terça-feira, 25 de setembro de 2012

UM ANO E MEIO DEPOIS…

Um ano e meio de governação parece ter sido suficiente para que a generalidade da população tenha entendido as reais intenções dos partidos da coligação. Obviamente só ainda não entendeu quem não quer, quem não tem interesse nisso, ou quem é incapaz de pensar pela própria cabeça limitando-se a repetir estribilhos simplistas como “ temos de pagar os desvarios dos outros”. Durante mais de um ano, o pessoal foi andando mais ou menos iludido entre o refrão do “custe o que custar”, numa espécie de demanda da honra perdida, e a ridícula subserviência à fraulein Merkel, perante quem os nossos governantes se derretem como alunos bem comportados e delatores que fazem mais trabalhos de casa do que lhes é pedido e estão sempre disponíveis para acusar os infratores ou os menos bem comportados, neste caso, os gregos. Parecia a alguns governantes e seus fiéis acólitos da liturgia mediática que os elogios da troika (ou tríade?) e da líder do país que elegeu Hitler eram a garantia de que tudo por cá corria como previsto pelo governo e estávamos a caminho do fim da crise, com a restauração da independência nacional a ser possível lá para daqui a um ano, quando poderíamos voltar aos mercados financeiros sem ser pela mão da troika. Afinal, esses elogios revelaram-se apenas como gorjeios de satisfação da parte de agiotas que se comprazem em ver os seus exorbitantes juros pagos religiosamente ainda que à custa do empobrecimento e miserabilização dos devedores. Dizia Passos Coelho, há um ano atrás, que “só vamos sair da crise empobrecendo”. Pelos vistos não mudou de ideias e a insistência no “custe o que custar” está sobretudo a contribuir para esse empobrecimento do país que nos limitará durante muitos anos a pagar juros (são quase dez mil milhões de euros por ano) e a contrair mais dívida para pagar os juros sem nunca nos libertarmos deste círculo vicioso para gáudio dos tais credores agiotas da troika ou doutras máfias. Empobrecimento esse que continuará, como agora se mostra claro, à custa do esbulho do trabalhador contribuinte e não dos tão candidamente prometidos emagrecimento do estado, diminuição das escandalosas rendas pagas nas PPP’s e racionalização de gastos com assessores, viaturas e outras mordomias; aliás, nestas matérias, para usar um termo tão do agrado de certos deputados da maioria para se referirem ao governo anterior, continua o regabofe. Curiosamente, no final do verão, no Pontal, à porta fechada, Passos Coelho regozijava-se: “no que é importante, não falhámos: nem no défice, nem na dívida”; e ia mais longe ao afirmar que a recuperação económica começaria já em 2013. O problema é que, poucos dias depois, a realidade e o 5º exame da troika foram madrastas para Passos Coelho: afinal, para além daquilo que a realidade já o tinha obrigado a reconhecer – o agravamento da recessão e os recordes sucessivos nas taxas de desemprego – também as metas do défice estavam fora de controlo, devido a um “desvio colossal” (!) de dois mil milhões de euros entre as receitas reais e as previstas pelo governo. Como consequência imediata, a impossibilidade de cumprir o acordado com a troika e a necessidade de prolongar o programa para 2014, obrigando ainda a mais austeridade para 2013. Vai daí, mais uma invenção do trio Gaspar-Passos-Borges – aumentar em 7% a contribuição dos trabalhadores para a segurança social e reduzir, proporcionalmente, esse encargo aos empregadores. O problema é que perante esta alarvidade não foi só a muda realidade a opor-se – foi toda a cabeça pensante e falante deste país, incluindo os próprios beneficiários da medida, que, seguramente, fizeram Passos Coelho sentir-se o protagonista daquela anedota em que um amigo telefona a outro e diz: “Oh, pá! Vais na auto-estrada? Olha que ouvi dizer nas notícias que vai um condutor em contramão!”; ao que o outro responde: “Eh, pá! Só um? Vêm todos!...”
É este conflito permanente com a mais prosaica realidade, por parte do governo, que faz temer o pior para o nosso país. Afinal, os gregos podem não ser os únicos entalados da Europa. As manifestações de 15 de Setembro são um (bom) prenúncio de que a paciência dos portugueses (tão do agrado do primeiro-ministro) também tem limites como a dos gregos. E, até ver, tiveram o efeito perverso de levar o governo a corrigir o tiro, embora sem alterar o alvo – em vez de esbulhar o trabalhador através da TSU, vai fazê-lo através do aumento do IRS; ou seja, as vítimas continuam a ser as mesmas e os efeitos previsíveis igualmente recessivos e destruidores da classe média.
A História está repleta de governantes, que teimam em ignorar a realidade e avançam temerosamente “de vitória em vitória até à derrota final”, como Sadam Hussein que proclamava vitória com os americanos já dentro de Bagdad! Esperemos que Passos Coelho não esteja firmemente decidido a engrossar esse lote de teimosos, ou cegos com poder, que conduzem o seu povo por virtuais caminhos frondosos até o fazer despenhar no mais fundo precipício.


José Júlio Campos

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O POVO DORME E A SAGA CONTINUA…

Aproveitando-se deste período mais quente do ano, em que o cidadão comum tende a exorcizar os problemas diários com uns dias de férias e de festas, os nossos governantes continuam, paulatina e metodicamente, à socapa e à sorrelfa, a implementar as medidas que lhes permitirão alcançar o escopo final do neo-liberalismo que os norteia e que consiste no desmantelamento do estado social de direito e na sua substituição pelo estado negocial selvagem. Perguntar-se-á: “com que finalidade?”. A resposta é óbvia para quem estiver minimamente atento e informado: “para fazer com que aquela percentagem de riqueza que, durante o período de consolidação do estado social, transitou das bolsas recheadas do capitalista avarento para as mãos carenciadas do pobre e do remediado retorne novamente ao doce aconchego dos cofres milionários”. Desiluda-se, pois, quem alguma vez acreditou que a figura típica do avarento aceitaria de bom grado perder uma só das suas moedas. Primeiro, através das off-shores que lhe permitiram fugir ao confisco do estado e, agora, acrescentando-lhe a política neo-liberal dos governos europeus que ele manobra na sombra sob a máscara dos mercados financeiros, está a recuperar da boca dos famintos a migalha que lhe caiu da lauta mesa.
Alguma dessa estratégia neo-liberal passa por transferir os serviços da saúde e da educação para as mãos dos privados. Trata-se de uma tarefa árdua por serem áreas de excelência do estado social, cujos benefícios para o cidadão são incalculáveis e cuja perda representará o despojamento total da sua dignidade e dos seus direitos. Daí que o governo esteja a tentar fazer essa transferência com o menor ruído possível, à socapa e à sorrelfa, como já dissemos atrás. Infelizmente parece que o povo português, embalado que anda em discursos populistas reiterados por comentadores escolhidos a dedo e sempre da mesma facção política, só perceberá o alcance dessa perda tarde de mais, quando atingirmos o ponto de não retorno.
A estratégia para proceder a esse assalto a novas áreas de obtenção de riqueza, passa, essencialmente, por três etapas:
1ª – intoxicação da opinião pública relativamente aos gastos do estado nessas áreas fazendo-nos crer que gastamos mais do que podemos. Escapar a este argumento demagógico implica perceber que as áreas prioritárias de investimento, numa sociedade que se quer e se diz civilizada, devem ser precisamente a saúde e a educação; o que é necessário é haver controlo político e judicial para evitar o desperdício, a gestão danosa e a corrupção administrativa que se tornam um sorvedouro inútil da riqueza pública. O que aconteceu em Portugal foi esse desvario sem controlo como são exemplo as parcerias público-privadas nos hospitais ou as obras da Parque Escolar; mas esse desvario não é inevitável nem é da responsabilidade do estado – tem, isso sim, que ser assacado aos governantes que gerem a res publica, “coisa pública”, duma forma incompetente e impune, quiçá com a má-fé do proveito próprio ou da criação de condições objetivas para facilitar o seu desmantelamento.
2ª – destruição dessas áreas através da redução gradual e cínica do investimento e da qualidade dos serviços prestados; é nesta fase que nos encontramos atualmente. Os cortes cegos na saúde e episódios como a subcontratação de enfermeiros por empresas privadas têm o chamado efeito de um elefante numa loja de porcelanas no que respeita às intenções do governo nesta área. Na educação, o processo é mais sub-reptício, mas, também, aparentemente menos polémico por ser menos “doloroso”; no entanto, a evidência de mais uns milhares de professores desempregados no início deste ano letivo, (alguns deles com 10, 15 ou mais anos de serviço) resulta imediatamente de diplomas legais publicados no final do ano letivo passado, quando as escolas já estavam vazias de docentes e que, talvez mais por estratégia do que por vergonha, nem sequer eram publicitados no site do Ministério. Medidas como o aumento do número de alunos por turma, a redução de horas em algumas disciplinas, a redução de tempos destinados a apoios pedagógicos e ao desempenho de cargos, a morte anunciada e iniciada dos CEF e dos Cursos Profissionais vão contribuir, inevitavelmente, para aumentar o desemprego e para reduzir a qualidade do ensino e da formação prestada aos alunos por mais que o ar seráfico do ministro da tutela nos queira convencer do contrário. Aliás, aquilo que torna estes lacaios do neo-liberalismo mais insuportáveis é a permanente desconsideração que fazem à nossa inteligência através do recurso sistemático a uma argumentação ilusionista que não resiste à mais elementar hermenêutica dos factos.
3ª – entregar à iniciativa privada a prestação generalizada destes serviços reservando ao estado um papel meramente assistencialista. Quando não restar “pedra sobre pedra” do Serviço Nacional de Saúde e da educação pública, a obtenção destes serviços com qualidade equiparável àquela de que usufruímos num passado recente só é possível no setor privado e mediante o seu pagamento integral e elevado. O direito a usufruir destes serviços e a respetiva qualidade será diretamente proporcional à quantidade de zeros à direita na conta bancária. Esta terceira etapa é implementada gradualmente e  articulada com outras medidas de esvaziamento do estado como as nacionalizações em curso.
Todo este processo poderia parecer inócuo e negligenciável não fossem as consequências inevitáveis e nefastas que terá na qualidade de vida futura do cidadão comum; é por isso que não podemos deixar-nos adormecer pelo calor do Verão, nem embalar pelo som pimba das suas festas.



José Júlio Campos

quarta-feira, 18 de julho de 2012

UMA FEIRA … NOUTROS TEMPOS

(No mês em que decorre a Feira das Atividades Económicas, na sede do concelho… tentamos recriar um passeio por uma feira tradicional, como a de Penaverde, por exemplo, há trinta anos atrás.)

Rostos. Vidas. Temporais de sentimentos desconhecidos, não purificados no cadinho da consciência. Faces escuras comidas pelo tempo… água mole em pedra dura… Rugas cavadas pela água salgada que, secreta e insuspeitamente, olhos reflexos de vidas alheias prantearam. Vidas cruzadas misturam-se, olham-se desconfiadas ou curiosas. Feira… Lugar onde todos trazem um rosto, máscara reveladora de uma vida… de uma personalidade. O rosto na feira; o negócio; a metamorfose. A máscara que revela ou oculta inquietudes e dúvidas, recorrentes, ainda, numa feira mil vezes troteada.
Produtores, vendedores, compradores; feirantes, negociantes, tratantes; olharapos, curiosos, forasteiros; retalhistas, talhantes, tamanqueiros. O vozear alastra e excede-se onde pastores e queijeiros negoceiam ao tostão. O queijo… Vende-se como quem se separa de um ente querido… Pudera: foram mais de quarenta dias a cuidar dele como de um filho – fazê-lo, lavá-lo, mudar-lhe a “fralda”, virá-lo regularmente, voltar a lavá-lo, certificar-se que a temperatura é adequada à fase de cura… E, agora, lá vai ele, fazer as delícias de desconhecidos. E o pastor a remoer… “podia tê-lo vendido melhor; o Manel da Custódia vendeu a vinte cinco notas e não é melhor có meu…”
Negócio consumado, a deambulação pela feira, velha conhecida repleta de novidade e surpresa. Olhos atentos descodificam cada rosto, cada sinal, cada oportunidade. A alegria de ver os outros alegres. A alegria de estar ali. A tranquilidade de quem conta os dias apoiado no bordão, perdendo os olhos por cima do gado. A simplicidade de quem limpa as bagas de suor à manga de uma camisa suja, no virar de uma relha gasta ou no estrear de uma enxada nova.
Os velhos amigos, velhos também, que se reencontram todos os quinze dias para o copito e a tira de entremeada assada na brasa. O convívio. O copito. A conversa como as cerejas… “ – Carago, este ano o vinho sempre é cá uma potreia. – Vá lá, vá lá… este inda num é munto mau… prá miséria que foi. – E este ano vai pró mesmo… se num chove vai ser o bô e o bonito. – Ó parente, nem fales numa coisa dessas… s’isto continua assim…”
Vidas. Rostos. Copos que se desfazem, convívios que se partem. “ – Atão até à vista… – Já  vais imbora?... – Merenda comida, companhia desfeita! – Pois é… tamém tenho d’ir ver s’inda apanho uma comidita pró gado.”
Mais uma volta. O desfazer da feira. O copo que agora se recusa por cortesia, mas sempre se bebe por vontade. Também são como a conversa… E como as cerejas!...
Enfim, a melancolia do regresso ao mesmo de sempre, a alegria antecipada de futura jornada de feira. Os rostos mais marcados pela vivência de mais um dia. O negócio que se fez, o dinheiro que se ganhou ou se perdeu. Vidas para os outros simples, dentro delas tantas vezes dramáticas. Rostos marcas dessas vidas. Marcados.



José Júlio Campos

quarta-feira, 30 de maio de 2012

“FAZER MAIS COM MENOS”

Contrariando a lógica mais elementar do senso comum e a própria matemática em que é especialista, o actual ministro da educação iniciou o respectivo mandato, há um ano atrás, alardeando aos quatro ventos que o seu grande objectivo era, nem mais nem menos do que “fazer mais com menos”.
Aceitando como inevitável que a política de austeridade se reflectiria também na educação e que o “menos” era, à partida, um dado adquirido e incontornável, a curiosidade residia, apenas, em saber como é que o ministro iria concretizar o “mais”. E, ao longo deste ano, começámos a satisfazer essa curiosidade.
Para o ano lectivo em curso, começou o senhor ministro por implementar mais exames e pedir neles mais exigência, anunciando ainda mais para os próximos anos, qual panaceia milagrosa que, por si só, tornaria os alunos mais competentes e sabedores; simultaneamente decretou “menos” horas para actividades de complemento curricular, para cargos e para apoios pedagógicos de modo a pagar menos ordenados aos professores. Consequência deste “mais com menos”? Estão os professores, os técnicos do ministério e os pais aflitos com a previsão dos resultados nos exames nacionais de Matemática e Física e Química A, principalmente, a fazer fé nas classificações verificadas nos respectivos testes intermédios. Moral desta história: é impossível obter melhores resultados com menos professores, menos apoio educativo e menos projectos que motivem os alunos para a aprendizagem de determinadas disciplinas.
Está na forja, e, para já, com pequenas e envergonhadas amostras do que virá a ser, uma reforma curricular absolutamente inócua em termos pedagógicos e cuja única consequência previsível é a de lançar “mais” uns largos milhares de professores no desemprego, na sequência do único e grande objectivo ministerial – reduzir custos custe o que custar. O desemprego entre professores, diga-se, foi o que mais cresceu no último ano (“mais” de 130%) sendo que actualmente são já “mais” de doze mil os professores desempregados, para além dos “mais” de dez mil que, seguindo os doutos conselhos do mentor desta política, aproveitaram esta “oportunidade única” para mudar de vida ou para emigrar. Consequência deste “mais com menos”? Mais desemprego para os que ficam de fora e mais trabalho com menos vencimento para os que ficam na escola, com menos condições para proporcionar um ensino de qualidade aos alunos. Moral desta história: é impossível obter “mais” qualidade no ensino com “menos” professores, “menos” condições de trabalho, “menos” incentivos e “menos” respeito pela profissão.
Despachada está já a decisão a vigorar no próximo ano lectivo de aumentar o número mínimo e máximo de alunos por turma; este pode chegar aos trinta, em turmas do 5º ao 12º ano, e aos vinte e cinco, em turmas do pré-escolar; o mínimo será de vinte e seis e de vinte respectivamente, sendo também de vinte o número mínimo necessário para abrir uma disciplina de opção no Secundário. Consequências deste “mais com menos”? A ser implementada às cegas, como têm sido muitas outras, em obediência estrita aos números, esta medida poderá ter efeitos diversos, mas invariavelmente nefastos consoante o tipo de escolas – nos centros urbanos teremos salas de aula, por vezes com espaços exíguos, a abarrotar de alunos, tornando impossível um acompanhamento mais individualizado ou uma avaliação interna com o mínimo de seriedade; em concelhos menos populosos poderá acontecer que a falta de um número mínimo de alunos para abrir uma turma implique o encerramento de alguns cursos, no ensino secundário, obrigando os alunos a deslocar-se para os centros urbanos ou a frequentarem, por falta de alternativa, um curso para o qual não estão minimamente vocacionados; no limite, esta medida poderá significar, pura e simplesmente, o fim do ensino secundário em muitas vilas do interior. Moral da história: é impossível dar “mais” credibilidade ao ensino e “mais” igualdade de oportunidades a todos os alunos, com “menos” condições para fazer uma aprendizagem à medida das necessidades e com “menos” possibilidades de escolher o percurso curricular mais adequado às características pessoais.
Em conclusão: bastou um ano para que a prosaica lógica da realidade “ensinasse” ao senhor ministro uma regra básica da matemática que ele quis levianamente perverter, quiçá num presunçoso e inconsciente arrojo de génio: “mais por menos dá sempre menos”! O problema é que ainda há quem não queira ver a realidade e prefira navegar num mar de delírios.


José Júlio Campos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O DISCURSO POLÍTICO OU A BANALIZAÇÃO DA MENTIRA

Um dos aspetos mais preocupantes dos tempos que vivemos é, do meu ponto de vista, a desfaçatez e falta de vergonha com que os políticos banalizaram a mentira no seu discurso. Essa é, aliás, a razão primeira da descredibilização quase total dos políticos perante a opinião pública generalizada.
Para essa realidade contribuíram vários fatores como a falta de qualidade intelectual e ética dos indivíduos que tomaram conta dos partidos políticos, assim como a deterioração da memória do eleitorado provocada pelo bombardeamento de mensagens políticas que provocam um misto de confusão e repulsa que levam ao alheamento. No que respeita à comunicação social, a grande maioria do público prefere as mensagens relacionadas com entretenimento, desporto, coscuvilhice ou crime de “faca e alguidar” às mensagens de natureza política; e não é só por falta de formação ou de cidadania que isso acontece, mas, sobretudo, por cansaço e falta de paciência para uma tal desfaçatez com que se recorre à mentira no discurso político que, às vezes, até parece “gozo”. Esse alheamento é tanto mais preocupante na medida em que se verifica, principalmente, na faixa etária com menos de quarenta anos e ajuda a perceber a tendência para o significativo aumento da abstenção nas eleições mais recentes.
Um dos exercícios mais interessantes que alguém com uma boa dose de paciência poderá fazer é registar as afirmações que os políticos fazem, hoje, com a maior solenidade e circunstância e compará-las com aquilo que vão afirmar ou fazer, daqui a poucos meses, não com menor espavento e seriedade, sobre o mesmo assunto. Se formos pessoas bem-dispostas escreveremos, dessa forma, um divertido livro de anedotas; se formos mais coléricos, teremos, com certeza, matéria para a realização de um manifesto anti-políticos. Este exercício atingirá o seu esplendor se, pelo meio, os políticos em observação transitarem da oposição para o poder ou vice-versa, sobretudo se esse poder for absoluto como acontece atualmente no nosso país; aí é que a falta de decoro, a desfaçatez e a sem-vergonha se tornam totalmente escandalosas e insuportáveis. Tomemos como exemplo o atual primeiro-ministro. Todos (?) nos lembramos de que, há um ano atrás, esse senhor, então em campanha eleitoral, afirmava perentoriamente que jamais usaria como desculpa para as medidas que viesse a tomar aquilo que o governo anterior tinha feito; depois de ganhar as eleições e estar no governo, não houve medida relevante cuja necessidade não fosse justificada com a herança deixada pelo anterior governo. Todos (?) nos lembramos de esse senhor afirmar que “pensar em cortar os subsídios de férias e de Natal seria um grande disparate” e que a crise tinha de ser atacada com outras medidas; infelizmente, não disse quais e o corte desses subsídios aos funcionários públicos e aos reformados tornou-se a grande medida de combate à crise. Todos (?) entendemos, e bem, que esse corte, anunciado em Outubro de 2011, se aplicaria apenas nos anos de 2012 e 2013; passado apenas meio ano, e numa altura em que a propaganda do governo vem afirmando que no final de 2013 estaremos em condições de voltar aos mercados, ou seja, com a crise debelada, vêm-nos dizer que, afinal, o corte se prolongará para 2014, quiçá para 2015. De mentira em mentira é previsível que amanhã nos digam que esse corte é “ad aeternum”. Mas também, de mentira em mentira, estes senhores vão-se tornando os coveiros da democracia porque não há democracia que resista a tanta mentira. Sobretudo quando ela se tenta esconder sob a máscara do lapso e é veiculada com o ar seráfico de quem encerra um poço de virtudes. O atual governo adotou a estratégia da mentira e da matreirice (como aconteceu recentemente com a lei que impossibilita as reformas antecipadas até 2015) na sua relação com os cidadãos. Isso só pode contribuir para desacreditar ainda mais os políticos, a atividade política e a democracia criando um caldo de revolta que, minando as consciências, poderá, a médio prazo, fazer implodir o modelo social e político vigente.



