sexta-feira, 17 de março de 2017

PREMONIÇÕES DE UM FILÓSOFO

O filósofo Agostinho da Silva, pouco antes de morrer, considerava a CEE uma “organização inútil, doente, que não se entende, que dificilmente resolve os seus problemas; a CEE encontra-se continuamente em desacordo consigo própria, pois trata-se de pequenas nações provincianas a tentarem agregar-se numa nação grande. A CEE não é a Europa, como se costuma erradamente dizer, mas apenas o departamento económico da Europa. Qualquer departamento económico deve ser sempre secundário, porque o que devemos ter é uma Europa cultural, onde a economia seja o sustento, mas nunca o objetivo”. (citado de “Conversas com Agostinho da Silva, de Vítor Mendanha, novembro de 1994)
Passados mais de 20 anos sobre estas avisadas e premonitórias declarações, enquanto os atuais líderes da União Europeia insistem teimosamente em desvirtuar os objetivos dos seus fundadores, adensa-se o pessimismo sobre o seu futuro. Multiplicam-se os sinais de que, a breve prazo, podemos assistir à derrocada de um projeto de globalização da economia europeia que descambou num mero instrumento de usurpação do poder democrático das nações. A UE não passa, hoje, de uma mera agência de negócios, controlada pelos lóbis de um restrito clube de magnatas donos do planeta. Paulatinamente, esses lóbis, ao serviço das multinacionais e do capitalismo financeiro, foram tecendo os mecanismos com que manietaram a soberania dos vários países, mediante a aprovação de tratados jamais submetidos ao debate e ao plebiscito por parte dos cidadãos.
A consciência desta fraude em que se tornou a UE manifesta-se nos ventos de euroceticismo que varrem a Europa de sul a norte e da esquerda à direita. O “brexit” é, apenas, a continuação dos sinais dados aquando das eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2014, em que os partidos eurocéticos foram dos mais votados em muitos países. Agora, para além do Reino Unido, poderá seguir-se a Itália, caso o primeiro ministro Matteo Renzi saia derrotado no referendo constitucional de 4 de dezembro face aos opositores favoráveis à saída do euro. Na França, as sondagens apontam a forte possibilidade de a declarada antieuropeísta da extrema direita, Marine Le Pen, vir a ser eleita presidente. Na Alemanha, a principal ameaça para Angela Merkel vem do partido Alternativa para a Alemanha, igualmente antieuropeu e de extrema direita. Aliás, não deixa de ser preocupante esta escalada da extrema direita populista em tantos países ocidentais: nos USA, com Trump, em Inglaterra, com Farage e o UKIP, na França, na Alemanha, na Itália, na Hungria, na Áustria, etc.
Curiosamente, enquanto os sinais de descontentamento proliferam na UE, os seus líderes preferem enterrar a cabeça na areia e prosseguir as políticas de austeridade que ameaçam o fim da Europa social do pós-guerra. Ao leme desta nau que caminha para o naufrágio, segue o intrépido ponta de lança dos “gangs” financeiros obscuros que tomaram de assalto o poder de Bruxelas, que dá pelo adequado nome de Wolf”gang” Schauble e que tem no currículo, além de três tiros por razões políticas que o colocaram numa cadeira de rodas, uma escandalosa mentira ao Parlamento Alemão sobre as suas negociatas com o lobista da indústria do armamento, Karlheinz Schreiber, que o afastou definitivamente do ansiado cargo de chanceler. É esta figura fantasmagórica que paira sobre os destinos da Europa, assombrando com requintes de malvadez os países mais fragilizados economicamente, como a Grécia e Portugal.
A União Europeia caiu nas mãos desta gente, acabando por dar razão aos “velhos do Restelo” do clube de Agostinho que, nos idos de 90, desconfiavam das intenções dos “grandes” da Europa e acreditavam que a nossa adesão à então CEE não passava de um engano monumental que haveríamos de pagar com língua de palmo!
Possivelmente estaremos perto de perceber se Agostinho da Silva tinha razão quando, questionado sobre se fazia sentido usar o conceito de nação na Europa e se esta era uma entidade em crise, respondeu: “Eu acho que a Europa é uma coisa que vai desaparecer!”.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

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