sábado, 27 de agosto de 2011

SETEMBRO

Há trinta ou quarenta anos, quando era estudante e as aulas só começavam depois do dia 5 de Outubro, o mês de Setembro era o melhor do ano.
Nesse tempo, as férias prolongavam-se por três meses: o mês de Julho, marcado pelo muito e duro trabalho no campo, debaixo de sol inclemente; o mês de Agosto, com a agitação das festas e da presença cosmopolita dos emigrantes; o mês de Setembro, com a calma moderação de todos esses anteriores exageros – do trabalho, do calor e da agitação.
Associo o mês de Setembro às melhores recordações das minhas férias de adolescente, precisamente pelas coisas mais simples e bucólicas que a vida na aldeia podia, nesse tempo, proporcionar. Arrancavam-se, de enxada na mão, as últimas batatas e as leiras recebiam a semente da erva e do centeio que, lentamente, as pintaria de um verde magnífico, recebidas as primeiras chuvas. A azáfama virava-se, então, para a recolha e a seca do milho, do feijão, do frade … enquanto continuava, por todo o lado, a sementeira da erva que iria servir de pasto às dezenas de rebanhos de ovelhas que havia na aldeia.
Era neste mês que se cortava e juntava em grandes montes todo o milho produzido; depois, quase sempre à noite e pela noite fora, procedia-se às famosas desfolhadas, ou escanadas, como se dizia na minha aldeia. Lembro-me de ir a algumas dessas desfolhadas, ainda criança, a umas quintas de familiares que distavam umas largas centenas de metros; íamos em grupos, candeias de petróleo na mão e risos a acompanhar as histórias dos mais velhos e as travessuras dos mais novos. A desfolhada era um momento especial de trabalho e convívio. A luz fraca dos candeeiros empoleirados no cimo do monte do milho produzia uma penumbra, onde apenas a voz identificava cada um dos presentes. Este anonimato visual estimulava e desinibia a comunicação, enquanto as espigas iam sendo despidas das várias camisas que as vestiam. Todos cantavam, todos contavam histórias, todos se sentiam livres e corajosos sob o efeito inebriante da noite. Para muitos era a ocasião, todo o ano sonhada, de pedir namoro à cachopa fugidia. Para os mais novos, enquanto o sono não nos enrodilhava sobre os folhelhos esventrados, era o momento privilegiado de estar entre os adultos e de nos iniciarmos em muitos dos seus segredos e mistérios.
Acabada a sementeira das ervas e arrumado o milho em enormes arcas, começava-se a juntar a lenha com que haveria de se enfrentar o rigoroso e prolongado Inverno. Uma das tarefas que mais prazer me dava, quando a força dos braços o começou a permitir, era transformar em cavacas os troncos de pinheiro ou carvalho utilizando, com esforço e perícia, um grande e pesado machado a que chamávamos “malho”.
Recordo, também, com nostalgia, a produção de cancelas que serviriam para delimitar os currais das ovelhas e a quantidade de pasto novo que se lhes dava cada dia; todos os anos era necessário renovar o acervo deste objecto indispensável numa pastorícia direccionada para a produção do genuíno queijo da Serra. Aliás, se a partir de Abril as tarefas eram essencialmente agrícolas, a partir de Setembro o rebanho passava a ser a principal fonte de trabalho e de receita. Vendidas as crias pelos finais de Outubro, iniciava-se a época da ordenha, de manhã e à noite, e da produção do queijo, tarefas estas que exigiam muita dedicação, trabalho e saber pormenorizado que só se aprendia fazendo.
Hoje, não existe um único rebanho na minha aldeia; já ninguém vive da produção do queijo; a pouca agricultura que ainda se faz é de mera subsistência.
Que saudades desses meses de Setembro, em que cada pequeno ou grande trabalho tinha um sabor especial e a vida decorria na ilusória pacatez de um tempo inesgotável. Hoje, resta apenas o clima ameno e a paisagem amarelecida duma natureza que se repete e multiplica, aparentemente alheia aos desvarios e transformações do modo de viver humano.



José Júlio Campos

sexta-feira, 22 de julho de 2011

MUDAR … É PRECISO (Parte II)

(Continuação da edição anterior)
A escola actual tem como preocupação fundamental a formação (ou será melhor dizer “formatação”?) dos jovens para duas coisas: consumir e produzir; prepará-los para serem uma espécie de máquinas, ou robots, cujo destino é traçado “ab initium” como se lhes fosse incorporado um chip e funcionassem por controlo remoto. Esse destino é serem peças de uma engrenagem superiormente comandada, não pela inteligência despótica do big brother orwelliano, mas pela avareza maquiavélica dos senhores da alta finança internacional. Estes encarregam-se, fazendo uso do seu poderio financeiro, de garantir a existência de uma espécie de “capatazes” cujo papel é implementar no terreno a ideologia que interessa aos seus senhores. Esses “capatazes” são uma classe intermédia, entre os “donos do mundo” e os seus “escravos contemporâneos”, que é composta por académicos interesseiros, políticos gananciosos, jornalistas e comentadores pusilânimes que usam o poder mediático que lhes é posto nas mãos por esses “donos do mundo” para levarem a cabo a sua tarefa de fazer com que os “escravos” pensem que a sua obrigação é ser escravos e nem sequer pensem, alguma vez, ao de leve que seja, em revoltar-se contra essa situação.
Todo o percurso escolar do aluno é pensado no sentido de o dotar de um conjunto de competências que lhe permitam integrar-se no aparelho produtivo – interessa, apenas, que aprenda uma profissão, ou se prepare para a desempenhar de forma eficaz; a própria escola tem como preocupação “produzir” técnicos altamente qualificados e é gerida como se tivesse que dar lucros. Simultaneamente, importa que essas “máquinas humanas” sejam alimentadas convenientemente e não levantem ondas nem se lembrem de ser diferentes no modo de viver, ou nas ambições, como “a formiga Z” (aconselho vivamente que vejam o filme com esse nome realizado por Eric Darnell e Tim Johnson). Importa, também, que essas mesmas máquinas sejam educadas para consumir, por duas razões convergentes: enquanto alimentam a sua ilusão de bem-estar com o “ter” artificial, anestesiam o seu ego e mantêm-se dóceis às ordens de quem os controla – ninguém se revolta de barriga cheia; enquanto compram os produtos que eles próprios produzem estão a garantir que a engrenagem não pára – produzir, consumir e … para uns poucos (muito poucos) … lucrar. É assim que funciona o sistema que nos trouxe até este beco sem saída.
Existirão alternativas?
Sinceramente, é preciso ser muito sonhador para acreditar que sim. Acredito que, no que respeita à educação, a alternativa passa por substituir o produzir e o consumir pelo criar e pelo pensar. O aluno, em vez de ser visto e tratado como um indivíduo que se prepara para ser uma máquina que produz em série, deve ser entendido como uma pessoa que deve ser estimulada no sentido de ser capaz de potenciar toda a sua capacidade empreendedora e energia criativa. Em vez de vermos a criança como uma unidade social que deve aprender a conformar-se ao grupo e a afirmar-se pela quantidade de bens que consegue adquirir, devemos entendê-la como um ser único e irrepetível que constrói a sua capacidade de questionar, reflectir, desejar, tomar decisões, enfim, ser um homem ou uma mulher capaz de pensar por si e de agir de forma autónoma.
Enquanto a escola não alterar estes pressupostos ideológicos subjacentes à educação e ao ensino, dificilmente a tão apregoada e necessária mudança será mais do que uma mera e vã palavra que fica bem no discurso dos políticos.



José Júlio Campos

quarta-feira, 22 de junho de 2011

MUDAR … É PRECISO (Parte I)

A recente mudança na governação do País apresenta-se, para alguns, como um sinal de esperança e de crença na resolução dos problemas que nos afectam; para outros trata-se, apenas, de mudar os nomes para continuar tudo na mesma, já que o poder de decisão se encontra alienado a Bruxelas desde 1986 e as medidas para, supostamente, sair da crise, foram determinadas pela tríade FMI, FEEF e BCE. A partir daqui o que nos resta? Também a esta pergunta há quem responda, à antiga portuguesa, “é pagar e não bufar”, enquanto outros, menos conformistas, alvitram que devemos pagar, sim, mas “bufar” qualquer coisita, pelo menos quanto aos prazos e talvez quanto aos juros, porque não?... Enfim … Estamos numa situação difícil, de resolução complexa; e, com o exemplo da Grécia a pairar sobre as nossas cabeças, qual espada de Dâmocles, as respostas escasseiam e as certezas resumem-se apenas a uma: é preciso mudar.
Mas mudar o quê? … Antes de mais, mudar mentalidades. Tarefa complicada, sem dúvida … Sobretudo para as gerações de meia idade habituadas a viver num modelo de organização social e económico consumista e criador de ilusões de crescimento e bem-estar sem fim, onde o enriquecimento fácil está ao alcance de qualquer um. Foi isto que nos incutiram. Estamos, agora, a “cair na real” e a darmo-nos conta que, afinal, comprar tudo a crédito sujeito a juros altíssimos e saldar tudo a troco de contrair dívidas para pagar outras dívidas, serve apenas para engordar as sanguessugas da banca nacional e internacional. Demasiado tarde e, talvez, da pior maneira possível, para alguns, estamos a dar-nos conta de que, afinal, essa promessa de viver à grande não era mais do que um presente envenenado para nos esmifrarem o pouco que tínhamos, a troco de uns pratos de lentilhas. Aliás, o mesmo que a Alemanha e os grandes da Europa nos fizeram com a entrada na União Europeia – a troco de subsídios às carradas, a fundo perdido e sem fim à vista, levaram-nos à auto-destruição do sector primário (agricultura e pescas) e colocaram-nos na situação actual de termos de lhes comprar a eles todos os bens que nessas áreas deixámos de produzir. Tratou-se de uma magistral inversão, ou melhor, perversão, do famoso provérbio chinês que diz: “se vires um pedinte, em vez de lhe dares um peixe, ensina-o a pescar”! O que os grandes da Europa fizeram foi exactamente o contrário: viciaram-nos em “peixe” a troco de “desaprendermos de pescar”! E o que é curioso é que este género de situação nem sequer é novo na nossa história – fizemos o mesmo quando, após o período áureo dos Descobrimentos, esbanjámos o ouro do Brasil e outras riquezas, a troco de luxos importados da Flandres e de Veneza, em vez de investirmos no progresso do nosso próprio País. Das duas uma e porque não as duas: ou, enquanto povo, somos uns estroinas que nem sequer aprendem com os próprios erros, ou, então, temos tido muito azar com a classe política que em tempos nos era imposta e ultimamente temos podido escolher! O certo é que, mais uma vez, caímos no engodo – trocámos a certeza do pouco que tínhamos, mas era nosso, pela ilusão de integrarmos o “grupo da frente” e vivermos como eles, exactamente “à grande e à francesa”, enquanto nos tiravam os anéis para agora nos estarem a exigir os dedos.
E agora? … Provavelmente, mais do que (ou antes de?...) entrarmos em lutas armadas e revoluções populares, devemos fazer um esforço de mudança – mudar formas de viver e de pensar, enquanto preparamos as gerações mais jovens para viverem, de uma forma minimamente equilibrada e aprazível, num mundo que se prevê muito mais hostil, em todos os aspectos, do que aquele em que, ilusoriamente, nos fizeram acreditar. E isso implica, a meu ver, uma alteração radical nos pressupostos ideológicos subjacentes ao modelo de educação e de ensino que tem vindo a ser implementado nas nossas escolas há mais de vinte anos.
(Continua na próxima edição)

José Júlio Campos

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A TELEVISÃO E AS AUDIÊNCIAS

Recentemente fomos confrontados com mais uns atentados ao bom gosto e ao bom senso dos portugueses, perpetrados pelos canais privados de televisão ditos generalistas. Na sua luta maquiavélica pela liderança das audiências, vale tudo, inclusive tirar olhos; ou, pelo menos, meter os dedos pelos olhos do telespectador, retirando-lhe, por aí, o pouco discernimento e consciência crítica que ainda lhe restarão.
É certo que desde o “Big Brother” tudo é possível, apesar de parecer difícil descer mais baixo; no entanto, a capacidade dos grandes produtores de entretenimento televisivo internacionais continua a ser capaz de criar sub-produtos desse execrável programa que nada lhe ficam a dever.
Um deles é um suposto concurso de gordos apresentado na SIC pela rainha da sucata televisiva. Não deixa de ser estranho que uma dúzia de big gordos e gordas se disponham a mostrar na televisão aquilo que habitualmente é motivo de vergonha em função do estereótipo de beleza em vigor na sociedade actual. O chorudo prémio para o vencedor é um “bom” motivo, mas … e os outros? Também não se percebe muito bem como é que um programa com estes ingredientes consegue ser rentável em termos de audiências, mas a curiosidade mórbida pelo sofrimento alheio, ou a tendência para sentir menores os nossos males quando os vemos aumentados nos outros, talvez ajude a compreender tal facto. Aquilo que não se pode aceitar, de modo algum, é a exploração abjecta quer de uma doença, como é a obesidade, e do sofrimento inerente, quer do pouco educado gosto do público e dos seus recalcados sentimentos. Parafraseando o saudoso Diácono Remédios: “Não havia necessidade! Qualquer dia ainda fazem concursos na televisão a ver quem tem o maior tumor no pâncreas; ou a ver quem chora mais por ter ficado incontinente! Não havia necessidade!”
Como nestas coisas da concorrência televisiva o lema é: “quanto pior, melhor”, a TVI não se ficou atrás e vai daí ataca-nos com um programa em que os “convencidamente civilizados” têm de se integrar junto dos “convencidamente selvagens”. O mau gosto e o preconceito racista e civilizacional deste programa só conseguem ser superados pela presença inenarrável de um dos elementos do elenco de suposta gente fina que é posta a viver na selva. Gostava, aliás, de perguntar que crime teremos nós cometido para, ciclicamente, vermos a nossa saúde mental ser atacada por esse ícone das aberrações nacionais. O recurso a essa espécie de criatura humana, que, por decência, me abstenho de qualificar, para obter audiências, é a prova evidente de que a televisão não olha a meios para alcançar os fins.
Infelizmente, esses meios têm a ver com algo que vai alastrando na sociedade actual como fogo na savana: a incapacidade para pensar de forma autónoma e a falta de educação estética – é que os gostos não se discutem, dizem; mas devem educar-se, digo eu. E nisto todos somos responsáveis – pais, professores e adultos em geral.
Acrescentaria, para terminar, que, a concretizar-se o velho desejo de alguns sectores da política portuguesa, de privatizar o canal público de televisão existente actualmente, tal contribuirá, apenas, para elevar ao triplo aquilo que até aqui tem sido a dobrar – o aproveitamento maldoso do baixo nível cultural da população e dos sentimentos mais mesquinhos do ser humano, para encher os cofres dos proprietários dos canais televisivos. Será isso que nós queremos?



José Júlio Campos

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A VOZ DA IGREJA – UM SINAL DOS TEMPOS

Ao contrário do que alguns pensam, é minha opinião que a Igreja também deve fazer ouvir a sua voz no que respeita àquilo que “é de César” e não apenas àquilo que “é de Deus”. Nesse sentido, não posso deixar de salientar a atitude de algumas figuras responsáveis da Igreja Católica portuguesa que, de há uns tempos a esta parte, se têm manifestado prodigamente sobre a situação económica e social que se vive cá e além fronteiras. Basta fazer uma breve consulta ao site da Agência Ecclesia – agência de notícias da Igreja Católica em Portugal, para termos uma noção clara desta realidade.
Os exemplos do que afirmei são, por demais, evidentes e deles me limitarei a fazer um exíguo, mas significativo, apanhado.
Uma das vozes mais contundentes e certeiras tem sido a de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, que, em Setembro de 2010, denunciava os directores de empresas que “recebem ordenados autenticamente obscenos perante a realidade social, justificando sempre que os lucros se devem às suas grandes capacidades de gestão, como se não fosse do trabalho daqueles que dão o seu melhor”; e sobre a crise económica global acrescentava que a sua origem se deve aos “grandes gestores”, alguns até com direito a um prémio Nobel da economia e que foram os responsáveis pelas teorias que nos desgraçaram. Também em 11 de Dezembro passado, este mesmo bispo denunciava corajosamente, em entrevista à RTP, a falta de vontade política, em Portugal e na Europa, para pôr fim aos abusos económicos; defende a necessidade de regular os mercados, mas aponta o facto de não haver autonomia na política nem na Comunicação Social: esta “está açambarcada pelos órgãos do poder económico e não há liberdade nem na política nem na Comunicação Social porque tudo isto é abafado por grandes grupos económicos”. Também do comunicado final da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa que decorreu de 8 a 11 de Novembro de 2010 é possível retirar ideias como a seguinte: “é hora para pôr cobro à atribuição de remunerações, pensões e recompensas exorbitantes, ao lado de pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade”. Já em Abril último, a Rede Europeia Anti-Pobreza, secção de Portugal, considera que o pedido de ajuda externa feito pelo governo não terá efeitos práticos junto de quem mais precisa; e o presidente daquela organização católica, padre Agostinho Moreira, vai mais longe ao declarar à referida agência noticiosa que “esta solução vai resolver a crise dos bancos e das empresas, mas dificilmente terá benefícios directos para os mais débeis” e que esta medida revela uma “visão apenas economicista e de um capitalismo liberal, sistema perverso que não é digno de uma sociedade que diz ter políticas sociais para o cidadão”. D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal, afirmava, há dias, que “sem verdade nem moral nas atitudes degrada-se a vida pública mediante a instituição de redes e grupos de influência que se servem dos bens públicos com o fim de enriquecimento pessoal”; e mais: “urge uma mudança de paradigma social que todos reconhecem como óbvia e necessária”. Finalmente, também o bispo da Guarda, D. Manuel Felício, criticou recentemente “uma cultura transformada em modelo de educação que insiste exclusivamente no individualismo” e apelou à coragem dos políticos para que repensem os modelos de organização da sociedade.
Concorde-se ou não com as opiniões emitidas por estes prelados, não deixa de ser curioso que a voz da Igreja aponte no sentido de uma mudança profunda das estruturas económicas e da organização social e política a nível global. Se partirmos do pressuposto generalizado, e talvez não muito polémico, de que a Igreja é, por natureza e tradição, defensora do “status quo”, então esta atitude de apelo à renovação e à mudança não pode deixar de soar como um claríssimo sinal dos tempos ao qual todos devemos estar muito atentos; a Igreja não pode ser apenas uma instituição que se ouve e reconhece quando nos dá jeito, mas também quando nos sobressalta a consciência e nos incentiva para mudar aquilo que urge ser mudado.
As próximas eleições afiguram-se como um momento em que podemos contribuir para essa mudança: assim tenhamos coragem para seguir a voz da razão e perceber que um partido político não se escolhe para toda a vida como um clube desportivo.



 José Júlio Campos

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A ESCOLA ACTUAL

Recentemente passou na Comunicação Social uma notícia que dava conta da dificuldade que uma empresa de um concelho vizinho do nosso sentia em encontrar mão-de-obra qualificada para poder investir no alargamento e modernização da sua produção. Num tempo em que o desemprego alastra, esta notícia leva-nos a questionar o papel da escola na sociedade contemporânea. Terá a escola actual condições para que a situação referida não seja mais do que uma excepção? A resposta parece-me ser afirmativa.
Efectivamente, nos últimos anos deram-se os passos correctos no sentido de criar condições para que a escola dê resposta às necessidades do mercado de trabalho. A implementação, nas escolas básicas e secundárias, dos cursos profissionais, quer de nível II (equivalente ao 3º ciclo), quer de nível III (equivalente ao Secundário), permite formar técnicos especializados nas mais diversas áreas. Estes cursos têm duas grandes vantagens: por um lado permitem variar a oferta de ensino fazendo com que a escola possa satisfazer uma maior diversidade de interesses e vocações por parte dos alunos; por outro lado servem, precisamente, para formar a espécie de mão-de-obra hoje em dia necessária a um mercado de trabalho cada vez mais especializado e heterogéneo.
No entanto, para que esta evolução na formação seja eficaz é preciso que se criem mecanismos ou condições para um maior diálogo entre a escola e a comunidade envolvente; neste sentido, os órgãos do poder autárquico podem desempenhar um papel importante enquanto elos de ligação entre a escola e o espectro das actividades económicas e sociais de uma comunidade ou região. A abertura de cursos profissionais, nas escolas básicas e secundárias, deve resultar de um diálogo entre todos os elementos da comunidade educativa representados no Conselho Geral e deve obedecer a critérios que assentem, exclusivamente, na satisfação das necessidades reais do mercado de trabalho. Se assim não for, corremos o risco de estar a cair no mesmo erro em que se caiu quando se criaram cursos do ensino superior ao desbarato, sem qualquer estudo sério do mercado de trabalho e das necessidades reais do país, algo que levou à actual situação de haver demasiados licenciados em áreas para as quais não há empregos e haver sectores de actividade que não encontram mão-de-obra qualificada para as tarefas exigidas. Que o estruturante erro histórico cometido ao nível do ensino superior, na primeira década após a adesão à União Europeia (recordam-se quem foi o Primeiro-Ministro durante esses dez anos?...), não volte a ser cometido, nos tempos que correm, ao nível dos ensinos básico e secundário.
Se esse erro não se cometer, situações como a que motivaram esta reflexão não mais serão notícia; basta, para isso, que qualquer empresário que pretenda investir numa determinada área de produção sonde o mercado de emprego e, caso neste não haja oferta de acordo com as suas necessidades, se dirija ao poder autárquico. Este deverá funcionar como o tal pivot que, recolhendo as necessidades do mercado de trabalho as fará chegar à escola, pondo mesmo o empresário a dialogar com ela, no sentido de se produzir um ensino profissional à medida dessas necessidades. A escola actual dispõe de condições para, em poucos anos, formar mão-de-obra qualificada que satisfaça o mercado de trabalho, nomeadamente em determinados “nichos” para os quais a formação específica é absolutamente indispensável.



