UMA
REVOLUÇÃO QUE MUDOU O MUNDO
É bem conhecida a afirmação de Karl
Marx de que “as revoluções são a locomotiva da História”. Neste mês de outubro,
passam cem anos sobre a Revolução Soviética de 1917. A revolta popular contra o regime czarista
intensificou-se a partir de 1905, com marchas, motins militares e outros
protestos que eram, por norma, reprimidos de forma violenta. A primeira
revolução bem sucedida ocorre em fevereiro de 1917. Dela resulta a abolição do
czarismo e a instauração de um governo provisório, de inspiração burguesa, que
continua a ser muito contestado por manter a Rússia na Grande Guerra e não
introduzir as mudanças esperadas nas relações de trabalho e na economia do
país. É por isso que, alguns meses depois, em outubro, se dá uma nova
revolução, agora de inspiração socialista e protagonizada pelos sovietes.
Os sovietes eram associações de
operários, camponeses, ou soldados que se constituíam como células ativas na
luta contra a autocracia czarista, desenvolvendo na classe proletária um
sentimento revolucionário que visava uma transformação radical das relações de
produção na economia russa e uma melhoria das miseráveis condições de vida de
quase toda a população. Dentro do movimento revolucionário, inspirado na teoria
política de Marx, e enquadrado pelo Partido Operário Social Democrata Russo,
formaram-se duas tendências divergentes quanto à forma de implantar o
socialismo. Os mencheviques defendiam que deveria ser a burguesia a liderar a
república, após a queda do czarismo, desenvolvendo as forças produtivas e
criando condições para uma posterior revolução socialista. Os bolcheviques
acreditavam que o governo saído da revolução deveria ser controlado diretamente
pelos trabalhadores e implementar, desde logo, um conjunto de transformações
com vista à modernização da economia e ao fim das enormes desigualdades sociais
existentes. A revolução de outubro, liderada por Vladimir Ilyitch Lenin,
representou a vitória dos bolcheviques sobre os mencheviques, a tomada de poder
pelos sovietes e a instauração de um governo controlado pelos trabalhadores e
não pela burguesia.
O regime soviético saído dessa
revolução e alargado a um conjunto de outros países da região, sob a designação
de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, duraria até 1991. No entanto, a
influência da revolução russa fez-se sentir muito para além das fronteiras da
URSS, ou até do Pacto de Varsóvia. Efetivamente, primeiro por toda a Europa e
depois por outros continentes, foram surgindo partidos que se inspiravam na
matriz marxista do movimento revolucionário soviético e do movimento
sindicalista nascido das profundas alterações económicas resultantes da
revolução industrial. A ideologia marxista-leninista marcou profundamente a
História do séc. XX e contribuiu, indelevelmente, não só para a libertação de
muitos povos do jugo colonialista, mas também para a afirmação de movimentos e
partidos socialistas que tiveram um papel relevante na construção dos estados
sociais no mundo contemporâneo. Essa influência fez-se sentir de formas muito
diversas, em função das cisões ocorridas dentro do movimento revolucionário
soviético, desde os seus primórdios, sendo o exemplo mais relevante a profunda divergência
quanto ao caminho a seguir, protagonizada por Stalin e por Trotsky, quando foi
necessário suceder a Lenin. Stalin sai vencedor dessa “guerra” e conduz a URSS
para um caminho mesclado de sucessos e insucessos, mas marcado, sobretudo, por
um endurecimento autoritário do regime e por um isolamento face à comunidade
internacional que acabaram por levar ao fim do regime soviético, à desagregação
da URSS e à queda de um conjunto de regimes comunistas mantidos na órbita de
Moscovo. Trotsky teve que exilar-se no México, onde acabou por ser assassinado
a mando de Stalin, mas a sua perspetiva sobre o modo de concretizar o
socialismo deu origem a uma série de movimentos marxistas, divergentes do
caminho seguido na União Soviética. O trotskismo mantém-se, hoje, como base
ideológica de muitos partidos marxistas que continuam a sua luta revolucionária
sem o fantasma dos esqueletos estalinistas guardados no armário. O socialismo
concretizou-se, ainda, por outras vias, igualmente inspiradas na revolução
soviética de 1917, como foi o caso da Jugoslávia do marechal Tito, que se foi
afastando gradualmente do regime soviético, até à sua desagregação, ou da China
de Mao Tse Tung, onde o marxismo-leninismo foi degenerando, depois de Mao, numa
espécie de capitalismo de estado.
As revoluções ocorridas no séc. XX,
quase todas inspiradas no modelo bolchevista, constituíram-se como um
instrumento benéfico na maioria dos países desenvolvidos, enquanto forma de
acabar com os privilégios das elites instaladas no poder e os princípios que os
perpetuam. É por isso que a centenária revolução russa merece ser comemorada,
estudada e entendida, não só por marcar o início de uma nova era na organização
política dos povos, mas também pelas profundas influências que continua a
exercer nas sociedades contemporâneas.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
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