DAVOS E A
PÓS-DEMOCRACIA
Cumprindo uma tradição com mais de 40 anos, decorreu, em meados de
janeiro, mais uma cimeira do Fórum Económico Mundial (FEM), em Davos, na Suíça.
Trata-se de uma instituição dita sem fins lucrativos, criada em 1971 por um tal
Klaus Schwab e que apresenta como lema “compromisso para melhorar o estado do
mundo”. Os participantes na Cimeira de Davos são selecionados de forma
criteriosa, em função do seu peso económico ou politico, a nível global ou
regional e, durante cinco dias, debatem temas como “os conflitos
internacionais, a pobreza, os problemas ambientais, etc”. Dito assim parece que
se trata de uma organização filantrópica apostada em encontrar soluções para os
grandes problemas do mundo e para ajudar os mais desfavorecidos. É essa a
imagem que os seus promotores procuram transmitir através de uma comunicação
social bajuladora que se sente na obrigação de corresponder às mordomias que
lhe são prodigalizadas e de agradar aos seus donos, muitos deles entre os
ilustres convidados.
Acontece que, reparando mais de perto naquela que é a maior cimeira do
género a nível mundial, torna-se difícil compaginar essas intenções tão
virtuosas com o facto de o seu financiamento estar a cargo de cerca de mil
empresas transnacionais que apresentam mais de cinco biliões de dólares em
receitas, cada uma. Além disso, o FEM é considerado por muitos dos seus
críticos como uma rede de interesses cuja agenda passa por criar uma cultura de
poder empresarial que permita, a médio prazo, às empresas transnacionais
substituir as instituições politicas de natureza democrática na definição das
regras que regulamentam a economia mundial. Ou, melhor ainda, na abolição total
dessas regras, uma vez que o FEM se alimenta ideologicamente do neoliberalismo
económico e da fé na autorregulação dos mercados.
Uma das vozes que tem emergido no sentido de denunciar esta
“conspiração” à escala mundial para dominar o mundo, protagonizada pelas
empresas transnacionais, é a de Susan George, uma professora universitária
franco-americana, ativista das lutas internacionais contra os efeitos
devastadores da globalização capitalista. Num livro absolutamente indispensável
para quem quer conhecer minimamente como funciona essa rede tentacular,
intitulado “Os Usurpadores”, Susan George denuncia claramente essa intenção
oculta do FEM que visa essa tomada de poder, “através de um plano ambicioso –
ou melhor, grandioso e de uma arrogância desmedida – para definir a agenda,
assumir o controlo onde os governos não atuam, realizar o que eles deixaram de
fazer, decidir sobre assuntos que eles nem ousam abordar”. Ou seja, as empresas
privadas pretendem ocupar o espaço dos governos eleitos democraticamente, no
que respeita à condução dos assuntos mundiais.
O FEM constitui-se, pois, como um dos epifenómenos que estimulam a
emergência de uma era pós-democrática. Efetivamente, a democracia
representativa que se consolidou no mundo ocidental ao longo do século XX e
que, na Europa, saiu reforçada da luta contra as ditaduras nazis e fascistas,
encontra-se, hoje, ameaçada pelo capitalismo neoliberal que pretende retirar
aos cidadãos o poder de controlar as politicas mundiais e colocá-lo nas mãos
dos chamados “donos do mundo”, um clube restrito de umas poucas centenas de
indivíduos que têm tanta riqueza como metade da população mundial. Esses “donos
do mundo” dispõem de um exército de “usurpadores”, porque não foram eleitos
pelos cidadãos, cujo trabalho, bem remunerado, consiste em infiltrar-se,
influenciar e, em última análise, ocupar as instituições com poder de decisão,
desde os governos dos países até à União Europeia ou à própria ONU.
A Cimeira de Davos constitui-se como uma liturgia que, anualmente,
serve para definir as linhas orientadoras deste projeto de usurpação à escala
mundial. Diz Susan George, na introdução do referido livro: “Estamos cercados.
Para onde quer que olhemos, encontramos massas, multidões, grupos de indivíduos
não eleitos que não prestam contas a ninguém e só procuram o lucro, grandes
empresas e novas instituições que surgem por todo o lado e fazem política
oficial em áreas que vão da saúde pública à alimentação e à agricultura, dos
impostos à finança e ao comércio. Alguns são lobistas ao serviço de uma empresa
em particular ou de todo um setor industrial, outros são dirigentes das maiores
empresas mundiais, cujo volume de negócios é superior ao produto interno bruto
(PIB) de muitos dos países onde operam. O seu papel é manifestamente politico e
o poder que exercem é ilegítimo”.
A era da pós-democracia está aí e a chegada de Trump à presidência dos
Estados Unidos da América, ainda que de forma enviesada, é já uma das suas
consequências, anunciando grandes “trumpalhadas”.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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