quarta-feira, 13 de setembro de 2017

BALDIOS, TRAGÉDIAS E OPORTUNISMOS

Se o grande Aquilino Ribeiro, o mestre Aquilino, ainda estivesse vivo e na posse das suas faculdades, teria matéria e motivo para reinventar uma das suas obras primas, intitulada “Quando os lobos uivam”. O tema do ordenamento florestal assume, hoje, uma relevância idêntica à questão dos baldios que motivou esse extraordinário romance. À época, meados do século passado, as populações rurais, nomeadamente as da serra da Nave, foram confrontadas com a imposição decretada por Salazar de florestar os baldios e colocá-los sob a alçada e a gestão dos serviços florestais do Estado. O romance de Aquilino ficciona a luta entre os funcionários do Estado Novo, que pretendem impor essa lei, e o povo das aldeias, que pretende continuar a usufruir da serra para coisas tão essenciais como apascentar o gado, apanhar o mato para fazer a cama aos animais e o estrume para as terras, apanhar a lenha para aquecer as gélidas noites de inverno, ou caçar livremente. Aliás, como diz Aquilino pela boca do advogado dos aldeãos, Rigoberto Mendes, na serra, o camponês é “rei” e é esse reino que a nova lei lhe quer tirar. No entanto, mais do que o conteúdo e os objetivos da medida, aquilo que realmente incomoda Aquilino é a forma intransigente como o governo de Salazar impôs a sua vontade, sem dialogar com os povos e sem os compensar pela perda dessa importante fonte de matéria prima. No romance, o autoritarismo do governo acaba vencido por um ato de desobediência civil perpetrado pelo velho Teotónio Louvadeus que, movido por uma revolta abafada, mas profunda, lança fogo aos pinheiros recém-plantados, e devolve os baldios ao povo. Na realidade, os baldios só foram legalmente devolvidos às populações, após o 25 de abril de 74.
Nos últimos cinquenta anos, o país mudou substancialmente. A serra, florestada ou não, foi sendo abandonada à medida que a agricultura e a pastorícia definharam. As aldeias ficaram quase desertas e à mercê de uma selva de mato que ameaça engoli-las como fez com rodeiras e caminhos que deixaram de ser usados. Para uma boa parte dos terrenos, sobretudo em zonas de difícil acesso e de micro propriedade, é quase impossível identificar as estremas e até os proprietários, muitos deles emigrados há décadas. A liberalização da exploração florestal fez com que esta passasse a reger-se exclusivamente por critérios economicistas que levaram a uma gradual e desordenada substituição das espécies nativas por espécies invasoras como o eucalipto.
De entre as muitas causas que nos trouxeram a esta situação, para além das que resultam das naturais mudanças no estilo de vida das populações e das cíclicas sangrias migratórias, tem que ser apontada a responsabilidade política dos partidos (PSD, CDS e PS), que nos últimos quarenta anos (des)governaram o país e se limitaram a olhar para a floresta e as serras como uma fonte de rendimento para as empresas da celulose, das eólicas ou de toda a parafernália de meios que vive do combate aos incêndios. Nesta matéria, é absolutamente indigno que Cristas queira dar lições a Capoulas, Passos a Costa, ou vice-versa. Têm todos o mesmo grau de responsabilidade, partilhada com muitos outros, dos tais partidos, que “por lá” andam ou andaram.
De entre as muitas consequências que esta situação acarreta, para além dos desequilíbrios ecológicos e da perda de valor económico para as populações, ressalta a praga dos incêndios, cuja gravidade atingiu, este ano, limites jamais vistos. Infelizmente, a tragédia de Pedrógão não servirá senão para mostrar o que é, hoje, Portugal, o seu território e os seus poderes: um país onde são gritantes as desigualdades entre o litoral e o interior, entre o meio urbano e o meio rural, com as populações rurais quase abandonadas à sua sorte, depois de uma austeridade cega lhes ter infligido cortes brutais na saúde, na educação, na segurança, na justiça, etc; um país onde a comunicação social, sobretudo a privada, explora até à náusea o sofrimento e até a morte das pessoas, obcecada com a guerra suja das audiências e do lucro dos seus proprietários; um país onde a oposição aproveita uma tragédia, com contornos algo incontroláveis, diga-se, para pedir responsabilidades aos outros e sacudir o fogo do capote deles, como se tivessem vindo de Marte em maio passado. Afinal, quem fez a PPP do Siresp que dá milhões de lucros a uns amigalhaços e falhou redondamente nos dias do incêndio? Afinal, quem é que deixou de publicar os relatórios do INCF sobre o plano de defesa da floresta contra incêndios? Afinal, quem é que liberalizou e desregulamentou a plantação de eucaliptos?
O aproveitamento vergonhoso e desesperado desta tragédia, por parte da oposição, atingiu o zénite precisamente no dia em que escrevo estas palavras: Passos Coelho, na sofreguidão de deitar abaixo o governo, recorre precipitadamente a uma informação de um correligionário, não confirmada, segundo a qual haveria já pessoas a suicidarem-se e outras a receberem tratamento nos hospitais por tentarem fazê-lo, devido ao facto de não terem recebido apoio médico psicológico. Vai-se a ver, poucas horas depois, pela enésima vez, a realidade encarregou-se de desmentir Passos Coelho e, felizmente, a tragédia não cresceu ao sabor dos seus desejos e interesses. Se o ridículo matasse, Passos não precisaria de se suicidar para estar politicamente morto. Mas não. Os lobos de Aquilino continuarão a uivar por esse matagal. Adaptando a famosa catilinária de Cícero, “quousque tandem abutere, Lepus, patientia nostra?”.  


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com


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