quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ENTRE A GRANDE DEPRESSÃO E A GRANDE REGRESSÃO

Na segunda década do séc. XX, o mundo assistiu ao primeiro momento de grande afirmação do capitalismo como ideologia política e económica, nos Estados Unidos da América. A expansão económica foi tal que o comum dos mortais acreditou no sonho de um enriquecimento fácil e permanente ao alcance de todos. Quando os americanos deram por ela, em 1929, a mais brutal crise económica abateu-se sobre as suas vidas, que muitos não suportaram continuar a viver, e declarou-se no famoso “crash” da bolsa de valores de Wall Street. Entrava-se no período da “grande depressão” que afetou, já nessa altura, sobretudo a economia europeia, muito dependente da americana, em consequência da 1ª guerra mundial. Desta depressão, os USA só sairiam anos mais tarde, com o estímulo trazido à sua economia com o deflagrar da 2ª grande guerra na Europa e com a política do New Deal, implementada pelo presidente Franklin Roosevelt, que atribuiu ao Estado um papel mais regulador da atividade económica e iniciou um programa de construção de grandes obras públicas, injetando rendimento e consequente poder de compra na população, criando, com isso, condições para a retoma capitalista através desse estímulo ao consumo.
Este é, aliás, um dos fatores-chave do capitalismo, tanto para o seu sucesso como para as suas crises. Se o objetivo último e único do capitalista é o lucro – e este é o outro conceito fundamental – a forma originariamente privilegiada para o obter foi o apelo ao consumo. Acontece que o consumo decorre de duas condições nem sempre conjugáveis nos potenciais consumidores: a existência de necessidades e de liquidez para comprar. E quando o capitalista não vende o produto, o capital fica empatado, o lucro não aparece e a crise instala-se. Daí que a publicidade e o marketing se tenham tornado uma ferramenta essencial do capitalismo com o objetivo de criar necessidades artificiais nas pessoas de modo a que não parem de consumir. Inventar novos produtos e novas necessidades passou a fazer parte da cartilha capitalista.
Outro fator fundamental para a obtenção do lucro, na mentalidade capitalista, é a diminuição dos custos de produção. É nesta vertente que o capitalismo tem vindo a apostar nas últimas décadas, instaurando uma época que alguns já intitulam como “a grande regressão”. A redução dos custos de produção iniciou-se com a substituição das pessoas por máquinas. Estas não precisam de descansar, não reivindicam direitos e, sobretudo, não é preciso pagar-lhes um salário. Mas têm um problema qua o capitalismo ainda não conseguiu resolver: as máquinas não têm necessidades nem dinheiro para comprar os produtos que produzem!
O fundamentalismo capitalista da redução de custos, sob o eufemismo da ideia de produtividade, descambou num ataque sistemático aos direitos das pessoas que trabalham e produzem os bens com que o capitalista engorda os seus capitais. É por isso que nos países dominados pelo sistema capitalista, como é o caso dos da União Europeia, dos USA e de muitos outros, se assiste a uma ofensiva concertada entre os lóbis dos vários setores do capitalismo para que os Estados deixem de regulamentar as relações entre empregado e empregador, de modo a que este, com a posição de domínio que possui, possa decidir sobre as pessoas e tratá-las como meros números de uma equação em que a única coisa que conta é o resultado final, ou seja, o lucro. O que a Altice está a fazer com os trabalhadores da PT é apenas um minúsculo exemplo, no nosso país, dessa estratégia que não olha a meios para alcançar o único fim que o capitalista elege para a sua vida – o “seu” e apenas o “seu” lucro. Nesta estratégia, a comunicação social desempenha um importante papel, uma vez colocada ao serviço dos seus donos – os capitalistas. Desde a submissão da linha editorial da chamada informação (ou desinformação) às orientações dos  seus donos, até à escolha a dedo dos jornalistas e comentadores (com raras exceções para dar uma falsa imagem de imparcialidade), passando pela qualidade miserável dos programas ditos de entretenimento, tudo na comunicação social, muito especialmente na televisão, visa um único escopo: estupidificar as pessoas, controlar a sua atividade mental (seja ela cognitiva, afetiva ou volitiva), e dirigir os seus comportamentos para os fins que interessam ao capitalista, de duas maneiras concomitantes: levando-os a comprar tudo, mesmo aquilo que não podem ou não precisam e levando-os a acreditar que vivemos no melhor dos mundos, que não existe alternativa a este modelo de sociedade e que o único objetivo na vida é obter o maior lucro, com o mínimo de gastos. Estas são, afinal, as máximas do capitalista.
O drama, que pode tornar-se numa tragédia global, é que, com esta estratégia, uma percentagem mínima de indivíduos consegue dominar, explorar e levar a esmagadora maioria da população a pensar e a agir de acordo com os interesses do próprio “carrasco”, nomeadamente quando, nas democracias, leva as pessoas a votar em partidos que defendem e promovem essa ideologia capitalista. O planeta, com tudo o que nele existe – a natureza e particularmente as pessoas – estão inteiramente à mercê daqueles que, levando ao extremo a sua mente capitalista, são ou ambicionam ser “os donos do mundo”.
Perante esta “grande regressão” humana e cultural de que somos vítimas nos dias de hoje, resta saber até que ponto a tese marxista de que o capitalismo iria criar “uma massa de homens desprovidos de propriedade” em contradição com “um pequeno mundo de riqueza e cultura” que levaria ao colapso do capitalismo e à sua substituição pelo socialismo virá um dia a concretizar-se, ou se o colapso que nos espera é o da humanidade e do planeta.


