sexta-feira, 17 de março de 2017

OS DESAFIOS DE GUTERRES

Um acontecimento que marcou positivamente a vida nacional no ano de 2016 foi, sem dúvida, a eleição de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas, função que começou a exercer no início deste ano. Trata-se de uma honra enorme para Portugal, que vê, assim, um seu cidadão ascender a um cargo da maior relevância internacional. E convenhamos que António Guterres merece a distinção, não só pela experiência adquirida à frente da ACNUR, mas também pelas suas qualidades morais e intelectuais, justamente reconhecidas pelo presidente Marcelo ao considerá-lo o rosto mais brilhante da sua geração. Pessoalmente, e ao contrário daquilo que a propaganda da direita conseguiu generalizar na opinião pública, sempre o considerei como o melhor primeiro-ministro que Portugal teve até hoje. Conseguiu governar durante seis anos, sem maioria absoluta a sustentá-lo no Parlamento, o que o obrigou ao desgaste sucessivo de ter de negociar a aprovação de leis importantes, como os orçamentos de estado, numa posição muito fragilizada. Esse facto acabou por levá-lo ao pedido de demissão, provavelmente cansado da mesquinhez reinante na politica nacional. Considero, no entanto, que, dentro dos condicionalismos que rodeiam a atuação de qualquer governo na União Europeia, a sua ação foi pautada pelas preocupações sociais e pela melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos. Foi seguramente o último socialista, em Portugal e quiçá na Europa, a governar como um socialista.
A partir de agora, à frente da ONU, dele se espera, no mínimo, uma ação consentânea com o prestígio que angariou à frente do organismo de apoio aos refugiados, ao longo dos últimos anos. Acredito que, para isso, lhe sobram vontade e capacidade. No entanto, temo que lhe faltem condições e poder real para o conseguir. A ONU é, hoje, uma organização pouco mais do que inútil no concerto das nações, tanto no aspeto politico como social. As diversas agências que a integram, desde a OMS à UNICEF, estão minadas e controladas pelos lóbis do comércio, da finança, das indústrias e das empresas transnacionais. O seu secretário-geral não passa de uma figura decorativa, sem poder nem influência no jogo da política internacional. Aliás, quem efetivamente controla as Nações Unidas são os cinco países com direito de veto, EUA, Rússia, China, Inglaterra e França, que aproveitam a fachada desta organização para prosseguirem internacionalmente as politicas que mais lhes convêm.
Dos múltiplos e complexos problemas com que António Guterres se vai deparar, a forma como lidar com dois deles marcará indelevelmente a avaliação que virá a ser feita no final do seu mandato. Refiro-me às questões da geopolítica internacional e aos problemas do ambiente. No primeiro caso, a chegada de Trump ao teatro político internacional promete ser uma grande dor de cabeça para Guterres. Se acrescentarmos personagens como Putin, Erdogan, Kim Jong-un e outros que se perfilam para chefiar potências militares, temos todos os condimentos para uma tempestade perfeita, com epicentro no Médio Oriente, onde, ao velho e jamais resolvido conflito Israelo-árabe, se têm acrescentado os problemas do terrorismo de origem fundamentalista e a questão do povo curdo, encravado entre turcos, sírios e iraquianos. Os problemas do Médio Oriente continuam a perfilar-se como um potencial rastilho de um novo conflito à escala mundial e constituirão, seguramente, um dos principais desafios à capacidade do secretário-geral da ONU para evitar esse conflito. No que respeita à questão ambiental, o desafio não é menor. Também neste caso, a chegada de Trump à liderança dos E.U.A. não augura vida fácil a quem tem obrigação de defender o Planeta e garantir o direito de todo o ser humano a viver num ambiente saudável. Se os E.U.A., a China e outras potências industriais têm constituído um entrave permanente ao prosseguimento de políticas “amigas” do ambiente, o facto de o país mais poluidor do mundo passar a ser governado por um indivíduo que, por ignorância ou cinismo, nega a existência de um problema ambiental no Planeta, só pode constituir-se como um fator de aceleração dos já por demais evidentes desequilíbrios ecológicos e climatéricos e consequente insustentabilidade da existência de seres vivos na Terra. Também nesta matéria, para além de Trump e outros “loucos” como ele, Guterres terá de enfrentar todo um poderoso exército de interesses cristalizados à volta das indústrias poluidoras e centralizadas maioritariamente em empresas transnacionais que dominam e manipulam as políticas económicas internacionais. Convenhamos que não é tarefa fácil e que o poder de que o secretário-geral da ONU está investido não é suficiente para vencer forças tão poderosas. No entanto, o mínimo que se lhe exige e à organização que lidera é que defenda o interesse de todos os povos e cidadãos e que não pactue com interesses privados atentatórios dos direitos de toda a humanidade. Nesta matéria, a ONU deve inverter o caminho iniciado com Kofi Anan e varrer dos seus organismos todos os lóbis que esses interessas espúrios aí foram instalando paulatinamente. Só assim poderá cumprir o mínimo que lhe é exigível: denunciar os crimes contra o Planeta e os seus autores, colocando-se ao lado daqueles que lutam em defesa desse mesmo Planeta. Que também são alguns, embora com infinitamente menor influência, menos dinheiro e menos poder.

José Júlio Campos

pensarnotempo.blogspot.pt 

Sem comentários:

Enviar um comentário