sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ULTRAPASSAR O MEDO
Escrevi, há cerca de um ano, que o mundo se está a tornar num lugar perigoso para viver. Apontava algumas razões, entre as quais o crescimento de um “monstro”, auto designado ISIS (Islamic State of Iraq and Syria). Daí para cá, infelizmente, os acontecimentos têm confirmado os meus receios. Os ataques terroristas perpetrados em Paris, em janeiro e em novembro, colocaram a Europa à beira de um ataque de nervos. O medo vive nas nossas casas, frequenta os nossos locais de lazer e de convívio, viaja connosco em comboios, autocarros, metros, barcos e aviões. A certeza de que outros ataques virão é diretamente proporcional à incerteza da hora e do local. Potencialmente, todos somos alvos da loucura insana que alimenta este terrorismo sem regras e sem quartel. Baixar a guarda, que se levanta como trancas à porta depois de casa roubada, é colocarmo-nos à mercê de novos ataques.
Perante estes factos, importa refletir sobre duas questões concomitantes, pois as possíveis respostas para uma permitirão descortinar soluções para a outra: como foi possível chegarmos a esta situação e como podemos pôr fim a esta terrível ameaça? Respostas plausíveis e eficazes para estas questões são de extrema complexidade, mas devem ser procuradas, denodadamente, pelos responsáveis políticos em particular e pela opinião pública em geral, pois a gravidade da situação assim o exige.
A procura dessas respostas, de forma muito genérica, remete para fenómenos históricos, intrincadamente conexos, de natureza religiosa, cultural e política. No plano religioso, parece que o Islamismo, não sendo promotor da violência gratuita, permite, como outras religiões, interpretações que, embora consideradas erradas pela maioria, levam os seus defensores à prática do fundamentalismo. Também o cristianismo teve os seus fundamentalismos, ao longo da História, responsáveis por muitas guerras, violências e outros desvarios. A adesão radical à lei islâmica da xária ou à interpretação da Jihad, a Guerra Santa, como forma violenta de expansão do islamismo, constituem-se como o alimento ideológico de vários grupos de muçulmanos que têm promovido, nas últimas décadas, um vasto conjunto de práticas terroristas, não só a nível internacional, mas também dentro das suas próprias comunidades. Nesta dimensão religiosa, o problema do fundamentalismo islâmico não é fácil de resolver, sendo que compete principalmente à maioria islâmica moderada assumir o controlo político das suas comunidades e combater o alastramento desse fundamentalismo e da sua radicalização. Às outras grandes religiões, como o cristianismo, o budismo ou o induísmo, compete aprofundar o diálogo inter-religioso, também com o islamismo, de modo a constituírem-se como um fator de concórdia e de paz e não o seu contrário. Trata-se de uma tarefa hercúlea, tão difícil quanto necessária.
Outro conjunto de razões prende-se com fatores de ordem étnica e cultural que radicam na evolução histórica das relações entre os povos muçulmanos e os de outras religiões, como os cristãos ou os judeus e dos próprios povos islâmicos do Médio Oriente entre si, como árabes, persas, turcos e curdos. A origem do islã e a sucessão da liderança religiosa do profeta Maomé continuam a ser, hoje, 1400 anos depois, a génese ideológica de profundas divisões como as que existem entre muçulmanos e judeus, ou das rivalidades políticas entre xiitas e sunitas, com perspetivas antagónicas no que respeita à forma de designar o chefe (o califa) de todo o islamismo. Este caldo étnico e cultural, com raízes históricas complexas, é extremamente difícil de compreender, sobretudo para nós, ocidentais. O mundo islâmico é aquilo que o filósofo espanhol Ortega y Gasset apelidava de “magma” na obra “A rebelião das massas”. A forma de minimizar os efeitos negativos deste magma cultural e étnico passa pela promoção do seu conhecimento histórico e pela reflexão sobre essas diferenças, por parte desses povos, de modo a poderem compreendê-las, relativizá-las e integrá-las de forma enriquecedora e não conflituante. Mas, para isso, é necessário que nesses países exista um clima de paz, propício ao investimento na implementação de um ensino superior laico e de qualidade que contribua para reduzir o obscurantismo religioso e “iluminar” a mentalidade desses povos. É preciso que, também os muçulmanos façam a sua própria “revolução iluminista”. Por sua vez, a civilização ocidental deve caminhar no sentido de promover no seu seio um maior estudo e uma melhor compreensão da história e das idiossincrasias desses povos, em vez de assumir uma atitude de sobranceria cultural e de tutoria política que muito tem contribuído para o sentimento de revolta que anima muitos dos que instigam ou apoiam o terrorismo contra o Ocidente. Como dizia recentemente o líder espiritual dos muçulmanos ismaelitas, Agá Khan, “alguns chamaram a isto um 'choque de civilizações'; mas é antes, no essencial, um choque de ignorâncias”.
Finalmente, mas não menos importantes, também os fatores de ordem política e económica têm um papel relevante para a compreensão do radicalismo terrorista islâmico. Sobretudo a partir da 1ª Guerra Mundial, alguns países ocidentais procuram dominar politicamente esses povos, tendo mesmo sido assinado um acordo, designado por Sykes-Picot, no qual a França e o Reino Unido dividiam entre si as zonas de controlo e de influência no Médio Oriente. Para manter esse controlo económico e geoestratégico, têm promovido e alimentado guerras e rebeliões, de modo a colocar e manter no poder uma espécie de títeres que possam comandar à distância. Mais recentemente, as intervenções desses países, liderados pelos EUA, no Irão, no Afeganistão, no Iraque ou na Síria, só têm contribuído para potenciar o ódio dos radicais muçulmanos contra os povos ocidentais e a sua cultura, traduzido no aparecimento de grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS. Este, aliás, surge, precisamente, na sequência da 2ª invasão do Iraque, decidida pelo insano Bush, constituindo-se como pólo aglutinador de um conjunto de generais “deserdados” do poder, após a queda de Saddam Hussein, aproveitando a confusão política e o vazio que lhes permitiu conquistar uma importante parcela do território iraquiano, como a região petrolífera de Mossul, para sedearem o seu projeto de vingança contra o Ocidente e de domínio do mundo islâmico. Aproveitaram a guerra civil, promovida e alimentada por americanos, franceses e russos, que fez de parte da Síria uma terra de ninguém, para alargarem o seu território, chacinarem várias comunidades cristãs e subjugarem ou expulsarem das suas terras grande quantidade de curdos. Crescem e financiam-se com a conivência de grupos económicos e líderes políticos turcos e ocidentais que lhes compram, no mercado negro, o petróleo, as obras de arte roubadas ou o algodão dos ocupados campos sírios. Neste aspeto, por muitos sapos que americanos, russos e europeus tenham que engolir, não lhes resta alternativa senão conjugar esforços políticos e militares para cortar e enterrar a última cabeça da Hidra, ou seja, a atual liderança do ISIS, seja por via da ação militar, seja por via, talvez mais eficaz, de fazer secar as suas fontes de financiamento, recorrendo a todos os meios para acabar com esse mercado negro. Enquanto isso não for feito, eles vão continuar a aproveitar-se da falta de esperança e de sentido para a vida que a sociedade consumista e capitalista ocidental produz numa grande parte dos seus jovens, para aumentar dentro do nosso próprio território, um autêntico exército de kamikazes, extremamente difícil de combater, seja pela sua dimensão, pelo facto de estarem “integrados” no nosso meio, ou por estarem dispostos a morrer para matarem o maior número possível. A Europa transformou-se num autêntico “cavalo de Tróia” comandado à distância. Enquanto não for cortada a mão que o manipula, o medo vai assombrar as nossas vidas. Mas quando (e se) isso acontecer, importa que o Ocidente tenha aprendido a lição e não volte a cometer os mesmos erros.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


SONHO DE MENINO ADULTO

Lançado a galope
Sinto-me voar sem corpo
Por entre imaginárias árvores
Donde exala um perfume acre e doce.

Atinjo uma clareira de luz
Onde a tua aparição me extasia.

Os teus cabelos cor de fogo,
O teu corpo quase névoa
Diluem-se na bruma inebriante
Que te envolve e acaricia.

Sinto que te aproximas
Sem o mínimo movimento.

As nossas almas materializadas,
Sem contornos definidos
Voam, fundidas, pelo universo
Que é todo cheiro a maresia.

E toda esta amálgama de fantasia
Embala o meu sonho de menino adulto.




José Júlio Campos
O DESERTO

Caminho, só, pelo deserto.
A triste lua ilumina-me o rosto
Dói-me todo o corpo … caio, adormeço
E chego a um lugar desconhecido.

O sol desponta e ilumina-te a face
A ti que caminhas a meu lado,
Misteriosamente …

Árvores copadas vêem-se ao longe,
Ouve-se música de flautas;
Aqui um encantador de cobras,
Além um vendedor de tapetes, apregoando.