 José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com

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BALDIOS, TRAGÉDIAS E OPORTUNISMOS

Se o grande Aquilino Ribeiro, o mestre Aquilino, ainda estivesse vivo e na posse das suas faculdades, teria matéria e motivo para reinventar uma das suas obras primas, intitulada “Quando os lobos uivam”. O tema do ordenamento florestal assume, hoje, uma relevância idêntica à questão dos baldios que motivou esse extraordinário romance. À época, meados do século passado, as populações rurais, nomeadamente as da serra da Nave, foram confrontadas com a imposição decretada por Salazar de florestar os baldios e colocá-los sob a alçada e a gestão dos serviços florestais do Estado. O romance de Aquilino ficciona a luta entre os funcionários do Estado Novo, que pretendem impor essa lei, e o povo das aldeias, que pretende continuar a usufruir da serra para coisas tão essenciais como apascentar o gado, apanhar o mato para fazer a cama aos animais e o estrume para as terras, apanhar a lenha para aquecer as gélidas noites de inverno, ou caçar livremente. Aliás, como diz Aquilino pela boca do advogado dos aldeãos, Rigoberto Mendes, na serra, o camponês é “rei” e é esse reino que a nova lei lhe quer tirar. No entanto, mais do que o conteúdo e os objetivos da medida, aquilo que realmente incomoda Aquilino é a forma intransigente como o governo de Salazar impôs a sua vontade, sem dialogar com os povos e sem os compensar pela perda dessa importante fonte de matéria prima. No romance, o autoritarismo do governo acaba vencido por um ato de desobediência civil perpetrado pelo velho Teotónio Louvadeus que, movido por uma revolta abafada, mas profunda, lança fogo aos pinheiros recém-plantados, e devolve os baldios ao povo. Na realidade, os baldios só foram legalmente devolvidos às populações, após o 25 de abril de 74.
Nos últimos cinquenta anos, o país mudou substancialmente. A serra, florestada ou não, foi sendo abandonada à medida que a agricultura e a pastorícia definharam. As aldeias ficaram quase desertas e à mercê de uma selva de mato que ameaça engoli-las como fez com rodeiras e caminhos que deixaram de ser usados. Para uma boa parte dos terrenos, sobretudo em zonas de difícil acesso e de micro propriedade, é quase impossível identificar as estremas e até os proprietários, muitos deles emigrados há décadas. A liberalização da exploração florestal fez com que esta passasse a reger-se exclusivamente por critérios economicistas que levaram a uma gradual e desordenada substituição das espécies nativas por espécies invasoras como o eucalipto.
