segunda-feira, 29 de abril de 2013

TEMPOS DIFÍCEIS

Vivemos tempos difíceis. Não são fáceis de perceber as coordenadas económicas e sociais do espaço e do tempo em que nos movemos, dada a instabilidade do azimute político a que a união europeia, primeiro, e a moeda única, depois, nos acorrentaram. Levantam-se vozes que nos confundem e começa a desenhar-se, na mente do cidadão comum, a ideia de que a União Europeia não tem futuro. Pior: surgem, espectrais, os contornos de um logro em que, afinal, nos serve melhor o papel de vítimas do que o de réus, ao contrário daquilo que alguns, maquiavelicamente, nos têm feito crer. Começamos a temer que a oportunidade única do “eldorado” europeu se esteja a transformar num pesadelo que poderá levar mais de uma geração a dissipar-se. Algumas ideias, até há pouco tempo desgarradas e solitárias, começam a congregar-se num coro que é impossível não escutar.
Prevê-se que a crise na Europa desembocará, necessariamente, numa de três saídas: o fim da moeda única; a saída do euro por parte dos países “culpados” da crise – Grécia, Portugal e Chipre, seguramente, Irlanda, Espanha e Itália, plausivelmente; a saída do euro por parte dos países ricos e que, no entender deles, são a locomotiva da moeda única – a Alemanha e alguns países do norte da Europa que seguem a cartilha merkeliana. Seja qual for o desenlace, uma coisa é certa: a Europa não só não continuará a ser como era, como definitivamente jamais será aquilo que os seus mentores sonharam e desejaram. O conceito chave da construção europeia, a solidariedade entre os povos, está ferido de morte e a desconfiança que, no século XX, levou a duas guerras mundiais, alastra como denso nevoeiro na relação entre os países do norte e os do sul. Nestes, à revelia da opinião publicada, “certificada” e veiculada pelos partidos no poder, a opinião pública do senso comum começa a libertar-se das teses criadas e viralmente disseminadas pelos cérebros alemães, à medida em que estes vão deixando cair a máscara. Desde o episódio do inacreditável comportamento da Finlândia contra Portugal, aquando do nosso pedido de resgate, há dois anos atrás, até à recente declaração do ministro das finanças da Alemanha, segundo o qual o problema dos povos do sul da Europa é terem inveja dos alemães, passando pela constante atitude egoísta, agiota e chantagista da troika que, sistematicamente, tem dificultado as negociações da dívida dos países resgatados, têm-se revelado cabalmente as hipócritas intenções da Alemanha e seus satélites. Além disso, a recordação da responsabilidade da Alemanha na promoção de duas guerras mundiais que destruíram por duas vezes a Europa, aliadas ao facto de lhes ter sido perdoada uma dívida, consequente da responsabilidade pela 2ª Guerra Mundial que, só no caso da Grécia (uma das suas vítimas de então e de agora) era superior a 150 mil milhões de euros, contribui sobremaneira para agravar a ferida anti-germâmica que alastra no sul da Europa. Começa, aliás, a fazer caminho a tese de que a Alemanha estará a tentar, pela via económica e financeira, aquilo que não conseguiu pela via política e militar: o domínio total da Europa. Compreender-se-ia, à luz dessa estratégia, a forma como, mediante inesgotáveis subsídios, foi destruindo, pacientemente, o sector produtivo das economias do sul da Europa para, agora, qual cobrador do fraque, vir passar a fatura de uma crise criada pela banca internacional que tem precisamente a Alemanha como testa de ferro. Pode, mesmo, especular-se até que ponto não terá sido essa desconfiança profunda face às reais intenções dos alemães que terá levado os ingleses a não embarcar no canto da sereia da moeda única. Algo de que os franceses, historicamente mais crédulos e volúveis, estarão, agora, também, a ser vítimas devido à “ingenuidade” de Sarkozy, claramente reforçada, contra todas as expectativas, por François Hollande.
É, hoje, cada vez mais evidente que a Europa já não é “das nações” em pé de igualdade, mas de uma nação com vocação totalitária e dos interesses financeiros nela sedeados. Esse facto não augura nada de bom, existindo, pois, inúmeras razões para pensarmos que algo não vai bem no “reino” da Europa. As nuvens escurecem e a tempestade ameaça suceder à borrasca. Vivemos tempos difíceis.


