RETROSPETIVA SOBRE 2017
À falta de melhor, perdoar-me-ão os leitores do
+Aguiar da Beira que, nesta transição para um novo ano, também eu opte por
replicar aqui uma prática habitual na generalidade dos meios de comunicação
social: uma retrospetiva do ano que termina, resumida ao que de melhor e de
pior se passou e às figuras que mais se destacaram pela positiva ou pela
negativa, tanto a nível nacional como internacional.
Começando pelo nosso país, os incêndios foram,
evidentemente, o acontecimento que marcou, de forma muito negativa, a segunda
metade de 2017, desde logo pela quantidade de vítimas mortais que provocaram,
mas também por terem colocado a nu todo um vasto conjunto de fragilidades como
a desertificação e o desequilíbrio demográfico do país, o abandono e o
desordenamento florestal, a transformação descontrolada da floresta nacional
num eucaliptal ao serviço das empresas de celulose, os insuficientes meios de
combate aos fogos e de socorro às populações e uma deficiente coordenação dos
mesmos, o deplorável aproveitamento político por parte da oposição, cujos olhos
brilhavam à medida que os números da desgraça aumentavam, chegando ao ridículo
de especular com a possibilidade de o governo estar a esconder o real número de
vítimas mortais. Tudo isto “devidamente” amplificado e transformado em espetáculo
mediático por uma comunicação social que há muito repudiou todos os princípios
deontológicos do jornalismo, em nome do crescimento das audiências que é
sinónimo de lucro. Pela positiva, o ano de 2017 fica marcado pela performance
do Governo que fez descer o défice para números impensáveis há menos de dois
anos, ao mesmo tempo que continuou a aliviar, embora muito aquém do desejável,
os níveis de austeridade impostos por uma troika usurária e implementados por
um governo de direita, ébrio de neoliberalismo schaubliano. O sucesso de
Centeno não só defraudou as expectativas do mentor da direita neoliberal como acabou
por guindá-lo à liderança do Eurogrupo, substituindo o verbo-de-encher Dijsselbloem.
Quanto a personagens, o presidente Marcelo
continuou a ser o eucalipto da sociedade portuguesa. À sua volta tudo
desaparece, desde o governo, cuja função parece querer usurpar, até aos
comentadores de televisão, a cujo papel regressa todos os dias a propósito e a
despropósito de tudo. Mau grado o exagerado protagonismo, a avaliação é quase
consensualmente positiva, prevendo-se que, daqui a três anos, quando já todos
os tugas tiverem tirado uma selfie com ele, role uma vaga de fundo capaz de o
levar a reverter a promessa feita ao neto de não se recandidatar a um novo
mandato. Pela negativa destacou-se, mais uma vez, Passos Coelho que começou por
vaticinar a vinda do diabo como consequência do orçamento de 2016 e, gorada
essa previsão, acabou a reivindicar méritos seus no sucesso do atual governo.
Aquando dos incêndios de Pedrógão, saiu-se com o dislate de anunciar suicídios
que nunca aconteceram e acabou a pedir desculpas ao país. Finalmente, depois da
pior estratégia eleitoral de que há memória, sofre uma humilhante derrota nas
eleições autárquicas e vê-se obrigado a abandonar a liderança partidária sem
honra nem glória. Sai, assim, pela porta dos fundos, uma das figuras políticas
mais impreparadas para o cargo que desempenhou, sustentado apenas na retórica
habilidosa com que manipulou os apaniguados e na subserviência canina com que
cumpria as ordens do todo-poderoso Schauble.
Na cena internacional, o acontecimento mais
relevante, pela positiva, poderá ter sido, a confirmar-se, a derrota definitiva
do Estado Islâmico, no Iraque, e o início da sua extinção, o que poderá, desde
logo, contribuir para o fim da guerra na Síria e para atenuar o terrorismo.
Pela negativa, saliento dois acontecimentos: na Europa, a forma como a extrema-direita
está a ganhar terreno e a chegar-se ao poder, em vários países do centro, do
leste e do norte da Europa, constituindo-se esse fenómeno como uma ameaça
crescente à democracia e à paz; fora da Europa, o genocídio do povo rohingya,
perpetrado na antiga Birmânia, com a conivência de governantes como Aung San
Suu Kyi, prémio nobel da paz em 1991, o que mostra bem a hipocrisia que subjaz
a muitos destes prémios.
Quanto a personagens internacionais, apesar dos
vários celerados que vão medrando por esse mundo fora, a escolha recai,
inequivocamente, sobre esse protótipo da estupidez humana que dá pelo nome de
Donald Trump. Mesmo quando compete com a figura do outro lado do espelho que é
Kim Jong’un, Trump goleia na luta pelo título de maior ameaça que a humanidade
enfrenta, devido ao incomparável poder e influência que quase metade dos
americanos, numa manifestação da sua proverbial falta de inteligência e de
cultura, decidiu colocar-lhe nas mãos. Já pela positiva, é difícil encontrar
alguém que se destaque. Talvez, novamente, o Papa Francisco. Mas uma
fragilidade cada vez mais visível, resultante da idade avançada e do insinuado
isolamento dentro da cúria romana que não se revê na sua crítica aos poderosos
deste mundo, faz com que o eco da sua voz soe cada vez mais longínquo e inócuo.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
Sem comentários:
Enviar um comentário