sexta-feira, 17 de março de 2017

DO LOBO AO MACACO
(UMA METÁFORA DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE)

A nossa compreensão do mundo pode fazer-se de duas maneiras. Uma, mais geral e abstrata, assenta na construção de teorias e explicações de natureza causal para as correlações existentes entre a infinitude de fenómenos que povoam a vida do homem no cosmos; esta forma de conhecimento teve início na Grécia Antiga, há mais de 2500 anos, e foi evoluindo sob a designação de filosofia ou de ciência. Outra, mais parcelar e sensorial, assenta na mera perceção do mundo particular concreto onde vivemos e procuramos satisfazer as cada vez mais exigentes necessidades que a evolução tecnológica foi criando em nós a um ritmo exponencial. A primeira forma de conhecimento resulta de uma espécie de “olhar panorâmico e intemporal sobre a floresta”, entendida esta como metáfora do mundo, que nos dá uma visão da totalidade dos elementos que a constituem e da forma como se entrelaçam; apenas uma ínfima percentagem de seres humanos se preocupa com a construção deste tipo de conhecimento. O comum dos mortais jamais consegue alcandorar-se a píncaros que lhe permitam essa visão panorâmica, limitando-se, apenas, a ver a árvore que está à frente dos seus olhos e que o impede de percecionar a real dimensão da floresta e das relações nela existentes, reduzindo o todo à parte ou, recorrendo aos termos da metáfora e a uma conhecida expressão, “confundindo a árvore com a floresta”.
Ao longo dos tempos, o tipo de conhecimento sobre o mundo que cada indivíduo consegue alcançar constituiu-se como um elemento determinante do papel que desempenha nas dinâmicas sociais e culturais em que está envolvido. O conhecimento tornou-se num dos mais importantes e eficazes fatores de domínio e exercício do poder por parte do ser humano. À medida que os mais aptos da espécie, em termos cognitivos, foram tomando consciência do poder que o conhecimento confere, foram criando mecanismos de apropriação e controlo desse conhecimento, usando-o como um instrumento de dominação e submissão dos restantes elementos do cosmos, inclusive dos outros seres humanos, em função dos seus interesses egoístas. Este processo desenvolveu-se e concretizou-se mediante inúmeras formas de organização social e política, desde a pré-história até à atualidade, através das quais essa elite dos mais aptos satisfaz os básicos e ancestrais desejos de posse e de poder que caracterizam a espécie humana.
No entanto, a tomada de consciência de que, na “floresta”, podemos não ser o “lobo” mais forte levou a que alguns começassem a conceber formas de organização política que permitissem controlar esses ancestrais desejos e salvaguardar a possibilidade de todos poderem aceder a um mínimo de satisfação desses desejos, gradualmente transformados em direitos naturais. Assim terá germinado a ideia de Estado, nas sociedades primitivas, concretizando-se essa ideia através de formas cada vez mais complexas, ao longo dos tempos, e constituindo-se, com a criação do Estado de Direito, num certificado de garantia dos direitos e liberdades de todos, incluindo dos “lobos” mais fracos da “floresta”. Acontece que os “lobos” mais fortes, normalmente os que controlam o conhecimento, perceberam o alcance da artimanha e trataram de criar novos mecanismos que lhes permitissem manter ou recuperar o domínio sobre os “lobos”. Mediante a apropriação e o controlo do conhecimento, sobretudo do conhecimento científico e tecnológico, os mais poderosos foram tratando de consolidar e garantir o seu poder, direcionando o saber para a produção de bens que funcionam como a banana para o macaco ou o mel para as moscas. O que tem acontecido no último século é uma diversificação da banana até à náusea e uma estimulação do macaco para o consumo até à sua total alienação. Como diz Noam Chomsky, no livro “Quem governa o mundo?”, os próprios líderes empresariais, os “lobos” que dominam a “floresta”, reconhecem que têm como tarefa “direcionar as pessoas para “as coisas superficiais da vida”, como por exemplo o “consumo ditado pelo que está em voga”. Dessa maneira, as pessoas podem ser atomizadas, separadas umas das outras, em procura solitária do benefício próprio e, portanto, desviadas do perigo de pensarem pela própria cabeça e desafiarem a autoridade”. A alienação consumista que é a essência a que se reduz o capitalismo neoliberal contemporâneo, constitui-se, pois, como o instrumento com que os “lobos” dominantes que controlam o conhecimento continuam a satisfazer o seu desejo de domínio, neutralizando o papel de salvaguarda dos direitos dos “lobos” mais fracos que o Estado de Direito tinha como finalidade garantir. Ao tornar-se num mero macaco que vive exclusivamente para o consumo de bananas cada vez mais artificiais e artificiosas, o homem despojou-se da sua condição natural de “lobo” e capitulou definitivamente face aos desejos dos “lobos” mais espertos. O Estado de Direito e a  sua dignidade de “lobo” interessam, hoje, ao comum dos mortais, infinitamente menos do que o mais recente upgrade tecnológico.
A história recente da humanidade resume-se a uma transmutação do homem “lobo” em homem “macaco”, operada a partir da forma como ele olha para o mundo.

José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com


DAVOS E A PÓS-DEMOCRACIA

Cumprindo uma tradição com mais de 40 anos, decorreu, em meados de janeiro, mais uma cimeira do Fórum Económico Mundial (FEM), em Davos, na Suíça. Trata-se de uma instituição dita sem fins lucrativos, criada em 1971 por um tal Klaus Schwab e que apresenta como lema “compromisso para melhorar o estado do mundo”. Os participantes na Cimeira de Davos são selecionados de forma criteriosa, em função do seu peso económico ou politico, a nível global ou regional e, durante cinco dias, debatem temas como “os conflitos internacionais, a pobreza, os problemas ambientais, etc”. Dito assim parece que se trata de uma organização filantrópica apostada em encontrar soluções para os grandes problemas do mundo e para ajudar os mais desfavorecidos. É essa a imagem que os seus promotores procuram transmitir através de uma comunicação social bajuladora que se sente na obrigação de corresponder às mordomias que lhe são prodigalizadas e de agradar aos seus donos, muitos deles entre os ilustres convidados.
Acontece que, reparando mais de perto naquela que é a maior cimeira do género a nível mundial, torna-se difícil compaginar essas intenções tão virtuosas com o facto de o seu financiamento estar a cargo de cerca de mil empresas transnacionais que apresentam mais de cinco biliões de dólares em receitas, cada uma. Além disso, o FEM é considerado por muitos dos seus críticos como uma rede de interesses cuja agenda passa por criar uma cultura de poder empresarial que permita, a médio prazo, às empresas transnacionais substituir as instituições politicas de natureza democrática na definição das regras que regulamentam a economia mundial. Ou, melhor ainda, na abolição total dessas regras, uma vez que o FEM se alimenta ideologicamente do neoliberalismo económico e da fé na autorregulação dos mercados.
Uma das vozes que tem emergido no sentido de denunciar esta “conspiração” à escala mundial para dominar o mundo, protagonizada pelas empresas transnacionais, é a de Susan George, uma professora universitária franco-americana, ativista das lutas internacionais contra os efeitos devastadores da globalização capitalista. Num livro absolutamente indispensável para quem quer conhecer minimamente como funciona essa rede tentacular, intitulado “Os Usurpadores”, Susan George denuncia claramente essa intenção oculta do FEM que visa essa tomada de poder, “através de um plano ambicioso – ou melhor, grandioso e de uma arrogância desmedida – para definir a agenda, assumir o controlo onde os governos não atuam, realizar o que eles deixaram de fazer, decidir sobre assuntos que eles nem ousam abordar”. Ou seja, as empresas privadas pretendem ocupar o espaço dos governos eleitos democraticamente, no que respeita à condução dos assuntos mundiais.
O FEM constitui-se, pois, como um dos epifenómenos que estimulam a emergência de uma era pós-democrática. Efetivamente, a democracia representativa que se consolidou no mundo ocidental ao longo do século XX e que, na Europa, saiu reforçada da luta contra as ditaduras nazis e fascistas, encontra-se, hoje, ameaçada pelo capitalismo neoliberal que pretende retirar aos cidadãos o poder de controlar as politicas mundiais e colocá-lo nas mãos dos chamados “donos do mundo”, um clube restrito de umas poucas centenas de indivíduos que têm tanta riqueza como metade da população mundial. Esses “donos do mundo” dispõem de um exército de “usurpadores”, porque não foram eleitos pelos cidadãos, cujo trabalho, bem remunerado, consiste em infiltrar-se, influenciar e, em última análise, ocupar as instituições com poder de decisão, desde os governos dos países até à União Europeia ou à própria ONU.
A Cimeira de Davos constitui-se como uma liturgia que, anualmente, serve para definir as linhas orientadoras deste projeto de usurpação à escala mundial. Diz Susan George, na introdução do referido livro: “Estamos cercados. Para onde quer que olhemos, encontramos massas, multidões, grupos de indivíduos não eleitos que não prestam contas a ninguém e só procuram o lucro, grandes empresas e novas instituições que surgem por todo o lado e fazem política oficial em áreas que vão da saúde pública à alimentação e à agricultura, dos impostos à finança e ao comércio. Alguns são lobistas ao serviço de uma empresa em particular ou de todo um setor industrial, outros são dirigentes das maiores empresas mundiais, cujo volume de negócios é superior ao produto interno bruto (PIB) de muitos dos países onde operam. O seu papel é manifestamente politico e o poder que exercem é ilegítimo”.
A era da pós-democracia está aí e a chegada de Trump à presidência dos Estados Unidos da América, ainda que de forma enviesada, é já uma das suas consequências, anunciando grandes “trumpalhadas”.