Por baixo dos turbantes,
Adivinham-se rostos sorridentes
Alheios à nossa felicidade.

Ansiosamente, desejo-te
Procuro o teu cabelo para acariciar,
Mas o sol queima a minha solidão:
É o deserto que de novo me tortura …




José Júlio Campos
QUERO ESCREVER A VERMELHO


Quero escrever a vermelho,
Cor de sangue, cor de fogo,
A cor mais abstracta que conheço,
A cor do que penso e do que sinto.

Quero ser teu pensamento,
Estar dentro da tua mente,
Ser a seiva que te alimenta,
Percorrer todo o teu corpo.

Quero ser o teu destino
Que tu fazes livremente,
O teu caminho obrigatório,
Embora desenhado por mim.

Quero ser o teu porto de abrigo,
O regaço materno onde repousas,
Teus cabelos, olhos, boca, seios, …
Num recanto escuro do universo.

Quero ser o pensamento que te estremece,
Quero ser o teu destino em liberdade,
Quero ser o teu ventre acolhedor.
Eu quero ser tu … eternamente.


José Júlio Campos



DESEJO


Um fogo abrasador gela-me;
Ardo, estremeço, sinto-me rebentar …
Obrigado a permanecer onde estou
Aqui sentado, a arder.

Um desejo de regatos cristalinos
Impele-me para mundos desconhecidos
Onde ateio ainda mais esse fogo,
Com a tua presença refrescante.

Árvores frondosas povoam-me o espírito.
Os raios de sol por entre a folhagem
Iluminam a tua face luarenta
Que se esconde na sombra.

Ansioso pela luz, afasto os ramos,
Que duendes poderosos teimam em juntar …
O desejo da luz do teu corpo
É ofuscado e esquecido pela noite.



José Júlio Campos


terça-feira, 24 de novembro de 2015

DOM CAVACO, O ANACRÓNICO, ou “o dia em que a máscara caiu”

No início de maio passado, enquanto viajava para a Noruega mai-la sua Maria e a clique de empresários amigos, mais interessados em multiplicar lucros à custa da exploração salarial do que em fazer investimentos produtivos no país, Cavaco, em amena cavaqueira com a comitiva e os jornalistas, comentou temas como a data das eleições legislativas, (que acabou por marcar apenas para outubro, contra toda a sensatez, criando problemas adicionais ao atual governo para a apresentação do projeto de Orçamento do próximo ano, o que poderá valer um processo por incumprimento interposto pela UE ao estado português – neste caso já não importa ser bom aluno!) e a lei que regulamenta a cobertura jornalística das campanhas eleitorais, afirmando, sobre ela: “eu penso que, em Portugal, é a lei mais anacrónica que existe”, comparando-a, em termos de anacronismo, com a lei da reforma agrária que ele terá mudado e sugerindo, pois, a necessidade da sua alteração. Acontece que, mais anacrónico do que qualquer lei, é o próprio Cavaco, cuja obsolescência o faz ter o desejo inconsciente e recalcado de fazer Portugal regressar à monarquia, sendo ele o rei, e podendo eternizar-se no poder. Assentar-lhe-iam como uma luva, a concretizar-se esse desejo, o título e o cognome de Dom Cavaco, o anacrónico! O desprezo com que faltou às comemorações da implantação da República, invocando desculpas mentirosas, provocatórias e, obviamente, anacrónicas, são a prova inequívoca desse recôndito desejo. Sobram, aliás, os exemplos do anacronismo enquanto marca indelével de toda a sua atuação, ao longo de trinta anos de vida política. O anacronismo de Cavaco é, pois, idiossincrático e doentio, agudizando-se pelo facto de nunca ter percebido, muito menos assimilado, o que aconteceu no dia 25 de abril de 1974. Daí Cavaco considerar anacrónicas as leis criadas depois dessa data, nomeadamente a lei constitucional, que, agora, decidiu ignorar, sustentando a sua decisão sobre a indigitação do primeiro-ministro na “tradição” e naquilo que “ele” pensa que são os “superiores interesses da nação”. Argumentar com a “tradição” e os “superiores interesses” é típico do tempo do “ballet rose” e do Tarrafal, em que o país era coutada de uns ricaços amigos de Salazar, enquanto outros tinham que emigrar, exilar-se, resignar-se à miséria ou morrer às mãos da PIDE. Para Cavaco, o que ainda deve estar em vigor é a tradição salazarista de considerar os partidários da esquerda, em geral, e os comunistas, em particular, como perigosos inimigos da nação que devem ser banidos da sociedade, em nome dos tais “superiores interesses”. Para ele, o que ainda está em vigor na sua cabeça, é o tempo da “guerra fria”, com o mundo dividido pelo muro de Berlim e as potências USA e URSS a disputarem entre si a ocupação de posições estratégicas. O relógio mental de Cavaco parou no dia 25 de abril de 1974. A visível e inevitável senilidade apenas contribui para uma crescente e manifesta dificuldade em manter a máscara que a democracia o obrigou a afivelar para manter o poder ao longo dos anos. Agora, a máscara caiu, como se pode ver pelo discurso absolutamente totalitarista e anti-democrático, ou seja, completamente anacrónico, que proferiu no dia 22 de outubro, no qual indigitou Passos Coelho para formar governo. Apesar da sua mais que provável inutilidade, não é essa decisão que está em causa, mas antes a sua sustentação com recurso à demagogia e aos sofismas, à ameaça velada de que ou governam os amigos dele ou não governa mais ninguém, à chantagem feita aos deputados pretendendo transferir para eles o ónus de uma possível instabilidade governativa de que ele próprio é o principal responsável. A tese de que não pode dar posse a um governo do PS apoiado por partidos que têm no seu programa estudar a saída do euro ou a saída da NATO foi sustentada com argumentos demagógicos (porque ele sabe perfeitamente que o apoio desses partidos a um governo do PS não passa por essas matérias), e falaciosos (porque apelar ao medo do desconhecido e do rompimento com a tradição é o que se chama uma falácia “ad terrorem”), constituindo-se, assim, como um puro exercício de desonestidade intelectual, no qual, aliás, Cavaco é recorrente. Igualmente grave foi a ameaça implícita de que só dará posse a governos do seu agrado; os portugueses que votaram em partidos cujos programas e ideologias não servem a Cavaco não contam para apoiar ou rejeitar governos. O que faria Cavaco se o povo votasse maioritariamente num desses partidos à esquerda do PS? Chefiava um golpe de Estado, impondo uma nova Constituição pela força das armas? Mandava repetir as eleições, consecutivamente, todos os meses, até que os resultados permitissem formar um governo do seu agrado? Com este discurso, estará Cavaco a dar razão aos defensores de que não podia ter sido feita a revolução de abril para voltar a entregar o poder nas mãos daqueles contra os quais ela se fez? Não deixa de ser irónico que os que mais sofreram com o regime fascista e protagonizaram a conquista da liberdade e da democracia sejam, hoje, vítimas de uma tentativa de ostracização da vida política por parte de um partidário e servidor desse mesmo regime!
É este o anacronismo de que padece Cavaco, hoje conivente e a querer manter no poder o “irrevogável” líder de um partido com menos representatividade do que aqueles que ele quer banir e que, há vinte anos, escreveu no desaparecido “Independente” que “Cavaco merecia uns estalos”. Foi esse mesmo ex-pseudo-jornalista, (que um dia também afirmou que se alguma vez se viesse a dedicar à política estaria completamente louco) que agora qualificou o miserável discurso de Cavaco como “corajoso”. Daí só podermos concluir que, efetivamente, a profecia foi cumprida e o “homem” colapsou de vez. Porque é preciso ter “coragem” para proferir um discurso daquele jaez, mas ainda é preciso ter mais “coragem” para o elogiar!
No entanto, nesse dia de maio, a caminho da Noruega, Cavaco tinha razão numa coisa: tudo o que é anacrónico tem de ser mudado. Também ele é, desde sempre, um completo anacronismo neste país republicano e democrático e, como tal, vai, felizmente, ser banido muito em breve.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