José Júlio Campos

domingo, 31 de março de 2013

CARTA ABERTA AOS JOVENS DE HOJE

Caros jovens:
Convosco que nascestes nos últimos trinta anos, gostava de partilhar algumas reflexões sobre a atualidade e os problemas que enfrentamos, quando passam já trinta e oito anos depois do 25 de Abril de 1974.
Em primeiro lugar queria dizer que, apesar das óbvias diferenças entre a minha geração e a vossa, não sou daqueles que pensam que “no meu tempo é que era”, “os jovens de hoje não sabem nada” ou “sabia-se mais no meu tempo com a 4ª classe do que agora com tantos estudos”; digo-vos que quando eu tinha a vossa idade também ouvia dizer isso! Essa forma de pensar é típica de todas as gerações quando atingem a “velhice” e resulta de uma certa ignorância sobre a evolução cultural e social dos povos; é uma tendência natural para avaliar toda a realidade pela bitola que nos é transmitida na juventude, mas que pode tornar-se responsável por um certo mal-estar e incompreensão que muitas vezes se instala na relação entre gerações diferentes. Se há alguma coisa que vocês, jovens, dispensam perfeitamente são os paternalismos bacocos e as críticas infundadas. No entanto, tenho constatado que há algo para o qual estais perfeitamente abertos, diria mesmo, expectantes para receber de nós mais velhos: a chamada “experiência de vida”.
Posto este preâmbulo, passaria ao cerne desta reflexão.
Felizmente que, graças à geração dos vossos avós, a minha geração e a vossa já não teve de passar pela horrível experiência de viver num regime político ditatorial, caraterizado pela total falta de respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Eu tinha apenas dez anos quando o 25 de Abril pôs fim a um regime autoritário, repressivo e policial, onde, algo tão básico para nós como dizer o que pensamos, na rua, nos cafés, na comunicação social, até em família, podia ser motivo para uma perseguição que, quase sempre, terminava na estigmatização social, na prisão, na destruição de uma ou várias vidas. Os testemunhos dessa época estavam ainda muito vivos quando eu tinha a vossa idade e me fiz homem, ao contrário de hoje em que muita gente parece ter esquecido esses tempos, ou por estarem muito longínquos, ou por, como eu, mal os terem vivido. Mas eles existiram e é bom que não percamos a memória deles, porque um povo que perde a memória perde a identidade como se sofresse da doença de Alzheimer. Devemos essa mudança a todos aqueles que enfrentaram corajosamente um poder político infinitamente mais forte do que eles; e foram muitos os que pagaram com a vida, ou com um futuro para sempre hipotecado, essa sua coragem, resistência e inconformismo. E não esqueçamos que todas as revoluções são dolorosas. Teríamos nós essa mesma coragem se tivéssemos vivido nesse tempo? É uma questão que vos deixo para refletirdes, sabendo que não passa de uma mera hipótese académica. Mas … e se transpusermos a questão para uma realidade mais plausível e atual: e se hoje fosse necessário ter coragem para fazer outra revolução? Será que teríamos essa coragem ou preferiríamos a covardia de pensar que, enquanto o desemprego, a fome e a miséria não me afetar e for um problema do vizinho, eu não tenho que me preocupar com isso? Será que a atual situação de total descrença e quase desespero perante o futuro, que as atuais gerações no poder vos estão a criar, não será um motivo suficientemente forte para vos acordar da letargia e do conformismo em que vos acomodais no “ninho paterno”? Será que as condições de vida que se perfilam no horizonte da sociedade atual são menos atentatórias da dignidade humana do que as que levaram os nossos antepassados, no nosso e noutros países, a protagonizar revoltas libertadoras?
Consciente de que as grandes mudanças não se fazem num dia, exorto-vos apenas a que estejais atentos e reflitais sobre os problemas que enfrentamos no mundo atual; não vos acomodeis como aquela nêspera do poema de Mário Henrique Leiria, superiormente recitado pelo saudoso ator Mário Viegas:
Uma nêspera/ estava na cama /deitada/ muito calada /a ver /o que acontecia
chegou a Velha/ e disse/ olha uma nêspera /e zás comeu-a
é o que acontece /às nêsperas /que ficam deitadas/ caladas/ a esperar /o que acontece”


