Recentemente
passou na Comunicação Social uma notícia que dava conta da dificuldade que uma
empresa de um concelho vizinho do nosso sentia em encontrar mão-de-obra
qualificada para poder investir no alargamento e modernização da sua produção. Num
tempo em que o desemprego alastra, esta notícia leva-nos a questionar o papel
da escola na sociedade contemporânea. Terá a escola actual condições para que a
situação referida não seja mais do que uma excepção? A resposta parece-me ser
afirmativa.
Efectivamente, nos
últimos anos deram-se os passos correctos no sentido de criar condições para
que a escola dê resposta às necessidades do mercado de trabalho. A
implementação, nas escolas básicas e secundárias, dos cursos profissionais,
quer de nível II (equivalente ao 3º ciclo), quer de nível III (equivalente ao
Secundário), permite formar técnicos especializados nas mais diversas áreas.
Estes cursos têm duas grandes vantagens: por um lado permitem variar a oferta
de ensino fazendo com que a escola possa satisfazer uma maior diversidade de
interesses e vocações por parte dos alunos; por outro lado servem,
precisamente, para formar a espécie de mão-de-obra hoje em dia necessária a um
mercado de trabalho cada vez mais especializado e heterogéneo.
No entanto, para
que esta evolução na formação seja eficaz é preciso que se criem mecanismos ou
condições para um maior diálogo entre a escola e a comunidade envolvente; neste
sentido, os órgãos do poder autárquico podem desempenhar um papel importante
enquanto elos de ligação entre a escola e o espectro das actividades económicas
e sociais de uma comunidade ou região. A abertura de cursos profissionais, nas
escolas básicas e secundárias, deve resultar de um diálogo entre todos os
elementos da comunidade educativa representados no Conselho Geral e deve
obedecer a critérios que assentem, exclusivamente, na satisfação das
necessidades reais do mercado de trabalho. Se assim não for, corremos o risco
de estar a cair no mesmo erro em que se caiu quando se criaram cursos do ensino
superior ao desbarato, sem qualquer estudo sério do mercado de trabalho e das
necessidades reais do país, algo que levou à actual situação de haver
demasiados licenciados em áreas para as quais não há empregos e haver sectores
de actividade que não encontram mão-de-obra qualificada para as tarefas
exigidas. Que o estruturante erro histórico cometido ao nível do ensino
superior, na primeira década após a adesão à União Europeia (recordam-se quem
foi o Primeiro-Ministro durante esses dez anos?...), não volte a ser cometido,
nos tempos que correm, ao nível dos ensinos básico e secundário.
Se esse erro não
se cometer, situações como a que motivaram esta reflexão não mais serão
notícia; basta, para isso, que qualquer empresário que pretenda investir numa determinada
área de produção sonde o mercado de emprego e, caso neste não haja oferta de
acordo com as suas necessidades, se dirija ao poder autárquico. Este deverá
funcionar como o tal pivot que, recolhendo as necessidades do mercado de
trabalho as fará chegar à escola, pondo mesmo o empresário a dialogar com ela,
no sentido de se produzir um ensino profissional à medida dessas necessidades.
A escola actual dispõe de condições para, em poucos anos, formar mão-de-obra
qualificada que satisfaça o mercado de trabalho, nomeadamente em determinados
“nichos” para os quais a formação específica é absolutamente indispensável.
José Júlio Campos
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