quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


 

VALENTINE’S DAY

 

 

 

Tom Waits,

Para os solitários.

Arrefecimento diurno

Ruas troteadas ou pedilentas

Escuro, trinta e cinco milímetros.

Palavras. Novas.

Sapatos gastos, comidos, mastigados, rotos.

Na biqueira.

Meia-noite. S. Valentine’s Day.

Arrefecimento nocturno

Ruas cambaleadas ou cusifrias

Negativo, trinta e cinco milímetros.

Palavras. Impossíveis.

Ideias inúteis, fugidias, vertiginosas, cruas.

No caleidoscópio.

Madrugada. S. Valentine’s Day.

Sol.

 

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

 

UMA COISA BONITA PARA TI

 

 

Esta noite,

Queria escrever uma coisa bonita para ti.

Não te conheço, não sei quem és.

A tristeza, a minha solidão,

Também o meu orgulho,

Tu podes ser tudo isso.

A beleza de uma folha que cai no chão,

O papel que voa na calçada,

Impelido pela ventania.

Estas coisas simples

Que me fazem sentir pequeno como elas.

Não sei dizê-las,

Mas gosto de as ver e de as sentir.

Lisboa já foi essa terra amada,

Esses sons conhecidos,

Essa paisagem nocturna,

Essas ruas de pedra e de mim.

Hoje é o silêncio e o vento

E o isolamento.

Uma prisão invisível, natural,

E o medo de falar dela.

As pessoas fogem dos outros

E não é possível encontrar alguém.

Aqui, o dia e a noite

São duas faces da mesma moeda.

O encontro com os outros,

O encontro comigo mesmo,

A impossibilidade do encontro.

Solitário e farto de o ser,

Mergulho numa tristeza infinita

E canto como a fonte que ouço:

Sempre igual, sempre simples, sempre só.

O trabalho de me descobrir

Reduz-se a um cigarro no escuro

E a duas lágrimas que não saltam.

A impressão de que o tempo parou

E tudo se resume a este silêncio

E a esta distância de tudo.

Estas amarras que nos prendem

Nesta vida sem sentido,

Neste destino de água de fonte.

A noite

A tristeza

A solidão

O orgulho

O cigarro

A beleza de uma folha que cai no chão

Tu podes ser tudo isso.

Esta noite

Quis escrever uma coisa bonita para ti.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

“UM ADEUS PORTUGUÊS”

 

 

.(Impressionado pelo filme com o mesmo nome)

 

Um homem de pé, esperando a morte,

Pressentindo-a em cada ruído.

A noite; a guerra; o medo.

A solidão e a saudade num ritual silencioso,

Feito de desespero e de impotência.

Um cigarro; um fósforo; um tiro.

Uma espera sem futuro e sem sentido

De uma mulher terna e frágil.

O carinho; a mentira; a insatisfação.

A morte sempre adiada e sempre presente,

Marcada num rosto triste de mãe.

O filho; a memória; o abandono.

A indiferença notada e fria de um velho

Empedernido numa certeza desmentida.

A pátria; a derrota; a esterilidade.

Alguém vivendo uma vida alheia e determinada

Com uma esperança melancólica.

O passado; o destino; o irmão.

Um povo culpado querendo esquecer

A vergonha escondida e recente.

A culpa; a hipocrisia; a consciência.

Uma memória que perdura e fere a carne

De mortos vivos e sepultados.

A inutilidade; o sofrimento; o sangue.

A vida desejada que nunca se realiza

Porque não somos donos de nós.

O tudo; o nada; a vida.

Um homem de pé, esperando a morte,

Pressentindo-a em cada ruído.

O medo; a guerra; a noite.

A morte.

 

 

 

José Júlio Campos

 

PORQUANTO SOU SEM SABER …

 

 

 

Porquanto sou, sem saber,

Vítima injusta e cruel de mim mesmo.

Vivo amarrado a milhentas cordas

E dependente de inúmeras e incontáveis amarras.

O tédio é de uma viscosidade repugnante.

