ENTRE A GRANDE
DEPRESSÃO E A GRANDE REGRESSÃO
Na segunda década do séc. XX, o
mundo assistiu ao primeiro momento de grande afirmação do capitalismo como ideologia
política e económica, nos Estados Unidos da América. A expansão económica foi
tal que o comum dos mortais acreditou no sonho de um enriquecimento fácil e
permanente ao alcance de todos. Quando os americanos deram por ela, em 1929, a
mais brutal crise económica abateu-se sobre as suas vidas, que muitos não
suportaram continuar a viver, e declarou-se no famoso “crash” da bolsa de
valores de Wall Street. Entrava-se no período da “grande depressão” que afetou,
já nessa altura, sobretudo a economia europeia, muito dependente da americana,
em consequência da 1ª guerra mundial. Desta depressão, os USA só sairiam anos
mais tarde, com o estímulo trazido à sua economia com o deflagrar da 2ª grande
guerra na Europa e com a política do New Deal, implementada pelo presidente
Franklin Roosevelt, que atribuiu ao Estado um papel mais regulador da atividade
económica e iniciou um programa de construção de grandes obras públicas,
injetando rendimento e consequente poder de compra na população, criando, com
isso, condições para a retoma capitalista através desse estímulo ao consumo.
Este é, aliás, um dos fatores-chave
do capitalismo, tanto para o seu sucesso como para as suas crises. Se o
objetivo último e único do capitalista é o lucro – e este é o outro conceito
fundamental – a forma originariamente privilegiada para o obter foi o apelo ao
consumo. Acontece que o consumo decorre de duas condições nem sempre
conjugáveis nos potenciais consumidores: a existência de necessidades e de
liquidez para comprar. E quando o capitalista não vende o produto, o capital
fica empatado, o lucro não aparece e a crise instala-se. Daí que a publicidade
e o marketing se tenham tornado uma ferramenta essencial do capitalismo com o
objetivo de criar necessidades artificiais nas pessoas de modo a que não parem
de consumir. Inventar novos produtos e novas necessidades passou a fazer parte
da cartilha capitalista.
Outro fator fundamental para a
obtenção do lucro, na mentalidade capitalista, é a diminuição dos custos de
produção. É nesta vertente que o capitalismo tem vindo a apostar nas últimas
décadas, instaurando uma época que alguns já intitulam como “a grande regressão”.
A redução dos custos de produção iniciou-se com a substituição das pessoas por
máquinas. Estas não precisam de descansar, não reivindicam direitos e,
sobretudo, não é preciso pagar-lhes um salário. Mas têm um problema qua o
capitalismo ainda não conseguiu resolver: as máquinas não têm necessidades nem
dinheiro para comprar os produtos que produzem!
O fundamentalismo capitalista da
redução de custos, sob o eufemismo da ideia de produtividade, descambou num
ataque sistemático aos direitos das pessoas que trabalham e produzem os bens
com que o capitalista engorda os seus capitais. É por isso que nos países
dominados pelo sistema capitalista, como é o caso dos da União Europeia, dos
USA e de muitos outros, se assiste a uma ofensiva concertada entre os lóbis dos
vários setores do capitalismo para que os Estados deixem de regulamentar as
relações entre empregado e empregador, de modo a que este, com a posição de
domínio que possui, possa decidir sobre as pessoas e tratá-las como meros
números de uma equação em que a única coisa que conta é o resultado final, ou
seja, o lucro. O que a Altice está a fazer com os trabalhadores da PT é apenas
um minúsculo exemplo, no nosso país, dessa estratégia que não olha a meios para
alcançar o único fim que o capitalista elege para a sua vida – o “seu” e apenas
o “seu” lucro. Nesta estratégia, a comunicação social desempenha um importante
papel, uma vez colocada ao serviço dos seus donos – os capitalistas. Desde a
submissão da linha editorial da chamada informação (ou desinformação) às
orientações dos seus donos, até à
escolha a dedo dos jornalistas e comentadores (com raras exceções para dar uma
falsa imagem de imparcialidade), passando pela qualidade miserável dos
programas ditos de entretenimento, tudo na comunicação social, muito
especialmente na televisão, visa um único escopo: estupidificar as pessoas,
controlar a sua atividade mental (seja ela cognitiva, afetiva ou volitiva), e
dirigir os seus comportamentos para os fins que interessam ao capitalista, de
duas maneiras concomitantes: levando-os a comprar tudo, mesmo aquilo que não
podem ou não precisam e levando-os a acreditar que vivemos no melhor dos
mundos, que não existe alternativa a este modelo de sociedade e que o único
objetivo na vida é obter o maior lucro, com o mínimo de gastos. Estas são,
afinal, as máximas do capitalista.
O drama, que pode tornar-se numa
tragédia global, é que, com esta estratégia, uma percentagem mínima de
indivíduos consegue dominar, explorar e levar a esmagadora maioria da população
a pensar e a agir de acordo com os interesses do próprio “carrasco”,
nomeadamente quando, nas democracias, leva as pessoas a votar em partidos que
defendem e promovem essa ideologia capitalista. O planeta, com tudo o que nele
existe – a natureza e particularmente as pessoas – estão inteiramente à mercê
daqueles que, levando ao extremo a sua mente capitalista, são ou ambicionam ser
“os donos do mundo”.
Perante esta “grande regressão”
humana e cultural de que somos vítimas nos dias de hoje, resta saber até que
ponto a tese marxista de que o capitalismo iria criar “uma massa de homens
desprovidos de propriedade” em contradição com “um pequeno mundo de riqueza e
cultura” que levaria ao colapso do capitalismo e à sua substituição pelo
socialismo virá um dia a concretizar-se, ou se o colapso que nos espera é o da
humanidade e do planeta.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com