ULTRAPASSAR O MEDO
Escrevi, há cerca de um ano, que o mundo se está a
tornar num lugar perigoso para viver. Apontava algumas razões, entre as quais o
crescimento de um “monstro”, auto designado ISIS (Islamic State of Iraq and
Syria). Daí para cá, infelizmente, os acontecimentos têm confirmado os meus
receios. Os ataques terroristas perpetrados em Paris, em janeiro e em novembro,
colocaram a Europa à beira de um ataque de nervos. O medo vive nas nossas
casas, frequenta os nossos locais de lazer e de convívio, viaja connosco em
comboios, autocarros, metros, barcos e aviões. A certeza de que outros ataques
virão é diretamente proporcional à incerteza da hora e do local. Potencialmente,
todos somos alvos da loucura insana que alimenta este terrorismo sem regras e
sem quartel. Baixar a guarda, que se levanta como trancas à porta depois de
casa roubada, é colocarmo-nos à mercê de novos ataques.
Perante estes factos, importa refletir sobre duas
questões concomitantes, pois as possíveis respostas para uma permitirão
descortinar soluções para a outra: como foi possível chegarmos a esta situação
e como podemos pôr fim a esta terrível ameaça? Respostas plausíveis e eficazes para
estas questões são de extrema complexidade, mas devem ser procuradas,
denodadamente, pelos responsáveis políticos em particular e pela opinião
pública em geral, pois a gravidade da situação assim o exige.
A procura dessas respostas, de forma muito
genérica, remete para fenómenos históricos, intrincadamente conexos, de natureza
religiosa, cultural e política. No plano religioso, parece que o Islamismo, não
sendo promotor da violência gratuita, permite, como outras religiões,
interpretações que, embora consideradas erradas pela maioria, levam os seus
defensores à prática do fundamentalismo. Também o cristianismo teve os seus
fundamentalismos, ao longo da História, responsáveis por muitas guerras,
violências e outros desvarios. A adesão radical à lei islâmica da xária ou à
interpretação da Jihad, a Guerra Santa, como forma violenta de expansão do
islamismo, constituem-se como o alimento ideológico de vários grupos de
muçulmanos que têm promovido, nas últimas décadas, um vasto conjunto de
práticas terroristas, não só a nível internacional, mas também dentro das suas
próprias comunidades. Nesta dimensão religiosa, o problema do fundamentalismo
islâmico não é fácil de resolver, sendo que compete principalmente à maioria
islâmica moderada assumir o controlo político das suas comunidades e combater o
alastramento desse fundamentalismo e da sua radicalização. Às outras grandes
religiões, como o cristianismo, o budismo ou o induísmo, compete aprofundar o
diálogo inter-religioso, também com o islamismo, de modo a constituírem-se como
um fator de concórdia e de paz e não o seu contrário. Trata-se de uma tarefa
hercúlea, tão difícil quanto necessária.
Outro conjunto de razões prende-se com fatores de
ordem étnica e cultural que radicam na evolução histórica das relações entre os
povos muçulmanos e os de outras religiões, como os cristãos ou os judeus e dos
próprios povos islâmicos do Médio Oriente entre si, como árabes, persas, turcos
e curdos. A origem do islã e a sucessão da liderança religiosa do profeta Maomé
continuam a ser, hoje, 1400 anos depois, a génese ideológica de profundas divisões
como as que existem entre muçulmanos e judeus, ou das rivalidades políticas
entre xiitas e sunitas, com perspetivas antagónicas no que respeita à forma de
designar o chefe (o califa) de todo o islamismo. Este caldo étnico e cultural,
com raízes históricas complexas, é extremamente difícil de compreender,
sobretudo para nós, ocidentais. O mundo islâmico é aquilo que o filósofo
espanhol Ortega y Gasset apelidava de “magma” na obra “A rebelião das massas”. A
forma de minimizar os efeitos negativos deste magma cultural e étnico passa
pela promoção do seu conhecimento histórico e pela reflexão sobre essas
diferenças, por parte desses povos, de modo a poderem compreendê-las,
relativizá-las e integrá-las de forma enriquecedora e não conflituante. Mas,
para isso, é necessário que nesses países exista um clima de paz, propício ao
investimento na implementação de um ensino superior laico e de qualidade que
contribua para reduzir o obscurantismo religioso e “iluminar” a mentalidade
desses povos. É preciso que, também os muçulmanos façam a sua própria
“revolução iluminista”. Por sua vez, a civilização ocidental deve caminhar no
sentido de promover no seu seio um maior estudo e uma melhor compreensão da
história e das idiossincrasias desses povos, em vez de assumir uma atitude de
sobranceria cultural e de tutoria política que muito tem contribuído para o
sentimento de revolta que anima muitos dos que instigam ou apoiam o terrorismo
contra o Ocidente. Como dizia recentemente o líder espiritual dos muçulmanos
ismaelitas, Agá Khan, “alguns chamaram a isto um 'choque de civilizações'; mas
é antes, no essencial, um choque de ignorâncias”.
