A URGENTE DEFESA
DA CASA COMUM
No mês passado foram publicados
dois documentos com características diferentes e sobre temas distintos, mas que
permitem retirar ilações confluentes e muito úteis para uma cada vez mais
premente reflexão sobre o futuro do ser humano e da casa que partilhamos com
milhões de outros seres, vivos ou não, - o planeta Terra.
Um desses documentos, publicado na
revista BioScience, é um aviso feito por cerca de quinze mil cientistas de 184
países, sobre o futuro do planeta, partindo de uma comparação com a situação
que se verificava há 25 anos e que originara um alerta semelhante. Os
cientistas signatários concluem que as ameaças identificadas há 25 anos estão a
tornar-se cada vez mais preocupantes, com exceção do buraco na camada do ozono
que foi bastante reduzido. De resto, a população mundial cresceu dois mil
milhões de pessoas (mais 35%), a desflorestação aumentou, tendo desaparecido
mais de 120 milhões de hectares de floresta, as zonas mortas dos oceanos e
consequente perda de vida marinha, devido à poluição, aumentaram 75%, e,
sobretudo, verificou-se um aumento assustador do dióxido de carbono provocado
pela utilização de combustíveis fósseis, ou seja, o carvão mineral, o gás
natural e o petróleo e seus derivados. Afirmam mesmo que o mundo continua a
caminhar para alterações climáticas potencialmente catastróficas, devido ao
aumento dos gases de estufa, provenientes da queima desses combustíveis. Como
se sabe, o efeito de estufa é responsável pelo aquecimento global que, por sua
vez, se traduz em fenómenos como a desertificação de várias regiões, como a
Península Ibérica, o degelo da calote polar (gelos existentes nos polos) com o
consequente aumento ameaçador, para muitas populações, do nível das águas do
mar, e a desregulação climática, com os chamados fenómenos extremos, como
tufões, tornados, cheias ou secas prolongadas a ocorrerem com maior frequência
e intensidade. Segundo esses mesmos cientistas, está em curso uma extinção em
massa, pela 6ª vez em 540 milhões de anos, que poderá levar ao desaparecimento
de muitas formas de vida, no planeta, até ao final do século, e cuja inversão é
cada vez mais urgente, apontando, para isso, sugestões como uma maior
facilidade de acesso a métodos contracetivos em todo o mundo, uma alimentação à
base de plantas em vez de produtos processados e a substituição em massa das
atuais energias por energias renováveis.
O outro documento é o Relatório da
Riqueza Global, publicado pelo Credit Suisse, relativo à evolução e
distribuição da riqueza mundial nos últimos dez anos. Nele se afirma que esta
aumentou 27%, desde 2007, situando-se, agora, nos 280 triliões de dólares e
tendo havido um acréscimo de 9 milhões de pessoas que possuem uma riqueza
superior a um milhão de dólares. Ou seja, mais riqueza e mais milionários.
Claro que isto poderia parecer ótimo, não fosse o reverso da medalha. É que, no
mesmo relatório, podemos constatar que a desigualdade aumentou em todas as
regiões do mundo e que, se há dez anos, o 1% de pessoas mais ricas detinha 45%
da riqueza mundial, esse mesmo 1% detém, agora, 50,1%. Verifica-se, ainda, que,
na base da pirâmide, existem 3,5 mil milhões de pobres (metade da população
mundial) que dispõe, apenas, de 2,7% da riqueza existente.
Cruzando os dados deste relatório com
os avisos dos cientistas, somos levados a inferir que existe uma relação de
causa e efeito entre o aumento da riqueza mundial e a exploração irracional e
abusiva dos recursos naturais do planeta. Daí que, na encruzilhada da História
em que nos encontramos, tenhamos de equacionar as seguintes alternativas: ou
continuamos com o atualmente dominante modelo do capitalismo global que não
olha a meios, mesmo que seja a destruição do planeta, para aumentar uma riqueza
cada vez mais concentrada e injustamente distribuída, ou caminhamos para um
modelo alternativo em que a riqueza não se constitui como um fim em si mesma,
mas como um meio ao dispor de todos para alcançarem o fim para que todo o homem
nasce – a felicidade. Perante este dilema, a questão que muitas vezes nos
colocamos não é tanto a de saber o que é que está correto e qual o melhor
caminho, mas sim saber como é que podemos concretizá-lo e contribuir para que,
globalmente, esse caminho seja trilhado.
Acredito que existem duas vias
simultâneas para essa concretização: uma, tão difícil como urgente, consiste na
mudança de hábitos de consumo, evitando o desperdício, o excesso e o supérfluo
e educando as novas gerações para esse modelo comportamental; outra, mais
fácil, mas que exige ultrapassar resistências preconceituosas e ancestrais,
consiste em escolhermos as lideranças políticas, quando e enquanto isso nos for
permitido, de forma racional e informada, sabendo que as propostas que nos são
apresentadas pelas várias correntes políticas não são todas iguais e que têm
consequências diferentes. Faz-me impressão que, sabendo o que é melhor para o
planeta e para o homem, a maioria continue a escolher o pior, que é, também, o
pior para cada um deles.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
Sem comentários:
Enviar um comentário