terça-feira, 24 de novembro de 2015

A CRISE DOS REFUGIADOS

Finalmente, o Velho Continente “acordou” para a questão dos refugiados e, através do acordo alcançado pela maioria dos países da União Europeia, ter-se-á dado um primeiro passo para lidar de forma racional e sensata com este fenómeno. Obviamente, este acordo não é “a” solução para o problema. Se pensarmos que, neste momento, existem mais de oito milhões de pessoas em campos de refugiados no Médio Oriente e na África e outros incontáveis milhões que anseiam por uma oportunidade de rumar à Europa, ainda que isso lhes custe a vida, percebe-se que a gravidade e a dimensão do problema exigem outras respostas além desta, agora “acordada”. O acolhimento voluntário de cento e vinte mil refugiados, por parte de vários países da UE, constitui-se como um passo inevitável, embora insuficiente, face aos números que têm sido apontados: se 2014 bateu todos os records, com mais de duzentos mil migrantes a atravessarem o Mediterrâneo, o ano de 2015 prepara-se para bater esse record, por larga margem; basta atentarmos no facto de, só na última semana (meados de setembro), terem chegado cerca de trinta mil à Croácia. Além disso, é admissível o crescimento destes números nos próximos tempos, na medida em que esta “abertura” da Europa funcionará, para muitos, como um incentivo para enfrentarem a morte possível no mar, fugindo à morte provável nos seus países. A solução para o problema, como qualquer pessoa compreenderá, tem que ser aplicada a montante, isto é, nas suas causas, como sejam a miséria, a fome e as lutas fratricidas pelo poder, em países como a Síria, a Eritreia, o Sudão, a Etiópia e o Afeganistão, entre outros, todos eles em guerra e donde é originária a esmagadora maioria destes refugiados.
A ignorância e o egoísmo de muitos europeus levam-nos à arrogância de pensarem que não temos qualquer obrigação para com essas pessoas – nem de as acolher, nem de as ajudar a criar as condições que lhes permitam viver com dignidade nas suas terras. Alguns vão mesmo ao extremo de considerar a maioria deles como perigosos terroristas ou descendentes do terrível Almançor, cujo objetivo secreto é reeditarem, na Europa atual, as “razias” com que ele assolou os territórios cristãos no final do século X, na Península Ibérica, quando, na realidade, uma boa parte deles foge, precisamente, do fundamentalismo islâmico. Sendo compreensível a necessidade de colocar bastante precaução, entenda-se controlo, na forma como essas pessoas são integradas na nossa sociedade, já essas atitudes de egoísmo e de pura xenofobia são tão mesquinhas e irracionais que não merecem qualquer argumentação no sentido de as rebater. Importa, no entanto, ensinar a esses deserdados do conhecimento que, além de tudo o que tem a ver com direitos humanos, temos, também, responsabilidades históricas no que respeita às causas deste fenómeno. Primeiro os europeus, mais recentemente também os norte americanos, serviram-se da generalidade dos povos africanos, asiáticos e sul americanos como se fossem propriedade sua por direito natural ou divino. Exploraram-nos, saquearam-nos e sacanearam-nos, durante séculos. Apesar da independência concedida, a contragosto, não deixaram de continuar a controlá-los politicamente de forma a manter essa enorme fonte de todo o tipo de matérias primas, desde o ouro ao petróleo, acessíveis e baratas. Entretanto, sem se preocuparem minimamente com o seu desenvolvimento, para não os tornar concorrentes, foram estimulando o consumo nesses povos, como forma de alargar os imprescindíveis mercados, sem os quais o capitalismo ocidental definha, mas não os estimulando no desenvolvimento das suas infra estruturas produtivas. Por isso, a política geoestratégica do Ocidente foi sempre no sentido de manter o controlo político desses países e usar os seus povos como carne para canhão, de modo a alimentar as suas indústrias, como a do armamento, dos medicamentos e muitas outras. (Sobre isto vejam o filme “O fiel jardineiro”, do realizador Fernando Meirelles). Daí a conveniência de provocar e manter, cíclica e regularmente, umas guerrazitas, mais fáceis de alimentar quanto mais esses povos permanecerem num subdesenvolvimento atroz. O Ocidente nunca quis, verdadeiramente, a independência desses povos e, por essa razão, arranjou outras formas de os continuar a dominar e a explorar. Esta vaga de refugiados não é mais do que uma consequência dessa política. Assim sendo, temos responsabilidades históricas e morais para com essa gente. Não querer perceber isso, além de pouco inteligente é, inclusive, perigoso. A própria Merkel que, não sendo nenhuma Pandora, também não é nenhuma Eumênide, como agora aparece aos olhos desses refugiados, percebeu a gravidade da situação e contribuiu decisivamente para que esta solução de recurso fosse aprovada. Absolutamente lamentável é a atitude xenófoba de alguns países como a Eslováquia, a Roménia, a República Checa e, muito especialmente, a Hungria que votaram contra este acordo, ou a própria Finlândia que se absteve. Seria justo que, tal como ponderou a saída da Grécia do euro, por razões económicas, a UE também ponderasse, agora, a saída desses países da comunidade europeia por razões políticas e culturais. Mas esses países são governados por partidos de direita e a Grécia por um partido de esquerda, daí os dois pesos e as duas medidas. Adiante. Absolutamente inqualificável foi a declaração conjunta dos ministros do interior de França, Bernard Cazeneuve, e da Inglaterra, Theresa May, no final de julho, para justificar o comportamento violento da polícia francesa, à húngara, no sentido de impedir que centenas de migrantes atravessassem o Canal da Mancha, na região de Calais: “as nossas ruas não estão pavimentadas a ouro”. Não deixa de ser objetivamente verdade. Mas também é verdade que, se a estupidez, o cinismo e a falta de vergonha pudessem transformar-se em ouro, estes dois ministros, sozinhos, poderiam pavimentar com esse metal precioso todas as ruas da França e da Inglaterra. Fariam um belo par de calceteiros, cujo padrinho poderia, perfeitamente, ser David Cameron que, há cerca de um ano, também queria pavimentar o Mediterrâneo, não com ouro, mas com os cadáveres dos refugiados, ao defender a tese de que a Europa resolveria o problema deixando de os socorrer quando naufragam. Ou seja, mais uma prova de que não há limites para a estupidez humana.

José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


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