A CRISE DOS REFUGIADOS

Finalmente, o Velho Continente “acordou” para a questão dos refugiados e, através do acordo alcançado pela maioria dos países da União Europeia, ter-se-á dado um primeiro passo para lidar de forma racional e sensata com este fenómeno. Obviamente, este acordo não é “a” solução para o problema. Se pensarmos que, neste momento, existem mais de oito milhões de pessoas em campos de refugiados no Médio Oriente e na África e outros incontáveis milhões que anseiam por uma oportunidade de rumar à Europa, ainda que isso lhes custe a vida, percebe-se que a gravidade e a dimensão do problema exigem outras respostas além desta, agora “acordada”. O acolhimento voluntário de cento e vinte mil refugiados, por parte de vários países da UE, constitui-se como um passo inevitável, embora insuficiente, face aos números que têm sido apontados: se 2014 bateu todos os records, com mais de duzentos mil migrantes a atravessarem o Mediterrâneo, o ano de 2015 prepara-se para bater esse record, por larga margem; basta atentarmos no facto de, só na última semana (meados de setembro), terem chegado cerca de trinta mil à Croácia. Além disso, é admissível o crescimento destes números nos próximos tempos, na medida em que esta “abertura” da Europa funcionará, para muitos, como um incentivo para enfrentarem a morte possível no mar, fugindo à morte provável nos seus países. A solução para o problema, como qualquer pessoa compreenderá, tem que ser aplicada a montante, isto é, nas suas causas, como sejam a miséria, a fome e as lutas fratricidas pelo poder, em países como a Síria, a Eritreia, o Sudão, a Etiópia e o Afeganistão, entre outros, todos eles em guerra e donde é originária a esmagadora maioria destes refugiados.
A ignorância e o egoísmo de muitos europeus levam-nos à arrogância de pensarem que não temos qualquer obrigação para com essas pessoas – nem de as acolher, nem de as ajudar a criar as condições que lhes permitam viver com dignidade nas suas terras. Alguns vão mesmo ao extremo de considerar a maioria deles como perigosos terroristas ou descendentes do terrível Almançor, cujo objetivo secreto é reeditarem, na Europa atual, as “razias” com que ele assolou os territórios cristãos no final do século X, na Península Ibérica, quando, na realidade, uma boa parte deles foge, precisamente, do fundamentalismo islâmico. Sendo compreensível a necessidade de colocar bastante precaução, entenda-se controlo, na forma como essas pessoas são integradas na nossa sociedade, já essas atitudes de egoísmo e de pura xenofobia são tão mesquinhas e irracionais que não merecem qualquer argumentação no sentido de as rebater. Importa, no entanto, ensinar a esses deserdados do conhecimento que, além de tudo o que tem a ver com direitos humanos, temos, também, responsabilidades históricas no que respeita às causas deste fenómeno. Primeiro os europeus, mais recentemente também os norte americanos, serviram-se da generalidade dos povos africanos, asiáticos e sul americanos como se fossem propriedade sua por direito natural ou divino. Exploraram-nos, saquearam-nos e sacanearam-nos, durante séculos. Apesar da independência concedida, a contragosto, não deixaram de continuar a controlá-los politicamente de forma a manter essa enorme fonte de todo o tipo de matérias primas, desde o ouro ao petróleo, acessíveis e baratas. Entretanto, sem se preocuparem minimamente com o seu desenvolvimento, para não os tornar concorrentes, foram estimulando o consumo nesses povos, como forma de alargar os imprescindíveis mercados, sem os quais o capitalismo ocidental definha, mas não os estimulando no desenvolvimento das suas infra estruturas produtivas. Por isso, a política geoestratégica do Ocidente foi sempre no sentido de manter o controlo político desses países e usar os seus povos como carne para canhão, de modo a alimentar as suas indústrias, como a do armamento, dos medicamentos e muitas outras. (Sobre isto vejam o filme “O fiel jardineiro”, do realizador Fernando Meirelles). Daí a conveniência de provocar e manter, cíclica e regularmente, umas guerrazitas, mais fáceis de alimentar quanto mais esses povos permanecerem num subdesenvolvimento atroz. O Ocidente nunca quis, verdadeiramente, a independência desses povos e, por essa razão, arranjou outras formas de os continuar a dominar e a explorar. Esta vaga de refugiados não é mais do que uma consequência dessa política. Assim sendo, temos responsabilidades históricas e morais para com essa gente. Não querer perceber isso, além de pouco inteligente é, inclusive, perigoso. A própria Merkel que, não sendo nenhuma Pandora, também não é nenhuma Eumênide, como agora aparece aos olhos desses refugiados, percebeu a gravidade da situação e contribuiu decisivamente para que esta solução de recurso fosse aprovada. Absolutamente lamentável é a atitude xenófoba de alguns países como a Eslováquia, a Roménia, a República Checa e, muito especialmente, a Hungria que votaram contra este acordo, ou a própria Finlândia que se absteve. Seria justo que, tal como ponderou a saída da Grécia do euro, por razões económicas, a UE também ponderasse, agora, a saída desses países da comunidade europeia por razões políticas e culturais. Mas esses países são governados por partidos de direita e a Grécia por um partido de esquerda, daí os dois pesos e as duas medidas. Adiante. Absolutamente inqualificável foi a declaração conjunta dos ministros do interior de França, Bernard Cazeneuve, e da Inglaterra, Theresa May, no final de julho, para justificar o comportamento violento da polícia francesa, à húngara, no sentido de impedir que centenas de migrantes atravessassem o Canal da Mancha, na região de Calais: “as nossas ruas não estão pavimentadas a ouro”. Não deixa de ser objetivamente verdade. Mas também é verdade que, se a estupidez, o cinismo e a falta de vergonha pudessem transformar-se em ouro, estes dois ministros, sozinhos, poderiam pavimentar com esse metal precioso todas as ruas da França e da Inglaterra. Fariam um belo par de calceteiros, cujo padrinho poderia, perfeitamente, ser David Cameron que, há cerca de um ano, também queria pavimentar o Mediterrâneo, não com ouro, mas com os cadáveres dos refugiados, ao defender a tese de que a Europa resolveria o problema deixando de os socorrer quando naufragam. Ou seja, mais uma prova de que não há limites para a estupidez humana.

José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AS BODAS DE DOM FUAS CABEÇA D’ALHO CHOCHO

