O LABIRINTO DA AUSTERIDADE
Eduardo
Lourenço escreveu uma obra sobre Portugal, absolutamente magnífica, intitulada
“O Labirinto da Saudade”. Os acontecimentos mais recentes mostram que atualmente
é a Europa que se encontra num labirinto, para o qual tem de encontrar uma
saída.
Sendo que o
mais cego é aquele que não quer ver, só alguém muito cego poderá pensar que a
Europa está de boa saúde e o risco de implosão está ultrapassado. A crise
económica “encomendada” por indeterminados interesses obscuros e despoletada
pelas fraudes e falências de Bernard Madof e do Lehman Brothers introduziu um
conjunto de mudanças que alteraram profundamente a vida dos europeus,
principalmente os dos países com economias mais frágeis. A principal dessas
mudanças foi a substituição de políticas de investimento, por uma rígida
política de austeridade. O início desta mudança ocorreu algures entre 2009 e
2010, sem que, para isso, tenha sido necessário mudar os detentores do poder na
Europa, Merkel e o Deustsche Bundesbank. Percebe-se, hoje, que, afinal, a pedra
na engrenagem que fez Merkel saltar alegremente do nenúfar do investimento para
o nenúfar da austeridade foi a sinistra figura da cadeira de rodas que está ao
leme das finanças alemãs e, por infeliz concomitância, também das europeias,
precisamente desde o ano de 2009. Misteriosa é a atração deste personagem pela
austeridade, apesar do seu luteranismo. Sendo evidente, hoje, para os
economistas mais conceituados, entre os quais não está Schauble, formado em Direito,
que a austeridade originou a degradação do estado social, o empobrecimento da
classe média, o aumento do desemprego, cortes brutais nos apoios sociais e
estagnação na economia, que vantagens poderão ser descortinadas em prosseguir,
teimosamente, esta política? Sem qualquer ponta de ironia que, neste caso,
seria de extremo mau gosto, ainda se estranha mais esta obsessão pela
austeridade, assumida por alguém que, por uma infelicidade na sua vida, tem uma
deficiência motora, e sabendo, como ele sabe, que as pessoas que sofrem dessa e
doutras deficiências estão entre as principais vítimas dos cortes provocados
pela austeridade; esperava-se, enfim, um ser mais solidário.
Talvez,
pois, tenhamos que nos colocar no outro lado da barricada, para percebermos essa
obsessão – o lado daqueles que apregoam as virtudes da austeridade,
nomeadamente no nosso país: a diminuição das taxas de juro nos mercados
financeiros e um maior equilíbrio na balança de pagamentos; o que é muito
pouco, convenhamos, quando constatamos que a dívida pública aumentou, o PIB
diminuiu, a relação entre a receita e a despesa continua muito instável e o
crescimento económico quase não descola do zero. Mas é aqui que pode estar o
segredo de Wolfgang Schauble: a sua relação com os mercados financeiros. Herr
Schauble tinha um sonho na vida que era o de ser chanceler alemão. E
provavelmente só não o foi porque, em 1999, mentiu ao Parlamento germânico
acerca de um donativo chorudo que o seu partido, a CDU, então de Kohl e hoje de
Merkel, recebera de um traficante de armas, Herr Karlheinz Schreiber. Ora, os
mercados financeiros são, em grande parte, o couto de indivíduos ligados aos
mais variados tráficos, utilizando-os para fazerem a lavagem do dinheiro sujo
internacional, emprestando-o aos estados e à banca. Juntando as pontas destes
factos, pode-se inferir que o sr. Schauble terá ligações, quiçá interesses,
próximos desses mercados financeiros e quererá “engordar” os agentes desses
mercados, levando os europeus, sobretudo os do sul, a viver na miséria,
sugando-lhes a pouca “riqueza” através das dívidas soberanas dos respetivos
Estados. Infelizmente, a História diz-nos que, dos alemães, não se pode esperar
nada de bom para a comunidade internacional; o nacionalismo alemão não acabou
com o fim do nazismo; aliás, este também não acabou.
