terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL (II)

O OE para 2012 é apenas o início de uma política que terá continuidade agravada nos anos seguintes se nada de verdadeiramente fracturante entretanto acontecer. E essa política que está em marcha na Europa consiste exactamente na substituição de um “estado social de direito” por um “estado negocial selvagem”. Todas as medidas económicas concretas e toda a retórica política destilada da comunicação social têm um único e comum objectivo: fazer desaparecer o estado enquanto regulador das relações entre os parceiros sociais e instituir uma sociedade onde essas relações sejam reguladas exclusivamente pela negociação directa entre os parceiros; mas uma negociação assente não no direito democraticamente instituído, isto é, numa lei consensual, mas antes na lei da selva, isto é, a lei do mais forte. O que está em marcha na Europa é a instauração de um estado absolutamente liberal, onde, como dizia o romano Plauto, numa expressão popularizada por Thomas Hobbes, no séc. XVII, “homo homini lupus”, ou seja, o homem é lobo do homem.
É neste contexto social e político que se inscrevem as medidas preconizadas ou decorrentes do OE para 2012. Vejamos apenas alguns exemplos. As medidas que visam a redução da despesa, ao centrarem-se exclusivamente nos serviços públicos e nos funcionários públicos têm como objectivo desvalorizar a carreira nos serviços do estado – saúde, transportes, educação, etc – promovendo a fuga dos melhores quadros para os serviços privados, onde, seguramente, acabará por haver melhores remunerações; aliás, outras medidas concorrem para que esses serviços, que competiam preferencialmente ao estado, acabem por vir parar às mãos dos empresários privados, como sejam os brutais aumentos das taxas moderadoras nos serviços de saúde, ou dos preços dos transportes públicos. No entanto, tudo isto terá um preço óbvio para todos nós: a saúde, a educação, os transportes, a energia, a cultura e outros produtos básicos ficarão apenas ao alcance da bolsa de uma classe rica e privilegiada, enquanto a maioria da população viverá à míngua desses serviços podendo, qualquer um, morrer à porta de um hospital só porque não tem dinheiro ou seguro de saúde para pagar os serviços médicos. A privatização das poucas empresas que eram lucrativas para o estado é outra das medidas que se enquadram nesta política e que nos levarão a um empobrecimento colectivo e individual a que estamos irremediavelmente condenados e submissos como afirmou o próprio primeiro-ministro. (Emigremos, pois, todos, a começar por ele e deixemos o país aos abutres!) Ao mesmo tempo, o estado não quer sair de cena sem retirar ao elo social mais fraco aquilo que, enquanto estado social, lhe foi garantindo – o direito à negociação colectiva com base nos princípios da justiça social, da equidade e da defesa dos mais desfavorecidos. Neste afã de limpar de escolhos o caminho dos mais poderosos, o Governo prepara-se para alterar as leis laborais, impondo unilateralmente medidas como o prolongamento da duração dos contratos a prazo, a redução drástica da indemnização por despedimento ficando este ao critério arbitrário do empregador, o aumento dos horários e dos dias de trabalho gratuito, ou seja, sem o equivalente aumento de remuneração, etc; e tudo isto sem alterar uma vírgula na Constituição, o que não deixa de configurar um verdadeiro golpe de estado constitucional e palaciano.
Curiosamente, estas medidas, ao contribuírem inequivocamente para que haja um aumento do já enorme desemprego, acabarão por ser, também, um golpe fatal em qualquer esperança de saída da crise económica, acelerando o caminho para o abismo; mas esse é, lamentavelmente, o objectivo pouco secreto dos rostos escondidos por trás destes interesses económicos – quanto mais profunda e irreversível for a crise económica e social em que nos encontrarmos, maior será o sentimento de falta de alternativa a estas medidas; quanto maior for esse sentimento, mais fácil será impô-las; quanto mais estas medidas destruírem e desacreditarem o estado social, mais fácil se torna impor o “estado de negociação selvagem” em que tudo fica ao critério dos todo-poderosos mercados financeiros e seus beneficiários.
É este conceito da “falta de alternativas” juntamente com outro igualmente perverso de que “vivemos acima das nossas possibilidades” que estão a implodir a mentalidade pública actual por via da sua doutrinação até à exaustão e a criar terreno fértil para a aceitação masoquista, inconsciente e pacífica da destruição do estado social a que assistimos nos dias que correm. Como bois levados ao matadouro.


José Júlio Campos

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