Reino dos Pássaros sem Asas, aos vinte dias do bem-aventurado duodécimo mês do nascimento do mais belo infante do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito, a Vossa Majestade nosso soberano por vontade e graça de Deus Nosso Senhor, saúde.
Dando cumprimento a Vossa sábia e bondosa vontade, se encontra este, por Vossa especial mercê e deferência, cronista mor do referido reino, a relatar humildemente os extraordinários eventos por ele presenciados, aos dezasseis dias do supracitado mês, neste bendito reino do Vosso Império e de que foi feliz protagonista Vosso muito merecidamente amado Príncipe e nosso Regente, Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho. Saberá Vossa Majestade que correram de feição as bodas e subsequentes ritos nupciais de Dom Fuas com Dona Urraca Pernalonga e Pé d’Estaca, em boa hora Ícara caída sem passarola nos braços de Vosso amado pimpolho e por ele levada ao altar, salvo seja, em cerimónia mui digna e plena de requintes exótico-futuristas tão do agrado destes servos do Vosso humilde reino. Após um dia de intensos preparativos, (consta que o enxoval da noiva valerá o equivalente a seiscentas vacas paridas e acompanhadas de suas imberbes crias) onde a arregimentação dos necessários bobos e damas de companhia não foi tarefa de somenos, começaram as cerimónias com um frugal banquete, onde foram consumidos cem alqueires de pão centeio, trezentas e cinquenta galinhas de cinco anos, quatrocentos e trinta e sete ovos, mil e quinhentos quilos de batata, setenta e oito litros de azeite, duzentas e vinte e três cabeças de alho, oitocentos e trinta bacalhaus de quilo e meio que perfazem um total de mil duzentos e quarenta e cinco quilos de bacalhau, quinhentas e vinte e quatro maçarocas de milho, três mil trezentas e seis couves-galegas e outras quantidades menores de mistelas de condimentação, noventa e cinco barris de quatro almudes de vinho tinto da região e três pipas de aguardente. Foi assim que, por vontade expressa de Vosso mui economizado e previdente filho, os mais de cinquenta nobres convidados fizeram uma espartana, mas fidalga e deliciosa refeição. No fim da qual dita cuja refeição foram entoadas loas e cantigas, (uma delas mesmo muito aplaudida, por sinal de Vosso ilustríssimo antepassado Dom Denis) por todos os convivas que assim manifestaram a Dom D’Alho Chocho a sua gratidão. Saiba Vossa Majestade que a vossa oposição aqui no Reino, não passando de uns quatro gatos-pingados pagos e manteúdos por um zé-ninguém, embora o nome dele não seja do nosso conhecimento, teve a aleivosia de afirmar que tão maravilhoso canto, digno da corte de uma Flandres ou de uma Florença, não passava de um “mal ritmado e monocórdico uivar de cães esfaimados”, ou, mais simplesmente, um “escaqueirar de pratos de sobremesa”, já que, como é do conhecimento público, tem o estalajadeiro desta região o infeliz, mas quiçá bem intencionado, hábito de oferecer umas sobremesas que se assemelham àquelas comidas bárbaras muito apreciadas pelos seus vossos mais indignos súbditos que habitam as rudes terras d’África e cuja degustação provoca no ser humano normal a inevitável e irreprimível vontade de escaqueirar o prato, sim, mas nos cornos do estalajadeiro, desculpe-me Vossa Majestade, mas é assim mesmo, pois só de “samica de caganeira”, como diria o nosso grande mestre Gil Vicente, padeceram durante quinze dias por sua conta dela a sobremesa nada mais nada menos que todos os convivas que com ela se deliciaram. Infelizmente, Dom D’Alho e Dona Pé d’Estaca não quiseram causar grande estrago no amor-próprio não deles mas do estalajadeiro e raparam até à última molécula o cálice da samica. Também disso se aproveitou o grupelho oposicionista para propalar a infame teoria de que o que rangia, durante a noite, no palácio de Dom Fuas, não era propriamente o leito nupcial, mas sim aquilo que Vossa Majestade tem na cabeça e que eu por decoro me abstenho de mencionar. Como podereis calcular, não terminariam aqui os cerimoniais, pois que apesar de a maior parte dos convivas terem regressado a seus deles lares, achou por bem Vosso ínclito rebento, Dom D’Alho, fazer-se acompanhar dos seus mais devotos bobos e dar seguimento à festança num local escuro e barulhento, onde em grande folgança damas e cavalheiros aproveitam para sacudir a piolhada que como Vossa Majestade sabe é praga que grassa pelas cabeças deste reino e de assim fazer uma assimilação de hábitos culturais dos nossos servos ultramarinos, tão do Vosso agrado, numa perfeita demonstração do inalienável casamento que fizemos, como nenhum outro império europeu, para o bem e para o mal, até que a morte nos separe, com esses povos a quem demos a luz da Fé e do entendimento. Têm os ditos locais esta vantagem muito embora me queira parecer a mim que, ou Vossa Majestade põe mão nisto, salvo seja, no que se passa nesses locais, ou muito brevemente se tornarão num antro de perdição, desculpável, no entanto, para a audácia, intrepidez e alegria incontida da jumentude de Dom Fuas que, assim, quis dar a Dona Pernalonga uma prova irrefutável do seu modernismo. Saiba Vossa Majestade que se gerou alguma balbúrdia no momento em que o digníssimo Príncipe, sua noiva e demais acompanhantes, que seguidamente mencionaremos, se preparavam para penetrar no transporte do futuro, a caranguejola voadora sem asas, apêndice importante, como calcula, neste reino, provocada por um covarde conotado com o malfadado grupelho que tentou raptar uma das damas de companhia que haveria de seguir no cortejo. É essa dama uma aia folgazã e jovial, cuja graça não mencionaremos, por ser objecto do relatório secreto que oportunamente enviámos a Vossa senhoria, e na presente crónica nomearemos como Dona Xis, e contra a qual este Vosso humilde servo, fruto de algumas averiguações dignas do célebre Charló Comes, alertou em devido tempo a mente bondosa do Vosso filho para a possibilidade de andar de amores com o dito cujo inominável, (e ser assim um perigo constante devido à sua dela presença contínua na corte) pelo que não se teria tratado de uma tentativa de rapto, mas antes, o que seria mais grave, de uma tentativa de fuga como muito finamente deu a entender Dom D’Alho Chocho nos ditos e escárnios do mais alto quilate intelectual e dando provas mais que sobejas de sua dele por divina graça inestimável esperteza e espírito. Muito folgaram os acompanhantes, iniciada a jornada, com a sabedoria, cultura e leveza de espírito de que dava mostras o nosso sagaz regente nos ataques subreptícios e bem medidos contra esse ausente inominável, revelando, também, assim, a sua superior capacidade estratégica, aliás sobejamente comprovada no comando dos seus dele exércitos, ao atacar o adversário durante a sua ausência para que este não possa defender-se, o que é, sem dúvida, a verdade de La Palice, também ele um militar, da estratégia bélica: um adversário ausente é um adversário que não se defende; um adversário que não se defende é um adversário derrotado; logo, um adversário ausente é um adversário derrotado. O próprio Aristóteles não faria melhor raciocínio, pelo que nos resta a nós, humildes servos, admirar e agradecer a Deus Nosso Senhor a enorme mercê que nos concedeu, por intermédio das benditas partes fracas de Sua Majestade e de nossa Imperatriz, (abençoadas partes fracas que tão grande fortaleza geraram!) ao prodigalizar-nos um monarca com um tão apurado sentido para o combate, uma impensável capacidade lógica e uma inimaginável inteligência, de cujas provas dadas a alegria sã do seu rosto aberto espelhando-se num magnífico sorriso amarelo, (por uma infeliz coincidência, me desculpe Vossa Majestade, a cor da samica…) são a marca mais inolvidável e convincente. Desculpe-nos ainda Vossa Majestade termo-nos desviado do trilho, coisa que não aconteceu naquela luminosa noite com a alegre caravana da qual faziam parte, para além de Dom Fuas, Dona Urraca e Dona Xis, os seguintes elementos: Dom Cortes Costuras e Alfaiates, senhor muito válido, possuidor de uma caranguejola e cuja douta opinião sobre a necessidade da existência de pena de morte no Vosso Império me apraz comunicar-vos, já que é o dito senhor adepto da teoria do olho por olho (não sei se o do cu) e dente por dente (não sei se o d’alho, com perdão de Vossa Alteza); Dona Urrice Miolos d’Hortelã Pimenta, senhora de bela dentição cuja feroz amostragem é razão suficiente para afastar o mais intrépido e intrometido pretendente; e ainda Dona Joana d’Arco Mal Passada, de cuja graciosidade me abstenho de falar, por ser minha pena suspeita, (Vossa Majestade sempre soube do meu fraco por esse tipo de gente). Arribada a comitiva ao sobredito local nomeado de Passarola de Arribação, de imediato tiveram início os folguedos traduzidos em danças variadas e regados com canecas de cerveja do mais puro malte, tendo Dom Chocho e Dona Pernalonga dado mostras de grande educação e esmero na arte de bem saracotear todo o traseiro no que foram muito admirados e por todos imitados conforme puderam. Dona Mal Passada e Dona Xis, muito expeditas, alegraram graciosamente o ambiente com seus ademanes, bamboleios e outras danças dos sete véus no que foram muito aplaudidas por Dom Alfaiates e Dona Hortelã Pimenta. Finalmente, de madrugada, os noivos mai-los seus deles acompanhantes, digníssimos bobos, regressaram felizes a seu palácio, no qual terminaram a função. (Ou não, como insinua a oposição.)
Na próxima epístola contamos pôr Vossa Majestade a par da realização das cerimónias religiosas que não serão, certamente, para dar graças a Deus e honras a Vossa Senhoria, menos grandiosas e imponentes.

Paço do Infante Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho, aos vinte dias do mês de Dezembro do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito.

Vosso Servo

Augusto Pena Fina


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ALDEIA DA PENA: MARAVILHA PAISAGÍSTICA

