quarta-feira, 13 de setembro de 2017

TUDO BONS RAPAZES

Em 1990, Martin Scorsese realizou um filme emblemático sobre o estilo de vida da mafia novaiorquina nos anos 60 e 70, protagonizado por atores como Robert de Niro e Ray Liotta, cujo título original, “Goodfellas”, foi traduzido para português como “Tudo bons rapazes”. Vale a pena ver. O título e, em parte, o conteúdo deste filme ocorrem-me sempre que surgem notícias (e isso vai-se tornando habitual) sobre a forma como uma certa mafia, que gira entre a política, a banca e as empresas privadas, tomou conta do país e do mundo. No caso de Portugal, os “bons rapazes” germinam, normalmente, nas juventudes dos partidos autointitulados do “arco da governação”, (ou será do “arco da corrupção?) e formam-se em áreas como o direito, a gestão ou a economia, geralmente em universidades privadas onde é possível comprar o que o intelecto, por vezes, não alcança (vejam-se os ilustrativos casos de Sócrates e de Relvas). Do ninho partidário e universitário, estes yuppies, culturalmente boçais, mas mestres na arte do chico-espertismo, aproveitam a chegada ao poder do partido onde foram incubados, para ocupar rapidamente os gabinetes ministeriais, primeiro como assessores, depois como chefes de gabinete, chegando mesmo a secretários de estado ou quiçá a ministros, os mais qualificados na arte. Nos interregnos em que o poder é ocupado pelos “outros”, ingressam, sorrateiramente, nas empresas controladas pelos padrinhos, (sim, também muito parecidos com os da mafia) onde, em menos de um fósforo, progridem de estagiários a coordenadores de qualquer coisa e, caso se portem bem, entram para o conselho de administração. Uma vez alcançado algum destes patamares superiores, encontram-se na ambicionada porta giratória que lhes permite saltitar entre o poder político (público) e o poder económico (privado), cozinhando num os frutos que depois colhem no outro, ou em ambos.
De há uns anos a esta parte, os exemplos desta promiscuidade sucedem-se a um ritmo tão alucinante como perigoso, não só porque este fenómeno está a exaurir a capacidade do Estado para gerar e gerir as receitas necessárias ao cumprimento das suas obrigações sociais, mas também porque está a criar na opinião pública um perverso e paradoxal efeito de habituação que leva tanto a uma superficial e aparente indiferença como a uma larvar e substancial revolta. Igualmente perigoso é o facto de estas práticas contribuírem inequivocamente para alimentar o tão temido populismo, hoje visto pelo “establishment” político neoliberal como a maior ameaça às democracias. Acontece que os políticos neoliberais são precisamente os grandes responsáveis pela implementação destas práticas promíscuas nos países democráticos, constituindo-se como os principais promotores de uma revolta surda, na esmagadora maioria da população marginalizada, que gera um populismo ideologicamente indiscriminado. Aproveitando esse descontentamento generalizado, o populismo de direita fomenta a associação entre os recrudescentes fenómenos das migrações e do terrorismo islâmico para instigar ao ódio racista e xenófobo, capitalizando a natural tendência das populações para arranjarem bodes expiatórios quando os governos falham, a corrupção alastra e a crise económica se instala. O poder neoliberal que conduziu a União Europeia a este estado de pré-dissolução acusa o populismo de pôr em causa os regimes democráticos, esquecendo que o populismo é uma consequência direta e imediata das suas políticas neoliberais, na medida em que estas minam os Estados através de práticas mafiosas de usurpação do poder democrático e de assalto aos direitos sociais dos trabalhadores e dos cidadãos em geral, criando, assim, as condições necessárias à fermentação de uma profunda desconfiança relativamente à política e aos políticos, traduzida na convicção perigosa e populista de que “são todos iguais”. Esta convicção sustenta, aliás, o perigo maior que o populismo representa, na medida em que potencia o apoio popular a propostas totalitárias, irracionais e antidemocráticas, sob a capa de um poder apolítico e moralizador.
Importa, pois, identificar e denunciar os responsáveis por esse populismo que tem, efetivamente, facetas muito negativas, mas que não são necessariamente as apontadas por aqueles que veem o seu poder ameaçado. E esses responsáveis são, de forma muito evidente, todos esses “bons rapazes” que, nas últimas duas décadas, inspirados na cartilha neoliberal e na doutrina da sacerdotisa Margaret Thatcher, promoveram e beneficiaram da ascensão do capitalismo e da destruição do estado social. Uma corja de “good boys” que pululam entre a administração pública, a banca e as empresas privadas, estribados em partidos da direita popular neoliberal e da pseudoesquerda social democrata. No caso de Portugal, esses boys brotam dos tais partidos do “arco da governação” e chamam-se, entre muitos outros desconhecidos do grande público, José Sócrates, Durão Barroso, Paulo Portas, Armando Vara, Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Sérgio Monteiro, Miguel Macedo, Paulo Núncio, sem esquecer políticos banqueiros ou vice-versa, como os do BPN, do BES, do BPP, do BANIF, da CGD, do Banco de Portugal, como Ricardo Salgado ou Carlos Costa, e empresários e gestores do regime, como Zeinal Bava ou Henrique Granadeiro. Uma lista interminável de “bons rapazes”. Tudo bons rapazes!


José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com


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