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com

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OS DESAFIOS DE GUTERRES

Um acontecimento que marcou positivamente a vida nacional no ano de 2016 foi, sem dúvida, a eleição de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas, função que começou a exercer no início deste ano. Trata-se de uma honra enorme para Portugal, que vê, assim, um seu cidadão ascender a um cargo da maior relevância internacional. E convenhamos que António Guterres merece a distinção, não só pela experiência adquirida à frente da ACNUR, mas também pelas suas qualidades morais e intelectuais, justamente reconhecidas pelo presidente Marcelo ao considerá-lo o rosto mais brilhante da sua geração. Pessoalmente, e ao contrário daquilo que a propaganda da direita conseguiu generalizar na opinião pública, sempre o considerei como o melhor primeiro-ministro que Portugal teve até hoje. Conseguiu governar durante seis anos, sem maioria absoluta a sustentá-lo no Parlamento, o que o obrigou ao desgaste sucessivo de ter de negociar a aprovação de leis importantes, como os orçamentos de estado, numa posição muito fragilizada. Esse facto acabou por levá-lo ao pedido de demissão, provavelmente cansado da mesquinhez reinante na politica nacional. Considero, no entanto, que, dentro dos condicionalismos que rodeiam a atuação de qualquer governo na União Europeia, a sua ação foi pautada pelas preocupações sociais e pela melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos. Foi seguramente o último socialista, em Portugal e quiçá na Europa, a governar como um socialista.
A partir de agora, à frente da ONU, dele se espera, no mínimo, uma ação consentânea com o prestígio que angariou à frente do organismo de apoio aos refugiados, ao longo dos últimos anos. Acredito que, para isso, lhe sobram vontade e capacidade. No entanto, temo que lhe faltem condições e poder real para o conseguir. A ONU é, hoje, uma organização pouco mais do que inútil no concerto das nações, tanto no aspeto politico como social. As diversas agências que a integram, desde a OMS à UNICEF, estão minadas e controladas pelos lóbis do comércio, da finança, das indústrias e das empresas transnacionais. O seu secretário-geral não passa de uma figura decorativa, sem poder nem influência no jogo da política internacional. Aliás, quem efetivamente controla as Nações Unidas são os cinco países com direito de veto, EUA, Rússia, China, Inglaterra e França, que aproveitam a fachada desta organização para prosseguirem internacionalmente as politicas que mais lhes convêm.
Dos múltiplos e complexos problemas com que António Guterres se vai deparar, a forma como lidar com dois deles marcará indelevelmente a avaliação que virá a ser feita no final do seu mandato. Refiro-me às questões da geopolítica internacional e aos problemas do ambiente. No primeiro caso, a chegada de Trump ao teatro político internacional promete ser uma grande dor de cabeça para Guterres. Se acrescentarmos personagens como Putin, Erdogan, Kim Jong-un e outros que se perfilam para chefiar potências militares, temos todos os condimentos para uma tempestade perfeita, com epicentro no Médio Oriente, onde, ao velho e jamais resolvido conflito Israelo-árabe, se têm acrescentado os problemas do terrorismo de origem fundamentalista e a questão do povo curdo, encravado entre turcos, sírios e iraquianos. Os problemas do Médio Oriente continuam a perfilar-se como um potencial rastilho de um novo conflito à escala mundial e constituirão, seguramente, um dos principais desafios à capacidade do secretário-geral da ONU para evitar esse conflito. No que respeita à questão ambiental, o desafio não é menor. Também neste caso, a chegada de Trump à liderança dos E.U.A. não augura vida fácil a quem tem obrigação de defender o Planeta e garantir o direito de todo o ser humano a viver num ambiente saudável. Se os E.U.A., a China e outras potências industriais têm constituído um entrave permanente ao prosseguimento de políticas “amigas” do ambiente, o facto de o país mais poluidor do mundo passar a ser governado por um indivíduo que, por ignorância ou cinismo, nega a existência de um problema ambiental no Planeta, só pode constituir-se como um fator de aceleração dos já por demais evidentes desequilíbrios ecológicos e climatéricos e consequente insustentabilidade da existência de seres vivos na Terra. Também nesta matéria, para além de Trump e outros “loucos” como ele, Guterres terá de enfrentar todo um poderoso exército de interesses cristalizados à volta das indústrias poluidoras e centralizadas maioritariamente em empresas transnacionais que dominam e manipulam as políticas económicas internacionais. Convenhamos que não é tarefa fácil e que o poder de que o secretário-geral da ONU está investido não é suficiente para vencer forças tão poderosas. No entanto, o mínimo que se lhe exige e à organização que lidera é que defenda o interesse de todos os povos e cidadãos e que não pactue com interesses privados atentatórios dos direitos de toda a humanidade. Nesta matéria, a ONU deve inverter o caminho iniciado com Kofi Anan e varrer dos seus organismos todos os lóbis que esses interessas espúrios aí foram instalando paulatinamente. Só assim poderá cumprir o mínimo que lhe é exigível: denunciar os crimes contra o Planeta e os seus autores, colocando-se ao lado daqueles que lutam em defesa desse mesmo Planeta. Que também são alguns, embora com infinitamente menor influência, menos dinheiro e menos poder.

José Júlio Campos

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PREMONIÇÕES DE UM FILÓSOFO

O filósofo Agostinho da Silva, pouco antes de morrer, considerava a CEE uma “organização inútil, doente, que não se entende, que dificilmente resolve os seus problemas; a CEE encontra-se continuamente em desacordo consigo própria, pois trata-se de pequenas nações provincianas a tentarem agregar-se numa nação grande. A CEE não é a Europa, como se costuma erradamente dizer, mas apenas o departamento económico da Europa. Qualquer departamento económico deve ser sempre secundário, porque o que devemos ter é uma Europa cultural, onde a economia seja o sustento, mas nunca o objetivo”. (citado de “Conversas com Agostinho da Silva, de Vítor Mendanha, novembro de 1994)
Passados mais de 20 anos sobre estas avisadas e premonitórias declarações, enquanto os atuais líderes da União Europeia insistem teimosamente em desvirtuar os objetivos dos seus fundadores, adensa-se o pessimismo sobre o seu futuro. Multiplicam-se os sinais de que, a breve prazo, podemos assistir à derrocada de um projeto de globalização da economia europeia que descambou num mero instrumento de usurpação do poder democrático das nações. A UE não passa, hoje, de uma mera agência de negócios, controlada pelos lóbis de um restrito clube de magnatas donos do planeta. Paulatinamente, esses lóbis, ao serviço das multinacionais e do capitalismo financeiro, foram tecendo os mecanismos com que manietaram a soberania dos vários países, mediante a aprovação de tratados jamais submetidos ao debate e ao plebiscito por parte dos cidadãos.
A consciência desta fraude em que se tornou a UE manifesta-se nos ventos de euroceticismo que varrem a Europa de sul a norte e da esquerda à direita. O “brexit” é, apenas, a continuação dos sinais dados aquando das eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2014, em que os partidos eurocéticos foram dos mais votados em muitos países. Agora, para além do Reino Unido, poderá seguir-se a Itália, caso o primeiro ministro Matteo Renzi saia derrotado no referendo constitucional de 4 de dezembro face aos opositores favoráveis à saída do euro. Na França, as sondagens apontam a forte possibilidade de a declarada antieuropeísta da extrema direita, Marine Le Pen, vir a ser eleita presidente. Na Alemanha, a principal ameaça para Angela Merkel vem do partido Alternativa para a Alemanha, igualmente antieuropeu e de extrema direita. Aliás, não deixa de ser preocupante esta escalada da extrema direita populista em tantos países ocidentais: nos USA, com Trump, em Inglaterra, com Farage e o UKIP, na França, na Alemanha, na Itália, na Hungria, na Áustria, etc.
Curiosamente, enquanto os sinais de descontentamento proliferam na UE, os seus líderes preferem enterrar a cabeça na areia e prosseguir as políticas de austeridade que ameaçam o fim da Europa social do pós-guerra. Ao leme desta nau que caminha para o naufrágio, segue o intrépido ponta de lança dos “gangs” financeiros obscuros que tomaram de assalto o poder de Bruxelas, que dá pelo adequado nome de Wolf”gang” Schauble e que tem no currículo, além de três tiros por razões políticas que o colocaram numa cadeira de rodas, uma escandalosa mentira ao Parlamento Alemão sobre as suas negociatas com o lobista da indústria do armamento, Karlheinz Schreiber, que o afastou definitivamente do ansiado cargo de chanceler. É esta figura fantasmagórica que paira sobre os destinos da Europa, assombrando com requintes de malvadez os países mais fragilizados economicamente, como a Grécia e Portugal.
A União Europeia caiu nas mãos desta gente, acabando por dar razão aos “velhos do Restelo” do clube de Agostinho que, nos idos de 90, desconfiavam das intenções dos “grandes” da Europa e acreditavam que a nossa adesão à então CEE não passava de um engano monumental que haveríamos de pagar com língua de palmo!
Possivelmente estaremos perto de perceber se Agostinho da Silva tinha razão quando, questionado sobre se fazia sentido usar o conceito de nação na Europa e se esta era uma entidade em crise, respondeu: “Eu acho que a Europa é uma coisa que vai desaparecer!”.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

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QUO VADIS, USA?