José Júlio Campos

sexta-feira, 30 de março de 2012

NÓS, OS OUTROS E O S. PEDRO

Terminou, há poucos dias, o inverno mais seco desde que existem registos de pluviosidade em Portugal. Trata-se de um facto que exige uma reflexão, para além da proverbial resignação de quem sabe que, contra as adversidades climáticas, ao homem pouco mais resta do que promover umas novenas e pedir clemência a S. Pedro como fez a ministra Cristas. Mas será que a responsabilidade pelo clima é apenas do santo que tem as chaves do Paraíso e o problema se enfrenta com as estratégias da ministra?
Até há um século atrás, poderíamos dizer que sim: sempre existiram “variações” climáticas naturais num planeta vivo, onde ocorrem permanentes transformações bioquímicas e os eventuais desvarios dos ciclos climáticos se resolviam com uma boa dose de paciência e umas orações ou umas danças!
Acontece que hoje, a esse fenómeno natural acresce e sobrepõe-se um outro designado por “alterações” climáticas, este provocado pela ação humana. Desde o séc. XIX, a civilização ocidental desenvolveu e disseminou um “monstro” conhecido como “capitalismo industrial” cuja lógica se resume ao seguinte: produzir mais, vender mais, lucrar mais. No entanto, esta lógica levada ao extremo e praticada sem limites, como tem vindo a acontecer, acabou por trazer consequências dramáticas no equilíbrio social e ambiental do planeta. A nível social, a lógica capitalista assenta na imposição de uma mentalidade consumista alimentada por uma publicidade agressiva e imoral que explora os sentimentos, as emoções e as necessidades mais básicas e vulneráveis do ser humano. Este consumismo capitalista é responsável pelo crescimento exponencial das desigualdades sociais e a consequente criação de um exército cada vez maior de miseráveis que começa a tornar-se uma ameaça séria à estabilidade e segurança das comunidades. A nível ambiental, as consequências do capitalismo industrial são, ainda, mais nefastas. A maquiavélica obsessão pelo lucro leva a uma produção incessante em que não se olha a meios e recursos para o aumentar. O deus-lucro, único que o capitalista adora, sobrepõe-se a todos e tudo é sacrificado no seu altar – a gestão equilibrada dos recursos naturais e do ambiente, a dignidade do ser humano e o seu natural direito a usufruir de condições de vida saudáveis, a partilha equitativa e justa dos bens naturais, enfim, o próprio equilíbrio ecológico do planeta. A voragem do lucro tem levado à extinção de várias espécies vegetais e animais, bem como a processos de produção industrial e hábitos de consumo altamente poluidores e diretamente responsáveis por fenómenos como o aumento da temperatura média global, a destruição da camada de ozono, o efeito de estufa ou o degelo dos glaciares. E não resta hoje qualquer dúvida que os invernos secos como este que terminou, os verões cada vez mais quentes, a desertificação de vastas regiões, como o Alentejo, as catástrofes naturais já vistas ou iminentes, como tufões, cheias, tsunamis, tornados, ou a subida do nível dos mares, são consequências diretas desse sistema económico, a que estaremos sujeitos cada vez com maior frequência e gravidade, caso os EUA, a China e quejandos continuem a fomentar esta corrida para o abismo que são as suas políticas irresponsáveis. Mas também a nível individual existe uma responsabilidade que nos impõe uma inevitável e imediata mudança de mentalidade: é urgente uma alteração radical nos nossos hábitos no sentido de consumirmos menos e melhor, valorizarmos o essencial – o ser – em detrimento do acessório – o ter, não viver para consumir, mas consumir apenas o estritamente essencial para viver. Só desta forma poderemos escapar ao apetite insaciável dos tubarões que se perfilam por trás da máquina industrial capitalista e reduzir esta marcha acelerada para a destruição do planeta.

