TRINITÁ, O
COWBOY INSOLENTE
Entre a rapaziada com mais de meio
século de existência, quem não se lembra do famoso Trinitá, o cowboy insolente?
A partir dos westerns protagonizados por Bud Spencer, no papel de Bambino, e
Terence Hill, no papel de Trinitá, ou dos saudosos livrinhos de cowboiada, da
coleção “6 balas”, que cabiam no bolso da camisa, essas e muitas outras
personagens do americano oeste selvagem povoaram o imaginário de muitos
adolescentes sedentos de aventura. Tenho para mim que muita da predominância
cultural norte-americana sobre o mundo ocidental ou ocidentalizado assentou
nessa promoção do mítico oeste, onde os “bons” acabavam sempre por vencer os
“maus”, na missão exclusiva, a que se dedicavam de forma totalmente
desinteressada, de defender órfãos, viúvas, velhinhos e outros desgraçados. Uma
espécie de advogados pro bono que faziam justiça pelas próprias mãos, hábeis no
manejo do revólver. Esta imagem do cowboy americano, justiceiro e defensor dos
fracos, foi artificiosamente colada ao país Estados Unidos da América e usada
para promover e justificar o seu papel de “polícia do mundo”, em nome do qual
esse país tem vindo a controlar e a interferir militarmente, politicamente e
economicamente em vastas regiões do planeta, desde a América Central e do Sul
até à Ásia e à Oceania, passando pela África e pelo Médio Oriente.
A mentalidade do cowboy justiceiro
constitui um dos traços mais marcantes da personalidade do norte-americano
médio e rural, precisamente aquele que foi o principal responsável pela eleição
do atual presidente dos EUA. Trump apresentou-se, também ele, como um cowboy
capaz de regenerar a América, com slogans eleitorais como “make America great
again” (torne a América grande novamente) ou “America first” (a América
primeiro), e capaz de pôr ordem num país com imensos problemas que o tal
norte-americano médio associa a fenómenos como o multiculturalismo decorrente
da imigração ou o “amolecimento” da política e da economia americanas perante
outras potências como a Rússia, a China ou a União Europeia. E convenhamos que
Trump tem desempenhado a preceito esse papel, desde que nele foi investido, há
pouco mais de um ano. Os episódios de western spaghetti sucedem-se a um ritmo
alucinante, assumindo Trump o papel de cowboy insolente, realmente insolente,
que provoca tudo e todos, ameaçando destruir totalmente a Coreia do Norte,
declarando, unilateralmente, Jerusalém como capital de Israel, numa torpe
provocação aos palestinianos e aos muçulmanos em geral, insultando o Haiti, El
Salvador e as nações africanas que qualificou como “países de merda”, enfim,
uma lista interminável de desvarios. Como cowboy da modernidade, em vez do dedo
indicador no gatilho do revólver, Trump recorre ao dedo médio esticado entre o
indicador e o anelar encolhidos, emboscado nos lençóis, para disparar
alarvidades no Twitter. É desta forma que desempenha as funções de sheriff, mostrando
ao mundo que o tamanho do seu revólver é inversamente proporcional ao do seu
cérebro. Só este facto permite compreender o seu comportamento perante o
recente massacre numa escola da Florida que resultou no assassinato de 17
pessoas, perpetrado por uma espécie de reencarnação do famoso pistoleiro Billy
the Kid. A primeira reação de Trump foi considerar que este atentado tem apenas
a ver com um problema de saúde mental. Aliás, esta resposta começa a tornar-se
um padrão, pois sempre que há tiroteios em escolas, em igrejas, em parques, em
espetáculos, onde quer que seja, Trump resume a sua explicação a problemas de
saúde mental, jamais admitindo que existe um grave problema de controlo de
armas nos EUA. Infelizmente, Trump parece ter razão. Só um grave e generalizado
problema de saúde mental pode explicar que uma figura como ele, cuja saúde
mental tem sido questionada ao mais alto nível, tenha sido escolhida para
sheriff. Mas se essa explicação para os massacres, por demasiado simplista,
acaba por ser estúpida, o que dizer da solução por ele alvitrada para combater
situações destas, que acontecem quase diariamente, nos EUA? Propor que se deem
armas aos professores para que eles possam ser os sheriffs das escolas e
defender as criancinhas é uma solução que confirma a causa por ele apontada
para esses atentados: existe mesmo um problema de saúde mental na sociedade
norte americana, a começar pelo seu presidente. É caso para dizer que uma
solução destas não lembrava ao diabo, nem sequer ao “braço direito do diabo”
como era apelidado Trinitá! Mas lembrou ao cowboy Trump que, definitivamente, está
a transformar o “make America great again” num “make America a far west again”
(torne a América um faroeste novamente).
José Júlio
Campos
pensarnotempo.blogspot.com
Sem comentários:
Enviar um comentário