quinta-feira, 19 de abril de 2012

O DISCURSO POLÍTICO OU A BANALIZAÇÃO DA MENTIRA

Um dos aspetos mais preocupantes dos tempos que vivemos é, do meu ponto de vista, a desfaçatez e falta de vergonha com que os políticos banalizaram a mentira no seu discurso. Essa é, aliás, a razão primeira da descredibilização quase total dos políticos perante a opinião pública generalizada.
Para essa realidade contribuíram vários fatores como a falta de qualidade intelectual e ética dos indivíduos que tomaram conta dos partidos políticos, assim como a deterioração da memória do eleitorado provocada pelo bombardeamento de mensagens políticas que provocam um misto de confusão e repulsa que levam ao alheamento. No que respeita à comunicação social, a grande maioria do público prefere as mensagens relacionadas com entretenimento, desporto, coscuvilhice ou crime de “faca e alguidar” às mensagens de natureza política; e não é só por falta de formação ou de cidadania que isso acontece, mas, sobretudo, por cansaço e falta de paciência para uma tal desfaçatez com que se recorre à mentira no discurso político que, às vezes, até parece “gozo”. Esse alheamento é tanto mais preocupante na medida em que se verifica, principalmente, na faixa etária com menos de quarenta anos e ajuda a perceber a tendência para o significativo aumento da abstenção nas eleições mais recentes.
Um dos exercícios mais interessantes que alguém com uma boa dose de paciência poderá fazer é registar as afirmações que os políticos fazem, hoje, com a maior solenidade e circunstância e compará-las com aquilo que vão afirmar ou fazer, daqui a poucos meses, não com menor espavento e seriedade, sobre o mesmo assunto. Se formos pessoas bem-dispostas escreveremos, dessa forma, um divertido livro de anedotas; se formos mais coléricos, teremos, com certeza, matéria para a realização de um manifesto anti-políticos. Este exercício atingirá o seu esplendor se, pelo meio, os políticos em observação transitarem da oposição para o poder ou vice-versa, sobretudo se esse poder for absoluto como acontece atualmente no nosso país; aí é que a falta de decoro, a desfaçatez e a sem-vergonha se tornam totalmente escandalosas e insuportáveis. Tomemos como exemplo o atual primeiro-ministro. Todos (?) nos lembramos de que, há um ano atrás, esse senhor, então em campanha eleitoral, afirmava perentoriamente que jamais usaria como desculpa para as medidas que viesse a tomar aquilo que o governo anterior tinha feito; depois de ganhar as eleições e estar no governo, não houve medida relevante cuja necessidade não fosse justificada com a herança deixada pelo anterior governo. Todos (?) nos lembramos de esse senhor afirmar que “pensar em cortar os subsídios de férias e de Natal seria um grande disparate” e que a crise tinha de ser atacada com outras medidas; infelizmente, não disse quais e o corte desses subsídios aos funcionários públicos e aos reformados tornou-se a grande medida de combate à crise. Todos (?) entendemos, e bem, que esse corte, anunciado em Outubro de 2011, se aplicaria apenas nos anos de 2012 e 2013; passado apenas meio ano, e numa altura em que a propaganda do governo vem afirmando que no final de 2013 estaremos em condições de voltar aos mercados, ou seja, com a crise debelada, vêm-nos dizer que, afinal, o corte se prolongará para 2014, quiçá para 2015. De mentira em mentira é previsível que amanhã nos digam que esse corte é “ad aeternum”. Mas também, de mentira em mentira, estes senhores vão-se tornando os coveiros da democracia porque não há democracia que resista a tanta mentira. Sobretudo quando ela se tenta esconder sob a máscara do lapso e é veiculada com o ar seráfico de quem encerra um poço de virtudes. O atual governo adotou a estratégia da mentira e da matreirice (como aconteceu recentemente com a lei que impossibilita as reformas antecipadas até 2015) na sua relação com os cidadãos. Isso só pode contribuir para desacreditar ainda mais os políticos, a atividade política e a democracia criando um caldo de revolta que, minando as consciências, poderá, a médio prazo, fazer implodir o modelo social e político vigente.