Sobe-se a Serra de S. Macário, chega-se ao cimo por entre pinheiros, e, do outro lado, os olhos perdem-se na contemplação de vales profundos, quase a pique, rodeados de montanhas desoladas e quase geométricas. Algumas escarpas, aqui e ali, conferem, ainda, uma maior agressividade a esta paisagem insólita: uma espécie de “belo horrível” como alguém, talvez exageradamente, lhe chamou. Começa-se a descer uma estreita estrada de macadame, esburacada pelas torrentes das chuvas invernais e, no fundo de uma vertiginosa encosta, algo nos desperta a atenção: uma aldeia. Também ela aparece insólita como a paisagem, por inesperada naquele contexto e na profundidade daquele vale. Parece, mesmo, que a aldeia não tem saída, senão montanha acima. De todos os lados, como num caldeirão, a montanha sobe na vertical. E, no meio, no fundo, sobre uma pequena colina, um minúsculo aglomerado de habitações, cuja visão, a algumas centenas de metros de altura, faz lembrar a de uma aldeia pré-histórica. Se a existência de vida humana naquele local pode causar estranheza, o certo é que o casamento paisagístico entre a aldeia e a montanha é perfeito. Quase poderíamos chamar-lhe uma aldeia camaleão. As pedras negras arrancadas do monte serviram e servem, indiscriminadamente, para a construção de paredes e telhados das habitações.
Enquanto serpenteamos encosta abaixo, evitando pedras soltas no caminho de buracos, tão depressa temos, na boca das sucessivas curvas apertadas, a sensação de que vamos entrar terra dentro, como a de que nos vamos despenhar no abismo. À medida que sentimos a montanha crescer sobre as nossas cabeças somo levados a interrogar-nos acerca dos motivos que, provavelmente há centenas ou milhares de anos, fizeram alguém sedentarizar-se neste último reduto. Que terrível combate ou flagelo os terá obrigado a fugir para aqui? Por que lado da montanha terão descido? E como? Se perseguidos, porque terão parado os perseguidores? Medo do abismo?! Aquilo que o tempo fez esquecer, esforça-se a imaginação por recriar.
Chegamos, enfim, à aldeia da Pena, assim com propriedade se lhe deu este nome próprio, onde alguns teimosos da história teimam em permanecer. São poucos, uma meia dúzia de moradores, dizem-nos. Mas a aldeia parece maior, devido a um conjunto de construções semiarruinadas existentes na parte mais elevada da colina. Agora servem para guardar o gado que, juntamente com as poucas terras de cultivo, em socalco, onde o sopé da montanha é mais acessível, constituem o modo de sobrevivência dos velhos desta terra. Sim, que os novos, esses, ou emigraram ou casaram em terras da (afastada) redondeza para onde se mudaram. A Pena pertence ao concelho de S. Pedro do Sul. Alguém nos diz que, em tempos, aqui não muito remotos, quando todas as viagens se faziam a pé, se gastava um dia inteiro para ir à sede do concelho. Hoje, só de táxi, ou a pé como antigamente, pois transportes colectivos, aqui como noutras zonas do interior, são coisas impensáveis. Apesar de já existirem, na Pena, telefone e energia eléctrica, assinaláveis benefícios, o isolamento é muito difícil de vencer e os problemas de saúde, os mais urgentes, acabam por não ter solução. Contam-nos que, ainda há pouco tempo, vítima de um qualquer ataque, alguém foi transportado em maca improvisada, a pé, montanha fora, até ao médico mais próximo, em Sul, distante vinte quilómetros.
Um dos mais recentes e significativos melhoramentos na aldeia da Pena foi a construção de um cemitério. Tem cerca de trinta metros quadrados, no máximo, e nele existem, apenas, até ao momento, duas campas rasas que o ocupam quase por completo. No entanto, talvez seja suficiente para evitar que mais mortos continuem a matar vivos! Quando não havia cemitério, os defuntos eram transportados, nos seus esquifes, até à povoação de Covas do Rio, onde eram sepultados. Para isso, tornava-se necessária uma longa viagem a pé, marcada pela descida de um desfiladeiro, única passagem para o vale contíguo. E teria sido nesse desfiladeiro, composto de obtusos degraus naturais que, segundo a lenda, o morto matou o vivo e a cabra matou o lobo! No primeiro caso, o caixão onde seguia um morto teria caído sobre aqueles que o transportavam, na descida íngreme, acabando por causar uma vítima. A cabra teria morto o lobo quando, perseguida por este, subia o desfiladeiro, em direcção à aldeia. Acossada, ter-se-ia virado para trás, marrando, corajosamente, no lobo que, perdendo o equilíbrio, se teria despenhado pelo fatal precipício.
A vida destas pessoas é feita, assim, de pequenas coisas, de pequenas histórias, sobretudo, e porque se trata de velhos, de memórias do passado. Curioso é esse passado ser recordado com nostalgia, mesmo quando se referem a ele como “tempos muito difíceis”. Também nisto se nota uma simbiose perfeita entre o homem e a natureza: a simplicidade e a grandeza de alma desta gente combinam, na perfeição, com a grandiosidade simples e agreste da paisagem.
À medida que subimos, de regresso, a montanha, é inconsciente uma sensação de libertação, de saída. O Sol, afinal, não vai ter já o seu ocaso. Lá em baixo, sim. Na aldeia, nos dias pequenos do Inverno, o Sol só é visível durante cerca de três horas.
Cá do alto, ninguém resiste a uma nova contemplação da Pena. E é com ela nos olhos que a deixam, que vamos deixando esta maravilha da natureza. Facilmente se imagina um arco-íris na abóbada daquele vale, os pés assentes nos dois cumes mais altos da circular cordilheira, qual asa de uma cestinha, levada na mão do Criador para a Feira das Vaidades dos Deuses. No fundo dessa cestinha, segue a Pena, trunfo do Pai Eterno, para mostrar a todos os outros criadores de maravilhas…


José Júlio Campos

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

COMPRIMIDOS PARA A MEMÓRIA
Dizem que somos um povo de “brandos costumes”. Talvez. É uma virtude ou um defeito? Depende das circunstâncias. O que somos é, seguramente, um povo com “memória curta”. E isso é, claramente, um defeito, na medida em que a memória é um dos fatores inerentes à lucidez e à inteligência. Existem inúmeros factos na nossa história que atestam a falta de memória de que sofre o povo português, nomeadamente no plano político. Recordarei, apenas, um dos últimos fenómenos dessa amnésia coletiva que, ciclicamente, nos ataca de forma grave: a eleição de Cavaco Silva como Presidente da República. Em 1996, depois de dez anos a governar o país de forma autoritária, Cavaco era odiado pela maioria dos portugueses que viam nele uma espécie de má reencarnação do ditador de Santa Comba; quis ser Presidente, candidatou-se e sofreu uma derrota humilhante perante Jorge Sampaio; dez anos depois, a falta de memória dos portugueses permitiu-lhe ser escolhido para o mais alto cargo da nação.
Porque somos assim e porque esses ataques de amnésia tendem a agudizar-se nos momentos eleitorais, talvez não seja má ideia, em vésperas de eleições tão importantes para o nosso país, recorrer a uns “comprimidinhos” para a memória, destinados a diminuir a probabilidade de esses ataques se transformarem em surto, quiçá em pandemia. Convém, no entanto, avisar os pacientes que os efeitos deste fármaco poderão não se fazer sentir, na medida em que a falta de memória, para além de congénita, é agravada nestas épocas pela difusão de um vírus terrível, chamado “branqueamento”, lançado na opinião pública através da verborreia demagógica de políticos e comentadores. Aconselham-se, pois, todos os eleitores, sobretudo os que têm mais tendência para se deixar afetar por esse vírus, não só a tomar várias doses destes comprimidos, mas, sobretudo, a evitar qualquer exposição à tal verborreia, pelo menos durante o ano que antecede o período eleitoral. Basta “recordar” que o governo já está em campanha eleitoral desde agosto do ano passado, quando Passos Coelho (PC) começou a garantir aos portugueses que a crise terminara e o futuro era um céu aberto. Daí para cá, temos ouvido disparates tão grandes como a ministra Albuquerque dizer que “temos os cofres cheios”, enquanto a dívida pública continua pelos 130% do PIB e o crescimento económico não nos permite, sequer, pagar os juros dessa dívida. Ouvimos PC dizer, em janeiro de 2015, que “este governo foi o que mais investiu na saúde”, quando as mortes nas urgências dos hospitais públicos se sucediam diariamente por falta de assistência em tempo útil, devido à falta de pessoal provocada pelos cortes dos últimos anos. Ouvimos o mestre da prestidigitação política, PC, contrariar todos os economistas sérios do país e do mundo, afirmando que “não queremos, nem precisamos, nenhuma negociação da dívida portuguesa porque ela é sustentável”. Ouvimos o cúmulo do descaramento, PC, afirmar, insultuosamente, em junho de 2015, que nunca aconselhara os portugueses a emigrar, considerando isso um “mito urbano”, procurando apagar da memória dos portugueses o tempo em que ele e outros membros do seu governo apontaram os países da CPLP como uma boa alternativa, nomeadamente para jovens e professores à procura de emprego. Ouvimos o catavento pau mandado da Merkel, PC, comentar, desdenhosamente, a possibilidade, aliás defendida por figuras tão díspares como Cavaco Silva ou Francisco Louçã, de o BCE imprimir mais euros para injetar na economia europeia, sobretudo nos países com mais dificuldades, em novembro de 2011: “se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente, esse seria um péssimo sinal”. O BCE tomou essa medida, em finais de 2014, e, “pura e simplesmente”, PC passou a ser um defensor dela “desde pequenino”; aliás, só faltou dizer que tinha sido ideia dele, como parece ter insinuado em relação ao acordo para o terceiro resgate da Grécia, depois de tudo ter feito para o impedir! Ouvimos, quando eclodiu o caso BES, o suprasumo da adivinhação, PC, garantir que esse banco estava sólido, o problema era exclusivamente no GES; vai-se a ver, o BES estava falido, muito boa gente estava “lesada”, incluindo os “entalados” de última hora que, confiando na palavra de PC, toca de comprar ações desse banco ao desbarato, sonhando com dinheiro fácil e muito, quando tudo normalizasse. Perante as consequências deste “extarordinário ato de gestão” do seu amigo e principal conselheiro, Salgado, PC jura a pés juntos que o Estado não intervirá nos problemas do BES; quinze dias depois, a ministra Albuquerque anuncia uma injeção de 4 mil milhões, por parte do Estado, até hoje não recuperados. Os “entalados” continuam a ver navios, o “dono disto tudo que por milagre passou a dono de nada” foi posto em retiro, para remissão dos seus pecados, também a ver navios, mas na baía de Cascais e o “polícia que soube sempre tudo mas nunca fez nada” iniciou um novo mandato à frente do Banco de Portugal, uma espécie de prémio à inércia consciente e voluntária, cumplicemente obsequiado por PC.
Vimos, ouvimos e sentimos, ao longo de mais de quatro anos, a criatura gepetiana, PC, fazer tábua rasa de todas as promessas anunciadas no último período eleitoral análogo ao que vivemos agora. Nunca um governo esteve tão bem servido na arte de iludir a realidade através da demagogia. Aliás, equipa onde alinhe Paulo Portas, outro grande mestre do cinismo e da hipocrisia, pode, até, dar-se ao luxo de alterar o significado das palavras como ele fez com o termo “irrevogável”. Ou de dizer aldrabices como aquela que esse ex-libris da alarvidade pronunciou, em 27 de março de 2014, na AR: “só ficou sem o rendimento social de inserção quem tinha mais de cem mil euros na conta”.
Seria um passo importante para um futuro melhor, se os portugueses tomassem estes e muitos outros comprimidos para a memória, (basta abrir a internet para os encontar) e fizessem, nestas eleições, uma escolha diferente daquelas que, desde a entrada na UE, têm levado o país a afundar-se na corrupção, na crescente desigualdade entre ricos e pobres, na injustiça e na falta de horizontes para os jovens. Nesse sentido, posso compreender aqueles que se abstêm – significa que desacreditaram completamente da política, dos políticos e, pior, da democracia; posso compreender, também, os que votam em branco ou nulo – significa que não confiam em nenhum dos candidatos e partidos que se perfilam; compreendo e defendo que se vote em qualquer um dos partidos que, depois da entrada na UE, nunca tiveram responsabilidades governativas – significa que acreditam na existência de alternativas e não se vergam ao medo de procurar caminhos novos para o futuro. Consigo compreender qualquer uma destas opções. Só não compreendo aqueles que continuam, “estultamente”, a votar num dos três partidos (PSD, CDS e PS) que colocaram o país nesta situação, nada fazem para dela sair e deram provas cabais e conclusivas, ao longo destes trinta anos, de incompetência, imoralidade e falta de vergonha. Como diziam os romanos, “errare humanum est, sed in errore preserverare stultum” (errar é humano, mas insistir no erro é estúpido).


