CUMPRIR
ABRIL
A poetisa Sophia
de Mello Breyner Andresen escreveu assim sobre o 25 de abril:
“Esta é a
madrugada que eu esperava,
O dia inteiro e
limpo
Onde emergimos da
noite e do silêncio
E livres habitamos
a substância do tempo.”
Mais de quarenta anos volvidos sobre
essa madrugada, tanto como celebrar esse dia inteiro e limpo, importa cumprir
os valores que o geraram. Abril tem que deixar de ser uma simples efeméride
bolorenta, historicamente insignificante para a maioria dos portugueses
nascidos nos últimos cinquenta anos e transformar-se num acontecimento
fundacional não apenas do estado democrático que é Portugal, mas também dos
valores em que assenta a sociedade civil que constitui esse estado.
A revolução nasceu da profunda aspiração
de muitos homens e mulheres à liberdade e à igualdade sonegadas pelo regime
fascista e materializou-se numa lei constitucional fundamentada nesses valores.
No entanto, a dinâmica de consolidação dos valores de abril foi sofrendo, ao
longo deste quase meio século, um efeito de entropia que defraudou as
expectativas, os anseios e as ilusões daqueles que genuinamente, nessa manhã de
abril, protagonizaram, nas ruas de Lisboa, a revolução dos cravos: o Povo e o
Movimento das Forças Armadas.
A liberdade foi sendo concretizada
em muitas das suas vertentes: liberdade de expressão e de pensamento, liberdade
de reunião e de associação, liberdade religiosa, liberdade de movimento, etc. Até
hoje, salvo alguns momentos de regurgitação ditatorial provocada pela azia que
o 25 de abril produziu (e continua a produzir!) em certos setores da sociedade
portuguesa, a liberdade foi-se consubstanciando na nossa cultura, ao ponto de
hoje, sobretudo por parte dos mais jovens, ser vivida com uma naturalidade tal
que pode mesmo acarretar consequências negativas. Por um lado, tomar a
liberdade como um dado adquirido leva a não estar atento às constantes e
múltiplas ameaças de que ela é vítima, vindas, sobretudo, dos múltiplos e sub-reptícios
mecanismos de controle ideológico que alastram numa sociedade cada vez mais
mediatizada e alienatória. Por outro lado, o facto de a liberdade ser objeto de
uma reflexão e compreensão claramente deficitárias produz dela conceções
incorretas e muitas vezes deturpadas. No plano moral, a liberdade é muitas
vezes confundida, sobretudo pelos mais jovens, com “fazer o que apetece”. Esta
conceção simplista e deturpada da liberdade está na origem de muitos atos que
não só violam as mais elementares regras da vida em sociedade, como acabam por
ser geradoras de infelicidade individual resultante da insatisfação das
aspirações superiores do ser humano, naquilo que o distingue e caracteriza
enquanto tal – a dignidade decorrente da sua racionalidade. Neste plano,
liberdade é sinónimo de autonomia moral, isto é, consiste na capacidade
inerente a um ser racional de criar a lei moral com a própria razão e de se
obrigar a agir segundo essa lei moral, tal como preconiza Immanuel Kant. Liberdade
não significa, pois, fazer o que nos apetece, mas fazer o que a razão nos
impõe. No plano político, a liberdade tem vindo a ser confundida, de forma
oportunista e demagógica, pelos partidários do neoliberalismo, com liberalismo
económico. Importa desmontar esta conceção desfocada de liberdade política. Se
é certo que o liberalismo político nasceu como reação às monarquias
absolutistas em que o estado se confundia com o rei e reprimia os direitos e
liberdades individuais, também não é menos verdade que a sua transformação na
versão neoliberal contemporânea, ao serviço do capitalismo e dos mercados
financeiros, tem contribuído sobremaneira para um aumento assustador das
desigualdades sociais, como é reconhecido até por organizações neoliberais,
como o FMI, e para a concomitante perda de direitos individuais e sociais. A
liberdade económica não pode entender-se como ausência total de regulamentação
das relações entre os agentes económicos, por parte do estado, sob pena de
transformar a atividade económica numa selva regida, exclusivamente, pela lei
da oferta e da procura que mais não é do que a lei do mais forte, à sombra da
qual uma minoria de privilegiados medra à custa do sacrifício da grande maioria
de desfavorecidos. Esta forma deturpada de entender a liberdade como libertinagem
económica é a principal responsável pelos problemas que hoje vivemos a nível
global.
Também no nosso país, a submissão dos
partidos que o têm governado às políticas neoliberais impostas pela UE tem tido
como consequência evidente o agravamento das desigualdades entre ricos e
pobres, entre homens e mulheres e em muitos outros aspetos. Sobretudo as
gerações mais jovens têm de entender o significado das ideologias, o que
significa ser de direita ou ser de esquerda, o que representa historicamente a
direita ou a esquerda, o que significa liberdade e igualdade e a íntima
implicação recíproca, ao ponto de uma não existir sem a outra. Só essa
consciencialização nos permitirá perceber que o sonho dos que fizeram abril – o
Povo e o MFA – apenas se cumprirá se a liberdade não for um instrumento de destruição
da igualdade, mas sim da sua concretização. Até porque, enquanto a igualdade
for uma miragem, a liberdade também não passará de uma ilusão.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
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