Bloqueio físico e mental,

Preguiça,

Vontade de fugir,

Saudade dos tempos alegres,

Invencível vontade de vencer,

Contradição,

Dor.

Tempo inesgotável,

Escorrido friamente,

Apetece-me virar-te do avesso,

Fazer contigo diabruras,

Não te dar mais corda,

Não mais te virar a folha do calendário.

Um cigarro.

Uma máquina.

Dor.

Faltam-me os ovos.

Matei a galinha da fábula.

E agora?

Dormir um sono sem sonho até acordar in illo tempore.

Palavras sem recheio,

Regurgitadas à conta de dois dedos,

Arrastadas pegajosamente como a lama dos caminhos.

Inutilidade e abandono.

Pegar o touro pelos cornos,

Realizar o impossível,

A loucura espera por si no virar daquela rua.

Risos,

Facas,

Estiletes aguçados

Rasgam as entranhas da vida;

Vazio,

Abismo,

Alegria.

A origem de todas as coisas,

A liberdade,

O desejo,

A origem de todo o mal,

A engrenagem bloqueada,

Onde está a pedrinha?

Dissequem-me,

Revirem-me,

Encontrem em mim algum indício.

Carne e só carne.

Porquanto sou, sem saber,

Vítima injusta e cruel de mim mesmo.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

PAIXÃO VIRGINAL

 

 

 

 

Correm, azuis, espirais de fumo

Perfumadas de odores misteriosos

Secam-se no ar que eu consumo

E absorvo em devaneios gulosos.

 

Nada me garante a minha vida

Como fumo de cigarro que se gasta

A minha alma, coitada, está perdida

Por esta sensação vera e nefasta.

 

Tu que me comandas docemente

Repara em mim que ardo de paixão

E me afogo em álcool, loucamente.

 

Por já não fazer bom uso da razão

Afasto-me de mim perdidamente

E entrego-me ao sabor do coração.

 

 

 

José Júlio Campos

 

NO FILME ERRADO

 

 

(No dia depois da morte de Zeca Afonso)

 

Atolado.

Subi e desci com a facilidade da águia.

Hoje não compreendo nada.

A angústia apanhou-me mesmo na boca do estômago.

Apetece-me vomitar.

Dois wiskies.

Um conto de reis.

Sóbrio e vazio.

E depois a consciência.

Pão para repartir?

Pão que não há para repartir?

E então?

O Zeca morreu.

Pois.

Hipocrisia, só vejo a minha.

Leram e pensaram: este gajo é comunista.

Fizeram uma cara de circunstância como lhes competia.

Nem tinham que fazer mais nada.

Eu é que me preocupo com isso.

Lutar?

Pois.

Mas pianinho que a polícia tem cassetetes

E os cassetetes magoam as costas.

Mas depois há os pisang ambon

E a música brasileira

E as piadinhas inocentes

E os pubs de gente bem

E os vinte aninhos da menina

E as horas para chegar a casa

E quando não há que festa,

Vamos fazer uma noitada,

Só nos deitamos às três.

E eu?

Eu percorro isto, solitário,

O mais sabedor e o mais ignorante,

Ponham o Maradona a tocar violoncelo.

A boémia sem álcool

E a felicidadezinha do adoro, é tão querido, foi giro não foi, gostaste? Porquê?

Pergunta estúpida, resposta óbvia: porque eu não sou deste filme.

E este filme é tudo: o passado e o presente, o etilizado e o sóbrio.

Estou gasto sem lhe ter tomado o gosto.

Mas quero.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

LOUCURA SEGUNDO ZARATUSTRA

 

 

Voltei a perder-me.

Algo de mau, de terrível, cresce em mim.

Os seus tentáculos, sinto-os.

Começam a apanhar-me a boca do estômago, as entranhas, o peito,

Espalham-se aos membros desejosos de destruição

E finalmente a cabeça explode

Num feérico fogo de artifício multicor.

O nada, o sem-sentido, cresce como um polvo invisível

Dentro do meu corpo que me apanha, me arrasta,

Me joga na lama em que me afogo.

Perdi o centro e giro à volta de nada, no abismo.

Tenho necessidade de reencontrar aquela certeza que me orientava;

Aquela imunidade que me protegia;

Aquela indiferença que nunca consegui.

É necessário que eu não confie em ninguém.

Tenho vontade de mentir, de ser cruel, de ser mau, de ser cínico,

De rir, rir, rir, por trás de uma máscara,

Fazendo ecoar o meu riso por pinhais povoados de duendes

Que transformam o riso em música suave

Embaladora de meninos inocentes.

Cada vez que me perco,

Sinto crescer em mim esse desejo,

Esse terrível desejo de vingança,

De destruição,

De maldade.

Apetece-me ser soldado de Herodes,

Degolar crianças inocentes e devorar as suas cabeças,

Escorrendo sangue pelas barbas imundas.

Ele vem aí, o polvo monstruoso,

Aquele que me possui e me há-de libertar.

Um dia, passarei na rua como um vendaval terrível

Que ninguém vê e tudo destrói,

Anjo da morte,

Anjo exterminador,

Filho de Satanás.

O louco;

Aquele que o é por tanto não o ser;

Aquele que por tanto acreditar não confia nele próprio;

Aquele que por tanto amar se odeia a si próprio;

Aquele que por tanto lutar se destrói a si próprio;

Aquele que por tanto querer perdeu a vontade.

Aquele que se esgotou.

Não posso.

Construo um muro indestrutível à minha volta, de betão armado.

Hei-de conseguir cimentar o último buraco.

E quando o oxigénio não alimentar mais o meu espírito,

O meu corpo há-de explodir

Destruindo a obra divina.

O dia está para breve.

Preparai-vos para a grande explosão.

Para serdes esmagados nos tentáculos do polvo.

Estou louco e destruir-vos-ei a todos!

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! ...

 

 

 

José Júlio Campos

 

IMPRESSIONISMO COM POUCOS VERBOS

 

 

 

Pois.

No escuro me derramo,

Tristeza e abandono,

Sol e sonho num deserto.

As palavras sem sentido,

As ideias sem palavras,

A vida morta numa terra fria.

A loucura próxima,

O arame,

A inconsciência,

O pesadelo do abismo.

Estar sem ser, viver sem nada, sangrar sem ferida.

Matéria fecunda, ideias vazias, memória inerte.

Um tronco velho, seco, mirrado.

A ausência permanente, redentora, silenciosa.

A dúvida, o nada.

Perder-se num mundo real, idêntico, unívoco.

A verdade e a mentira, a ilusão,

A certeza, a palavra e o silêncio.

A abstenção e a vontade,

O desejo e o sofrimento,

A indecisão permanente.

O sentimento e o medo.

Um palhaço ridículo, um actor falhado, pretensioso.

Uma comédia dramática, um riso chorado e sofrido,

Mas também cruel.

Uma ópera bufa, cortinas diáfanas,

Verdade ou mentira,

Comédia de costumes, de sentimentos, de ideias.

Máscaras.

Teatro.

Uma vontade forte de nada.

Uma fuga centrípta de tudo.

Ser sem pensar, sentir sem amar, querer sem desejar.

Não ser.

O silêncio.

A solidão assumida, a comunhão natural, o desinteresse absoluto.

A felicidade.

O medo da morte expelido, o medo da vida desprezado.

Querer vencer.

A vingança necessária, o ódio recalcado,

O cinismo de um riso irónico.

O apaziguamento de quem sabe.

A vida fora do tempo.

Desligado,

Duvidoso,

Indiferente,

Impotente,

Contraditório,

Maníaco,

Cínico,

Ridículo,

Sábio,

Iludido,

Pretensioso,

Imune,

Misericordioso,

Ignorante,

Calmo,

Vingativo,

Medroso,

Ardente,

Frio,

Misterioso,

Longínquo,

Impávido,

Forte.

Bom e mau.

 

 

 

José Júlio Campos