Compreende-se,
pois, que os gregos, fartos do veneno teutónico, tenham compreendido a receita
que lhes está a ser servida e tenham substituído um governo de lacaios do sr. Schauble
por um governo que, finalmente, quer defender os interesses da Grécia. Também
se compreende que Schauble tenha reagido a esse facto com indisfarçável
azedume, mesmo com raiva, acusando os gregos de terem feito uma escolha
eleitoral irresponsável e mostrando-se extremamente incomodado por haver alguém
que pensa que os gregos têm direito a libertar-se da escravidão financeira,
imposta pelos alemães, pelo FMI e pelos tais mercados. Ele, e não os gregos, é
que sabe o que é melhor para os gregos! Afinal, na opinião dele, o anterior
governo até estava no bom caminho, continuando a afundar o buraco em que os
gregos estão metidos! Tudo isto se pode compreender!
O que não se
compreende são os motivos que levam o governo português a pôr-se ao lado dos
mercados e do sr. Schauble contra os gregos e, por arrastamento, contra os
portugueses que estão metidos num barco semelhante ao dos gregos e com um mar
igualmente agitado. Pior do que ridículo, foi extremamente lamentável e
vergonhoso ver a colegial Maria Luís, desempenhar o serviçal papel de boa aluna
de Schauble, pedindo-lhe “pessoalmente” para não ceder à Grécia e castigar o
“menino” Tsipras que se portou mal.
Assiste-se,
pois, a uma clivagem evidente entre os defensores e os adversários da
austeridade enquanto panaceia para a crise e caminho a seguir pela Europa. Os
adversários da austeridade entendem que ela é responsável pela degradação das
condições de vida, pelo agravamento das desigualdades entre os demasiado ricos
e os outros e até mesmo pela ameaça aos direitos humanos como refere o recente
relatório anual da Amnistia Internacional. Do outro lado da barricada, estão
pessoas como o sr. Durão, um dos principais responsáveis por esta perigosa
deriva da Europa, que afirmou, há dias: “dizer que a União Europeia está em decadência
é falta de visão histórica”, acusando os que o dizem de pertencerem ao “glamour
intelectual do pessimismo”. Já o deputado Luís Montenegro, com a mesma
desfaçatez, dizia: “os portugueses estão pior, mas Portugal está melhor!” Com o
aproximar das eleições, o governo, o sr. Cavaco e até o sr. Durão estão, já, em
plena campanha eleitoral, não perdendo uma oportunidade para propagandear a
tese de que nos encontramos, agora, no “melhor dos mundos possíveis”. Morrem
pessoas nas urgências dos hospitais, por causa da austeridade? Que importa?!
Estamos a cumprir os nossos compromissos com a troika. Aumenta a dívida pública
e não baixa significativamente o desemprego? Que importa?! Agora os mercados
financeiros confiam em nós. Estamos no “melhor dos mundos possíveis”! Curioso é
que a tese do “melhor dos mundos possíveis foi criada, no séc. XVIII, pelo
alemão Gottfried Leibniz. Será que o Schauble, a Maria Luís, o Pedro, o Paulo,
o sr. Silva e o próprio Durão, se inspiraram em Leibniz e elevaram a
austeridade ao papel de mónada? Farão eles parte, não do tal “glamour
intelectual do pessimismo”, mas sim da “boçalidade estúpida do otimismo”? É que
também estas duas atitudes se perfilam perante as alternativas do investimento
e da austeridade.
Há que
decidir entre os dois lados da barricada. Os gregos já o fizeram; os espanhóis
preparam-se para o fazer. Será que os portugueses também terão coragem para
vencer o medo infantil do papão e romper de vez com políticas e políticos que,
como disse recentemente o “insuspeito” Juncker, teimam em atentar contra a
dignidade destes povos? É que essa dignidade só será recuperada saindo deste
vexatório labirinto da austeridade em que nos colocaram.
José Júlio
Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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