Por estes dias os norte-americanos irão escolher o seu 45º presidente, no final de um processo de seleção de candidatos e de campanha eleitoral que se iniciou há um ano. Do escrutínio primário nos partidos sobraram o republicano Donald Trump e a democrata Hilary Clinton. Dois “anciãos” de 70 anos perfilam-se para suceder a um “jovem” de 55! Obviamente, este pormenor da idade é absolutamente irrelevante, face à questão da qualidade pessoal e política dos candidatos, esse sim, um problema maior, para mal dos (muitos!) pecados dos americanos, mas também dos outros povos, devido à influência que os States têm no planeta.
Hilary Clinton é a candidata do establishment. Está na política desde sempre, já foi primeira dama e é, atualmente, secretária de estado de Obama. À semelhança do partido que a propõe, segue uma linha neoliberal que, em termos de política económica não é, sequer, muito diferente da do partido republicano. Não surpreende que Clinton seja apoiada pela Goldman Sachs e pelos gurus do capitalismo financeiro americano e internacional. A ser eleita, não passará de mais uma marioneta nas mãos dos lóbis industriais e financeiros que decidem a economia e controlam a política mundial. No entanto, apesar desta submissão a interesses obscuros, apresenta-se com uma postura de estado, politicamente correta e capaz de um comportamento responsável na política internacional. Exatamente o oposto do seu adversário, nestes últimos aspetos.
Trump consegue plasmar na sua figura tudo o que de pior tem a cultura norte-americana: a arrogância balofa (fanfarronice), o desprezo pelo outro, sobretudo se forem mulheres (misoginia), gays (homofobia), ou negros (racismo) e um etnocentrismo exacerbado (xenofobia). As afirmações que lançaram este oportunista, nascido em berço dourado, para a ribalta política e o levaram a suplantar outros candidatos dentro do partido republicano são reveladoras de uma espécie de insanidade mental, cujo grau de perigosidade depende apenas da distância que vai entre a fantasia e a realidade, ou seja, da distância entre essas alarvidades e a sua concretização. Difícil de entender é o facto de quase metade dos eleitores estadunidenses (a crer nas sondagens) querer ter como presidente uma espécie de Hitler reencarnado no séc. XXI, agora com um poder militar incomparavelmente superior. Quererão os americanos alguém que declara guerra aos mexicanos: “os mexicanos trazem droga, trazem crime, são violadores. Se for eleito irei construir um muro na fronteira e farei o México pagar por isso”; alguém que declara guerra aos chineses: “é tempo de sermos mais duros com os chineses devido à manipulação da sua moeda e à espionagem. A China será taxada por cada mau passo e se eles continuarem vamos taxá-los ainda mais”; alguém que declara guerra aos muçulmanos: “defendo a suspensão total e completa da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, até que sejamos capazes de determinar e entender o perigo que eles representam”; alguém que declara guerra aos árabes: “só estou interessado na Líbia, se nós ficarmos com o petróleo. No Iraque, devemos capturar a reserva de petróleo deles e recuperar os nossos gastos na guerra”; alguém que declara guerra à inteligência e ao conhecimento: “o conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses, para que a indústria manufatureira americana não seja competitiva. Nova Iorque está congelada, está a nevar. Nós precisamos do aquecimento global!”? Quererão os americanos ter como presidente alguém que usou o esquema fraudulento de apresentar declarações de perdas de milhões de dólares nos seus negócios, para não pagar impostos durante vinte anos e ainda tem o descaramento de considerar que isso apenas mostra que ele é “smart” (esperto)? Quererão os americanos ter como presidente um tipo que se comporta com as mulheres como um carroceiro?
A questão é, pois, o que significa Trump para os norte-americanos. Será que quase metade deles se reveem nesta aberração que, se não estivesse com a possibilidade real de ocupar o cargo político mais importante do planeta, seria apenas uma anedota de mau gosto? Será que este produto adulterado do “american way of life” (estilo de vida americano) não transformará o “american dream” (sonho americano) num autêntico pesadelo? Será que o próximo episódio da história dos Estados Unidos da América não terá como título: “um louco na Casa Branca”?
Nas escolhas eleitorais dos americanos, nunca um mal menor parece ter sido tão necessário!


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

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