José Júlio Campos

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO E ELEITORAL

A crise económica, para além de nos estar a consumir a paciência e alguns dos direitos alcançados, com tantos sacrifícios, pelas gerações que nos antecederam, está, também, a contribuir para fazer surgir, com grande nitidez, algumas das contradições das democracias contemporâneas como é a nossa. Para além da reforma do sistema judicial, cujo funcionamento é visto como um cancro para o desenvolvimento do país, começa a tornar-se evidente a necessidade de uma reforma do sistema político e eleitoral. Reforma essa muito mais necessária do que “o rato parido pela montanha” da reforma administrativa em curso; a abolição de umas dezenas de freguesias é absolutamente inócua e irrelevante para o desenvolvimento do país e teve como único escopo atirar areia aos olhos do cidadão, concretizando a velha máxima reformista de que “é preciso que alguma coisa mude, para que continue tudo na mesma”. Mudança esta feita, mais uma vez, à custa do “mexilhão” e não do “peixe graúdo” que vai somando mordomias e sinecuras à frente dos municípios e cujos estômagos finos estão com enorme dificuldade em digerir uma tão simples como lógica limitação de mandatos.
A reforma do sistema político, tratando-se, como é o nosso, de um sistema parlamentar, devia começar, exatamente, pelo Parlamento. E a urgência dessa reforma assenta em várias razões. Em primeiro lugar porque, no atual sistema, os deputados representam os partidos que os propuseram e não os cidadãos que os elegeram; o Parlamento tornou-se o sustentáculo de uma partidocracia em que os deputados não passam de um grupo de marionetas que se movimentam pela vontade dos líderes partidários. Essa fidelidade canina a que chamam disciplina de voto contribui para reforçar a crença popular e populista de que temos deputados a mais. Efetivamente, se mais de metade dos deputados têm como única função de relevo sentarem-se, levantarem-se ou baterem palmas às ordens de quem lhes deu o “osso”, bem podíamos dispensá-los e aliviar as finanças públicas, aqui, sim, de forma significativa. No entanto, esta redução nunca poderia ser feita de modo a prejudicar a diversidade de “vozes” minoritárias diferentes, mas representativas do sentir nacional. Essa salvaguarda poderia passar pela criação de um círculo nacional único (até porque os deputados raramente defendem os distritos que os elegeram), ou por outra forma de apuramento que recuperasse as sobras de votos que se tornam “inúteis” em cada distrito. A não ser assim, seria muito pior a emenda dos 115 do que o soneto dos 230. Ainda neste sentido, deveria ser ponderada a possibilidade de outras organizações laicas de cidadãos poderem apresentar listas de candidatos, não restringindo essa faculdade aos partidos políticos.
Mas há mais. A partidocracia que se apoderou do Parlamento contribuiu, sobremaneira, para a perda de qualidade do debate parlamentar que se tornou de uma indigência atroz e cujo baixo nível argumentativo consegue superar o do discurso político produzido na própria comunicação social onde o contraditório é mais imediato e eficaz e, apesar de tudo, a diversidade de pontos de vista, também. Além disso, tendo-se transformado os partidos políticos em couto de oportunistas frustrados nas carreiras académicas ou profissionais (Relvas está muito longe de deter o exclusivo!), esse facto reflete-se, inexoravelmente, na qualidade ética e intelectual de deputados e governantes cuja única vocação política é a do “carreirismo”. Ora, sendo esse “carreirismo”, muito especialmente nos partidos do chamado “arco do poder”, a antecâmara da corrupção e da vilania, está aberto o caminho para colocar a atividade política ao serviço de interesses financeiros obscuros e mafiosos que vão tomando conta do país. Sobre este e outros temas vale a pena tomar atenção àquilo que vem dizendo o Dr. Paulo Morais, vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade, segundo o qual, “o centro da corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República”.
Torna-se, pois, evidente, a necessidade de redefinir o nosso sistema político, de modo a reabilitar os seus intervenientes aos olhos dos cidadãos e criar nestes a indispensável confiança nas instituições do estado e nos órgãos de soberania. Esta reforma é muito mais urgente do que qualquer refundação do estado social que mais não é do que a desejada destruição do mesmo às mãos dos tais interesses obscuros e perpetrada pelos tais “carreiristas” da nossa praça política.
Sendo esta reforma uma tarefa iniludivelmente delicada e complexa, é imprescindível um debate aberto e generalizado à sociedade civil que permita encontrar as melhores soluções pela via de uma fundamentação consensual.


José Júlio Campos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

AFINAL, SOMOS RICOS!...

A rocambolesca deriva do governo português aquando do episódio da última renegociação da dívida grega foi a prova inequívoca dos equívocos em que Passos Coelho e seus acólitos têm mergulhado de forma persistente. Vá lá perceber-se porquê.
Efetivamente, quando a Grécia, no início de dezembro, conseguiu um novo empréstimo da troika em condições bastante mais vantajosas do que as concedidas a nós e aos irlandeses, pensou-se, todos pensámos, inclusive o ministro Gaspar e o sr. Juncker, que chegara a hora de os nossos credores aliviarem o garrote da austeridade. A mais elementar lógica do bom senso fez nascer a esperança de uma renegociação que permitisse reduzir os juros que temos de pagar à banca troikiana e, quiçá, dilatar os prazos para esse pagamento, condição sine qua non, segundo economistas de todas as áreas políticas, para pensar em sair da crise. Se os gregos beneficiaram dessas condições, seria da mais elementar justiça que também os portugueses e os irlandeses beneficiassem. Essa esperança era tão legítima que até o ministro Gaspar cavalgou nela para Bruxelas depois de, ufanamente, a ter aparelhado no nosso Parlamento. O problema foi que nem Gaspar, nem Passos, nem Juncker, nem nenhum dos simples mortais portugueses contou com a retorcida lógica da deusa Merkel que, através do oráculo do seu ministro das finanças, fez ruir estrondosamente este sonho de uma noite de inverno, ao sibilar no Parlamento Europeu que nós, portugueses, não beneficiaríamos nada em ter melhores condições para pagar a dívida porque isso iria colocar-nos, aos olhos dos mercados financeiros, ao mesmo nível da Grécia e nós não deveríamos querer ser como os gregos por uma questão de credibilidade; ou seja, devíamos deixar-nos de devaneios, ter juizinho e continuarmos a portar-nos como alunos exemplares. Ajoelhado perante a argumentação merkeliana, mais não restou a Gaspar, mal aterrou em Bruxelas, que não fosse desmontar a, novamente, inopinada cavalgadura da esperança portuguesa e reassumir estoicamente as rédeas da paranóica montada do “custe o que custar”, qual D. Egas Moniz da lusitana mercearia. Sim, porque esta teimosia do governo português em apresentar-se de corda ao pescoço, perante os agiotas da troika, dando-lhes o beneplácito de eles a esticarem a seu bel-prazer, mais não é do que a manifestação de uma provinciana mentalidade de tendeiro, à boa maneira salazarenta, em que a economia do país é gerida à escala e por padrões de mercearia de bairro. A globalizada e nada ética economia internacional exige, hoje, outros modelos de relação