Finalmente, mas não menos importantes, também os fatores
de ordem política e económica têm um papel relevante para a compreensão do
radicalismo terrorista islâmico. Sobretudo a partir da 1ª Guerra Mundial,
alguns países ocidentais procuram dominar politicamente esses povos, tendo
mesmo sido assinado um acordo, designado por Sykes-Picot, no qual a França e o
Reino Unido dividiam entre si as zonas de controlo e de influência no Médio
Oriente. Para manter esse controlo económico e geoestratégico, têm promovido e
alimentado guerras e rebeliões, de modo a colocar e manter no poder uma espécie
de títeres que possam comandar à distância. Mais recentemente, as intervenções
desses países, liderados pelos EUA, no Irão, no Afeganistão, no Iraque ou na
Síria, só têm contribuído para potenciar o ódio dos radicais muçulmanos contra
os povos ocidentais e a sua cultura, traduzido no aparecimento de grupos
terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS. Este, aliás, surge, precisamente, na
sequência da 2ª invasão do Iraque, decidida pelo insano Bush, constituindo-se como
pólo aglutinador de um conjunto de generais “deserdados” do poder, após a queda
de Saddam Hussein, aproveitando a confusão política e o vazio que lhes permitiu
conquistar uma importante parcela do território iraquiano, como a região
petrolífera de Mossul, para sedearem o seu projeto de vingança contra o Ocidente
e de domínio do mundo islâmico. Aproveitaram a guerra civil, promovida e
alimentada por americanos, franceses e russos, que fez de parte da Síria uma
terra de ninguém, para alargarem o seu território, chacinarem várias
comunidades cristãs e subjugarem ou expulsarem das suas terras grande
quantidade de curdos. Crescem e financiam-se com a conivência de grupos
económicos e líderes políticos turcos e ocidentais que lhes compram, no mercado
negro, o petróleo, as obras de arte roubadas ou o algodão dos ocupados campos
sírios. Neste aspeto, por muitos sapos que americanos, russos e europeus tenham
que engolir, não lhes resta alternativa senão conjugar esforços políticos e
militares para cortar e enterrar a última cabeça da Hidra, ou seja, a atual
liderança do ISIS, seja por via da ação militar, seja por via, talvez mais eficaz,
de fazer secar as suas fontes de financiamento, recorrendo a todos os meios
para acabar com esse mercado negro. Enquanto isso não for feito, eles vão
continuar a aproveitar-se da falta de esperança e de sentido para a vida que a
sociedade consumista e capitalista ocidental produz numa grande parte dos seus
jovens, para aumentar dentro do nosso próprio território, um autêntico exército
de kamikazes, extremamente difícil de combater, seja pela sua dimensão, pelo
facto de estarem “integrados” no nosso meio, ou por estarem dispostos a morrer
para matarem o maior número possível. A Europa transformou-se num autêntico
“cavalo de Tróia” comandado à distância. Enquanto não for cortada a mão que o
manipula, o medo vai assombrar as nossas vidas. Mas quando (e se) isso
acontecer, importa que o Ocidente tenha aprendido a lição e não volte a cometer
os mesmos erros.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt