quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

INDIVIDUALISMO E CRISE

A crise tornou-se um tema incontornável nos dias que passam; é provável que quanto mais falamos dela mais a acentuamos e mais real se torna em virtude da sua interiorização. No entanto, assobiar para o lado como se ela não existisse também não parece ser a atitude mais profícua para a ultrapassar, ou minimizar os seus efeitos.
As explicações para a crise nascem todos os dias, quase por geração espontânea, quais cogumelos, ainda que venenosos a maior parte! Para uns, a origem da crise é o desperdício, para outros é a corrupção; há quem pense que a culpa é do capitalismo, outros contrapõem que é dos malandros que não querem trabalhar. As explicações são tão diversificadas que até podem atingir as raias do anedótico, como aquela que, há dias, brotou da mente iluminada de um político-comentador televisivo ao afirmar que a própria banca estava em crise (abençoada crise que lhe proporciona lucros escandalosos todos os anos) devido ao facto de ter de acudir às necessidades do Estado. O facto indesmentível de a crise se ter começado a desenhar quando o Estado teve de injectar milhares de milhões de euros numa instituição bancária em vias de falir devido a gestão danosa (corrupção) escapuliu-se dessa mente iluminada por artes mágicas ou demoníacas. Assim como o que aconteceu de semelhante, em 2008, na economia americana, com a falência de alguns bancos e a intervenção do Estado para salvar outros juntamente com grandes empresas deles dependentes.
Este género de episódios opinativos, aliás comuns no quotidiano mediático português, mais não é do que o reflexo do nível politicamente baixo a que descemos; prolifera a demagogia, a mentira, o oportunismo e escasseia a honestidade, o amor à verdade, a coerência. No meio de tudo isto, valha-nos o facto de que, ao contrário de quase tudo o resto, a opinião não pagar imposto! E mais vale um chorrilho de opiniões disparatadas que podemos analisar criticamente, do que a imposição de uma verdade oficial e dogmática a que todos tenhamos de aderir.
Assim sendo, aproveito para opinar que uma das causas para a crise que vivemos e que tende a tornar-se estruturante da sociedade actual é o individualismo promovido e assimilado na nossa cultura ocidental. Efectivamente é o individualismo que está na origem da ganância que leva ao roubo, à corrupção e à exploração de outros seres humanos; é o individualismo que promove o oportunismo daqueles que apenas consideram como sendo boas ou verdadeiras as acções ou opiniões que vão de encontro aos seus interesses; é o individualismo que sustenta o egoísmo daqueles que não se importam de destruir o planeta que vamos deixar para as gerações vindouras, desde que as suas fábricas e empresas continuem a gerar lucros desmesurados.
O individualismo, que consiste no sacrifício dos interesses colectivos aos individuais e que nos tem sido inculcado pela mentalidade burguesa e liberal decorrente da Revolução Industrial, é, pois, no meu entender, uma das causas mais remotas e mais profundas da crise cultural generalizada (económica, política, ecológica, etc.) que assola a humanidade neste início do século XXI.



José Júlio Campos

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

CIDADANIA E ASSOCIATIVISMO

O associativismo é uma das formas mais nobres de exercer plenamente a cidadania. Trata-se, simultaneamente, de um direito reivindicado e reconhecido nas democracias contemporâneas e de um dever ético ao qual todos somos chamados em virtude da condição humana de ser social.
Durante grande parte da história das civilizações, as sociedades organizaram-se de forma tendencialmente autocrática e insensível aos chamados direitos individuais – a vida dos indivíduos estava totalmente nas mãos dos soberanos; apenas na Grécia Antiga, na cidade de Atenas, existiu, no século V a.C., o esboço de uma sociedade democrática, em que o indivíduo, embora sujeito a inúmeros requisitos, era considerado cidadão e ao qual eram reconhecidos alguns direitos como a participação directa na governação da cidade e a reunião na praça pública para exercer esse direito. O ser cidadão era uma condição necessária para usufruir de direitos individuais, mas conferia, também, um conjunto de deveres aos quais ninguém podia eximir-se. Esta correlatividade e implicação mútua entre direitos e deveres, que é apanágio das sociedades democráticas, só voltou a fazer-se sentir precisamente quando reapareceram regimes de matriz democrática, nomeadamente após e como consequência da Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII.
Na actualidade, o direito de associação encontra-se consignado quer na Declaração Universal dos Direitos do Homem, quer nas leis constituintes da generalidade dos países democráticos, por ser um direito do cidadão tão fundamental como o direito à vida, à liberdade, à escolha dos governantes, à privacidade e outros. Assim sendo, o exercício total da cidadania passa, necessariamente, pelo usufruto dos direitos que lhe são inerentes. Mediante o contrato tacitamente estabelecido entre o cidadão e o Estado, este confere àquele o direito de se poder associar com os seus semelhantes com vista a atingir determinados objectivos; por sua vez, o cidadão deve usar desse direito de modo a poder contribuir para o bem-estar e progresso de toda a comunidade. Ter o direito de associação e não usufruir dele é como ter o direito de votar e abster-se, ter o direito de ser livre e vender a sua liberdade, ter o direito à vida e renunciar-lhe …
Por todas estas razões é forçoso concluir que todos nós somos chamados a participar na vida associativa das comunidades em que estamos inseridos. Trata-se de cumprir um dever que não pertence apenas a outros, reservando-nos, para nós, o papel de criticar. Aliás, verificamos que uma grande parte da população adopta esta postura negativista da crítica destrutiva e maledicente, feita em cafés e locais públicos, mas raramente nos lugares apropriados, contra uns poucos que, por mera carolice, continuam a sacrificar muito do seu bem-estar pessoal e familiar em prol do bem público. Esta crítica destrutiva é, em grande parte, responsável pelo desânimo desses poucos que se dedicam à vida associativa, bem como pelo afastamento de outros que preferem não se sujeitar a ela, contribuindo, deste modo, para o estado moribundo em que se encontra o associativismo.
Admitindo que possam haver alguns casos de ocupação oportunista de cargos associativos, saibamos separar o trigo do joio e reconhecer valor àqueles que cumprem, graciosamente, tarefas que competem a todos nós e cujas únicas recompensas são a consciência do dever cumprido e o reconhecimento público por parte dos seus concidadãos. É o mínimo que se nos exige na sociedade actual.


José Júlio Campos

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ANO NOVO, VALORES NOVOS!

Ao contrário do que é habitual, a entrada num novo ano não se afigura como um momento de felizes auspícios no que ao aspecto económico das nossas vidas diz respeito. Os tradicionais votos de próspero ano novo não podem deixar de soar a um estribilho bem intencionado, mas com poucas probabilidades de se concretizarem para a maioria da população.
O ano de 2011 vem sendo anunciado, desde há uns meses a esta parte, e sobretudo depois da aprovação do respectivo Orçamento de Estado, como o ano de todas as desventuras económicas: diminuição de salários, aumento de impostos, redução dos apoios sociais, recessão económica, ainda mais desemprego, … enfim, um autêntico Armagedon!
Perante este cenário não podemos deixar de nos sentir preocupados, não só pela dimensão da crise económica e financeira em que vivemos, mas também por duas outras razões muito importantes, sobretudo no plano psicológico. Uma delas tem a ver com o facto de, definitivamente, termos interiorizado que as políticas actuais já não garantem direitos adquiridos e irrevogáveis, nem regalias vitalícias no que se refere ao plano social das nossas vidas; (pior será quando este fenómeno alastrar a outros direitos humanos e constitucionais de natureza individual, como o direito à vida, à liberdade de expressão, de associação e de escolha dos governantes, por exemplo). A outra razão prende-se com a volatilidade das opiniões e afirmações do circo político e mediático – já não sabemos em quê ou em quem acreditar quando os políticos mudam de opinião à velocidade do TGV, ou quando alijam das suas costas todas as responsabilidades pelo estado em que nos encontramos; ou quando os comentadores e “opinion makers” tão depressa dizem que uma determinada medida se impõe, antes de ela ser imposta, como descascam nela, após a mesma ver a luz do dia; a facilidade com que hoje os responsáveis políticos e mediáticos dizem e se contradizem é algo tanto mais preocupante quanto mais se revela como uma forma hipócrita de manter os “jobs” à custa de uma grande tibieza e pusilanimidade de carácter.
E tudo isto acontece porque criámos um modelo social e político que tem vindo, paulatinamente, a instaurar uma total inversão de valores relativamente à nossa tradição humanista e racionalista com raízes no pensamento de Rousseau e Kant. Efectivamente, aquela rectidão de carácter que era apanágio de muitos dos nossos pais e avós tem vindo a ser trocada pelo acesso a uns “pratos de lentilhas”, ainda que à custa de salamaleques capazes de partir qualquer espinha ideológica; aliás, hoje, as ideologias estão mortas e enterradas a fazer fé no que apregoam os respectivos “gatos pingados” – é que não dá jeito nenhum depararmo-nos, na nossa consciência, com uns quantos valores e ideais políticos quando se elege, como primeiro objectivo na vida, a obtenção de riqueza ou notoriedade sem olhar a meios.
As trombetas da desgraça, anunciam, pois, um ano de 2011 terrível no plano económico. Claro que, para os mais carenciados, este é um aspecto essencial das suas vidas e não podemos desejar voltar ao tempo, ainda não muito longínquo, do “pobrete, mas alegrete” com que se embalava o povo. Impõe-se, pois, continuar a lutar por uma vida económica melhor, sem dúvida. Mas não podemos resumir a vida ao dinheiro, a um maior ou menor ordenado, a uns milhares a mais ou a menos de lucros na empresa.
Neste início de um novo ano, que a “vida nova” que se nos augura seja uma ocasião para reflectirmos sobre o tipo de sociedade em que queremos viver, sobre o modelo de pessoa que queremos ser e sobre aquilo que devemos mudar na nossa maneira de pensar e de agir para construirmos um mundo mais humano e mais justo.


José Júlio Campos

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

UM MILAGRE NO NATAL

O Natal é a época do ano que reúne um maior número de condimentos para se tornar especial – são as inúmeras canções melódicas que nos entram pelos ouvidos direitinhas ao coração; são as profusas e, por vezes, ridiculamente exageradas, iluminações de todas as formas e feitios; são as saborosas variedades gastronómicas, recordadas de geração em geração, e degustadas no doce recato do aconchego familiar; são, também, algumas outras coisas, umas mais genuínas, outras mais artificiais, umas mais reais, outras mais imaginárias como os contos à lareira, a neve nos telhados, o Pai Natal no seu trenó, a prenda no sapatinho, o Menino Jesus nas palhinhas, o pinheirinho enfeitado!...
Ultimamente, o Natal passou, também, a ser a época em que toda a gente troca prendas entre si – os familiares, os colegas de trabalho, os vizinhos, os amigos, os homens de negócios e os políticos e sabe-se lá quem mais … Antigamente as prendas eram só para as crianças e a sua dádiva ocorria, quase exclusivamente, no seio familiar; hoje, essa faceta do Natal generalizou-se, muito por culpa da propaganda comercial que está por trás da criação de uma série de necessidades artificiais que são a seiva do consumismo. A troca de prendas no Natal tornou-se num dos mais escandalosos oportunismos da máquina publicitária da economia capitalista contemporânea. É importante tomarmos consciência deste facto, mesmo que isso nos custe receber umas quantas “inutilidades” a menos nos próximos Natais!
Claro que não é fácil escapar à onda consumista, em que as pessoas exibem a sua mais suposta que real abastança na quantidade de carros exageradamente cheios com que saem dos supermercados; assim como não é fácil escapar à generalizada confusão entre a exibição dessa aparente abundância e aquela que é a verdadeira riqueza – a dos sentimentos e dos valores que devem alimentar-se no coração e com a razão.
Uma das consequências inevitáveis desta economia capitalista é a degradação do Estado Social a que assistimos, dramaticamente, nos dias que correm. Por sua vez, esse declínio do Estado Social implica que grande parte do papel assistencialista do Estado tenha que ser assumido por Instituições e Associações de Solidariedade Social que só sobrevivem com o apoio contínuo de todos nós. Ou seja, compete-nos a nós, cidadãos, assumir a responsabilidade pelo cuidado que a sociedade deve a órfãos, idosos, crianças abandonadas, deficientes e todos os desprotegidos da sorte cujo número e necessidades tendem a aumentar.
A hora é de reclamar do Estado a assistência obrigatória a todos os carenciados, apesar de sabermos que o Estado capitalista mais depressa socorre bancos em falência, ou buracos financeiros provocados por gestões ruinosas e corruptas. Mas a hora é, também, de darmos o nosso contributo para que essas instituições possam continuar a sua missão de solidariedade. Com o Estado e quem o governa devemos ajustar contas na altura das eleições. Neste Natal, saibamos, antes, ajustar contas com a nossa consciência – transformemos o desperdício, o excesso, o supérfluo, o luxuoso, a inutilidade da prendinha insignificante, numa dádiva, ainda que modesta, a uma das tantas instituições de solidariedade que lutam com grandes dificuldades para levar a cabo uma missão que nos compete a todos nós. Que o milagre que todos esperamos pelo Natal seja precisamente esse: transformar o consumismo em solidariedade.


José Júlio Campos

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

EM MEMÓRIA DE UM GRANDE BENEMÉRITO

A identidade de um povo constrói-se sobre a memória dos seus antepassados.
O mês de Novembro inicia-se com os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos que, marcados por cerimónias de cariz religioso, são ocasião para todos, sem excepção, recordarmos os nossos familiares ou amigos que, ao longo do tempo da nossa existência, se foram da “lei da morte libertando”.
É, pois, de toda a justiça evocar uma personalidade que marcou indelevelmente a vida de todos os aguiarenses, na segunda metade do séc. XX, e que nos deixou há mais de dezassete anos: refiro-me, como já terão percebido, ao Padre José Augusto da Fonseca (1918-1993).
Para a geração com menos de trinta anos, o Padre Fonseca não passa de uma figura arrumada nos cantos de uma história sem contornos, onde se mistura indistintamente com outros que também merecem ser “eternizados” em nomes de ruas ou em bustos de praças e rotundas. Para as gerações mais idosas, o Padre Fonseca continua a ser, seguramente, alguém que faz parte de uma memória viva e em relação ao qual todos nutrirão, com maior ou menor intensidade, um sentimento de saudade, admiração e, sobretudo, gratidão pela obra realizada em Aguiar da Beira.
Dessa vastíssima obra é de realçar a criação e dinamização do Projecto de Auto-construção que permitiu a muitos jovens casais da nossa terra, em início de vida nos anos cinquenta, construírem a sua própria habitação, mesmo dispondo de poucos meios para além dos braços para trabalhar. Outra obra essencial para o progresso de Aguiar da Beira foi a fundação do Colégio, no final dos anos sessenta, e a consequente possibilidade de os jovens poderem continuar os seus estudos, além da 4ª classe, sem necessitarem de sair para cidades como Viseu, algo apenas ao alcance dos muito abastados. Ainda no que ao ensino diz respeito, foi também graças ao Padre Fonseca que o ensino oficial deu os primeiros passos e se implementou em Aguiar da Beira – primeiro, alugando ao Ministério da Educação as instalações onde funcionou, durante muitos anos, a Escola Preparatória; mais tarde, no início da década de noventa, cedendo gratuitamente os terrenos necessários para a construção da actual Escola Básica e Secundária, sede do Agrupamento de Escolas de Aguiar da Beira.
Para além de ser um homem de grande iniciativa e visão de futuro, o Padre Fonseca era, também, dotado de um grande sentido de gestão sóbria e equilibrada, qualidades que lhe permitiram alicerçar uma obra de que, ainda hoje, muitos beneficiam.
Assim, neste mês de Novembro em que recordamos os nossos antepassados, e quando nos aproximamos, paulatinamente, do Centenário do seu nascimento, é da mais elementar justiça recordar essa figura maior do nosso Concelho que, ainda hoje, pode e deve ser apontada aos jovens como modelo de empreendedorismo. Para isso é necessário que a sua memória perdure e o seu exemplo não se desvaneça nas brumas do esquecimento; com esse objectivo lanço, aqui, um repto a quem de direito – Paróquia ou Autarquia de Aguiar da Beira: para quando a elaboração e publicação de uma biografia do Padre Fonseca que possa contribuir para o dar a conhecer aos nossos jovens e manter vivo o seu exemplo na nossa comunidade?



José Júlio Campos

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

UM NOSSO VIZINHO, AQUILINO, E A INSTAURAÇÃO DA REPÚBLICA

Comemorando, neste mês de Outubro, o Centenário da Instauração da República, importa realçar a vivência deste acontecimento por parte de um grande escritor e homem de cultura do séc. XX, Aquilino Ribeiro, cuja infância e adolescência está ligada aos concelhos vizinhos de Sernancelhe, Moimenta e Vila Nova de Paiva, tendo nascido em Carregal de Tabosa e tendo estudado no Colégio da Lapa.
Aquilino foi, de facto, um republicano convicto e um dos que, no início do séc. XX, se bateram pela proliferação dos ideais republicanos e pela desacreditação pública de uma monarquia cansada, dividida e incapaz de apresentar soluções credíveis para os problemas do país. Essa luta foi levada a cabo nos meios à época disponíveis: panfletos, alguns jornais e, sobretudo, nas tertúlias. (Nesse tempo ainda não havia blogs!...)
Hoje, é possível ter um acesso pormenorizado a essa época inesquecível da história de Portugal, pois, por ser ainda relativamente recente, encontra-se muito bem documentada. No entanto, uma simples incursão na obra de Aquilino Ribeiro é suficiente para obtermos uma panorâmica riquíssima da vida, dos ideais, dos acontecimentos, dos murmúrios, dos boatos, das tentativas falhadas, das prisões e interrogatórios, enfim, de toda a realidade vivida pelos protagonistas da história dessa época. E Aquilino é precisamente um desses protagonistas, e, por consequência, uma voz habilitada que descreve figuras e acontecimentos ao jeito de uma ficção baseada em acontecimentos reais como hoje se usa no cinema.
Lápides partidas é um romance de sabor autobiográfico e sequencial a outro, Via sinuosa. Se, neste, Aquilino romanceia a sua infância nas “terras do demo”, naquele ficciona a sua juventude na Lisboa revolucionária do princípio do séc. XX. Em Lápides partidas, Aquilino conta episódios da sua vida e do seu “engagement” revolucionário na personagem de Libório Barradas. O ambiente em que decorre a acção é o período que antecedeu o Regicídio, em 1908, na cidade de Lisboa. Libório Barradas faz parte de um grupo de republicanos activos que conspira contra o poder estabelecido da monarquia, e que vai, de forma mais arrebatada do que organizada, conduzir ao assassinato do rei D. Carlos, no seu regresso de Vila Viçosa.
A págs. 335 de Lápides partidas, edição da Livraria Bertrand, publicada em 1969, podemos surpreender o Bemposta confidenciando a Libório alguns pormenores da conjura: “ – Amigo, foi o que se pôde arranjar. Vamos esperá-lo lá para as Avenidas Novas; se o não pilhamos ali, pilhamo-lo pela certa no Terreiro do Paço quando desembarque de Vila Viçosa a família real. E então atiramos ao monte.” Referia-se, segundo parece, a João Franco, alcunhado no romance e aí referenciado por Bemposta como Pedro de Malas Artes. E a parte substancial da narrativa, até ao final do romance, consiste na descrição dos funestos acontecimentos de 1 de Fevereiro de 1908, tal como Libório Barradas (Aquilino) os terá vivido numa casa para os lados da Rua do Salitre, a meio da Avenida da Liberdade, onde se encontrava escondido da polícia. Na maravilhosa escrita aquiliniana, vemos o tumulto subindo as ruas, alastrando de beco em beco, desde a baixa pombalina, qual ventania nas asas da inacreditável novidade – “Mataram o rei”.
Há também outras obras de Aquilino Ribeiro, como Um escritor confessa-se onde a implantação da República é tema importante.
Aproveitemos a passagem desta efeméride para recordar este grande homem das letras e do pensamento e estimular os jovens para a leitura da sua obra; será, seguramente, uma descoberta maravilhosa.  