económica, em que a negociação deve ser permanente e ter como objetivo a obtenção das maiores vantagens para cada país envolvido; os nossos governantes deviam ser uma espécie de nossos advogados a defender os nossos interesses nos areópagos internacionais. Afinal, não são. Afinal, como se provou com este episódio, os nossos governantes estão mais interessados em governar e defender os interesses do FMI, do BCE e dos tubarões da banca internacional que estão por trás dessas instituições, mesmo que a defesa desses interesses signifique mergulhar o povo português na mais completa pobreza, como preconiza Passos Coelho. Pobreza material e pobreza de espírito, como antigamente, antes do 25 de abril, a avaliar pelo que está a ser feito também na educação e na cultura.
Sejamos objetivos: nós não somos mais ricos do que a Grécia, como provaram os últimos cálculos dos respetivos PIB’s, para usufruirmos de condições muito mais exigentes do que as deles, num empréstimo semelhante, embora de menor dimensão; o argumento do “oráculo” alemão sobre o impacto nos mercados financeiros é tão retorcido que é exatamente o oposto – seguramente, os mercados ficariam mais confiantes na nossa economia se nós tivéssemos mais facilidades para pagar a dívida e pudéssemos mais rapidamente sair da recessão em que os juros dessa dívida persistem em nos afundar; os nossos credores já beneficiaram o suficiente com o empréstimo que nos fizeram e os respetivos juros, à taxa a que estamos a pagar, ajudam-nos mais a eles do que a nós; não só os gregos, atualmente, mas também os próprios alemães, no passado, beneficiaram de perdões de dívida para saírem das suas crises.
Assim sendo, e ao contrário da doutrina repetida até à exaustão pelo governo e pelos partidos que o sustentam irracionalmente, existem alternativas para começar uma saída da crise; o problema é que, quando essas alternativas são apontadas, eles fazem ouvidos de mercador e continuam teimosamente no “custe o que custar”, fugindo da palavra “renegociação” como o diabo da cruz. Porquê? Para salvar a face em termos políticos? Ou para defender os tais outros interesses? E, a ser esta a resposta, a troco de quê?
Por tudo isto, não faz sentido continuarem a fazer de nós pobres de espírito, antes do tempo, insistindo na falta de alternativas. Neste momento, o grande peso que impede a economia portuguesa de se levantar são os juros da dívida e os privilégios de que alguns continuam a usufruir, como os beneficiários das PPP’s e das rendas pagas pelo Estado. Então, é por aí que o governo deve enveredar e não pela destruição pura e dura da vida de milhões de portugueses como tem vindo a fazer.



José Júlio Campos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PADRE FONSECA: INICIATIVA E VISÃO AO SERVIÇO DO OUTRO

O sr. Padre Fonseca foi, a todos os títulos, um homem extraordinário, sem dúvida uma das figuras determinantes na história de Aguiar da Beira. Tive o privilégio de trabalhar e conviver com ele nos últimos anos da sua vida.
A nível pessoal, o padre Fonseca era de uma grande afabilidade para com todos. A simpatia e o permanente sorriso nos lábios eram a sua imagem de marca. Mas o seu sorriso significava mais do que mera simpatia – ele era, também, um sinal da bondosa ironia com que interpretava pessoas e acontecimentos, a partir da sua experiência de vida e perspicácia, algo que ficou indelevelmente marcado nas crónicas por ele escritas, regularmente, no jornal “Defesa da Aldeia” e, sugestivamente, intituladas de “Sorridendo”. Sendo um grande orador no serviço eclesiástico, não era, no trato diário, uma pessoa de grandes discursos, ou de dialéticas intermináveis; no entanto, as suas pensadas e sensatas palavras, quase sempre certeiras, simples e plenas de significado, eram sinal evidente de uma inteligência social muito acima da média. Para além dessa afabilidade e dessa ironia, a simplicidade era outra das suas muitas virtudes; tinha hábitos de vida muito frugais, desprezando completamente todo o tipo de luxos, extravagâncias ou ostentações. Um velhinho “carocha” foi o carro que o transportou até aos últimos dias da sua vida, apesar de inúmeras vezes ter sido incentivado e aliciado para adquirir mais moderna viatura.
Penso que era nesta vida regrada e sóbria que o sr. Padre Fonseca ia buscar a força que o levou, também, a ser um homem de grandes iniciativas. Aquelas que tiveram mais visibilidade e marcaram a vida dos aguiarenses foram, sem dúvida, o projeto de auto-construção e a criação do colégio de Aguiar da Beira. A auto-construção, sendo totalmente pioneira, permitiu a muitos jovens casais construir a sua própria habitação a partir do seu trabalho nos tempos livres e dos materiais que o padre Fonseca ia angariando. O colégio, Externato de Aguiar da Beira, contribuiu para colocar o concelho no reduzido mapa do ensino pré-liceal no interior do país e para alargar a possibilidade de frequência desse ensino a muitos jovens que, sem ele, nunca teriam ido além da antiga 4ª classe. E mesmo quando os ventos do progresso impuseram a criação de escolas públicas, a Preparatória, primeiro, e a Secundária, mais tarde, não só nunca se opôs, como alguns maldosamente quiseram fazer crer, mas, pelo contrário, contribuiu decisivamente para que essas escolas fossem uma realidade: foi ele que alugou uma parte do seu colégio para que funcionasse a Escola Preparatória e, mais tarde, foi ele que doou os terrenos para a construção da atual sede do Agrupamento de Escolas. Ninguém fez mais pelo ensino, em Aguiar da Beira, do que ele.
A sua generosidade levou-o, ainda, a doar terrenos ao município para que pudessem ser construídas habitações tendo, dessa forma, ajudado muitos outros aguiarenses. As suas inúmeras iniciativas, impossíveis de descrever neste simples testemunho, foram sempre apontadas ao progresso e ao desenvolvimento de Aguiar da Beira.
Sei que levou, com ele, alguns sonhos por concretizar, nomeadamente a construção de um grande e digno Santuário em honra de Nossa Senhora da Estrada, que ele tanto venerava, e a implementação de uma escola profissional que pudesse oferecer aos jovens outras possibilidades de formação; além destes sonhos, que a partida algo inesperada não lhe permitiu concretizar, o sr. Padre Fonseca tinha, também, em mente, avançar com um projeto de reflorestação do concelho.
Por tudo isto e muito mais, o padre José Augusto da Fonseca foi, sem dúvida, um homem de iniciativas, de obras e de sonhos. Um pioneiro, um empreendedor e um visionário. Foi para homens da sua estirpe que Fernando Pessoa escreveu o tão conhecido e citado verso “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

José Júlio Campos

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PREVISÕES ESTAPAFÚRDIAS

A economia não é uma ciência oculta. Aliás, como muitas ciências humanas, tem mesmo alguns pontos de contacto com o saber do senso comum. Daí haver nela aspetos cuja compreensão está ao alcance de qualquer inteligência mediana, ainda que pouco familiarizada com as suas teorias mais elaboradas e complexas.
Acabou de ser aprovada no Parlamento, com a maior contestação de que há memória, a lei fundamental para a regulação da vida económica do nosso país, no que respeita ao próximo ano – o Orçamento de Estado. Maugrado o manifesto incómodo de uma maioria de deputados acéfalos e caninamente fiéis ao governo, o referido documento foi aprovado na totalidade, conforme exigido pelos seus autores. Isto, apesar de todos concordarem que este Orçamento vai agravar a recessão económica em que o país caiu, apesar de ter sido apelidado de “assalto fiscal” por elementos afetos ao partido maioritário, apesar de o partido muleta da coligação ter, agora, que engolir um sapo do tamanho do populismo do discurso do seu líder. Nada, no entanto, que possa considerar-se fora do normal, num país onde a democracia é uma palavra vã e se esgota no dia das eleições. Efetivamente, o sistema parlamentar vigente, em que os deputados estão à ordem dos partidos e não representam senão a vontade dos seus líderes, transformou a democracia numa ditadura das maiorias, sejam elas reais, ou oportunisticamente forjadas. Foi, assim, possível aprovar um OE baseado num conjunto de mentiras, presumo que deliberadas por tão evidentes, no que respeita às previsões relativas aos principais indicadores do cenário macroeconómico em que se sustenta; referirei, apenas, a título de exemplo, algumas dessas falsidades óbvias, a partir dos dados fornecidos pelo Ministério das Finanças. Prevê o governo que o consumo privado aumente de -5,9 em 2012, para -2,2 em 2013; como é possível fazer uma tal previsão quando o Orçamento assenta numa redução brutal do poder de compra de toda a população trabalhadora ou pensionista? Prevê o governo que o investimento aumente de -14,1 em 2012, para -4,2 em 2013; como é possível tal previsão face à falta de apoio da banca e à completa exaustão do mercado interno? Prevê o governo que a procura interna aumente de -7,1 em 2012, para -2,9 em 2013; como é isso possível se o Orçamento se baseia no corte de salários e pensões e num aumento inaudito de impostos? Prevê o governo, pasme-se, que o PIB aumentará de -3,0 em 2012, para -1,0 em 2013; como é possível tal previsão quando a mesma é desmentida por todas as instituições financeiras, nacionais e internacionais? Estas e outras previsões claramente delirantes em que se baseia o OE para 2013 só podem ter como consequência o mesmo que aconteceu com o OE de 2012, em que as previsões se revelaram completamente falhadas, tanto relativamente à despesa, como à receita; nesta, então, foi o descalabro total, com uma previsão do aumento de receitas do IVA em 12% face a 2011 a concretizar-se 14% abaixo dessa previsão; mas também a meta do défice, estimado para 4,5%, vai ser, seguramente, superior a 6%.
Dir-me-ão que há muitos imprevistos e contingências na economia que fazem falhar as previsões. Concordo. Mas também se concordará que apresentar as previsões que referi, com base nos dados existentes, só pode ser um exercício de má-fé política para sustentar desígnios obscuros e interesses financeiros que não são os nossos, mas sim os dos nossos credores; com este OE, o governo de Portugal mostra, claramente, que não está ao serviço dos interesses dos portugueses, mas antes dos agiotas da banca alemã e internacional. Só assim se explica que a troika iluminada da sumidade Coelho, da raridade Gaspar e da autoridade Borges, faça assentar as linhas orientadoras da economia do país num conjunto de previsões macroeconómicas que qualquer aluno do ensino secundário classificará, sem grande esforço mental, como totalmente estapafúrdias. E se, como infelizmente tem vindo a acontecer, alguns continuarem a ter razão antes do tempo lha confirmar, para o ano, por esta altura, cá estaremos a assistir ao falhanço das previsões do governo para o ano de 2013 e à aprovação de um OE para 2014 ainda mais destruidor da economia nacional e da vida dos portugueses.
O Orçamento de Estado agora aprovado é, pois, mais um passo do Dr. Coelho para atingir o tão propalado empobrecimento dos portugueses e a, por ele, tão desejada re(a)fundação do estado social.



