PREMONIÇÕES
DE UM FILÓSOFO
O
filósofo Agostinho da Silva, pouco antes de morrer, considerava a CEE uma “organização inútil, doente, que não se
entende, que dificilmente resolve os seus problemas; a CEE encontra-se
continuamente em desacordo consigo própria, pois trata-se de pequenas nações
provincianas a tentarem agregar-se numa nação grande. A CEE não é a Europa,
como se costuma erradamente dizer, mas apenas o departamento económico da
Europa. Qualquer departamento económico deve ser sempre secundário, porque o
que devemos ter é uma Europa cultural, onde a economia seja o sustento, mas
nunca o objetivo”. (citado de
“Conversas com Agostinho da Silva, de Vítor Mendanha, novembro de 1994)
Passados
mais de 20 anos sobre estas avisadas e premonitórias declarações, enquanto os
atuais líderes da União Europeia insistem teimosamente em desvirtuar os
objetivos dos seus fundadores, adensa-se o pessimismo sobre o seu futuro.
Multiplicam-se os sinais de que, a breve prazo, podemos assistir à derrocada de
um projeto de globalização da economia europeia que descambou num mero
instrumento de usurpação do poder democrático das nações. A UE não passa, hoje,
de uma mera agência de negócios, controlada pelos lóbis de um restrito clube de
magnatas donos do planeta. Paulatinamente, esses lóbis, ao serviço das
multinacionais e do capitalismo financeiro, foram tecendo os mecanismos com que
manietaram a soberania dos vários países, mediante a aprovação de tratados
jamais submetidos ao debate e ao plebiscito por parte dos cidadãos.
A
consciência desta fraude em que se tornou a UE manifesta-se nos ventos de
euroceticismo que varrem a Europa de sul a norte e da esquerda à direita. O
“brexit” é, apenas, a continuação dos sinais dados aquando das eleições para o
Parlamento Europeu, em maio de 2014, em que os partidos eurocéticos foram dos
mais votados em muitos países. Agora, para além do Reino Unido, poderá
seguir-se a Itália, caso o primeiro ministro Matteo Renzi saia derrotado no
referendo constitucional de 4 de dezembro face aos opositores favoráveis à
saída do euro. Na França, as sondagens apontam a forte possibilidade de a
declarada antieuropeísta da extrema direita, Marine Le Pen, vir a ser eleita
presidente. Na Alemanha, a principal ameaça para Angela Merkel vem do partido
Alternativa para a Alemanha, igualmente antieuropeu e de extrema direita.
Aliás, não deixa de ser preocupante esta escalada da extrema direita populista
em tantos países ocidentais: nos USA, com Trump, em Inglaterra, com Farage e o
UKIP, na França, na Alemanha, na Itália, na Hungria, na Áustria, etc.
Curiosamente,
enquanto os sinais de descontentamento proliferam na UE, os seus líderes
preferem enterrar a cabeça na areia e prosseguir as políticas de austeridade que
ameaçam o fim da Europa social do pós-guerra. Ao leme desta nau que caminha
para o naufrágio, segue o intrépido ponta de lança dos “gangs” financeiros
obscuros que tomaram de assalto o poder de Bruxelas, que dá pelo adequado nome
de Wolf”gang” Schauble e que tem no currículo, além de três tiros por razões
políticas que o colocaram numa cadeira de rodas, uma escandalosa mentira ao
Parlamento Alemão sobre as suas negociatas com o lobista da indústria do
armamento, Karlheinz Schreiber, que o afastou definitivamente do ansiado cargo
de chanceler. É esta figura fantasmagórica que paira sobre os destinos da
Europa, assombrando com requintes de malvadez os países mais fragilizados
economicamente, como a Grécia e Portugal.
A
União Europeia caiu nas mãos desta gente, acabando por dar razão aos “velhos do
Restelo” do clube de Agostinho que, nos idos de 90, desconfiavam das intenções
dos “grandes” da Europa e acreditavam que a nossa adesão à então CEE não
passava de um engano monumental que haveríamos de pagar com língua de palmo!
Possivelmente
estaremos perto de perceber se Agostinho da Silva tinha razão quando,
questionado sobre se fazia sentido usar o conceito de nação na Europa e se esta
era uma entidade em crise, respondeu: “Eu acho que a Europa é uma coisa que vai
desaparecer!”.
José
Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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