objetivo último e único do capitalista é o lucro – e este é o outro conceito fundamental – a forma originariamente privilegiada para o obter foi o apelo ao consumo. Acontece que o consumo decorre de duas condições nem sempre conjugáveis nos potenciais consumidores: a existência de necessidades e de liquidez para comprar. E quando o capitalista não vende o produto, o capital fica empatado, o lucro não aparece e a crise instala-se. Daí que a publicidade e o marketing se tenham tornado uma ferramenta essencial do capitalismo com o objetivo de criar necessidades artificiais nas pessoas de modo a que não parem de consumir. Inventar novos produtos e novas necessidades passou a fazer parte da cartilha capitalista.
Outro fator fundamental para a obtenção do lucro, na mentalidade capitalista, é a diminuição dos custos de produção. É nesta vertente que o capitalismo tem vindo a apostar nas últimas décadas, instaurando uma época que alguns já intitulam como “a grande regressão”. A redução dos custos de produção iniciou-se com a substituição das pessoas por máquinas. Estas não precisam de descansar, não reivindicam direitos e, sobretudo, não é preciso pagar-lhes um salário. Mas têm um problema qua o capitalismo ainda não conseguiu resolver: as máquinas não têm necessidades nem dinheiro para comprar os produtos que produzem!
O fundamentalismo capitalista da redução de custos, sob o eufemismo da ideia de produtividade, descambou num ataque sistemático aos direitos das pessoas que trabalham e produzem os bens com que o capitalista engorda os seus capitais. É por isso que nos países dominados pelo sistema capitalista, como é o caso dos da União Europeia, dos USA e de muitos outros, se assiste a uma ofensiva concertada entre os lóbis dos vários setores do capitalismo para que os Estados deixem de regulamentar as relações entre empregado e empregador, de modo a que este, com a posição de domínio que possui, possa decidir sobre as pessoas e tratá-las como meros números de uma equação em que a única coisa que conta é o resultado final, ou seja, o lucro. O que a Altice está a fazer com os trabalhadores da PT é apenas um minúsculo exemplo, no nosso país, dessa estratégia que não olha a meios para alcançar o único fim que o capitalista elege para a sua vida – o “seu” e apenas o “seu” lucro. Nesta estratégia, a comunicação social desempenha um importante papel, uma vez colocada ao serviço dos seus donos – os capitalistas. Desde a submissão da linha editorial da chamada informação (ou desinformação) às orientações dos  seus donos, até à escolha a dedo dos jornalistas e comentadores (com raras exceções para dar uma falsa imagem de imparcialidade), passando pela qualidade miserável dos programas ditos de entretenimento, tudo na comunicação social, muito especialmente na televisão, visa um único escopo: estupidificar as pessoas, controlar a sua atividade mental (seja ela cognitiva, afetiva ou volitiva), e dirigir os seus comportamentos para os fins que interessam ao capitalista, de duas maneiras concomitantes: levando-os a comprar tudo, mesmo aquilo que não podem ou não precisam e levando-os a acreditar que vivemos no melhor dos mundos, que não existe alternativa a este modelo de sociedade e que o único objetivo na vida é obter o maior lucro, com o mínimo de gastos. Estas são, afinal, as máximas do capitalista.
O drama, que pode tornar-se numa tragédia global, é que, com esta estratégia, uma percentagem mínima de indivíduos consegue dominar, explorar e levar a esmagadora maioria da população a pensar e a agir de acordo com os interesses do próprio “carrasco”, nomeadamente quando, nas democracias, leva as pessoas a votar em partidos que defendem e promovem essa ideologia capitalista. O planeta, com tudo o que nele existe – a natureza e particularmente as pessoas – estão inteiramente à mercê daqueles que, levando ao extremo a sua mente capitalista, são ou ambicionam ser “os donos do mundo”.
Perante esta “grande regressão” humana e cultural de que somos vítimas nos dias de hoje, resta saber até que ponto a tese marxista de que o capitalismo iria criar “uma massa de homens desprovidos de propriedade” em contradição com “um pequeno mundo de riqueza e cultura” que levaria ao colapso do capitalismo e à sua substituição pelo socialismo virá um dia a concretizar-se, ou se o colapso que nos espera é o da humanidade e do planeta.


 José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.com

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