OS DESAFIOS DE GUTERRES
Um acontecimento que marcou
positivamente a vida nacional no ano de 2016 foi, sem dúvida, a eleição de
António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas, função que começou a
exercer no início deste ano. Trata-se de uma honra enorme para Portugal, que
vê, assim, um seu cidadão ascender a um cargo da maior relevância
internacional. E convenhamos que António Guterres merece a distinção, não só
pela experiência adquirida à frente da ACNUR, mas também pelas suas qualidades
morais e intelectuais, justamente reconhecidas pelo presidente Marcelo ao considerá-lo
o rosto mais brilhante da sua geração. Pessoalmente, e ao contrário daquilo que
a propaganda da direita conseguiu generalizar na opinião pública, sempre o
considerei como o melhor primeiro-ministro que Portugal teve até hoje.
Conseguiu governar durante seis anos, sem maioria absoluta a sustentá-lo no Parlamento,
o que o obrigou ao desgaste sucessivo de ter de negociar a aprovação de leis
importantes, como os orçamentos de estado, numa posição muito fragilizada. Esse
facto acabou por levá-lo ao pedido de demissão, provavelmente cansado da
mesquinhez reinante na politica nacional. Considero, no entanto, que, dentro
dos condicionalismos que rodeiam a atuação de qualquer governo na União
Europeia, a sua ação foi pautada pelas preocupações sociais e pela melhoria das
condições de vida dos mais desfavorecidos. Foi seguramente o último socialista,
em Portugal e quiçá na Europa, a governar como um socialista.
A partir de agora, à frente da
ONU, dele se espera, no mínimo, uma ação consentânea com o prestígio que
angariou à frente do organismo de apoio aos refugiados, ao longo dos últimos
anos. Acredito que, para isso, lhe sobram vontade e capacidade. No entanto,
temo que lhe faltem condições e poder real para o conseguir. A ONU é, hoje, uma
organização pouco mais do que inútil no concerto das nações, tanto no aspeto
politico como social. As diversas agências que a integram, desde a OMS à
UNICEF, estão minadas e controladas pelos lóbis do comércio, da finança, das
indústrias e das empresas transnacionais. O seu secretário-geral não passa de
uma figura decorativa, sem poder nem influência no jogo da política
internacional. Aliás, quem efetivamente controla as Nações Unidas são os cinco países
com direito de veto, EUA, Rússia, China, Inglaterra e França, que aproveitam a
fachada desta organização para prosseguirem internacionalmente as politicas que
mais lhes convêm.
Dos múltiplos e complexos
problemas com que António Guterres se vai deparar, a forma como lidar com dois
deles marcará indelevelmente a avaliação que virá a ser feita no final do seu
mandato. Refiro-me às questões da geopolítica internacional e aos problemas do
ambiente. No primeiro caso, a chegada de Trump ao teatro político internacional
promete ser uma grande dor de cabeça para Guterres. Se acrescentarmos
personagens como Putin, Erdogan, Kim Jong-un e outros que se perfilam para
chefiar potências militares, temos todos os condimentos para uma tempestade
perfeita, com epicentro no Médio Oriente, onde, ao velho e jamais resolvido
conflito Israelo-árabe, se têm acrescentado os problemas do terrorismo de
origem fundamentalista e a questão do povo curdo, encravado entre turcos,
sírios e iraquianos. Os problemas do Médio Oriente continuam a perfilar-se como
um potencial rastilho de um novo conflito à escala mundial e constituirão,
seguramente, um dos principais desafios à capacidade do secretário-geral da ONU
para evitar esse conflito. No que respeita à questão ambiental, o desafio não é
menor. Também neste caso, a chegada de Trump à liderança dos E.U.A. não augura
vida fácil a quem tem obrigação de defender o Planeta e garantir o direito de
todo o ser humano a viver num ambiente saudável. Se os E.U.A., a China e outras
potências industriais têm constituído um entrave permanente ao prosseguimento
de políticas “amigas” do ambiente, o facto de o país mais poluidor do mundo
passar a ser governado por um indivíduo que, por ignorância ou cinismo, nega a
existência de um problema ambiental no Planeta, só pode constituir-se como um
fator de aceleração dos já por demais evidentes desequilíbrios ecológicos e
climatéricos e consequente insustentabilidade da existência de seres vivos na
Terra. Também nesta matéria, para além de Trump e outros “loucos” como ele,
Guterres terá de enfrentar todo um poderoso exército de interesses
cristalizados à volta das indústrias poluidoras e centralizadas
maioritariamente em empresas transnacionais que dominam e manipulam as
políticas económicas internacionais. Convenhamos que não é tarefa fácil e que o
poder de que o secretário-geral da ONU está investido não é suficiente para
vencer forças tão poderosas. No entanto, o mínimo que se lhe exige e à
organização que lidera é que defenda o interesse de todos os povos e cidadãos e
que não pactue com interesses privados atentatórios dos direitos de toda a
humanidade. Nesta matéria, a ONU deve inverter o caminho iniciado com Kofi Anan
e varrer dos seus organismos todos os lóbis que esses interessas espúrios aí
foram instalando paulatinamente. Só assim poderá cumprir o mínimo que lhe é
exigível: denunciar os crimes contra o Planeta e os seus autores, colocando-se
ao lado daqueles que lutam em defesa desse mesmo Planeta. Que também são
alguns, embora com infinitamente menor influência, menos dinheiro e menos
poder.
José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.pt
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