De entre as muitas causas que nos trouxeram a esta situação, para além das que resultam das naturais mudanças no estilo de vida das populações e das cíclicas sangrias migratórias, tem que ser apontada a responsabilidade política dos partidos (PSD, CDS e PS), que nos últimos quarenta anos (des)governaram o país e se limitaram a olhar para a floresta e as serras como uma fonte de rendimento para as empresas da celulose, das eólicas ou de toda a parafernália de meios que vive do combate aos incêndios. Nesta matéria, é absolutamente indigno que Cristas queira dar lições a Capoulas, Passos a Costa, ou vice-versa. Têm todos o mesmo grau de responsabilidade, partilhada com muitos outros, dos tais partidos, que “por lá” andam ou andaram.
De entre as muitas consequências que esta situação acarreta, para além dos desequilíbrios ecológicos e da perda de valor económico para as populações, ressalta a praga dos incêndios, cuja gravidade atingiu, este ano, limites jamais vistos. Infelizmente, a tragédia de Pedrógão não servirá senão para mostrar o que é, hoje, Portugal, o seu território e os seus poderes: um país onde são gritantes as desigualdades entre o litoral e o interior, entre o meio urbano e o meio rural, com as populações rurais quase abandonadas à sua sorte, depois de uma austeridade cega lhes ter infligido cortes brutais na saúde, na educação, na segurança, na justiça, etc; um país onde a comunicação social, sobretudo a privada, explora até à náusea o sofrimento e até a morte das pessoas, obcecada com a guerra suja das audiências e do lucro dos seus proprietários; um país onde a oposição aproveita uma tragédia, com contornos algo incontroláveis, diga-se, para pedir responsabilidades aos outros e sacudir o fogo do capote deles, como se tivessem vindo de Marte em maio passado. Afinal, quem fez a PPP do Siresp que dá milhões de lucros a uns amigalhaços e falhou redondamente nos dias do incêndio? Afinal, quem é que deixou de publicar os relatórios do INCF sobre o plano de defesa da floresta contra incêndios? Afinal, quem é que liberalizou e desregulamentou a plantação de eucaliptos?
O aproveitamento vergonhoso e desesperado desta tragédia, por parte da oposição, atingiu o zénite precisamente no dia em que escrevo estas palavras: Passos Coelho, na sofreguidão de deitar abaixo o governo, recorre precipitadamente a uma informação de um correligionário, não confirmada, segundo a qual haveria já pessoas a suicidarem-se e outras a receberem tratamento nos hospitais por tentarem fazê-lo, devido ao facto de não terem recebido apoio médico psicológico. Vai-se a ver, poucas horas depois, pela enésima vez, a realidade encarregou-se de desmentir Passos Coelho e, felizmente, a tragédia não cresceu ao sabor dos seus desejos e interesses. Se o ridículo matasse, Passos não precisaria de se suicidar para estar politicamente morto. Mas não. Os lobos de Aquilino continuarão a uivar por esse matagal. Adaptando a famosa catilinária de Cícero, “quousque tandem abutere, Lepus, patientia nostra?”.  