José Júlio Campos

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NOVA ENCÍCLICA DO PAPA FRANCISCO (II)

(continuação do número anterior)

Esta encíclica, pese embora o cuidado “cristão” de não ferir profundamente “certas” suscetibilidades, não deixa de ser um libelo acusatório contra os países ricos e industrializados do Norte que têm, segundo o Papa, uma “dívida ecológica” que também devia ser contabilizada no âmbito internacional: “A dívida externa dos países transformou-se num instrumento de controlo, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica”.(ponto 52) Ou seja, os alemães, por exemplo, para além da dívida da guerra (ou das guerras) que têm para com os gregos, os polacos, os austríacos e tantos outros povos europeus, têm, também, juntamente com outros, uma dívida ecológica para com os africanos, os asiáticos, os sul americanos, etc. Há, pois, que contabilizar e saldar essa dívida. O problema é que esses povos do Norte nunca conseguiriam produzir riqueza suficiente para isso! No entanto, continuam a usar o poder financeiro para, através das dívidas soberanas, subjugarem os países com economias mais frágeis, explorando-os e lançando neles a pobreza, a desigualdade e o desespero. Mas talvez se estejam a “esquecer” de qualquer coisa muito importante. A globalização que lhes permite a exploração económica e ecológica doutros povos acabará por funcionar como um “boomerang”, fazendo cair sobre eles as suas consequências. No plano económico, toda aquela massa de miseráveis que as suas políticas produzem, mais cedo ou mais tarde, forçarão a entrada nos eldorados por eles criados egoisticamente. O que está a acontecer, todos os dias, no Mar Mediterrâneo, é, apenas, o início de uma movimentação de massas humanas capaz de acabar em tragédia na Europa se esta não inverter a tempo essas políticas. No plano ecológico, a partilha das consequências da destruição do ambiente é, ainda, mais evidente e inevitável, pois essas não respeitam fronteiras, exércitos, polícias, dinheiro ou governantes despóticos, inchados de poder.
Pese embora toda a relevância desta encíclica, é de prever que, infelizmente, ela não passará de mais uma “voz que clama no deserto” contra os desvarios do modelo económico em vigor, pois o comboio do consumismo, da produtividade, do lucro máximo, do capital, do maquiavelismo financeiro caminha em marcha desenfreada rumo ao abismo. Não passará de uma mini barreira incapaz de travar essa marcha e que, como tantas outras, terá um efeito impercetível face à violência irreprimível com que esse comboio estilhaça triunfalmente todos os obstáculos, sob o orgíaco comando do seu louco maquinista – o capitalismo internacional. Aliás, o capitalismo, o liberalismo económico e o seu deus – o mercado – voltam a ser zurzidos pelo Papa na “Laudato Si”, tal como acontecera na “Evangelii Gaudium”. Escreve ele, no ponto 109: “Nalguns círculos defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais e afirma-se que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado. Mas o mercado não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social”. O profundo respeito pela dignidade do ser humano marca, claramente, o pensamento do Papa, levando-o a afirmar que “não há ecologia sem uma adequada antropologia”. Além disso, ele consegue, nesta obra, aprofundar de forma integrada aspetos essenciais da vida humana e da filosofia. Poderíamos, mesmo, sob certos pontos considerá-la uma obra de ecologia, ou de antropologia, ou de ética, mas, na minha opinião, ela é, sobretudo, uma grande obra de filosofia social e política, onde não se coíbe de fazer análises como as que se seguem: “a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas. Renunciar a investir nas pessoas para se obter mais receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade”.(ponto 128) O Papa preconiza a necessidade de os Estados intervirem na regulação da atividade económica e das relações laborais em vez de deixarem esses fenómenos sujeitos à regulação natural do mercado livre como defendem as ideologias da direita liberal e neoliberal. O seu discurso enquadra-se, pois, na perspetiva de uma distribuição equitativa dos bens comuns, como é defendida, por exemplo, por John Rawls. Mais uma vez, nada melhor do que citar o próprio Papa para justificar esta tese: “As autoridades têm o direito e a responsabilidade de adotar medidas de apoio claro e firme aos pequenos produtores e à diversificação da produção. Às vezes, para que haja uma liberdade económica da qual todos realmente beneficiem, pode ser necessário pôr limites àqueles que detêm maiores recursos e poder financeiro”.(ponto 129) Mas este discurso de esquerda do Papa não fica por aqui, indo mesmo ao ponto de apontar contradições e problemas inerentes ao capitalismo, fazendo-lhe uma crítica em tudo semelhante à que é feita pelos partidos de esquerda: “A política não deve submeter-se à economia. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises, depois de uma longa, custosa e aparente cura”.(ponto 189) Francisco qualifica, mesmo, de “obsoletos”, os “critérios que continuam a governar o mundo”. E o que ele considera como “obsoleto” mais não são do que as lógicas e as ideologias políticas de direita, combinadas com a destruição do meio ambiente, que hoje prevalecem nos países europeus e em muitos outros países poderosos do mundo: “Hoje, alguns setores económicos exercem mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação com o meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação para integrar os mais frágeis, porque, no modelo de êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida.”(ponto 196)
E é assim. Por muito que custe a certos setores da sociedade e da Igreja, o Papa Francisco tem um pensamento e um discurso revolucionários. À imagem do próprio Jesus Cristo. Finalmente e felizmente. Importa que este discurso não caia em saco roto e possa mesmo transformar a Igreja, porque só assim pode ter repercussão na sociedade civil. É preciso que toda a Igreja, laica ou clerical, leia, reflita e interiorize a mensagem do Papa, ainda que isso redunde no rompimento com ideologias e práticas esclerosadas e “obsoletas”. Esta necessidade de mudança é tão premente que o Papa chega ao ponto de dizer, no ponto 114: “O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa revolução cultural… Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma”. Assim saiba a Igreja ser o “grão de fermento” que faça crescer essa revolução.