José Júlio Campos

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A IMPORTÂCIA DA FESTA POPULAR

Proponho que façamos uma breve reflexão sobre a importância da festa popular na nossa cultura, portuguesa e ocidental. Podendo essa festa assumir várias formas, foquemo-nos na nossa tradicional festa da aldeia, algo que é comum a todo o País, de Norte a Sul, até às Ilhas. Procurar a origem dessas festas levar-nos-ia até tempos imemoriais e práticas ancestrais de carácter mítico-religioso; não sendo esse o objectivo deste pequeno apontamento, diríamos, apenas, que a festa era uma prática que já assumia um carácter fundamental na vida de um dos povos fundadores da nossa civilização – a Grécia.
Esta referência histórica permitir-nos-á, desde logo, evidenciar a importância que a festa tem tido e continua a ter na vida das pessoas. Pretendia, no entanto, salientar outros dois factores que, a meu ver, ajudam a compreender a transversalidade sócio-cultural e a perenidade histórica deste fenómeno.
Olhando para a forma de organização das nossas festas populares verificamos que, apesar das diversidades regionais, a sua estrutura organizativa varia entre a Comissão de Festas institucionalizada, até mesmo com estatutos publicados, e um número variável de mordomos, nomeados anual ou plurianualmente, sob a forma de passagem de testemunho, obedecendo a um conjunto de regras de natureza tácita e consuetudinária. Esta última é, aliás, por ser a mais antiga, a forma também mais genuína e, até, fundacional da primeira. Importante é reter que, seja qual for o modelo organizativo seguido, a ideia que lhe subjaz apresenta um carácter marcadamente de cariz associativista. São os cidadãos, as pessoas, que, de forma aleatória e consensual, se agrupam com um objectivo concreto: fazer a festa. Curiosamente, na sua forma mais tradicional, os mordomos, ao nomearem-se, consecutiva e rotativamente por todos os elementos da aldeia, funcionam como a voz do povo. Eles são investidos do poder de fazer a festa e decidir sobre ela, assim como o de escolher os seus sucessores; único critério: passar por todos. Até neste aspecto podemos verificar um papel muito importante da festa como fenómeno popular – o facto de ser uma actividade inclusiva e de compromisso social (aquilo a que também chamamos cidadania). Inclusiva, porque ninguém ficava de fora, ninguém era considerado incapaz para tal tarefa, embora pudesse haver, (sensatamente, aliás) combinações de pessoas com características pessoais e sociais diferentes. De compromisso social porque era uma obrigação de todos, ninguém podia pôr-se de fora, sob pena de severa crítica e até marginalização. Ou seja, assentava num verdadeiro apelo à associação entre pessoas, à participação voluntária na vida da comunidade.
Finalmente, um outro factor não menos decisivo na justificação da importância da festa popular é o seu papel catártico e religioso, no sentido mais lato da palavra. Desde a sua origem que a festa esteve associada a rituais religiosos que visavam exorcizar demónios (símbolos de todos os males e doenças), ou implorar a protecção dos deuses (símbolos do bem e do bem-estar para o homem).
Ou seja, o homem acreditava e continua a acreditar, apesar da cada vez maior laicização das festas populares, que a festa é uma oportunidade de se relacionar com o sagrado, de produzir no espaço profano uma manifestação do sagrado, aquilo que se chama uma hierofania. E, através destas hierofanias, o homem acredita que pode conseguir o beneplácito, a ajuda, ou o perdão dos deuses. Esta dimensão da festa, estando já presente na festa popular grega, foi reforçada significativamente com a introdução do cristianismo na cultura ocidental. E permaneceu dominante até hoje.
Mas a festa serve, ainda, de uma forma mais prosaica, para desanuviar as dores e as canseiras quotidianas; para aliviar o fardo de um ano de trabalho diário e sem férias como é, tradicionalmente, o trabalho do campo; para colorir dias rotineiros e monótonos. Este aspecto faz, também, com que a festa leve, por vezes, a consequências menos agradáveis, como são todos os excessos a ela associados, nomeadamente os da gastronomia e da bebida. É um aspecto que, à luz de uma determinada moral, pode ser considerado menos positivo, mas que, curiosamente, também faz parte da raiz matricial da festa; os exageros praticados nas festas báquicas da Antiga Grécia são lendários porque bem reais.
É por todas estas razões que a festa continua a assumir uma tão grande importância na vida das pessoas e dos povos, sendo um dos fenómenos culturais mais antigos da nossa civilização; esta importância mantém-se, maugrado as transformações que a festa tem vindo a sofrer, fruto do progresso e evolução a que a cultura dos povos naturalmente está sujeita com o passar dos tempos.
Por tudo isto e porque, segundo a sabedoria popular, tristezas não pagam dívidas, continuemos a fazer festas e a fazer das festas momentos importantes da nossa vida!


José Júlio Campos