José Júlio Campos

terça-feira, 23 de outubro de 2012

AGUIAR DA BEIRA, 1987

Passou um quarto de século desde que cheguei a Aguiar da Beira para dar continuidade a uma carreira que tinha iniciado, poucos meses antes, em Lisboa, na Escola Secundária de Linda-a-Velha. O saudoso Padre Fonseca tinha-me proporcionado a possibilidade de ocupar o lugar que ficara vago no meu grupo e, em Outubro de 1987, comecei a leccionar no antigo Externato de Aguiar da Beira até ao seu encerramento, meia dúzia de anos depois. Desses seis anos em que permaneci no Colégio ficou, para sempre, a lembrança de um ambiente familiar entre os poucos docentes que asseguravam as atividades letivas. Criei, então, algumas amizades, daquelas que perduram para toda a vida. Recordo, com especial saudade, aquele que foi o obreiro do ensino pós primário em Aguiar da Beira, o Reverendo Padre Fonseca. Com ele fiz o meu “estágio” e aprendi muito daquilo que a Universidade não me tinha ensinado, para ser professor; o lema que ele fazia questão de pôr em prática e que tentava incutir a todos os docentes era “liberdade, com responsabilidade”. Creio ter percebido este princípio e nele me tenho inspirado, ao longo dos anos, na minha função de educador; efetivamente, para além de transmitir um conjunto de saberes e competências que deverão ser úteis na vida ativa, a escola tem, também, a iniludível tarefa de se associar à família na educação e formação de cidadãos autónomos, responsáveis e participativos. Com ele aprendi, também, a gostar de Aguiar da Beira; conheci poucas pessoas que gostassem tanto de Aguiar como ele. Lembro-me que, quando lhe confidenciava a minha intenção de regressar a Lisboa, assumia aquele seu ar simultaneamente sério e prazenteiro e dizia convictamente: “Lisboa? Ó meu caro amigo, aqui é que há qualidade de vida, aqui é que há qualidade de vida!” Tinha razão, como sempre, o Sr. Padre Fonseca. De tal maneira que por cá fui ficando, e sem qualquer espécie de arrependimento; casei, nasceram-me os filhos e só dezassete anos depois, por razões profissionais, acabei por mudar de residência para um concelho vizinho. Mas continuo a sentir-me um aguiarense.
Em 1987, Aguiar da Beira era, fisicamente, bastante diferente; seria fastidioso enumerar todos os bairros, ruas e construções novas que, ao longo destes 25 anos, transformaram a sua face. Hoje, Aguiar da Beira é uma vila bastante maior, mais composta e dotada de infra-estruturas modernas e atrativas. Mas a alma duma terra não é apenas o seu aspeto físico – é, também, a sua “geografia sentimental” e humana, para usar uma expressão do nosso grande vizinho Aquilino. Essa “geografia” alimenta-se nos convívios diários que ocorrem nos seus espaços públicos e nas tradições que se vão alicerçando em práticas ancestrais, consolidando uma cultura peculiar feita de expressões, hábitos, gostos, referências, histórias … que fazem a identidade de um povo. Existem em todas as comunidades ligações umbilicais entre essa identidade e determinados locais privilegiados de interação; um desses locais que, em Aguiar da Beira, a modernização fez desaparecer foi o antigo “Café das Bombas”. Os elementos ideológicos da cultura de uma comunidade estão de tal maneira enraizados nos espaços físicos em que se desenvolvem que o desaparecimento ou modificação destes acarreta, lenta, mas inexoravelmente, a transformação ou desaparecimento daqueles; essa é uma inevitabilidade inerente ao progresso de qualquer comunidade. Importa que as novas gerações saibam integrar as transformações físicas e culturais em que vão participando, salvaguardando sempre aquela essência, aquele proprium de identidade, específico de uma comunidade, que deve constituir-se como um dos elementos estruturantes da personalidade de cada indivíduo. Para isso é absolutamente imprescindível o papel das gerações mais velhas, no sentido de transmitir e perpetuar os elementos que constituem essa herança cultural. A alma de um povo é a sua memória.
Parece-me que os aguiarenses têm sabido preservar essa identidade cultural, apesar de todas as mudanças ocorridas ao longo deste quarto de século.

PS – Em Janeiro de 2013, completar-se-ão 20 anos sobre o falecimento do Padre José Augusto da Fonseca. Para quando a elaboração de uma Biografia daquele que foi a maior figura da história de Aguiar da Beira no século XX? À atenção da Câmara Municipal, da Paróquia de Aguiar da Beira e da sua família.


José Júlio Campos