José Júlio Campos

quarta-feira, 23 de março de 2011

O EXEMPLO DO JAPÃO

Nos já longínquos anos 80, enquanto aluno da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, tive oportunidade de ler uma obra intitulada “O desafio mundial”, escrita por um político, ensaísta e jornalista francês chamado Jean-Jacques Servan-Schreiber. Dessa leitura ficou, para sempre, a recordação da forma como o autor descreve, entre outros aspectos da política mundial, o chamado “milagre japonês”; efectivamente, uma grande parte dessa obra consiste em analisar o desenvolvimento tecnológico do Japão por meio da informatização, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. O Japão mantivera-se em guerra com os Aliados, mesmo após a rendição da Alemanha, alegadamente devido às ambições megalómanas do seu Imperador Hirohito; no entanto, a guerra iria acabar para os nipónicos da pior maneira possível com a destruição provocada pelas bombas atómicas lançadas pelos americanos, em Hisoshima e Nagasaki, em Agosto de 1945, e a consequente rendição incondicional. A participação nesta guerra e o seu desenlace tiveram como principais consequências a delapidação da riqueza do país no brutal investimento militar realizado e a implosão de um orgulho próprio de uma civilização milenar.
Como se explica, então, que poucas décadas volvidas sobre esse caos, o Japão se tenha guindado ao estatuto de terceira economia mundial? Segundo Servan-Schreiber, esse milagre assentou em três virtudes típicas do povo japonês: inteligência, capacidade de organização e espírito colectivo; e numa matéria-prima em que o Japão é rico: o silício existente na areia das suas abundantes praias, material usado na produção do famoso chip – circuito integrado – inventado por Jack Kilby e Robert Noyce. O consequente desenvolvimento da electrónica e da informática e a sua aplicação na automação e robotização industrial, associado à enorme disponibilidade para o trabalho e ao importante apoio económico dos Estados Unidos levaram este povo a renascer das cinzas atómicas em que tinha mergulhado e a tornar-se um dos líderes da economia mundial a partir dos anos 70. Curiosamente, este fenómeno da progressiva introdução da robótica e da informática nos processos de produção não implicou o despedimento em massa dos recursos humanos, ao contrário do que aconteceu nos países ocidentais. As empresas japonesas, em vez de despedirem os operários, continuaram a pagar-lhes, investindo na sua formação, de modo a serem capazes de lidar com as novas tecnologias e até mesmo a poderem dedicar-se à investigação no sentido de as aperfeiçoar. Este enorme investimento privado contrasta claramente com a atitude dos grandes empresários ocidentais, cujo objectivo é apenas o de diminuir os custos da produção, nem que isso implique despedimentos em massa, de modo a aumentar sempre as mais-valias e serem os únicos s usufruir delas. Ao invés deste sentido colectivo do empresário japonês, o grande empresário ocidental manifesta uma mentalidade individualista cuja única motivação parece ser o de acumular o capital suficiente para aparecer na lista dos 500 mais ricos do mundo da revista Forbes.
Infelizmente, o Japão encontra-se, hoje, por motivos diferentes dos evocados, numa situação, em muitos aspectos, semelhante. Acredito que os japoneses vão, novamente, dar a volta por cima. Mas gostava, principalmente, que nós, portugueses e ocidentais, conseguíssemos seguir o exemplo japonês: sermos inteligentes para aproveitar e potencializar aquilo que temos de bom e positivo, que é muito, e sermos capazes de perceber que o bem-estar individual só faz sentido se for uma consequência do bem-estar de todos.

José Júlio Campos