TUDO BONS RAPAZES
Em 1990, Martin
Scorsese realizou um filme emblemático sobre o estilo de vida da mafia
novaiorquina nos anos 60 e 70, protagonizado por atores como Robert de Niro e
Ray Liotta, cujo título original, “Goodfellas”, foi traduzido para português
como “Tudo bons rapazes”. Vale a pena ver. O título e, em parte, o conteúdo deste
filme ocorrem-me sempre que surgem notícias (e isso vai-se tornando habitual)
sobre a forma como uma certa mafia, que gira entre a política, a banca e as
empresas privadas, tomou conta do país e do mundo. No caso de Portugal, os
“bons rapazes” germinam, normalmente, nas juventudes dos partidos
autointitulados do “arco da governação”, (ou será do “arco da corrupção?) e
formam-se em áreas como o direito, a gestão ou a economia, geralmente em
universidades privadas onde é possível comprar o que o intelecto, por vezes,
não alcança (vejam-se os ilustrativos casos de Sócrates e de Relvas). Do ninho
partidário e universitário, estes yuppies, culturalmente boçais, mas mestres na
arte do chico-espertismo, aproveitam a chegada ao poder do partido onde foram
incubados, para ocupar rapidamente os gabinetes ministeriais, primeiro como
assessores, depois como chefes de gabinete, chegando mesmo a secretários de estado
ou quiçá a ministros, os mais qualificados na arte. Nos interregnos em que o
poder é ocupado pelos “outros”, ingressam, sorrateiramente, nas empresas
controladas pelos padrinhos, (sim, também muito parecidos com os da mafia)
onde, em menos de um fósforo, progridem de estagiários a coordenadores de
qualquer coisa e, caso se portem bem, entram para o conselho de administração.
Uma vez alcançado algum destes patamares superiores, encontram-se na
ambicionada porta giratória que lhes permite saltitar entre o poder político
(público) e o poder económico (privado), cozinhando num os frutos que depois
colhem no outro, ou em ambos.
De há uns anos a
esta parte, os exemplos desta promiscuidade sucedem-se a um ritmo tão
alucinante como perigoso, não só porque este fenómeno está a exaurir a
capacidade do Estado para gerar e gerir as receitas necessárias ao cumprimento
das suas obrigações sociais, mas também porque está a criar na opinião pública
um perverso e paradoxal efeito de habituação que leva tanto a uma superficial e
aparente indiferença como a uma larvar e substancial revolta. Igualmente
perigoso é o facto de estas práticas contribuírem inequivocamente para
alimentar o tão temido populismo, hoje visto pelo “establishment” político
neoliberal como a maior ameaça às democracias. Acontece que os políticos
neoliberais são precisamente os grandes responsáveis pela implementação destas
práticas promíscuas nos países democráticos, constituindo-se como os principais
promotores de uma revolta surda, na esmagadora maioria da população
marginalizada, que gera um populismo ideologicamente indiscriminado.
Aproveitando esse descontentamento generalizado, o populismo de direita fomenta
a associação entre os recrudescentes fenómenos das migrações e do terrorismo
islâmico para instigar ao ódio racista e xenófobo, capitalizando a natural
tendência das populações para arranjarem bodes expiatórios quando os governos
falham, a corrupção alastra e a crise económica se instala. O poder neoliberal
que conduziu a União Europeia a este estado de pré-dissolução acusa o populismo
de pôr em causa os regimes democráticos, esquecendo que o populismo é uma
consequência direta e imediata das suas políticas neoliberais, na medida em que
estas minam os Estados através de práticas mafiosas de usurpação do poder
democrático e de assalto aos direitos sociais dos trabalhadores e dos cidadãos
em geral, criando, assim, as condições necessárias à fermentação de uma
profunda desconfiança relativamente à política e aos políticos, traduzida na
convicção perigosa e populista de que “são todos iguais”. Esta convicção
sustenta, aliás, o perigo maior que o populismo representa, na medida em que
potencia o apoio popular a propostas totalitárias, irracionais e
antidemocráticas, sob a capa de um poder apolítico e moralizador.
Importa, pois,
identificar e denunciar os responsáveis por esse populismo que tem,
efetivamente, facetas muito negativas, mas que não são necessariamente as
apontadas por aqueles que veem o seu poder ameaçado. E esses responsáveis são,
de forma muito evidente, todos esses “bons rapazes” que, nas últimas duas
décadas, inspirados na cartilha neoliberal e na doutrina da sacerdotisa Margaret
Thatcher, promoveram e beneficiaram da ascensão do capitalismo e da destruição
do estado social. Uma corja de “good boys” que pululam entre a administração
pública, a banca e as empresas privadas, estribados em partidos da direita
popular neoliberal e da pseudoesquerda social democrata. No caso de Portugal,
esses boys brotam dos tais partidos do “arco da governação” e chamam-se, entre
muitos outros desconhecidos do grande público, José Sócrates, Durão Barroso,
Paulo Portas, Armando Vara, Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Sérgio
Monteiro, Miguel Macedo, Paulo Núncio, sem esquecer políticos banqueiros ou vice-versa,
como os do BPN, do BES, do BPP, do BANIF, da CGD, do Banco de Portugal, como Ricardo
Salgado ou Carlos Costa, e empresários e gestores do regime, como Zeinal Bava
ou Henrique Granadeiro. Uma lista interminável de “bons rapazes”. Tudo bons
rapazes!
José Júlio
Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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