José Júlio Campos

sexta-feira, 30 de março de 2012

NÓS, OS OUTROS E O S. PEDRO

Terminou, há poucos dias, o inverno mais seco desde que existem registos de pluviosidade em Portugal. Trata-se de um facto que exige uma reflexão, para além da proverbial resignação de quem sabe que, contra as adversidades climáticas, ao homem pouco mais resta do que promover umas novenas e pedir clemência a S. Pedro como fez a ministra Cristas. Mas será que a responsabilidade pelo clima é apenas do santo que tem as chaves do Paraíso e o problema se enfrenta com as estratégias da ministra?
Até há um século atrás, poderíamos dizer que sim: sempre existiram “variações” climáticas naturais num planeta vivo, onde ocorrem permanentes transformações bioquímicas e os eventuais desvarios dos ciclos climáticos se resolviam com uma boa dose de paciência e umas orações ou umas danças!
Acontece que hoje, a esse fenómeno natural acresce e sobrepõe-se um outro designado por “alterações” climáticas, este provocado pela ação humana. Desde o séc. XIX, a civilização ocidental desenvolveu e disseminou um “monstro” conhecido como “capitalismo industrial” cuja lógica se resume ao seguinte: produzir mais, vender mais, lucrar mais. No entanto, esta lógica levada ao extremo e praticada sem limites, como tem vindo a acontecer, acabou por trazer consequências dramáticas no equilíbrio social e ambiental do planeta. A nível social, a lógica capitalista assenta na imposição de uma mentalidade consumista alimentada por uma publicidade agressiva e imoral que explora os sentimentos, as emoções e as necessidades mais básicas e vulneráveis do ser humano. Este consumismo capitalista é responsável pelo crescimento exponencial das desigualdades sociais e a consequente criação de um exército cada vez maior de miseráveis que começa a tornar-se uma ameaça séria à estabilidade e segurança das comunidades. A nível ambiental, as consequências do capitalismo industrial são, ainda, mais nefastas. A maquiavélica obsessão pelo lucro leva a uma produção incessante em que não se olha a meios e recursos para o aumentar. O deus-lucro, único que o capitalista adora, sobrepõe-se a todos e tudo é sacrificado no seu altar – a gestão equilibrada dos recursos naturais e do ambiente, a dignidade do ser humano e o seu natural direito a usufruir de condições de vida saudáveis, a partilha equitativa e justa dos bens naturais, enfim, o próprio equilíbrio ecológico do planeta. A voragem do lucro tem levado à extinção de várias espécies vegetais e animais, bem como a processos de produção industrial e hábitos de consumo altamente poluidores e diretamente responsáveis por fenómenos como o aumento da temperatura média global, a destruição da camada de ozono, o efeito de estufa ou o degelo dos glaciares. E não resta hoje qualquer dúvida que os invernos secos como este que terminou, os verões cada vez mais quentes, a desertificação de vastas regiões, como o Alentejo, as catástrofes naturais já vistas ou iminentes, como tufões, cheias, tsunamis, tornados, ou a subida do nível dos mares, são consequências diretas desse sistema económico, a que estaremos sujeitos cada vez com maior frequência e gravidade, caso os EUA, a China e quejandos continuem a fomentar esta corrida para o abismo que são as suas políticas irresponsáveis. Mas também a nível individual existe uma responsabilidade que nos impõe uma inevitável e imediata mudança de mentalidade: é urgente uma alteração radical nos nossos hábitos no sentido de consumirmos menos e melhor, valorizarmos o essencial – o ser – em detrimento do acessório – o ter, não viver para consumir, mas consumir apenas o estritamente essencial para viver. Só desta forma poderemos escapar ao apetite insaciável dos tubarões que se perfilam por trás da máquina industrial capitalista e reduzir esta marcha acelerada para a destruição do planeta.