José Júlio Campos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PRIMAVERA MULHER ESPERANÇA

Neste mês de Março ocorre-me salientar dois eventos que nele se repetem, pela simbologia que assumem no atual contexto e pela relação que é possível estabelecer entre eles. Trata-se do Dia Internacional da Mulher e do início da Primavera.
A celebração do Dia Internacional da Mulher deve ser entendida como um sinal de alerta para um dos fenómenos mais incompreensíveis e condenáveis da história da humanidade – a relação de subalternidade e submissão da mulher face ao homem e as dramáticas consequências daí decorrentes que todos conhecemos. Apesar dos progressos verificados, que o dia 8 de Março também pretende comemorar, o facto é que a mulher ainda continua a ser uma vítima generalizada da prepotência masculina, como facilmente constatamos se olharmos para o que se passa com o atropelo constante dos seus direitos, sejam eles os mais cívicos e elementares, como acontece em muitos povos islâmicos, ou os mais progressistas e ocidentalizados como os direitos sociais e laborais. No nosso país, por exemplo, onde teoricamente os direitos humanos em geral e os das mulheres em particular estão, desde a Revolução de Abril, culturalmente consolidados e legalmente instituídos, continuamos, na prática, a assistir à sua mais vergonhosa violação como o provam o aumento da violência doméstica contra as mulheres e a discriminação contra grávidas no meio laboral empresarial.
No dia 21 de Março inicia-se a estação do ano mais rica em termos de simbologia; a Primavera é, entre muitos outros, símbolo de juventude, símbolo de vida e símbolo de fertilidade.
Existe, pois, uma óbvia relação simbólica entre a Primavera e a mulher da qual podemos tirar algumas ilações neste mês de Março. É que mulheres e homens continuam a ter necessidade de lutar, juntos, pela consolidação plena da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre todos os seres humanos, princípios básicos e inalienáveis que a Revolução Francesa consolidou e que permitiram à mulher, pelo menos no mundo ocidentalizado, atenuar a absurda discriminação negativa de que foi vítima ao longo dos tempos. No mundo atual podemos constatar a emergência de alguns sinais de esperança, como a chamada “Primavera árabe” que pode funcionar para as mulheres de alguns povos islâmicos como ponto de partida para a sua emancipação individual e social; mas também continuam a proliferar os exemplos de retrocesso que tendem a aumentar com a situação de crise económica e social em que vamos vivendo, como sejam a violência doméstica, o assédio sexual, a discriminação e remuneração desigual no mercado de trabalho, o tráfico de mulheres e exploração da prostituição, etc.
Esta associação entre a Primavera e a mulher que ocorre no mês de Março pode ser um sinal de esperança para todos nós: acreditemos que o clima e o mundo vão melhorar; acreditemos que o frio e a maldade do homem vão atenuar-se; acreditemos que a água-chuva fertilizante da terra, em Abril será mil; acreditemos que a mulher revitalizadora e primavera da humanidade poderá cumprir o seu ideal.
O verde com que a Primavera veste a natureza é também o símbolo da esperança com que podemos vestir os nossos corações: acreditemos que podemos ter uma terra permanentemente primaveril e uma humanidade permanentemente feminina, isto é, igualmente férteis, revitalizantes, belas e criadoras de beleza.



José Júlio Campos