sexta-feira, 30 de março de 2012

NÓS, OS OUTROS E O S. PEDRO

Terminou, há poucos dias, o inverno mais seco desde que existem registos de pluviosidade em Portugal. Trata-se de um facto que exige uma reflexão, para além da proverbial resignação de quem sabe que, contra as adversidades climáticas, ao homem pouco mais resta do que promover umas novenas e pedir clemência a S. Pedro como fez a ministra Cristas. Mas será que a responsabilidade pelo clima é apenas do santo que tem as chaves do Paraíso e o problema se enfrenta com as estratégias da ministra?
Até há um século atrás, poderíamos dizer que sim: sempre existiram “variações” climáticas naturais num planeta vivo, onde ocorrem permanentes transformações bioquímicas e os eventuais desvarios dos ciclos climáticos se resolviam com uma boa dose de paciência e umas orações ou umas danças!
Acontece que hoje, a esse fenómeno natural acresce e sobrepõe-se um outro designado por “alterações” climáticas, este provocado pela ação humana. Desde o séc. XIX, a civilização ocidental desenvolveu e disseminou um “monstro” conhecido como “capitalismo industrial” cuja lógica se resume ao seguinte: produzir mais, vender mais, lucrar mais. No entanto, esta lógica levada ao extremo e praticada sem limites, como tem vindo a acontecer, acabou por trazer consequências dramáticas no equilíbrio social e ambiental do planeta. A nível social, a lógica capitalista assenta na imposição de uma mentalidade consumista alimentada por uma publicidade agressiva e imoral que explora os sentimentos, as emoções e as necessidades mais básicas e vulneráveis do ser humano. Este consumismo capitalista é responsável pelo crescimento exponencial das desigualdades sociais e a consequente criação de um exército cada vez maior de miseráveis que começa a tornar-se uma ameaça séria à estabilidade e segurança das comunidades. A nível ambiental, as consequências do capitalismo industrial são, ainda, mais nefastas. A maquiavélica obsessão pelo lucro leva a uma produção incessante em que não se olha a meios e recursos para o aumentar. O deus-lucro, único que o capitalista adora, sobrepõe-se a todos e tudo é sacrificado no seu altar – a gestão equilibrada dos recursos naturais e do ambiente, a dignidade do ser humano e o seu natural direito a usufruir de condições de vida saudáveis, a partilha equitativa e justa dos bens naturais, enfim, o próprio equilíbrio ecológico do planeta. A voragem do lucro tem levado à extinção de várias espécies vegetais e animais, bem como a processos de produção industrial e hábitos de consumo altamente poluidores e diretamente responsáveis por fenómenos como o aumento da temperatura média global, a destruição da camada de ozono, o efeito de estufa ou o degelo dos glaciares. E não resta hoje qualquer dúvida que os invernos secos como este que terminou, os verões cada vez mais quentes, a desertificação de vastas regiões, como o Alentejo, as catástrofes naturais já vistas ou iminentes, como tufões, cheias, tsunamis, tornados, ou a subida do nível dos mares, são consequências diretas desse sistema económico, a que estaremos sujeitos cada vez com maior frequência e gravidade, caso os EUA, a China e quejandos continuem a fomentar esta corrida para o abismo que são as suas políticas irresponsáveis. Mas também a nível individual existe uma responsabilidade que nos impõe uma inevitável e imediata mudança de mentalidade: é urgente uma alteração radical nos nossos hábitos no sentido de consumirmos menos e melhor, valorizarmos o essencial – o ser – em detrimento do acessório – o ter, não viver para consumir, mas consumir apenas o estritamente essencial para viver. Só desta forma poderemos escapar ao apetite insaciável dos tubarões que se perfilam por trás da máquina industrial capitalista e reduzir esta marcha acelerada para a destruição do planeta.

José Júlio Campos

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