José Júlio Campos

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NOVA ENCÍCLICA DO PAPA FRANCISCO (I)

O Papa Francisco fez publicar, no passado mês de junho, mais uma encíclica, intitulada “Laudato Si”, em português “Louvado Seja”, que tem como subtítulo “sobre o cuidado da casa comum”. Inspirou-se o Papa, tal como fizera na adoção do seu nome papal, na figura carismática de S. Francisco de Assis, em relação ao qual afirma: “ nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.
Começarei por dizer que, só por si, estes quatro pontos se poderiam constituir como estruturantes de um belo programa político e pessoal. Esta nova encíclica insere-se no magistério social da Igreja, como nela diz o Papa, e tem como objetivos explícitos alertar para a dramática situação ecológica do planeta Terra (a casa comum) e apontar possíveis caminhos de esperança face às ameaças que pairam sobre o seu futuro e, consequentemente, o da humanidade. Importa salientar esta preocupação do Papa com as questões ecológicas, mas, sobretudo, a forma inteligente e lúcida como as analisa e as relaciona com problemas de natureza económica, social e política. Com mais esta encíclica de “intervenção”, o Papa mostra como a Igreja deve estar comprometida com a dimensão política do Homem e apontar os caminhos que, também nesta matéria, melhor se adequam aos ensinamentos de Cristo. Durante séculos, prevaleceu na Igreja a ideia de que não devia meter-se em questões políticas e ideológicas. Estribavam-se os seus defensores, (e ainda há muitos, dentro e fora dela) essencialmente, em dois episódios do Evangelho, duas famosas respostas dadas por Cristo, em situações diferentes: “dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” e “o meu reino não é deste mundo”. O certo é que esse “alheamento conveniente” por parte da Igreja, relativamente aos problemas sociais e políticos do Homem, permitiu que se tivessem produzido as maiores barbaridades na história da humanidade, umas vezes com a indiferença, outras vezes com o próprio beneplácito dessa mesma Igreja. Não admira que pensadores com grandes preocupações sociais, como Karl Marx, se tenham afastado ou mesmo incompatibilizado com a religião e com deuses que caucionavam a escravatura, a exploração do homem pelo homem, a miséria, as diferenças de dignidade e de direitos entre os seres humanos, na medida em que incutiam, subliminarmente ou mesmo explicitamente, a mensagem de que tudo na sociedade obedecia a uma ordem divina preestabelecida e, portanto, tudo estava bem como estava, sendo a revolta contrária à vontade divina. O homem devia preocupar-se com a eternidade da alma e não com os assuntos mesquinhos da temporalidade física. Ora, teria sido este efeito apaziguador e anestesiante da religião que, segundo Marx, teria levado gerações atrás de gerações de escravos, de explorados e de deserdados da Terra a renderem-se a uma resignação alienada, levando-o a proferir a famosa frase: “a religião é o ópio do povo”. Talvez que, se Marx vivesse hoje, não esquecendo o passado, mas conhecendo as mensagens do Papa Francisco, pudesse, antes, afirmar: “o consumismo é o ópio do povo”. O próprio Papa, certamente, não descartaria subscrever essa afirmação porque é, precisamente, o consumismo e todo o sistema económico capitalista que dele se alimenta que, mais uma vez, são verberados e apontados por ele como os principais responsáveis pelo rumo altamente preocupante que a humanidade tomou.
Outro aspeto muito relevante na publicação desta encíclica é o facto de o Papa ter colocado, novamente, os problemas ecológicos no centro do debate e na chamada agenda mediática. E isso é tanto mais importante quanto o facto de serem esse tipo de problemas os mais graves que enfrentamos, por duas razões que o próprio aponta. Uma delas prende-se com o facto de esses problemas resultarem do sistema económico capitalista cuja lógica se baseia no aumento exponencial da produção e do lucro, levando a uma sobre exploração e esgotamento dos recursos naturais e a desequilíbrios ambientais, cujas consequências já se fazem sentir em certas alterações climáticas, e que, a médio e longo prazo, serão, provavelmente, catastróficas. A outra razão assenta no facto de o Papa, de forma brilhante, relacionar o fenómeno da ecologia com o da pobreza, da fome, da desigualdade, da injustiça social, da emigração massiva e de quase todos os problemas sociais que os povos enfrentam, como diz, no ponto 25: “as mudanças climáticas são um problema global, com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo, atualmente, um dos principais desafios para a humanidade; é trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria, agravada pela degradação ambiental”. A crise económica que a Europa vive há quase uma década (e na qual se afunda graças à cegueira, ao egoísmo, à vontade de poder e à submissão ao capitalismo financeiro por parte dos seus responsáveis, incluindo os aprendizes da cartilha neoliberal, Passos e Rajoy) contribuiu para que os temas da ecologia passassem para a zona do inconsciente coletivo europeu. O debate desenrola-se, exclusivamente, em questões económicas e o economês tornou-se a língua oficial da comunicação social e da opinião pública. Mas isso acontece, também, porque esse “silêncio” interessa aos responsáveis pela crise ecológica, interessados em desviar dela os olhos do mundo para poderem continuar a chafurdar nela a seu bel-prazer. Diz o Papa, no ponto 26: “Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas”. Ao mesmo tempo, o Papa não deixa de elogiar a tarefa de determinadas organizações que lutam, algo quixotescamente, pela defesa do ambiente, contra esse poder tecnocientífico manipulado pelo polvo financeiro: “É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não delegável de preservar o ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais”.(ponto 38)

(Continua no próximo número)

José Júlio Campos

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

TRINTA ANOS DEPOIS … OU… CONFISSÕES DE UM CIDADÃO

Nos dias 25 e 26 de maio, estive na Assembleia da República a acompanhar alguns alunos meus que, no âmbito do projeto Parlamento dos Jovens, foram eleitos para integrar os oito “deputados” do distrito de Viseu, na derradeira sessão do referido projeto. Foi uma oportunidade única, para eles, de viverem por dentro o funcionamento do sistema parlamentar em que assenta a nossa democracia e que, por certo, jamais esquecerão. Pela minha parte, para além da satisfação de ver os jovens envolvidos neste processo de aprendizagem ativa, foi, também, uma oportunidade para recordar o meu primeiro contacto com a “casa da democracia” e refletir sobre toda a realidade política que esta casa encerra.
“Entre as brumas da memória”, cerca de trinta anos volvidos sobre essa experiência, revi-me, aí pelos idos de 1984, a assistir, nas galerias, ao debate de um projeto de lei de despenalização do aborto e a manifestar-me, no exterior da Assembleia, por, apesar de aprovada, a referida lei não contemplar, ainda, aspetos que, muitos anos mais tarde, viriam a ser reconhecidos na lei que atualmente rege esse tão importante assunto da cidadania. Nos escaninhos da minha memória associo esse acontecimento ao despertar da minha consciência social e política e ao início de um percurso ideológico que, até hoje, não sofreu desvios significativos, antes se foi consolidando, malgrado as imprescindíveis mudanças decorrentes da necessidade de adaptação aos inéditos caminhos trilhados pela realidade económica, social e política em que nos inserimos. E algo que não deve acontecer, neste aspeto, é cristalizarmos as convicções políticas em torno de realidades que vão desaparecendo, transformando essas ideias em meros fantasmas mais ou menos bolorentos conforme a quantidade de naftalina existente nos armários onde os guardamos. Cada um de nós é fruto das circunstâncias em que vive e se desenvolve, incapaz de se eximir a essa “lei do ser humano”, tão bem expressa no famoso enunciado do filósofo Ortega y Gasset: “Yo soy yo y mi circunstancia”. Construímo-nos, pois, numa interação permanente entre liberdade e condicionamento. Tomamos decisões livres em relação aos atos que realizamos, mas condicionados indelevelmente por fatores exteriores à nossa racionalidade que influenciam profundamente o nosso livre-arbítrio. Todas as nossas decisões têm consequências no nosso futuro e na escolha das circunstâncias que afetarão as nossas decisões!
Ainda jovem, com 18 anos apenas, tomei uma das mais importantes e firmes decisões da minha vida: tinha de alargar os horizontes, libertar-me das circunstâncias em que a minha vida decorrera até então. O mais fácil, na época, era deixar-me envolver pelas circunstâncias e trilhar o percurso escolhido pela maioria dos colegas – o curso de Humanidades no recém criado pólo da Universidade Católica (escolha preferida dos ex-seminaristas), ou a Universidade de Coimbra, para os outros. No entanto, não sei que recôndito anseio de libertação ou que desejo de voar por rotas desconhecidas levou-me a pensar que a Universidade Católica era mais do mesmo e que Coimbra mais não era que uma Viseu em ponto maior. Lisboa, a Universidade Clássica e o curso de Filosofia foram, pois, as circunstâncias que o meu livre-arbítrio escolheu para viver aquela meia dúzia de anos em que atingimos a idade da razão e dela começamos a fazer pleno uso. O que sou e o que penso devo-o, claramente, a essa decisão, na medida em que me permitiu entrar noutras circunstâncias que marcaram o cinzelamento da minha personalidade. Foi nesse meio que aprendi o que são as ideologias, convivendo com as suas diferenças e o seu pluralismo. As profundas alterações que se deram na minha maneira de pensar assentaram no estudo e no conhecimento das ideologias políticas e da sua fundamentação histórica. A minha adesão a determinados princípios e ideais passou a depender de uma análise crítica dos mesmos em vez de consistir numa mera anuência de cariz sócio afetivo. Aliás, continuo a pensar que a adesão a um partido político, não sendo, de todo, necessária, a existir, deve ser feita em função do seu programa ideológico e não por outra razão qualquer – por tradição familiar, por ser maioritário, por dar mais possibilidades de singrar na vida política, porque gostamos do cor de laranja ou do cor-de-rosa. Esse tipo de adesão serve para escolher um clube desportivo, mas não pode ser válido para escolher aqueles que supostamente nos representam no exercício da nossa soberania cívica. Acredito, também, que uma das causas principais do declínio ou do atraso político de uma sociedade reside precisamente nessa espécie de iliteracia política que leva os cidadãos a interiorizarem uma de duas atitudes, qual delas a mais negativa para a democracia: votar sempre nos mesmos, por irracionalidade ou mera afetividade “clubística”, ou abster-se de votar, seja por que motivo for. De todos os nossos direitos, o mais importante é o direito ao voto porque é dele que, em democracia, dependem todos os outros. Por isso, ele não pode ser descartado nem exercido alienadamente. Aprendi isso nesses já (!) longínquos anos 80. E, até hoje, nunca tive “voto fixo”, nem nunca deixei de votar. Também nunca fui adepto do chamado “voto útil” por ser outra forma de alienação e irresponsabilidade política. No momento de votar, sobretudo quando se trata de escolher aqueles que vou mandatar para me representarem no exercício do poder legislativo, voto naqueles cujos ideais políticos são mais semelhantes aos meus e que partilham comigo um modelo de sociedade assente nos mesmos princípios. E esses princípios não são, claramente, os dos oportunistas e dos carreiristas: “vota naqueles que te podem proporcionar oportunidades vantajosas de sucesso económico ou de carreira política”. Nunca entendi a política com base em máximas de natureza pessoal, muito menos essa; pelo contrário, continuo a pautar o exercício da minha cidadania com base no princípio do exercício pleno e igual da liberdade, de todas as liberdades, por todos os cidadãos, apenas limitado pela liberdade do outro; e no princípio da distribuição equitativa dos bens e das oportunidades por todos os cidadãos, admitindo a possibilidade de dar mais aos que têm menos de modo a minorar as diferenças e aumentar a justiça social. São estes os princípios que me movem e é estribado neles que faço as minhas escolhas políticas. Depositarei o meu voto naqueles cujas propostas melhor refletirem estes ideais e estes princípios.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt
RELAXAMENTO MORAL