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
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CORRUPÇÃO E DESIGUALDADE

A organização não governamental (ONG) Transparência Internacional produz e publica anualmente um relatório que pretende medir os índices de perceção da corrupção em quase todos os países do mundo (176, no ano de 2016). A análise desse ranking permite-nos concluir que existe uma correlação direta entre a corrupção e a desigualdade. A própria organização considera que esses dois fenómenos formam um círculo vicioso, o que significa que a desigualdade potencia a corrupção e esta promove o aumento das desigualdades. Não é por acaso que os países mais corruptos, segundo essa lista, são a Somália, o Sudão, a Coreia do Norte e a Síria; os menos corruptos são a Dinamarca, a Nova Zelândia, a Finlândia e a Suécia. O último relatório publicado refere, ainda, que a corrupção generalizada está associada a fatores como a proliferação de mão-de-obra escrava e infantil, o tráfico de pessoas e animais selvagens, a destruição do meio ambiente, o enfraquecimento do poder político face ao poder económico e a respetiva desregulamentação. No ano de 2016, esta implicação mútua entre as desigualdades sociais e a corrupção sistemática aumentou significativamente, contribuindo para agravar a desconfiança em relação ao poder político e a propagação dos populismos em países tradicionalmente democráticos.
No que toca a Portugal, ocupamos, nesse ranking, um “razoável” 29º lugar, ex-aequo com a Polónia, e melhor do que o 41º lugar de Espanha. Este país tem vindo a descer, muito por culpa dos escândalos de corrupção que envolvem o Partido Popular e o próprio líder, o Presidente do Governo, Mariano Rajoy. Por cá, a perceção da corrupção parece não ter aumentado, apesar dos vários casos surgidos nos últimos anos, como os investigados na “operação marquês” e nos “vistos gold”, envolvendo órgãos da administração pública, ou a corrupção generalizada na banca privada que levou à queda do BPN, do BPP, do BES e do BANIF, com incalculáveis prejuízos para o Estado e para os contribuintes. A corrupção em Portugal, como em muitos outros países, não é exclusiva do setor público ou do setor privado, antes resultando da promiscuidade entre ambos, como se depreende de uma análise dos casos referidos. O que se passou na banca privada, por exemplo, só foi possível com o beneplácito, quando não com o conluio, do Banco de Portugal. A “operação marquês” envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates e uma série de empresários ligados à banca e aos negócios. O caso BPN, que recentemente levou à aplicação de penas de prisão a vários implicados, envolveu um grande número de importantes figuras da vida político-partidária, ligadas ao PSD.
Dos outros membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), Cabo Verde está em 38º, São Tomé e Príncipe em 62º, o Brasil em 79º, Timor Leste em 101º e, quase no fim da lista, entre os países mais corruptos, Moçambique em 142º, Angola em 164º e a Guiné-Bissau em 168º. O Brasil, encontrando-se sensivelmente a meio da tabela, tem vindo a cair significativamente nos últimos anos, devido aos escândalos de corrupção investigados no âmbito da operação Lava Jato e do caso Odebrecht. Estes processos têm implicado uma grande parte da classe política brasileira e dos seus maiores empresários. Além disso, o poder atualmente instalado no Palácio do Planalto resultou de um autêntico golpe de estado constitucional, perpetrado por alguns desses políticos mais corruptos, como Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, recentemente preso por corrupção. O próprio Michel Temer, transformado em presidente da República por esse golpe palaciano, é acusado, pelo procurador-geral, de corrupção passiva, obstrução à justiça e associação criminosa, com base em escutas telefónicas, entretanto tornadas públicas. No entanto, apesar dessa “extraordinária carta de recomendação” (!), Temer recusa demitir-se e agarra-se ao cargo numa tentativa tão desesperada quanto patética de escapar à justiça. Com o povo na rua a clamar a eleição direta antecipada de um novo Presidente, o usurpador chama o exército para reprimir a revolta popular, à “boa” maneira dos ditadores sul-americanos, e refugia-se num discurso populista em torno de ideias como “o Brasil precisa das reformas que estamos a fazer”, “deixem-nos trabalhar” e “quem é contra mim é contra o Brasil”.
Tal como em outras partes do globo, também no Brasil, a corrupção generalizada entre as grandes empresas e os políticos subtrai uma imensa riqueza à economia do Estado, beneficiando uns poucos à custa de quase todos e aumentando escandalosamente as desigualdades sociais. Sendo consensual que a corrupção é um dos cancros das sociedades contemporâneas, combater essa doença mortal, seja por via de juízes e tribunais honestos e independentes, seja por via das manifestações e do voto popular é absolutamente vital. No caso do Brasil, esse combate, pela urgência de que se reveste, legitima mesmo o recurso à desobediência civil.


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
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CUMPRIR ABRIL

A poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu assim sobre o 25 de abril:
“Esta é a madrugada que eu esperava,
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”
Mais de quarenta anos volvidos sobre essa madrugada, tanto como celebrar esse dia inteiro e limpo, importa cumprir os valores que o geraram. Abril tem que deixar de ser uma simples efeméride bolorenta, historicamente insignificante para a maioria dos portugueses nascidos nos últimos cinquenta anos e transformar-se num acontecimento fundacional não apenas do estado democrático que é Portugal, mas também dos valores em que assenta a sociedade civil que constitui esse estado.
A revolução nasceu da profunda aspiração de muitos homens e mulheres à liberdade e à igualdade sonegadas pelo regime fascista e materializou-se numa lei constitucional fundamentada nesses valores. No entanto, a dinâmica de consolidação dos valores de abril foi sofrendo, ao longo deste quase meio século, um efeito de entropia que defraudou as expectativas, os anseios e as ilusões daqueles que genuinamente, nessa manhã de abril, protagonizaram, nas ruas de Lisboa, a revolução dos cravos: o Povo e o Movimento das Forças Armadas.
A liberdade foi sendo concretizada em muitas das suas vertentes: liberdade de expressão e de pensamento, liberdade de reunião e de associação, liberdade religiosa, liberdade de movimento, etc. Até hoje, salvo alguns momentos de regurgitação ditatorial provocada pela azia que o 25 de abril produziu (e continua a produzir!) em certos setores da sociedade portuguesa, a liberdade foi-se consubstanciando na nossa cultura, ao ponto de hoje, sobretudo por parte dos mais jovens, ser vivida com uma naturalidade tal que pode mesmo acarretar consequências negativas. Por um lado, tomar a liberdade como um dado adquirido leva a não estar atento às constantes e múltiplas ameaças de que ela é vítima, vindas, sobretudo, dos múltiplos e sub-reptícios mecanismos de controle ideológico que alastram numa sociedade cada vez mais mediatizada e alienatória. Por outro lado, o facto de a liberdade ser objeto de uma reflexão e compreensão claramente deficitárias produz dela conceções incorretas e muitas vezes deturpadas. No plano moral, a liberdade é muitas vezes confundida, sobretudo pelos mais jovens, com “fazer o que apetece”. Esta conceção simplista e deturpada da liberdade está na origem de muitos atos que não só violam as mais elementares regras da vida em sociedade, como acabam por ser geradoras de infelicidade individual resultante da insatisfação das aspirações superiores do ser humano, naquilo que o distingue e caracteriza enquanto tal – a dignidade decorrente da sua racionalidade. Neste plano, liberdade é sinónimo de autonomia moral, isto é, consiste na capacidade inerente a um ser racional de criar a lei moral com a própria razão e de se obrigar a agir segundo essa lei moral, tal como preconiza Immanuel Kant. Liberdade não significa, pois, fazer o que nos apetece, mas fazer o que a razão nos impõe. No plano político, a liberdade tem vindo a ser confundida, de forma oportunista e demagógica, pelos partidários do neoliberalismo, com liberalismo económico. Importa desmontar esta conceção desfocada de liberdade política. Se é certo que o liberalismo político nasceu como reação às monarquias absolutistas em que o estado se confundia com o rei e reprimia os direitos e liberdades individuais, também não é menos verdade que a sua transformação na versão neoliberal contemporânea, ao serviço do capitalismo e dos mercados financeiros, tem contribuído sobremaneira para um aumento assustador das desigualdades sociais, como é reconhecido até por organizações neoliberais, como o FMI, e para a concomitante perda de direitos individuais e sociais. A liberdade económica não pode entender-se como ausência total de regulamentação das relações entre os agentes económicos, por parte do estado, sob pena de transformar a atividade económica numa selva regida, exclusivamente, pela lei da oferta e da procura que mais não é do que a lei do mais forte, à sombra da qual uma minoria de privilegiados medra à custa do sacrifício da grande maioria de desfavorecidos. Esta forma deturpada de entender a liberdade como libertinagem económica é a principal responsável pelos problemas que hoje vivemos a nível global.
Também no nosso país, a submissão dos partidos que o têm governado às políticas neoliberais impostas pela UE tem tido como consequência evidente o agravamento das desigualdades entre ricos e pobres, entre homens e mulheres e em muitos outros aspetos. Sobretudo as gerações mais jovens têm de entender o significado das ideologias, o que significa ser de direita ou ser de esquerda, o que representa historicamente a direita ou a esquerda, o que significa liberdade e igualdade e a íntima implicação recíproca, ao ponto de uma não existir sem a outra. Só essa consciencialização nos permitirá perceber que o sonho dos que fizeram abril – o Povo e o MFA – apenas se cumprirá se a liberdade não for um instrumento de destruição da igualdade, mas sim da sua concretização. Até porque, enquanto a igualdade for uma miragem, a liberdade também não passará de uma ilusão.