José Júlio Campos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PRIMAVERA MULHER ESPERANÇA

Neste mês de Março ocorre-me salientar dois eventos que nele se repetem, pela simbologia que assumem no atual contexto e pela relação que é possível estabelecer entre eles. Trata-se do Dia Internacional da Mulher e do início da Primavera.
A celebração do Dia Internacional da Mulher deve ser entendida como um sinal de alerta para um dos fenómenos mais incompreensíveis e condenáveis da história da humanidade – a relação de subalternidade e submissão da mulher face ao homem e as dramáticas consequências daí decorrentes que todos conhecemos. Apesar dos progressos verificados, que o dia 8 de Março também pretende comemorar, o facto é que a mulher ainda continua a ser uma vítima generalizada da prepotência masculina, como facilmente constatamos se olharmos para o que se passa com o atropelo constante dos seus direitos, sejam eles os mais cívicos e elementares, como acontece em muitos povos islâmicos, ou os mais progressistas e ocidentalizados como os direitos sociais e laborais. No nosso país, por exemplo, onde teoricamente os direitos humanos em geral e os das mulheres em particular estão, desde a Revolução de Abril, culturalmente consolidados e legalmente instituídos, continuamos, na prática, a assistir à sua mais vergonhosa violação como o provam o aumento da violência doméstica contra as mulheres e a discriminação contra grávidas no meio laboral empresarial.
No dia 21 de Março inicia-se a estação do ano mais rica em termos de simbologia; a Primavera é, entre muitos outros, símbolo de juventude, símbolo de vida e símbolo de fertilidade.
Existe, pois, uma óbvia relação simbólica entre a Primavera e a mulher da qual podemos tirar algumas ilações neste mês de Março. É que mulheres e homens continuam a ter necessidade de lutar, juntos, pela consolidação plena da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre todos os seres humanos, princípios básicos e inalienáveis que a Revolução Francesa consolidou e que permitiram à mulher, pelo menos no mundo ocidentalizado, atenuar a absurda discriminação negativa de que foi vítima ao longo dos tempos. No mundo atual podemos constatar a emergência de alguns sinais de esperança, como a chamada “Primavera árabe” que pode funcionar para as mulheres de alguns povos islâmicos como ponto de partida para a sua emancipação individual e social; mas também continuam a proliferar os exemplos de retrocesso que tendem a aumentar com a situação de crise económica e social em que vamos vivendo, como sejam a violência doméstica, o assédio sexual, a discriminação e remuneração desigual no mercado de trabalho, o tráfico de mulheres e exploração da prostituição, etc.
Esta associação entre a Primavera e a mulher que ocorre no mês de Março pode ser um sinal de esperança para todos nós: acreditemos que o clima e o mundo vão melhorar; acreditemos que o frio e a maldade do homem vão atenuar-se; acreditemos que a água-chuva fertilizante da terra, em Abril será mil; acreditemos que a mulher revitalizadora e primavera da humanidade poderá cumprir o seu ideal.
O verde com que a Primavera veste a natureza é também o símbolo da esperança com que podemos vestir os nossos corações: acreditemos que podemos ter uma terra permanentemente primaveril e uma humanidade permanentemente feminina, isto é, igualmente férteis, revitalizantes, belas e criadoras de beleza.



José Júlio Campos

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL (III)

A teoria da inexequibilidade do estado social tem vindo a ser alicerçada em dois argumentos que não passam de meras falácias que é imperioso desmontar.
Uma dessas falácias é o argumento de que a situação de crise em que nos encontramos se deve ao facto de “termos vivido acima das nossas possibilidades”. Trata-se, claramente, de uma falácia tecnicamente denominada de generalização precipitada, como se pode ver pelas seguintes razões. Em primeiro lugar porque se é certo que alguns terão vivido acima das suas possibilidades, iludidos pela publicidade enganosa e pela pressão para o consumo e o recurso ao crédito promovidas pelas entidades bancárias, também é verdade que isso não aconteceu com a maior parte das pessoas que se limitaram a melhorar um nível de vida que era, à data da entrada na então CEE, claramente terceiro-mundista. Portanto, no que se refere à dívida privada, o argumento apenas colhe em relação a uma parcela reduzida da população sendo, pois, falaciosa a sua generalização.
Já no que se refere à dívida pública, o argumento falha por razões ainda mais evidentes. Em primeiro lugar porque a maior parte das obras promovidas pelo Estado era absolutamente indispensável num país que padecia de décadas de atraso nas infra-estruturas existentes (em 1986 tínhamos apenas 196 Km de auto-estradas em todo o país); a construção dessas infra-estruturas era, aliás, uma condição fundamental para o aumento da produtividade e da competitividade da nossa economia. Em segundo lugar porque esse investimento do Estado foi, durante todos estes anos, o principal motor da nossa economia, ao contrário do investimento privado que ficou claramente aquém daquilo que o desenvolvimento do país exigia; e ficou aquém muito por culpa da mentalidade aforradora e socialmente insensível dos grandes empresários que tiveram como objectivo fundamental a acumulação de lucros e a sua multiplicação artificial em paraísos fiscais e mercados bolsistas em vez do seu reinvestimento na economia nacional. Além disso, o escasso reinvestimento foi feito preferencialmente no sector terciário, onde o retorno é mais imediato, mas onde a produção é quase nula; e, mais grave ainda, recorrendo preferencialmente à comercialização de produtos importados, por serem mais lucrativos, como acontece com as grandes cadeias de hipermercados, contribuindo ainda mais para a destruição da produção nacional. (Operações de cosmética mediática como a exposição de produtos nacionais na Avenida da Liberdade, patrocinada pelo Continente, não passam de formas hipócritas de lavar consciências pesadas e enganar consumidores incautos.)
Ao contrário do que muitos querem fazer crer, o investimento público não foi, na sua maior parte, desmesurado; o problema inerente e, esse sim, correctamente assacado ao investimento público tem a ver com a forma como ele foi, na generalidade, gerido pelos sucessivos governos e gestores públicos que nos desgovernaram nos últimos trinta anos; basta trazer à colação as sucessivas derrapagens nos custos finais das obras; os cambalachos nas suas adjudicações; a violação das recomendações do Tribunal de Contas; a megalomania de alguns governantes e autarcas; a satisfação de clientelas políticas e outras; enfim, a corrupção generalizada e sempre impune. Perante este cenário de má governação consecutiva não há estado social que resista; ou seja, não foi a função social do Estado que nos trouxe até esta situação, mas sim a forma danosa, incompetente e, em muitos casos, corrupta, como o Estado tem vindo a ser gerido. E esta constatação é já uma forma de desmontar a falácia demagógica da apregoada “falta de alternativas”; efectivamente existem alternativas à política de destruição do estado social que está a ser implementada no nosso país e na Europa; basta estar atento a algumas vozes lúcidas, como a do economista Paul Krugman, que vão rompendo o bloqueio a que a Comunicação Social as tem sujeitado.
Vejamos, apenas, alguns exemplos. Posto que o Estado tem vindo a ser mal gerido, a solução não é acabar com o Estado, nem com a sua função social, mas moralizar e optimizar a sua gestão. Ou seja, a solução não é, como preconiza o Governo, cortar a direito e, consequentemente, às cegas na saúde, na educação e na segurança social, mas acabar com as mordomias, os desperdícios e os “jobs for the boys” que continuam intactos; a solução não é acabar com o investimento do Estado, mas racionalizá-lo, focalizando-o para o estritamente indispensável ao desenvolvimento do país; a solução não é facilitar os despedimentos que vão aumentar o desemprego, mas implementar medidas concretas que levem à criação real de emprego. Já que os empregadores vão ver tão reforçada a sua já natural supremacia sobre os empregados, porque não exigir-lhes também algumas contrapartidas como, por exemplo, a obrigatoriedade de investir uma percentagem dos lucros (variável consoante a sua dimensão) na criação de postos de trabalho reais, na modernização das suas empresas e, porque não, na sua própria formação, já que muitos deles não têm mais do que a escolaridade mínima?
Aquilo a que estamos a assistir é à penalização dos mais indefesos e menos responsáveis pela situação actual, enquanto os verdadeiros responsáveis – governantes incompetentes, gestores públicos e grandes empresários gananciosos – continuam a ver os seus privilégios e regalias defendidos e reforçados.
As alternativas existem; assim as pessoas acordem para uma avaliação crítica e autónoma do conteúdo dos argumentos que lhes são apresentados e não continuem alienadamente agarrados a discursos formatados e demagógicos de políticos cujo único objectivo é mantê-las adormecidas para, nas suas costas, manobrarem a seu bel-prazer e em proveito próprio. Aliás, como têm feito até agora.  



José Júlio Campos

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL (II)

O OE para 2012 é apenas o início de uma política que terá continuidade agravada nos anos seguintes se nada de verdadeiramente fracturante entretanto acontecer. E essa política que está em marcha na Europa consiste exactamente na substituição de um “estado social de direito” por um “estado negocial selvagem”. Todas as medidas económicas concretas e toda a retórica política destilada da comunicação social têm um único e comum objectivo: fazer desaparecer o estado enquanto regulador das relações entre os parceiros sociais e instituir uma sociedade onde essas relações sejam reguladas exclusivamente pela negociação directa entre os parceiros; mas uma negociação assente não no direito democraticamente instituído, isto é, numa lei consensual, mas antes na lei da selva, isto é, a lei do mais forte. O que está em marcha na Europa é a instauração de um estado absolutamente liberal, onde, como dizia o romano Plauto, numa expressão popularizada por Thomas Hobbes, no séc. XVII, “homo homini lupus”, ou seja, o homem é lobo do homem.
É neste contexto social e político que se inscrevem as medidas preconizadas ou decorrentes do OE para 2012. Vejamos apenas alguns exemplos. As medidas que visam a redução da despesa, ao centrarem-se exclusivamente nos serviços públicos e nos funcionários públicos têm como objectivo desvalorizar a carreira nos serviços do estado – saúde, transportes, educação, etc – promovendo a fuga dos melhores quadros para os serviços privados, onde, seguramente, acabará por haver melhores remunerações; aliás, outras medidas concorrem para que esses serviços, que competiam preferencialmente ao estado, acabem por vir parar às mãos dos empresários privados, como sejam os brutais aumentos das taxas moderadoras nos serviços de saúde, ou dos preços dos transportes públicos. No entanto, tudo isto terá um preço óbvio para todos nós: a saúde, a educação, os transportes, a energia, a cultura e outros produtos básicos ficarão apenas ao alcance da bolsa de uma classe rica e privilegiada, enquanto a maioria da população viverá à míngua desses serviços podendo, qualquer um, morrer à porta de um hospital só porque não tem dinheiro ou seguro de saúde para pagar os serviços médicos. A privatização das poucas empresas que eram lucrativas para o estado é outra das medidas que se enquadram nesta política e que nos levarão a um empobrecimento colectivo e individual a que estamos irremediavelmente condenados e submissos como afirmou o próprio primeiro-ministro. (Emigremos, pois, todos, a começar por ele e deixemos o país aos abutres!) Ao mesmo tempo, o estado não quer sair de cena sem retirar ao elo social mais fraco aquilo que, enquanto estado social, lhe foi garantindo – o direito à negociação colectiva com base nos princípios da justiça social, da equidade e da defesa dos mais desfavorecidos. Neste afã de limpar de escolhos o caminho dos mais poderosos, o Governo prepara-se para alterar as leis laborais, impondo unilateralmente medidas como o prolongamento da duração dos contratos a prazo, a redução drástica da indemnização por despedimento ficando este ao critério arbitrário do empregador, o aumento dos horários e dos dias de trabalho gratuito, ou seja, sem o equivalente aumento de remuneração, etc; e tudo isto sem alterar uma vírgula na Constituição, o que não deixa de configurar um verdadeiro golpe de estado constitucional e palaciano.
Curiosamente, estas medidas, ao contribuírem inequivocamente para que haja um aumento do já enorme desemprego, acabarão por ser, também, um golpe fatal em qualquer esperança de saída da crise económica, acelerando o caminho para o abismo; mas esse é, lamentavelmente, o objectivo pouco secreto dos rostos escondidos por trás destes interesses económicos – quanto mais profunda e irreversível for a crise económica e social em que nos encontrarmos, maior será o sentimento de falta de alternativa a estas medidas; quanto maior for esse sentimento, mais fácil será impô-las; quanto mais estas medidas destruírem e desacreditarem o estado social, mais fácil se torna impor o “estado de negociação selvagem” em que tudo fica ao critério dos todo-poderosos mercados financeiros e seus beneficiários.
É este conceito da “falta de alternativas” juntamente com outro igualmente perverso de que “vivemos acima das nossas possibilidades” que estão a implodir a mentalidade pública actual por via da sua doutrinação até à exaustão e a criar terreno fértil para a aceitação masoquista, inconsciente e pacífica da destruição do estado social a que assistimos nos dias que correm. Como bois levados ao matadouro.