Bem pode a ministra Albuquerque, com o seu ar de ninfa dos bosques, enfiar presunçosamente a máscara do Criador e apelar às “criancinhas” social-democratas para se multiplicarem como coelhos, o facto é que, até nesta matéria, já lá vai o tempo em que o ministro da educação era o primeiro a dar o exemplo! Hoje, o que temos é um governo que nem para isso serve, a crer na suposta infestação do famoso lobby gay que o irrepetível Candal tanto abominava!
Mas deixemo-nos de ironias.
Basta um relancear de olhos pela história, para percebermos que o declínio dos povos, nomeadamente das grandes civilizações, está, por regra, associado ao relaxamento moral dos seus responsáveis políticos, administrativos ou militares. Aconteceu assim na Antiga Grécia, com a decadência moral provocada pela exacerbação da sofística, segundo a denúncia de Platão. Aconteceu assim no Império Romano, onde a degradação dos costumes e a corrupção entre militares e governantes acabou por levar à divisão do império e à queda de Roma. Aconteceu, assim, em muitos outros povos e civilizações. E, também nós, portugueses, estando muito longe de ser uma grande civilização, temos na nossa história alguns exemplos de como a degradação moral provocou graves crises sociais, políticas, económicas e, até, de soberania.
Ultrapassada que foi a turbulência do pós 25 de abril de 74, entrámos na chamada normalidade democrática nos anos 80, escorada nas opções pela CEE e pela NATO. Entrámos num período de afirmação e de crescimento, em que passámos de um país do terceiro mundo para um país em vias de desenvolvimento. O Estado consolidou-se nas vertentes social, política e judicial. Hoje, assistimos a um desmembramento desse estado em todas essas vertentes. No plano social, essa degradação é absolutamente evidente, estando praticamente consumado o fim do estado social. No plano judicial, a promiscuidade entre o poder legislativo, os tribunais e os grandes escritórios de advogados não augura nada de bom. No plano político, o fenómeno parece ser ainda mais grave e com consequências mais dramáticas. O desprezo pelos valores ético-políticos e a falta de princípios morais têm caracterizado a vida política nacional, ao mais alto nível, desde há uma década para cá. Se passarmos os olhos pelas estantes de qualquer livraria minimamente apetrechada, percebemos que a corrupção ao mais alto nível político e económico se tornou um dos principais temas de publicação.
Não tendo ainda sido escrita a história do caso Sócrates, cujo desfecho nos tribunais nos permitirá fazer análises mais objetivas e retirar conclusões mais rigorosas, importa salientar que o ónus da imoralidade política não pode ser assacado, em exclusivo, a essa infeliz figura do Portugal contemporâneo. Não é por acaso que o atual primeiro-ministro aproveita avidamente todas as ocasiões para se tentar demarcar do modo de agir do seu antecessor. Esta necessidade premente de Passos Coelho dizer aos portugueses que “os políticos não são todos iguais”, ou que ele não é como o outro, mais não é do que uma tentativa de fuga para a frente, ou como diz o povo: “chama aos outros, antes que te chamem a ti”. A governação dos últimos quatro anos provou à saciedade que, em termos ético-políticos, as diferenças entre Sócrates e Coelho são nulas e é por isso que este se esforça tanto em virtualizá-las. Mas o problema é, ainda, mais grave se pensarmos que o modo de ser e de estar politicamente destas duas personagens maiores da política caseira da última década é o resultado inevitável de um “modus faciendi” consolidado e instalado nas máquinas partidárias, governativas e administrativas que os produziram e moldaram. O laxismo, ou relaxamento moral, tomou conta da classe política portuguesa, pelo menos no que respeita aos partidos que se arrogam pertencer, por uma espécie de direito divino, ao sagrado e perfeito círculo do “arco da governação”, como gosta, inchadamente, de dizer o Portas. A consciência moral desta gente, se é que a têm, permite-lhes conviver diariamente com comportamentos que violam alguns dos princípios éticos fundamentais da democracia e da república: respeito pelos cidadãos; gestão escrupulosa da “coisa pública”; assunção das responsabilidades políticas.
Os exemplos que comprovam esta decadência moral são tantos que seria impossível enumerá-los, quanto mais esmiuçá-los, neste restrito espaço. Aliás, a frequência com que esses casos saltam da cartola mediática faz com que a opinião pública já tenha entrado, perigosamente, num estado de “anestesia moral”, encarando-os como uma espécie de inevitabilidade natural que não augura nada de bom, na medida em que cauciona a impunidade dos seus protagonistas. Só este estado de anestesia explica a “indiferença” com que o “povo” reage a acontecimentos tão graves como a “irrevogável” demissão de Portas ou o arquivamento do caso dos submarinos; a constante violação da Constituição pelas leis do governo ou os repetidos escândalos da vida profissional e contributiva de Passos; a recorrente incompetência de Crato na colocação de professores ou a forma patética como a ministra Teixeira tentou alijar as suas responsabilidades pela paralisação da justiça; a degradante mixórdia dos vistos gold, ainda por esclarecer totalmente, ou a miserável história da lista VIP do fisco.
Aparentemente, para os políticos de hoje, tudo é possível e nada os incomoda; sustentam as maiores barbaridades e incompetências com a naturalidade alienada dos inimputáveis, a candura de um hipócrita pedido de desculpas ou, na maior parte dos casos, com as justificações mais vergonhosamente aldrabadas. Aliás, o maior sintoma da degradação moral a que chegou uma grande parte dos nossos políticos, nomeadamente os do “arco da governação” e particularmente os da maioria, é a facilidade, o descaramento e a falta de vergonha com que mentem.
Os políticos perderam, definitivamente, o sentido da honra, o respeito pelo cidadão e pela verdade, a identificação com os valores e os princípios básicos da República e do estado de direito. Face a este fenómeno, que atingirá o seu apogeu no período de campanha eleitoral que já está em curso, bem podemos temer, não pela infertilidade dos jovens que tanto preocupa a ministra Albuquerque, mas sim pela saúde e pela sobrevivência da democracia.



José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

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