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com

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TUDO BONS RAPAZES

Em 1990, Martin Scorsese realizou um filme emblemático sobre o estilo de vida da mafia novaiorquina nos anos 60 e 70, protagonizado por atores como Robert de Niro e Ray Liotta, cujo título original, “Goodfellas”, foi traduzido para português como “Tudo bons rapazes”. Vale a pena ver. O título e, em parte, o conteúdo deste filme ocorrem-me sempre que surgem notícias (e isso vai-se tornando habitual) sobre a forma como uma certa mafia, que gira entre a política, a banca e as empresas privadas, tomou conta do país e do mundo. No caso de Portugal, os “bons rapazes” germinam, normalmente, nas juventudes dos partidos autointitulados do “arco da governação”, (ou será do “arco da corrupção?) e formam-se em áreas como o direito, a gestão ou a economia, geralmente em universidades privadas onde é possível comprar o que o intelecto, por vezes, não alcança (vejam-se os ilustrativos casos de Sócrates e de Relvas). Do ninho partidário e universitário, estes yuppies, culturalmente boçais, mas mestres na arte do chico-espertismo, aproveitam a chegada ao poder do partido onde foram incubados, para ocupar rapidamente os gabinetes ministeriais, primeiro como assessores, depois como chefes de gabinete, chegando mesmo a secretários de estado ou quiçá a ministros, os mais qualificados na arte. Nos interregnos em que o poder é ocupado pelos “outros”, ingressam, sorrateiramente, nas empresas controladas pelos padrinhos, (sim, também muito parecidos com os da mafia) onde, em menos de um fósforo, progridem de estagiários a coordenadores de qualquer coisa e, caso se portem bem, entram para o conselho de administração. Uma vez alcançado algum destes patamares superiores, encontram-se na ambicionada porta giratória que lhes permite saltitar entre o poder político (público) e o poder económico (privado), cozinhando num os frutos que depois colhem no outro, ou em ambos.
De há uns anos a esta parte, os exemplos desta promiscuidade sucedem-se a um ritmo tão alucinante como perigoso, não só porque este fenómeno está a exaurir a capacidade do Estado para gerar e gerir as receitas necessárias ao cumprimento das suas obrigações sociais, mas também porque está a criar na opinião pública um perverso e paradoxal efeito de habituação que leva tanto a uma superficial e aparente indiferença como a uma larvar e substancial revolta. Igualmente perigoso é o facto de estas práticas contribuírem inequivocamente para alimentar o tão temido populismo, hoje visto pelo “establishment” político neoliberal como a maior ameaça às democracias. Acontece que os políticos neoliberais são precisamente os grandes responsáveis pela implementação destas práticas promíscuas nos países democráticos, constituindo-se como os principais promotores de uma revolta surda, na esmagadora maioria da população marginalizada, que gera um populismo ideologicamente indiscriminado. Aproveitando esse descontentamento generalizado, o populismo de direita fomenta a associação entre os recrudescentes fenómenos das migrações e do terrorismo islâmico para instigar ao ódio racista e xenófobo, capitalizando a natural tendência das populações para arranjarem bodes expiatórios quando os governos falham, a corrupção alastra e a crise económica se instala. O poder neoliberal que conduziu a União Europeia a este estado de pré-dissolução acusa o populismo de pôr em causa os regimes democráticos, esquecendo que o populismo é uma consequência direta e imediata das suas políticas neoliberais, na medida em que estas minam os Estados através de práticas mafiosas de usurpação do poder democrático e de assalto aos direitos sociais dos trabalhadores e dos cidadãos em geral, criando, assim, as condições necessárias à fermentação de uma profunda desconfiança relativamente à política e aos políticos, traduzida na convicção perigosa e populista de que “são todos iguais”. Esta convicção sustenta, aliás, o perigo maior que o populismo representa, na medida em que potencia o apoio popular a propostas totalitárias, irracionais e antidemocráticas, sob a capa de um poder apolítico e moralizador.
Importa, pois, identificar e denunciar os responsáveis por esse populismo que tem, efetivamente, facetas muito negativas, mas que não são necessariamente as apontadas por aqueles que veem o seu poder ameaçado. E esses responsáveis são, de forma muito evidente, todos esses “bons rapazes” que, nas últimas duas décadas, inspirados na cartilha neoliberal e na doutrina da sacerdotisa Margaret Thatcher, promoveram e beneficiaram da ascensão do capitalismo e da destruição do estado social. Uma corja de “good boys” que pululam entre a administração pública, a banca e as empresas privadas, estribados em partidos da direita popular neoliberal e da pseudoesquerda social democrata. No caso de Portugal, esses boys brotam dos tais partidos do “arco da governação” e chamam-se, entre muitos outros desconhecidos do grande público, José Sócrates, Durão Barroso, Paulo Portas, Armando Vara, Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Sérgio Monteiro, Miguel Macedo, Paulo Núncio, sem esquecer políticos banqueiros ou vice-versa, como os do BPN, do BES, do BPP, do BANIF, da CGD, do Banco de Portugal, como Ricardo Salgado ou Carlos Costa, e empresários e gestores do regime, como Zeinal Bava ou Henrique Granadeiro. Uma lista interminável de “bons rapazes”. Tudo bons rapazes!


José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com