CARTA ABERTA
AO NOSSO PRIMEIRO …
Caro nosso
primeiro…
Primeiro que
tudo… quero agradecer-te por seres o nosso primeiro. Não é qualquer um que pode
gabar-se de ter um primeiro como tu. Peço desculpa por tratar-te por tu, mas
como temos mais ou menos a mesma idade… E depois, tu mesmo tiveste o cuidado de
descer ao nosso nível de simples mortais, quando reconheceste que não és
perfeito; daí…, como eu também não sou…, penso que não fica mal tratarmo-nos
por tu. Aliás, essa tua descida do Olimpo, onde te colocas quando dizes que não
és como os outros políticos, comoveu-me ao ponto de fazer brotar dentro de mim
um irreprimível desejo, qual enxurrada de incandescente lava, de te agradecer.
Perguntarás tu, do alto dessa tua mal disfarçada humildade: “agradecer,
porquê?” Pois está claro: agradecer por tudo quanto nos tens ensinado e pelos
belos exemplos que nos tens dado, não só aos portugueses, mas até aos europeus,
nossos irmãos (ou mestres, se forem alemães).
Tentarei,
pois, não me esquecer de nada. É que a minha memória, tal como a tua, também
não é muito famosa: esqueço-me muito das coisas, sobretudo quando não me dá
jeito nenhum lembrar-me delas; coisas simples e comezinhas, aliás, como pagar
as contribuições à segurança social, ou saber se durante vários anos recebi
cerca de cinco mil euros por mês de uma empresa qualquer sem os declarar às
finanças, ou pagar o IRS… Enfim, coisas que esquecem a qualquer um. Mas
adiante. Uma das virtudes que é teu apanágio, e das quais nos tens dado
eloquentes e grandiosas lições, é a solidariedade e a grandeza de espírito. Os
gregos que o digam! Aliás, essa tua magnanimidade ainda é mais digna de realce,
tratando-se eles de uns ingratos e de uns caloteiros. Sim. Como é que podem vir
dizer que tu e a tua amiga Maria Luís, cujas virtudes, diga-se, não ficam atrás
das tuas, (talvez um dia também lhe escreva a agradecer-lhas; ela merece!) tudo
fizeram para os prejudicar nas negociações deles com a troika? Toda a gente
sabe (pois se foste tu quem o disse) que tentaste, até, ajudá-los!… Portanto,
são todos uns aldrabões: o Tsipras, o Varoufakis, o jornal alemão Die Welt e
até o malandro do Juncker, vejam lá, que veio dizer que Portugal e a Espanha se
esforçaram ao máximo para fazer a folha aos gregos. Claro que eles não
perceberam foi o alcance da tua ajuda – o que tu queres, apenas, é que eles
deixem de ser piegas, parem de se lamentar por causa da desgraça a que os
condenaram e paguem o que devem. Ou seja, que se portem como homens a sério,
com pêlos no peito e tudo. E que se deixem de “brincadeiras de crianças”, como
tu apelidaste, com a prosápia que te caracteriza, as eleições que eles por lá
engendraram. É que já os portugueses que não gostam de ti (por incrível que
pareça ainda há gente dessa) também têm a mesma mania e sofrem do mesmo defeito
dos gregos; coisa que tu, aliás, nos primeiros tempos do teu reinado,
verberaste e muito bem, acusando-os de estarem sempre a queixar-se que têm de
pagar mais impostos, taxas e contribuições, que têm de trabalhar mais e ganhar
menos, que têm de emigrar porque cá não há emprego, sei lá; enfim, como lhes
chamaste, na altura, são uns piegas que não sabem o que custa a vida; uns
mariquinhas… Tivessem eles que se dedicar à política e ao partido a partir dos
15 anos e tivessem subido na vida à custa disso e dos “bons” empregos que isso
proporciona e já sabiam o que significa “subir a pulso”. Tivessem eles que ter
concorrido três vezes a líder do próprio partido até que os seus
correligionários, uns cegos, portanto, vissem, finalmente, a luz das suas impercetíveis
qualidades, e já aprendiam. Tivessem eles que ser administradores de várias
empresas, sem perceber nada do assunto, antes mesmo de concluírem uma simples
licenciatura, como aconteceu, contigo, coitado, que nunca tiveste tempo para te
dedicares aos estudos, por causa da política e dos tachos, perdão, dos cargos
que foste obrigado a desempenhar, e ainda por cima sem ganhar nada, como na Tecnoforma,
e depois já sabiam o que custa a vida. Mas não… Estes portuguesinhos estudam
enquanto podem e os paizinhos lhes pagam os cursos e, depois, andam feitos
burros à procura de emprego e de subir na vida por sua própria conta e risco,
sem terem um amigo chamado Ângelo Correia. Depois, claro: dão com os burrinhos
na água! Uns palermas! Ao menos emigrem. Seus piegas!
Peço
desculpa, Grande Líder! Estou a deixar-me levar pelas emoções e isso, para ti,
é coisa desprezível. Frieza, calculismo e uma folha excel é a tua receita como
lema de vida; por isso, fiquemos por aqui, quanto a este assunto.
