quarta-feira, 11 de abril de 2018


UMA REVOLUÇÃO QUE MUDOU O MUNDO

É bem conhecida a afirmação de Karl Marx de que “as revoluções são a locomotiva da História”. Neste mês de outubro, passam cem anos sobre a Revolução Soviética de 1917.  A revolta popular contra o regime czarista intensificou-se a partir de 1905, com marchas, motins militares e outros protestos que eram, por norma, reprimidos de forma violenta. A primeira revolução bem sucedida ocorre em fevereiro de 1917. Dela resulta a abolição do czarismo e a instauração de um governo provisório, de inspiração burguesa, que continua a ser muito contestado por manter a Rússia na Grande Guerra e não introduzir as mudanças esperadas nas relações de trabalho e na economia do país. É por isso que, alguns meses depois, em outubro, se dá uma nova revolução, agora de inspiração socialista e protagonizada pelos sovietes.
Os sovietes eram associações de operários, camponeses, ou soldados que se constituíam como células ativas na luta contra a autocracia czarista, desenvolvendo na classe proletária um sentimento revolucionário que visava uma transformação radical das relações de produção na economia russa e uma melhoria das miseráveis condições de vida de quase toda a população. Dentro do movimento revolucionário, inspirado na teoria política de Marx, e enquadrado pelo Partido Operário Social Democrata Russo, formaram-se duas tendências divergentes quanto à forma de implantar o socialismo. Os mencheviques defendiam que deveria ser a burguesia a liderar a república, após a queda do czarismo, desenvolvendo as forças produtivas e criando condições para uma posterior revolução socialista. Os bolcheviques acreditavam que o governo saído da revolução deveria ser controlado diretamente pelos trabalhadores e implementar, desde logo, um conjunto de transformações com vista à modernização da economia e ao fim das enormes desigualdades sociais existentes. A revolução de outubro, liderada por Vladimir Ilyitch Lenin, representou a vitória dos bolcheviques sobre os mencheviques, a tomada de poder pelos sovietes e a instauração de um governo controlado pelos trabalhadores e não pela burguesia.
O regime soviético saído dessa revolução e alargado a um conjunto de outros países da região, sob a designação de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, duraria até 1991. No entanto, a influência da revolução russa fez-se sentir muito para além das fronteiras da URSS, ou até do Pacto de Varsóvia. Efetivamente, primeiro por toda a Europa e depois por outros continentes, foram surgindo partidos que se inspiravam na matriz marxista do movimento revolucionário soviético e do movimento sindicalista nascido das profundas alterações económicas resultantes da revolução industrial. A ideologia marxista-leninista marcou profundamente a História do séc. XX e contribuiu, indelevelmente, não só para a libertação de muitos povos do jugo colonialista, mas também para a afirmação de movimentos e partidos socialistas que tiveram um papel relevante na construção dos estados sociais no mundo contemporâneo. Essa influência fez-se sentir de formas muito diversas, em função das cisões ocorridas dentro do movimento revolucionário soviético, desde os seus primórdios, sendo o exemplo mais relevante a profunda divergência quanto ao caminho a seguir, protagonizada por Stalin e por Trotsky, quando foi necessário suceder a Lenin. Stalin sai vencedor dessa “guerra” e conduz a URSS para um caminho mesclado de sucessos e insucessos, mas marcado, sobretudo, por um endurecimento autoritário do regime e por um isolamento face à comunidade internacional que acabaram por levar ao fim do regime soviético, à desagregação da URSS e à queda de um conjunto de regimes comunistas mantidos na órbita de Moscovo. Trotsky teve que exilar-se no México, onde acabou por ser assassinado a mando de Stalin, mas a sua perspetiva sobre o modo de concretizar o socialismo deu origem a uma série de movimentos marxistas, divergentes do caminho seguido na União Soviética. O trotskismo mantém-se, hoje, como base ideológica de muitos partidos marxistas que continuam a sua luta revolucionária sem o fantasma dos esqueletos estalinistas guardados no armário. O socialismo concretizou-se, ainda, por outras vias, igualmente inspiradas na revolução soviética de 1917, como foi o caso da Jugoslávia do marechal Tito, que se foi afastando gradualmente do regime soviético, até à sua desagregação, ou da China de Mao Tse Tung, onde o marxismo-leninismo foi degenerando, depois de Mao, numa espécie de capitalismo de estado.
As revoluções ocorridas no séc. XX, quase todas inspiradas no modelo bolchevista, constituíram-se como um instrumento benéfico na maioria dos países desenvolvidos, enquanto forma de acabar com os privilégios das elites instaladas no poder e os princípios que os perpetuam. É por isso que a centenária revolução russa merece ser comemorada, estudada e entendida, não só por marcar o início de uma nova era na organização política dos povos, mas também pelas profundas influências que continua a exercer nas sociedades contemporâneas.


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com


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