sexta-feira, 17 de março de 2017

QUO VADIS, USA?

Por estes dias os norte-americanos irão escolher o seu 45º presidente, no final de um processo de seleção de candidatos e de campanha eleitoral que se iniciou há um ano. Do escrutínio primário nos partidos sobraram o republicano Donald Trump e a democrata Hilary Clinton. Dois “anciãos” de 70 anos perfilam-se para suceder a um “jovem” de 55! Obviamente, este pormenor da idade é absolutamente irrelevante, face à questão da qualidade pessoal e política dos candidatos, esse sim, um problema maior, para mal dos (muitos!) pecados dos americanos, mas também dos outros povos, devido à influência que os States têm no planeta.
Hilary Clinton é a candidata do establishment. Está na política desde sempre, já foi primeira dama e é, atualmente, secretária de estado de Obama. À semelhança do partido que a propõe, segue uma linha neoliberal que, em termos de política económica não é, sequer, muito diferente da do partido republicano. Não surpreende que Clinton seja apoiada pela Goldman Sachs e pelos gurus do capitalismo financeiro americano e internacional. A ser eleita, não passará de mais uma marioneta nas mãos dos lóbis industriais e financeiros que decidem a economia e controlam a política mundial. No entanto, apesar desta submissão a interesses obscuros, apresenta-se com uma postura de estado, politicamente correta e capaz de um comportamento responsável na política internacional. Exatamente o oposto do seu adversário, nestes últimos aspetos.
Trump consegue plasmar na sua figura tudo o que de pior tem a cultura norte-americana: a arrogância balofa (fanfarronice), o desprezo pelo outro, sobretudo se forem mulheres (misoginia), gays (homofobia), ou negros (racismo) e um etnocentrismo exacerbado (xenofobia). As afirmações que lançaram este oportunista, nascido em berço dourado, para a ribalta política e o levaram a suplantar outros candidatos dentro do partido republicano são reveladoras de uma espécie de insanidade mental, cujo grau de perigosidade depende apenas da distância que vai entre a fantasia e a realidade, ou seja, da distância entre essas alarvidades e a sua concretização. Difícil de entender é o facto de quase metade dos eleitores estadunidenses (a crer nas sondagens) querer ter como presidente uma espécie de Hitler reencarnado no séc. XXI, agora com um poder militar incomparavelmente superior. Quererão os americanos alguém que declara guerra aos mexicanos: “os mexicanos trazem droga, trazem crime, são violadores. Se for eleito irei construir um muro na fronteira e farei o México pagar por isso”; alguém que declara guerra aos chineses: “é tempo de sermos mais duros com os chineses devido à manipulação da sua moeda e à espionagem. A China será taxada por cada mau passo e se eles continuarem vamos taxá-los ainda mais”; alguém que declara guerra aos muçulmanos: “defendo a suspensão total e completa da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, até que sejamos capazes de determinar e entender o perigo que eles representam”; alguém que declara guerra aos árabes: “só estou interessado na Líbia, se nós ficarmos com o petróleo. No Iraque, devemos capturar a reserva de petróleo deles e recuperar os nossos gastos na guerra”; alguém que declara guerra à inteligência e ao conhecimento: “o conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses, para que a indústria manufatureira americana não seja competitiva. Nova Iorque está congelada, está a nevar. Nós precisamos do aquecimento global!”? Quererão os americanos ter como presidente alguém que usou o esquema fraudulento de apresentar declarações de perdas de milhões de dólares nos seus negócios, para não pagar impostos durante vinte anos e ainda tem o descaramento de considerar que isso apenas mostra que ele é “smart” (esperto)? Quererão os americanos ter como presidente um tipo que se comporta com as mulheres como um carroceiro?
A questão é, pois, o que significa Trump para os norte-americanos. Será que quase metade deles se reveem nesta aberração que, se não estivesse com a possibilidade real de ocupar o cargo político mais importante do planeta, seria apenas uma anedota de mau gosto? Será que este produto adulterado do “american way of life” (estilo de vida americano) não transformará o “american dream” (sonho americano) num autêntico pesadelo? Será que o próximo episódio da história dos Estados Unidos da América não terá como título: “um louco na Casa Branca”?
Nas escolhas eleitorais dos americanos, nunca um mal menor parece ter sido tão necessário!


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

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