DO LOBO AO MACACO
(UMA METÁFORA DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE)
A nossa compreensão do mundo pode fazer-se de duas
maneiras. Uma, mais geral e abstrata, assenta na construção de teorias e
explicações de natureza causal para as correlações existentes entre a infinitude
de fenómenos que povoam a vida do homem no cosmos; esta forma de conhecimento
teve início na Grécia Antiga, há mais de 2500 anos, e foi evoluindo sob a
designação de filosofia ou de ciência. Outra, mais parcelar e sensorial,
assenta na mera perceção do mundo particular concreto onde vivemos e procuramos
satisfazer as cada vez mais exigentes necessidades que a evolução tecnológica
foi criando em nós a um ritmo exponencial. A primeira forma de conhecimento
resulta de uma espécie de “olhar panorâmico e intemporal sobre a floresta”,
entendida esta como metáfora do mundo, que nos dá uma visão da totalidade dos
elementos que a constituem e da forma como se entrelaçam; apenas uma ínfima
percentagem de seres humanos se preocupa com a construção deste tipo de
conhecimento. O comum dos mortais jamais consegue alcandorar-se a píncaros que
lhe permitam essa visão panorâmica, limitando-se, apenas, a ver a árvore que
está à frente dos seus olhos e que o impede de percecionar a real dimensão da
floresta e das relações nela existentes, reduzindo o todo à parte ou,
recorrendo aos termos da metáfora e a uma conhecida expressão, “confundindo a
árvore com a floresta”.
Ao longo dos tempos, o tipo de conhecimento sobre o
mundo que cada indivíduo consegue alcançar constituiu-se como um elemento
determinante do papel que desempenha nas dinâmicas sociais e culturais em que
está envolvido. O conhecimento tornou-se num dos mais importantes e eficazes
fatores de domínio e exercício do poder por parte do ser humano. À medida que
os mais aptos da espécie, em termos cognitivos, foram tomando consciência do
poder que o conhecimento confere, foram criando mecanismos de apropriação e
controlo desse conhecimento, usando-o como um instrumento de dominação e
submissão dos restantes elementos do cosmos, inclusive dos outros seres
humanos, em função dos seus interesses egoístas. Este processo desenvolveu-se e
concretizou-se mediante inúmeras formas de organização social e política, desde
a pré-história até à atualidade, através das quais essa elite dos mais aptos
satisfaz os básicos e ancestrais desejos de posse e de poder que caracterizam a
espécie humana.
No entanto, a tomada de consciência de que, na
“floresta”, podemos não ser o “lobo” mais forte levou a que alguns começassem a
conceber formas de organização política que permitissem controlar esses
ancestrais desejos e salvaguardar a possibilidade de todos poderem aceder a um
mínimo de satisfação desses desejos, gradualmente transformados em direitos
naturais. Assim terá germinado a ideia de Estado, nas sociedades primitivas,
concretizando-se essa ideia através de formas cada vez mais complexas, ao longo
dos tempos, e constituindo-se, com a criação do Estado de Direito, num
certificado de garantia dos direitos e liberdades de todos, incluindo dos
“lobos” mais fracos da “floresta”. Acontece que os “lobos” mais fortes,
normalmente os que controlam o conhecimento, perceberam o alcance da artimanha
e trataram de criar novos mecanismos que lhes permitissem manter ou recuperar o
domínio sobre os “lobos”. Mediante a apropriação e o controlo do conhecimento,
sobretudo do conhecimento científico e tecnológico, os mais poderosos foram
tratando de consolidar e garantir o seu poder, direcionando o saber para a
produção de bens que funcionam como a banana para o macaco ou o mel para as
moscas. O que tem acontecido no último século é uma diversificação da banana
até à náusea e uma estimulação do macaco para o consumo até à sua total
alienação. Como diz Noam Chomsky, no livro “Quem governa o mundo?”, os próprios
líderes empresariais, os “lobos” que dominam a “floresta”, reconhecem que têm
como tarefa “direcionar as pessoas para
“as coisas superficiais da vida”, como por exemplo o “consumo ditado pelo que
está em voga”. Dessa maneira, as pessoas podem ser atomizadas, separadas umas
das outras, em procura solitária do benefício próprio e, portanto, desviadas do
perigo de pensarem pela própria cabeça e desafiarem a autoridade”. A
alienação consumista que é a essência a que se reduz o capitalismo neoliberal
contemporâneo, constitui-se, pois, como o instrumento com que os “lobos”
dominantes que controlam o conhecimento continuam a satisfazer o seu desejo de
domínio, neutralizando o papel de salvaguarda dos direitos dos “lobos” mais
fracos que o Estado de Direito tinha como finalidade garantir. Ao tornar-se num
mero macaco que vive exclusivamente para o consumo de bananas cada vez mais
artificiais e artificiosas, o homem despojou-se da sua condição natural de
“lobo” e capitulou definitivamente face aos desejos dos “lobos” mais espertos.
O Estado de Direito e a sua dignidade de
“lobo” interessam, hoje, ao comum dos mortais, infinitamente menos do que o
mais recente upgrade tecnológico.
A história recente da humanidade resume-se a uma
transmutação do homem “lobo” em homem “macaco”, operada a partir da forma como
ele olha para o mundo.
José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com