José Júlio Campos

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL (I)

Um dos temas recorrentes na actualidade política é a questão da exequibilidade do estado social.
Ouvimos diariamente políticos e comentadores opinar sobre o assunto, baseando-se numa cartilha que tem como objectivo evidente a destruição desse modelo de organização social. E essas opiniões vão fazendo eco no espírito de muito boa gente cujo desconhecimento em relação ao seu enquadramento histórico não lhe permite escapar aos falaciosos argumentos com que vão sendo sorrateiramente alienados.
Importa, antes de mais, recordar que o estado social é uma das principais conquistas da civilização ocidental, como corolário da luta pelos direitos humanos que, inspirando-se em filósofos como Jean-Jacques Rousseau, teve a Revolução Francesa como ponto de partida determinante. Daí até ao final do séc. XIX foi-se construindo o estado de direito que se fundamenta no respeito pelas liberdades básicas individuais de modo a que ninguém esteja acima da lei, nem mesmo o próprio estado; é ao longo deste período da História que se vão garantindo o direito à vida e à integridade física, à liberdade de pensamento e consciência, o fim da escravatura, etc… A partir do final do séc. XIX, e como resposta às grandes desigualdades sociais geradas pelo capitalismo industrial, a luta pelos direitos humanos passou a centrar-se nos direitos económicos, sociais e culturais, enquadrados pelo conceito de justiça social, com vista à promoção do bem comum e a uma distribuição mais justa e equitativa do produto social. Foi assim, como resultado dessa luta, que, na primeira metade do séc. XX, começaram a surgir na Europa os primeiros modelos de estado social, cujos fundamentos são o direito de acesso a bens básicos como a educação, a assistência na doença, um salário digno, protecção no desemprego, reforma digna, etc… A luta por estes direitos tem uma longa história de sofrimento, mortes e episódios dramáticos, protagonizada por homens e mulheres que não alienavam a sua consciência nem abdicavam da sua dignidade de seres humanos, e teve o seu ponto alto com a proclamação da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948.
A efectivação desses direitos nos diversos países do mundo não foi fácil, mesmo naqueles que assinaram a Declaração, continuando ainda hoje a verificar-se uma constante violação quer das liberdades individuais, quer dos direitos sociais – a China é um exemplo flagrante dessa realidade, mas existem muitos outros. Em Portugal, só após o 25 de Abril de 1974 é que a maior parte desses direitos foram implementados, contribuindo para mudar radicalmente o modo de vida das pessoas. Era desejável que os políticos, comentadores, economistas do sistema, banqueiros, possuidores de grandes fortunas e outros coveiros do estado social tivessem sempre na sua presença um exemplar da DUDH. Infelizmente, pelo contrário, assistimos, hoje, a uma ofensiva concertada a nível internacional por esses tubarões e seus acólitos no sentido de levar à destruição de direitos sociais básicos como os que se encontram estipulados na referida Declaração a partir do artigo 22º, nomeadamente o “direito à segurança social … e à satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais”, o “direito ao trabalho … e à protecção contra o desemprego”, o “direito ao descanso, ao desfrute do tempo livre, a limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas”, o “direito à educação gratuita”, etc…
Caso consigam atingir os seus intentos, através das políticas neo-liberais que estão a ser impostas nos países europeus, deixaremos, inevitavelmente, em herança aos nossos filhos um mundo claramente mais injusto e mais desigual do que aquele que herdámos das gerações que nos antecederam. Está, pois, em marcha um claro e inequívoco retrocesso civilizacional, promovido pelos rostos que se escondem atrás dos mercados financeiros e caucionado pelas políticas anti-sociais que gradualmente estão a ser implementadas em todos os países europeus.


