quarta-feira, 11 de abril de 2018


TRINITÁ, O COWBOY INSOLENTE

Entre a rapaziada com mais de meio século de existência, quem não se lembra do famoso Trinitá, o cowboy insolente? A partir dos westerns protagonizados por Bud Spencer, no papel de Bambino, e Terence Hill, no papel de Trinitá, ou dos saudosos livrinhos de cowboiada, da coleção “6 balas”, que cabiam no bolso da camisa, essas e muitas outras personagens do americano oeste selvagem povoaram o imaginário de muitos adolescentes sedentos de aventura. Tenho para mim que muita da predominância cultural norte-americana sobre o mundo ocidental ou ocidentalizado assentou nessa promoção do mítico oeste, onde os “bons” acabavam sempre por vencer os “maus”, na missão exclusiva, a que se dedicavam de forma totalmente desinteressada, de defender órfãos, viúvas, velhinhos e outros desgraçados. Uma espécie de advogados pro bono que faziam justiça pelas próprias mãos, hábeis no manejo do revólver. Esta imagem do cowboy americano, justiceiro e defensor dos fracos, foi artificiosamente colada ao país Estados Unidos da América e usada para promover e justificar o seu papel de “polícia do mundo”, em nome do qual esse país tem vindo a controlar e a interferir militarmente, politicamente e economicamente em vastas regiões do planeta, desde a América Central e do Sul até à Ásia e à Oceania, passando pela África e pelo Médio Oriente.
A mentalidade do cowboy justiceiro constitui um dos traços mais marcantes da personalidade do norte-americano médio e rural, precisamente aquele que foi o principal responsável pela eleição do atual presidente dos EUA. Trump apresentou-se, também ele, como um cowboy capaz de regenerar a América, com slogans eleitorais como “make America great again” (torne a América grande novamente) ou “America first” (a América primeiro), e capaz de pôr ordem num país com imensos problemas que o tal norte-americano médio associa a fenómenos como o multiculturalismo decorrente da imigração ou o “amolecimento” da política e da economia americanas perante outras potências como a Rússia, a China ou a União Europeia. E convenhamos que Trump tem desempenhado a preceito esse papel, desde que nele foi investido, há pouco mais de um ano. Os episódios de western spaghetti sucedem-se a um ritmo alucinante, assumindo Trump o papel de cowboy insolente, realmente insolente, que provoca tudo e todos, ameaçando destruir totalmente a Coreia do Norte, declarando, unilateralmente, Jerusalém como capital de Israel, numa torpe provocação aos palestinianos e aos muçulmanos em geral, insultando o Haiti, El Salvador e as nações africanas que qualificou como “países de merda”, enfim, uma lista interminável de desvarios. Como cowboy da modernidade, em vez do dedo indicador no gatilho do revólver, Trump recorre ao dedo médio esticado entre o indicador e o anelar encolhidos, emboscado nos lençóis, para disparar alarvidades no Twitter. É desta forma que desempenha as funções de sheriff, mostrando ao mundo que o tamanho do seu revólver é inversamente proporcional ao do seu cérebro. Só este facto permite compreender o seu comportamento perante o recente massacre numa escola da Florida que resultou no assassinato de 17 pessoas, perpetrado por uma espécie de reencarnação do famoso pistoleiro Billy the Kid. A primeira reação de Trump foi considerar que este atentado tem apenas a ver com um problema de saúde mental. Aliás, esta resposta começa a tornar-se um padrão, pois sempre que há tiroteios em escolas, em igrejas, em parques, em espetáculos, onde quer que seja, Trump resume a sua explicação a problemas de saúde mental, jamais admitindo que existe um grave problema de controlo de armas nos EUA. Infelizmente, Trump parece ter razão. Só um grave e generalizado problema de saúde mental pode explicar que uma figura como ele, cuja saúde mental tem sido questionada ao mais alto nível, tenha sido escolhida para sheriff. Mas se essa explicação para os massacres, por demasiado simplista, acaba por ser estúpida, o que dizer da solução por ele alvitrada para combater situações destas, que acontecem quase diariamente, nos EUA? Propor que se deem armas aos professores para que eles possam ser os sheriffs das escolas e defender as criancinhas é uma solução que confirma a causa por ele apontada para esses atentados: existe mesmo um problema de saúde mental na sociedade norte americana, a começar pelo seu presidente. É caso para dizer que uma solução destas não lembrava ao diabo, nem sequer ao “braço direito do diabo” como era apelidado Trinitá! Mas lembrou ao cowboy Trump que, definitivamente, está a transformar o “make America great again” num “make America a far west again” (torne a América um faroeste novamente).


José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com

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