A CRISE DOS REFUGIADOS
Finalmente, o Velho Continente “acordou” para a
questão dos refugiados e, através do acordo alcançado pela maioria dos países
da União Europeia, ter-se-á dado um primeiro passo para lidar de forma racional
e sensata com este fenómeno. Obviamente, este acordo não é “a” solução para o
problema. Se pensarmos que, neste momento, existem mais de oito milhões de
pessoas em campos de refugiados no Médio Oriente e na África e outros
incontáveis milhões que anseiam por uma oportunidade de rumar à Europa, ainda
que isso lhes custe a vida, percebe-se que a gravidade e a dimensão do problema
exigem outras respostas além desta, agora “acordada”. O acolhimento voluntário
de cento e vinte mil refugiados, por parte de vários países da UE, constitui-se
como um passo inevitável, embora insuficiente, face aos números que têm sido
apontados: se 2014 bateu todos os records, com mais de duzentos mil migrantes a
atravessarem o Mediterrâneo, o ano de 2015 prepara-se para bater esse record,
por larga margem; basta atentarmos no facto de, só na última semana (meados de
setembro), terem chegado cerca de trinta mil à Croácia. Além disso, é
admissível o crescimento destes números nos próximos tempos, na medida em que
esta “abertura” da Europa funcionará, para muitos, como um incentivo para
enfrentarem a morte possível no mar, fugindo à morte provável nos seus países.
A solução para o problema, como qualquer pessoa compreenderá, tem que ser
aplicada a montante, isto é, nas suas causas, como sejam a miséria, a fome e as
lutas fratricidas pelo poder, em países como a Síria, a Eritreia, o Sudão, a
Etiópia e o Afeganistão, entre outros, todos eles em guerra e donde é
originária a esmagadora maioria destes refugiados.
A ignorância e o egoísmo de muitos europeus
levam-nos à arrogância de pensarem que não temos qualquer obrigação para com
essas pessoas – nem de as acolher, nem de as ajudar a criar as condições que
lhes permitam viver com dignidade nas suas terras. Alguns vão mesmo ao extremo
de considerar a maioria deles como perigosos terroristas ou descendentes do
terrível Almançor, cujo objetivo secreto é reeditarem, na Europa atual, as
“razias” com que ele assolou os territórios cristãos no final do século X, na
Península Ibérica, quando, na realidade, uma boa parte deles foge,
precisamente, do fundamentalismo islâmico. Sendo compreensível a necessidade de
colocar bastante precaução, entenda-se controlo, na forma como essas pessoas
são integradas na nossa sociedade, já essas atitudes de egoísmo e de pura
xenofobia são tão mesquinhas e irracionais que não merecem qualquer
argumentação no sentido de as rebater. Importa, no entanto, ensinar a esses
deserdados do conhecimento que, além de tudo o que tem a ver com direitos
humanos, temos, também, responsabilidades históricas no que respeita às causas
deste fenómeno. Primeiro os europeus, mais recentemente também os norte
americanos, serviram-se da generalidade dos povos africanos, asiáticos e sul
americanos como se fossem propriedade sua por direito natural ou divino.
Exploraram-nos, saquearam-nos e sacanearam-nos, durante séculos. Apesar da independência
concedida, a contragosto, não deixaram de continuar a controlá-los
politicamente de forma a manter essa enorme fonte de todo o tipo de matérias
primas, desde o ouro ao petróleo, acessíveis e baratas. Entretanto, sem se
preocuparem minimamente com o seu desenvolvimento, para não os tornar
concorrentes, foram estimulando o consumo nesses povos, como forma de alargar
os imprescindíveis mercados, sem os quais o capitalismo ocidental definha, mas não
os estimulando no desenvolvimento das suas infra estruturas produtivas. Por
isso, a política geoestratégica do Ocidente foi sempre no sentido de manter o
controlo político desses países e usar os seus povos como carne para canhão, de
modo a alimentar as suas indústrias, como a do armamento, dos medicamentos e
muitas outras. (Sobre isto vejam o filme “O fiel jardineiro”, do realizador
Fernando Meirelles). Daí a conveniência de provocar e manter, cíclica e
regularmente, umas guerrazitas, mais fáceis de alimentar quanto mais esses
povos permanecerem num subdesenvolvimento atroz. O Ocidente nunca quis,
verdadeiramente, a independência desses povos e, por essa razão, arranjou
outras formas de os continuar a dominar e a explorar. Esta vaga de refugiados
não é mais do que uma consequência dessa política. Assim sendo, temos
responsabilidades históricas e morais para com essa gente. Não querer perceber
isso, além de pouco inteligente é, inclusive, perigoso. A própria Merkel que,
não sendo nenhuma Pandora, também não é nenhuma Eumênide, como agora aparece
aos olhos desses refugiados, percebeu a gravidade da situação e contribuiu
decisivamente para que esta solução de recurso fosse aprovada. Absolutamente
lamentável é a atitude xenófoba de alguns países como a Eslováquia, a Roménia,
a República Checa e, muito especialmente, a Hungria que votaram contra este
acordo, ou a própria Finlândia que se absteve. Seria justo que, tal como
ponderou a saída da Grécia do euro, por razões económicas, a UE também ponderasse,
agora, a saída desses países da comunidade europeia por razões políticas e
culturais. Mas esses países são governados por partidos de direita e a Grécia
por um partido de esquerda, daí os dois pesos e as duas medidas. Adiante.
Absolutamente inqualificável foi a declaração conjunta dos ministros do
interior de França, Bernard Cazeneuve, e da Inglaterra, Theresa May, no final
de julho, para justificar o comportamento violento da polícia francesa, à
húngara, no sentido de impedir que centenas de migrantes atravessassem o Canal
da Mancha, na região de Calais: “as nossas ruas não estão pavimentadas a ouro”.
Não deixa de ser objetivamente verdade. Mas também é verdade que, se a
estupidez, o cinismo e a falta de vergonha pudessem transformar-se em ouro, estes
dois ministros, sozinhos, poderiam pavimentar com esse metal precioso todas as
ruas da França e da Inglaterra. Fariam um belo par de calceteiros, cujo
padrinho poderia, perfeitamente, ser David Cameron que, há cerca de um ano,
também queria pavimentar o Mediterrâneo, não com ouro, mas com os cadáveres dos
refugiados, ao defender a tese de que a Europa resolveria o problema deixando
de os socorrer quando naufragam. Ou seja, mais uma prova de que não há limites
para a estupidez humana.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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