José Júlio Campos 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

OS TEMPOS DO SINAL

Na fatídica noite de 13 de Outubro de 2011, a partir das 20 horas, fui “navegando” entre os canais noticiosos, com a expectativa de compreender minimamente o naufrágio que estava a acontecer. E, à medida que a noite foi avançando e eu ia fazendo a digestão do “bodo aos pobres” que o primeiro-ministro nos tinha acabado de prodigalizar, aliás com um ar tão consternado que até me pareceu ver as pedras da lareira chorarem, fui-me apercebendo que eles, os que mandam e os que comentam, andam desesperadamente à procura de um sinal, qual gambozino reluzente na escuridão da noite. Pus-me, também eu, à coca.
Primeiro, ainda pensei que procurassem um sinal divino, até pelo dia que era, mas depois percebi que o sinal era outro. E comecei a desconfiar que o famoso Graal, objecto de tanta busca inglória ao longo dos tempos, se metamorfoseara no malfadado sinal que hoje todos procuram e ninguém encontra. Andamos todos à procura do sinal como quem anda à procura da rolha. Voltando à noite de 13 de Outubro, alguns comentadores alvitravam que, embora compreendendo a inevitabilidade das medidas anunciadas, faltava nelas um sinal claro, por mais pequeno que fosse, de medidas que estimulassem o crescimento económico; outros pretendiam justificar o injustificável especulando, em nome do governo, que este orçamento teria como intenção dar um sinal aos mercados e aos nossos amigos da onça europeus de que temos capacidade para sair deste aperto; houve, ainda, uns poucos que avaliaram estas propostas de orçamento como um sinal de guerra aos trabalhadores e pensionistas, rumo ao suicídio colectivo. O termo sinal, não sei se também o conceito, foi o campeão da verborreia televisiva dessa noite.
De tanta preocupação com o sinal acabei por perceber uma coisa: alguns daqueles indivíduos fazem uma ideia de como chegámos aqui, mas nenhum deles faz ideia alguma de como vamos sair. Sabem porquê? Todos, sem excepção, concordavam que este orçamento é recessivo, que com ele a economia não cresce e, não crescendo a economia, não arranjamos maneira de nos libertarmos da dívida; apesar disso, alguns afirmavam, em simultâneo, que este orçamento é inevitável, que não há alternativa, que esta é a única forma de podermos fazer frente à crise. Perante isto, dei comigo a pensar: ou eu sou significativamente desprovido de capacidade mental, ou este raciocínio não tem qualquer espécie de lógica – então, um orçamento que nos leva para uma recessão económica, ou seja, para um buraco económico ainda maior é o único caminho para sairmos do buraco??? Só se a saída do “buraco” for pelo outro lado, na Nova Zelândia. Nesse caso há que mergulhar o mais fundo possível – atiremo-nos de vez para o abismo, encerre-se o país para balanço; dessa forma, em menos de um ápice estaremos a deitar a cabeça fora do buraco, lá no outro lado, para grande espanto dos nossos antípodas!
E esta minha constatação funcionou, para mim, também, como um sinal: um sinal de que existe uma grande desorientação entre os políticos que nos desgovernam, aqui e na Europa e igual desorientação nos comentadores que formatam e manipulam a opinião pública; a não ser que os políticos estejam apenas a cumprir os desígnios da alta finança mundial que os controla e os comentadores estejam apenas a ser a voz do dono que lhes paga. Ambas as possibilidades fazem sentido e ajudam a compreender o incompreensível das medidas impostas ao povo português, em tudo semelhantes às do povo grego cujas costas devem ser para nós um espelho e um sinal.
Concluí, então, que vivemos num tempo de sinais. A política vive de sinais, a economia vive de sinais, os mercados financeiros baseiam-se em sinais; o problema é que a preocupação em dar e entender sinais levou o governo a esquecer a realidade dos factos e da vida das pessoas. E, assim, só nos resta um caminho para evitar que continuemos, cantando e rindo, de sinal em sinal, até à destruição final – esse caminho é juntarmo-nos aos sinais de indignação e revolta que começam a engrossar e dizer como D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas: “o patriotismo não é estar de joelhos diante dos fundamentalistas que nos impõem um conjunto de direcções; eu sou patriota porque não alieno a minha cabeça.”



José Júlio Campos