(No mês em que decorre a Feira das Atividades Económicas, na sede do
concelho… tentamos recriar um passeio por uma feira tradicional, como a de
Penaverde, por exemplo, há trinta anos atrás.)
Rostos. Vidas. Temporais de sentimentos desconhecidos, não purificados no
cadinho da consciência. Faces escuras comidas pelo tempo… água mole em pedra
dura… Rugas cavadas pela água salgada que, secreta e insuspeitamente, olhos
reflexos de vidas alheias prantearam. Vidas cruzadas misturam-se, olham-se desconfiadas
ou curiosas. Feira… Lugar onde todos trazem um rosto, máscara reveladora de uma
vida… de uma personalidade. O rosto na feira; o negócio; a metamorfose. A
máscara que revela ou oculta inquietudes e dúvidas, recorrentes, ainda, numa
feira mil vezes troteada.
Produtores, vendedores, compradores; feirantes, negociantes, tratantes; olharapos,
curiosos, forasteiros; retalhistas, talhantes, tamanqueiros. O vozear alastra e
excede-se onde pastores e queijeiros negoceiam ao tostão. O queijo… Vende-se
como quem se separa de um ente querido… Pudera: foram mais de quarenta dias a
cuidar dele como de um filho – fazê-lo, lavá-lo, mudar-lhe a “fralda”, virá-lo
regularmente, voltar a lavá-lo, certificar-se que a temperatura é adequada à
fase de cura… E, agora, lá vai ele, fazer as delícias de desconhecidos. E o
pastor a remoer… “podia tê-lo vendido
melhor; o Manel da Custódia vendeu a vinte cinco notas e não é melhor có meu…”
Negócio consumado, a deambulação pela feira, velha conhecida repleta de
novidade e surpresa. Olhos atentos descodificam cada rosto, cada sinal, cada
oportunidade. A alegria de ver os outros alegres. A alegria de estar ali. A
tranquilidade de quem conta os dias apoiado no bordão, perdendo os olhos por
cima do gado. A simplicidade de quem limpa as bagas de suor à manga de uma
camisa suja, no virar de uma relha gasta ou no estrear de uma enxada nova.
Os velhos amigos, velhos também, que se reencontram todos os quinze dias
para o copito e a tira de entremeada assada na brasa. O convívio. O copito. A
conversa como as cerejas… “ – Carago,
este ano o vinho sempre é cá uma potreia. – Vá lá, vá lá… este inda num é munto
mau… prá miséria que foi. – E este ano vai pró mesmo… se num chove vai ser o bô
e o bonito. – Ó parente, nem fales numa coisa dessas… s’isto continua assim…”
Vidas. Rostos. Copos que se desfazem, convívios que se partem. “ – Atão até à vista… – Já vais
imbora?... – Merenda comida, companhia desfeita! – Pois é… tamém tenho d’ir ver
s’inda apanho uma comidita pró gado.”
Mais uma volta. O desfazer da feira. O copo que agora se recusa por
cortesia, mas sempre se bebe por vontade. Também são como a conversa… E como as
cerejas!...
Enfim, a melancolia do regresso ao mesmo de sempre, a alegria antecipada de
futura jornada de feira. Os rostos mais marcados pela vivência de mais um dia.
O negócio que se fez, o dinheiro que se ganhou ou se perdeu. Vidas para os
outros simples, dentro delas tantas vezes dramáticas. Rostos marcas dessas
vidas. Marcados.
José Júlio Campos
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