Outro dos
grandes exemplos que nos deste foi o de nunca faltar à palavra dada. Aliás, nas
tuas veias não corre sangue, mas o puro soro da verdade! Dirão alguns
maldizentes que burlaste todas as tuas promessas eleitorais – não ias aumentar
os impostos, não ias reduzir os salários, era um disparate pensar que ias
cortar o subsídio de férias ou de natal, etc, etc, etc… Afinal, fizeste tudo
isso e muito mais terias feito se os incompetentes do Tribunal Constitucional
não te tivessem posto travão. Logo eles que não foram devidamente escrutinados,
pois deviam ter sido todos escolhidos por ti e não pelos partidos. O que esses
maldizentes não sabem é que tu foste levado a fazer essas promessas, não para
ganhar as eleições (“as eleições que se lixem”, não é?!) mas porque não fazias
a mínima ideia do país em que vivias. Assim como também não sabem que continuas
sem fazer a mínima ideia do país em que vives e, por isso, o problema não está
no que tu dizes, nem na tua apregoada relação difícil com a verdade. O problema
está, sim, na realidade que teima, sistematicamente, em desmentir o que tu
dizes. Mas que culpa tens tu disso? Afinal, que culpa tens tu se, quando dizes
que “este governo foi o que mais investiu na saúde” ou que “nós não queremos
nenhuma renegociação da dívida portuguesa porque a nossa dívida é sustentável”,
as pessoas se riem disso como se fosse uma anedota? Tu não tens culpa nenhuma
por a realidade não andar ao teu ritmo, desobedecer aos teus desígnios e não
corresponder aos teus desejos. Assim como não tens culpa nenhuma que todos te
tenham enganado acerca da situação no BES, (ai menino Carlinhos!), levando-te a
atirar uma série de bojardas que é melhor nem recordarmos! Aliás, nessa
matéria, é melhor seguires o exemplo do teu mestre Cavaco, de alcunha o
Pilatos, que simulou um ataque de amnésia, quando, em janeiro, alguns partidos
quiseram que ele respondesse por escrito a algumas questões, no âmbito do
inquérito parlamentar. A resposta dele foi, com aquele carão de máscara
carnavalesca: “eu nunca me pronunciei sobre o caso BES”. No teu caso, com a
vantagem de, sendo um jovem ao pé dele, nem sequer precisares de simular – toda
a gente sabe que sofres de amnésia profunda, crónica e congénita. É essa
horrível doença que faz com que, sendo tu um exemplar cumpridor de obrigações
civis, te esqueças de pagar as contribuições devidas à segurança social; ou te
esqueças de quanto auferiste ao serviço da Tecnoforma; ou te esqueças que
recebeste indevidamente o subsídio de reintegração quando deixaste de ser
deputado; e, eventualmente, doutras coisas. Coisas essas que estão no segredo
dos deuses ou das prescrições da lei e que só são recordadas por causa da
inveja de alguns e do gosto pela “chicana política” de outros, como tu dizes.
Mas eles que venham! Eles que venham! Não sabem com quem se metem!
Caro Líder,
no final de tudo isto, restam, ainda, duas ou três dúvidas que me intrigam, as
quais gostaria de ver por ti esclarecidas. Será que agora todos podemos alegar
desconhecimento da lei, ou apresentar um atestado médico de amnésia, para não
pagarmos ao Estado as contribuições ou os impostos? Ou isso é um privilégio
divino? E porque é que aquela viúva de Ílhavo, que viu ser-lhe penhorada a
humilde casa onde vive com três dos seus seis filhos e duas netas, por dever
menos de dois mil euros ao fisco, não pôde alegar que sofria de amnésia ou que
não sabia que tinha de pagar? Ou os outros mais de sessenta mil portugueses que
têm imóveis penhorados pelas finanças por razões semelhantes? Será verdade,
como dizem os teus adversários, (sim, parece que ainda há disso!) que quando se
trata da dívida de Portugal à troika já não sofres de amnésia, porque essa não
és tu que a pagas, mas sim os piegas dos portugueses? Ou será, como eu
desconfio, que isso tudo não passou de um golpe de génio? Sim… Eu explico. Cá
na minha, o teu calote faz parte de uma estratégia política mais vasta que visa
acabar com o estado social. Como exemplar neoliberal que és, iniciaste essa tão
desejada e necessária destruição do estado social, ainda antes de chegares ao
governo, começando, precisamente, por não pagares as contribuições à segurança
social, para depois poderes afirmar que ela não é sustentável. É que, se todos
fizermos como tu, ela não será mesmo sustentável e então já poderemos acabar
com ela e passar tudo para os privados, como tu desejas. Se foi esta a razão do
calote… é de génio, deixa-me que te diga! Ou, como diriam os italianos, “se non
è vero, è ben trovato”.
Cá fico,
Grande Líder, humildemente, à espera que me respondas.
Não te
esqueças!
José Júlio
Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt