LOUCURA SEGUNDO ZARATUSTRA
Voltei a perder-me.
Algo de mau, de terrível, cresce em mim.
Os seus tentáculos, sinto-os.
Começam a apanhar-me a boca do estômago, as entranhas, o peito,
Espalham-se aos membros desejosos de destruição
E finalmente a cabeça explode
Num feérico fogo de artifício multicor.
O nada, o sem-sentido, cresce como um polvo invisível
Dentro do meu corpo que me apanha, me arrasta,
Me joga na lama em que me afogo.
Perdi o centro e giro à volta de nada, no abismo.
Tenho necessidade de reencontrar aquela certeza que me orientava;
Aquela imunidade que me protegia;
Aquela indiferença que nunca consegui.
É necessário que eu não confie em ninguém.
Tenho vontade de mentir, de ser cruel, de ser mau, de ser cínico,
De rir, rir, rir, por trás de uma máscara,
Fazendo ecoar o meu riso por pinhais povoados de duendes
Que transformam o riso em música suave
Embaladora de meninos inocentes.
Cada vez que me perco,
Sinto crescer em mim esse desejo,
Esse terrível desejo de vingança,
De destruição,
De maldade.
Apetece-me ser soldado de Herodes,
Degolar crianças inocentes e devorar as suas cabeças,
Escorrendo sangue pelas barbas imundas.
Ele vem aí, o polvo monstruoso,
Aquele que me possui e me há-de libertar.
Um dia, passarei na rua como um vendaval terrível
Que ninguém vê e tudo destrói,
Anjo da morte,
Anjo exterminador,
Filho de Satanás.
O louco;
Aquele que o é por tanto não o ser;
Aquele que por tanto acreditar não confia nele próprio;
Aquele que por tanto amar se odeia a si próprio;
Aquele que por tanto lutar se destrói a si próprio;
Aquele que por tanto querer perdeu a vontade.
Aquele que se esgotou.
Não posso.
Construo um muro indestrutível à minha volta, de betão armado.
Hei-de conseguir cimentar o último buraco.
E quando o oxigénio não alimentar mais o meu espírito,
O meu corpo há-de explodir
Destruindo a obra divina.
O dia está para breve.
Preparai-vos para a grande explosão.
Para serdes esmagados nos tentáculos do polvo.
Estou louco e destruir-vos-ei a todos!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! ...
José Júlio Campos