A
DOENÇA DA SAÚDE
Nos últimos anos, quando chegamos a
esta época, torna-se evidente o estado lastimável em que se encontra o Serviço
Nacional de Saúde (SNS). A constatação dessa evidência ocorre sempre que
precisamos de recorrer aos serviços dos centros de saúde ou dos hospitais
públicos, sobretudo se essa necessidade coincidir com períodos de maior
incidência de certas doenças como as gripes. Nessas alturas, as urgências dos
hospitais tornam-se um caos, com pacientes que esperam horas, às vezes dias
inteiros, para serem observados e os corredores transformam-se em enfermarias
por onde quase não se consegue circular. Se, num desses dias, um qualquer
estranho fosse colocado inopinadamente no interior de alguns desses hospitais,
com toda a probabilidade formaria a plena convicção de se encontrar num país em
guerra. Acontece que esse entupimento quase permanente das urgências é apenas um
problema a somar a muitos outros como a espera de anos (sim, anos que podem ser
3 ou 4!) pela marcação de primeiras consultas em várias especialidades, a
espera de meses, que podem tornar-se anos, para a realização de cirurgias, as
setecentas mil pessoas sem médico de família, ou até a dificuldade em reduzir
as infeções hospitalares.
O diagnóstico do SNS é, pois, muito
fácil de fazer: estado terminal, praticamente moribundo. Causas da doença:
políticas de austeridade impostas pela troika – UE, BCE e FMI – implementadas
desde 2011, conjugadas com a estratégia neoliberal de acabar com as funções
sociais do Estado, transformando-as em oportunidades de negócio para o setor
privado. Este, aliás, e de acordo com os objetivos do poder neoliberal
instalado em Bruxelas, tornou-se no grande beneficiário do processo de
desmantelamento do SNS em curso. Multiplicaram-se os hospitais privados e
público-privados, tornando-se a saúde um dos setores de investimento mais
apetecidos para os grandes grupos económicos. E isso nem sequer mudou com a
chegada de um governo PS, apesar da pressão dos partidos de esquerda no sentido
de reverter essa crescente privatização, investindo significativamente na
recuperação do SNS. Infelizmente, nesta como noutras matérias, o peso eleitoral
desses partidos não é suficiente para forçar o governo a ir mais longe no
reinvestimento e na reconstrução do Estado social.
A transformação acelerada do setor
da saúde no nosso país está a contribuir para o aumento das desigualdades
sociais, também nesse aspeto. De facto, hoje já é evidente que existem serviços
de saúde para ricos e serviços de saúde para pobres. Os hospitais privados
fornecem, sem dúvida, serviços de qualidade para quem os puder pagar – os
ricos, os que dispõem de seguros de saúde caríssimos e os que descontam para
subsistemas de saúde do género da ADSE. Os outros, os desempregados, os que
ganham abaixo de um ordenado médio e os que têm reformas de miséria vão
continuar a amontoar-se em hospitais e centros de saúde públicos, onde continua
a haver profissionais de grande qualidade, mas onde a escassez de meios tem
inevitáveis reflexos na quantidade e na qualidade dos serviços prestados.
O que está a acontecer no setor da
saúde em Portugal é apenas mais um exemplo de um fenómeno que está generalizado
por todo o mundo: o aumento assustador das desigualdades económicas. Todos os
relatórios sobre esse tema, que vão sendo publicados regularmente, apontam
nesse sentido. Um dos últimos, o da Oxfam, que vale muito a pena consultar, diz
que mais de 80 por cento da riqueza criada no mundo, em 2017, foi parar às mãos
dos mais ricos que representam 1 por cento da população mundial. No Brasil, por
exemplo, as cinco pessoas mais ricas têm um património equivalente a metade da
população desse país, sendo que a riqueza dos milionários nacionais cresceu 13
por cento no último ano.
O desmantelamento do SNS insere-se
nessa lógica de dominação capitalista neoliberal que está a provocar
desequilíbrios gravíssimos no planeta, tanto no plano social como no plano
ambiental. Nunca se pôde dizer com tanta propriedade que “o mundo foi tomado de
assalto pelos tubarões”! Recuperar o SNS é uma forma de resistir a essa lógica
e de garantir que direitos humanos inalienáveis como o direito à assistência
médica não sejam transformados em “comida para tubarões”. O SNS está em risco.
É urgente salvá-lo.
José Júlio
Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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