CONTRA FACTOS …
A realidade dos
factos começa a dar razão aos “profetas da desgraça”. Quando, no início da
presente década, os partidos neoliberais começaram a tomar conta da maioria dos
países europeus e desataram a impor uma austeridade acéfala e castradora do
desenvolvimento económico como panaceia única e inevitável para a saída da
crise, perceberam as consciências mais críticas que, desta bizarrice, não viria
nada de bom para o cidadão comum. Poderia ser bom para os “mercados
financeiros”, nome pomposo atrás do qual se escondem os vigaristas da banca
internacional e as máfias financeiras dos vários tráficos (drogas, armas, sexo,
divisas, influências, etc.), mas previa-se desastroso para todos os que viram
melhorada a sua qualidade de vida e salvaguardados os seus direitos
fundamentais ao abrigo de um Estado social mais justo, mais equitativo e mais
solidário.
As reações aos
vaticínios desses “profetas” não se fizeram esperar. Os maniqueístas da
ideologia acusaram-nos de serem uma espécie de cigarras que mais não fazem do
que cantar e viver à custa dos que investem, trabalham e pagam impostos (as
pobres das formiguinhas!). Os idiotas, que, por ignorância ou estupidez
natural, não conseguem ver além da própria sombra, qualificaram essas previsões
de “alarmismo injustificado”. Os oportunistas (os espertos, para alguns
idiotas), porque lhes interessava, política e financeiramente, essa
austeridade, foram enchendo a cabeça do “povo cego”, argumentando, até à náusea,
que “não havia alternativas”, usando, para isso, a servil comunicação social.
Os invejosos, espécimen muitíssimo abundante no nosso território e disseminada
por todos os estratos sociais e profissionais, cujo raciocínio mais elaborado
que conseguem produzir é “quanto pior para os outros, melhor para mim”,
aplaudiram essas medidas de austeridade que, lidas à luz da sua inveja,
retiravam justamente “regalias injustas” a médicos, professores, enfermeiros,
militares e outros funcionários públicos medianamente remunerados. Curiosamente,
alguns destes invejosos são funcionários públicos que também acabaram por ser
vítimas dessas medidas, por eles aplaudidas quando pensavam que tocavam só aos
outros!
E, assim, ao longo
destes anos, sob o pretexto do “paga o que deves à troika, mesmo que morras à
fome!” e do “temos que empobrecer, porque andámos a viver acima das
possibilidades”, os “yes men” da matrona Merkel vêm cortando nas despesas do
Estado, não às cegas, como à vezes se diz, mas sabendo muito bem onde cortam.
Cortam, sistematicamente, nos orçamentos da Saúde, da Educação e da Segurança
Social; cortam, violentamente, nas reformas e nos salários de médicos,
professores, enfermeiros e outros funcionários públicos, levando muitos deles,
nomeadamente médicos, a mudar para o sector privado; não renovam contratos, ou
despedem mesmo, sem justa causa e em larga escala, docentes e enfermeiros que
se vêem obrigados a escolher entre emigrar ou procurar empregos que nada têm a
ver com a sua formação; cortam ou reduzem os mais diversos subsídios e ajudas,
seja a famílias carenciadas, a desempregados, a pessoas com deficiência, etc;
etc, etc. Em contrapartida, mediram “bem” os cortes nas “gorduras” do Estado,
nas parcerias público-privadas, nas rendas da energia, nas mordomias dos
detentores de cargos políticos, na adjudicação de serviços a privados, etc,
etc, onde esses cortes não passaram de uma gota de água para enganar papalvos.
Finalmente, chegamos
às consequências desta política, as quais começam a ser evidentes, dando razão
aos tais “profetas da desgraça”. O objetivo último e único de toda esta
austeridade é a privatização dos setores da saúde, da educação e da segurança
social que já está em curso. Entretanto, assistimos a situações dramáticas em
todos esses setores, causadas diretamente por essa política de cortes brutais.
Na área da saúde, por exemplo, assistimos a algo impensável há apenas meia
dúzia de anos: morrem pessoas, quase diariamente, nas urgências, por não serem
atendidas em tempo útil, devido à falta de médicos e enfermeiros. Perante isto,
o ministro da tutela vem dizer, hipocritamente, que é necessário investigar
para descobrir os eventuais responsáveis por essas mortes, enquanto admite, no
mesmo discurso, que a falta de médicos nos hospitais se deve às “medidas
abruptas” que foram tomadas e que, entre outras consequências, levaram à saída
de seiscentos médicos do SNS, só num ano. Se o ministro tivesse umas luzes de
latim, saberia que “medidas abruptas” não significa “à bruta” (!), embora fosse
igualmente mau, mas sim “abruptus”, “que leva a quebrar, a partir”. O que
significa, então, que os responsáveis por esta ruptura no SNS e nos Serviços de
Urgência são aqueles que patrocinaram e implementaram essas “medidas abruptas”,
ou seja, ele próprio e o seu chefe Passos. Por isso, em vez de perder tempo a
procurar mais responsáveis, devia assumir-se, de imediato, como responsável mor
e, no mínimo, demitir-se. Admito, contudo, que isso seria esperar demais desta
malta que prefere deixar-nos morrer nas urgências dos hospitais (ou à porta, lá
chegaremos), em vez de falhar com um cêntimo que seja aos sagrados juros
devidos à todo-poderosa mãe troika bendita que no céu está escrita, qual Santa
Bárbara dos trovões. Até porque, se essa malta do governo tivesse a consciência
marcada por valores ético-morais em vez de valores financeiros escritos numa
folha excel, não conseguiriam pregar olho. Ou será que conseguem dormir, apesar
dos mortos que lhes pesam na consciência?
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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