sexta-feira, 6 de março de 2015

O LABIRINTO DA AUSTERIDADE

Eduardo Lourenço escreveu uma obra sobre Portugal, absolutamente magnífica, intitulada “O Labirinto da Saudade”. Os acontecimentos mais recentes mostram que atualmente é a Europa que se encontra num labirinto, para o qual tem de encontrar uma saída.
Sendo que o mais cego é aquele que não quer ver, só alguém muito cego poderá pensar que a Europa está de boa saúde e o risco de implosão está ultrapassado. A crise económica “encomendada” por indeterminados interesses obscuros e despoletada pelas fraudes e falências de Bernard Madof e do Lehman Brothers introduziu um conjunto de mudanças que alteraram profundamente a vida dos europeus, principalmente os dos países com economias mais frágeis. A principal dessas mudanças foi a substituição de políticas de investimento, por uma rígida política de austeridade. O início desta mudança ocorreu algures entre 2009 e 2010, sem que, para isso, tenha sido necessário mudar os detentores do poder na Europa, Merkel e o Deustsche Bundesbank. Percebe-se, hoje, que, afinal, a pedra na engrenagem que fez Merkel saltar alegremente do nenúfar do investimento para o nenúfar da austeridade foi a sinistra figura da cadeira de rodas que está ao leme das finanças alemãs e, por infeliz concomitância, também das europeias, precisamente desde o ano de 2009. Misteriosa é a atração deste personagem pela austeridade, apesar do seu luteranismo. Sendo evidente, hoje, para os economistas mais conceituados, entre os quais não está Schauble, formado em Direito, que a austeridade originou a degradação do estado social, o empobrecimento da classe média, o aumento do desemprego, cortes brutais nos apoios sociais e estagnação na economia, que vantagens poderão ser descortinadas em prosseguir, teimosamente, esta política? Sem qualquer ponta de ironia que, neste caso, seria de extremo mau gosto, ainda se estranha mais esta obsessão pela austeridade, assumida por alguém que, por uma infelicidade na sua vida, tem uma deficiência motora, e sabendo, como ele sabe, que as pessoas que sofrem dessa e doutras deficiências estão entre as principais vítimas dos cortes provocados pela austeridade; esperava-se, enfim, um ser mais solidário.
Talvez, pois, tenhamos que nos colocar no outro lado da barricada, para percebermos essa obsessão – o lado daqueles que apregoam as virtudes da austeridade, nomeadamente no nosso país: a diminuição das taxas de juro nos mercados financeiros e um maior equilíbrio na balança de pagamentos; o que é muito pouco, convenhamos, quando constatamos que a dívida pública aumentou, o PIB diminuiu, a relação entre a receita e a despesa continua muito instável e o crescimento económico quase não descola do zero. Mas é aqui que pode estar o segredo de Wolfgang Schauble: a sua relação com os mercados financeiros. Herr Schauble tinha um sonho na vida que era o de ser chanceler alemão. E provavelmente só não o foi porque, em 1999, mentiu ao Parlamento germânico acerca de um donativo chorudo que o seu partido, a CDU, então de Kohl e hoje de Merkel, recebera de um traficante de armas, Herr Karlheinz Schreiber. Ora, os mercados financeiros são, em grande parte, o couto de indivíduos ligados aos mais variados tráficos, utilizando-os para fazerem a lavagem do dinheiro sujo internacional, emprestando-o aos estados e à banca. Juntando as pontas destes factos, pode-se inferir que o sr. Schauble terá ligações, quiçá interesses, próximos desses mercados financeiros e quererá “engordar” os agentes desses mercados, levando os europeus, sobretudo os do sul, a viver na miséria, sugando-lhes a pouca “riqueza” através das dívidas soberanas dos respetivos Estados. Infelizmente, a História diz-nos que, dos alemães, não se pode esperar nada de bom para a comunidade internacional; o nacionalismo alemão não acabou com o fim do nazismo; aliás, este também não acabou.
Compreende-se, pois, que os gregos, fartos do veneno teutónico, tenham compreendido a receita que lhes está a ser servida e tenham substituído um governo de lacaios do sr. Schauble por um governo que, finalmente, quer defender os interesses da Grécia. Também se compreende que Schauble tenha reagido a esse facto com indisfarçável azedume, mesmo com raiva, acusando os gregos de terem feito uma escolha eleitoral irresponsável e mostrando-se extremamente incomodado por haver alguém que pensa que os gregos têm direito a libertar-se da escravidão financeira, imposta pelos alemães, pelo FMI e pelos tais mercados. Ele, e não os gregos, é que sabe o que é melhor para os gregos! Afinal, na opinião dele, o anterior governo até estava no bom caminho, continuando a afundar o buraco em que os gregos estão metidos! Tudo isto se pode compreender!
O que não se compreende são os motivos que levam o governo português a pôr-se ao lado dos mercados e do sr. Schauble contra os gregos e, por arrastamento, contra os portugueses que estão metidos num barco semelhante ao dos gregos e com um mar igualmente agitado. Pior do que ridículo, foi extremamente lamentável e vergonhoso ver a colegial Maria Luís, desempenhar o serviçal papel de boa aluna de Schauble, pedindo-lhe “pessoalmente” para não ceder à Grécia e castigar o “menino” Tsipras que se portou mal.
Assiste-se, pois, a uma clivagem evidente entre os defensores e os adversários da austeridade enquanto panaceia para a crise e caminho a seguir pela Europa. Os adversários da austeridade entendem que ela é responsável pela degradação das condições de vida, pelo agravamento das desigualdades entre os demasiado ricos e os outros e até mesmo pela ameaça aos direitos humanos como refere o recente relatório anual da Amnistia Internacional. Do outro lado da barricada, estão pessoas como o sr. Durão, um dos principais responsáveis por esta perigosa deriva da Europa, que afirmou, há dias: “dizer que a União Europeia está em decadência é falta de visão histórica”, acusando os que o dizem de pertencerem ao “glamour intelectual do pessimismo”. Já o deputado Luís Montenegro, com a mesma desfaçatez, dizia: “os portugueses estão pior, mas Portugal está melhor!” Com o aproximar das eleições, o governo, o sr. Cavaco e até o sr. Durão estão, já, em plena campanha eleitoral, não perdendo uma oportunidade para propagandear a tese de que nos encontramos, agora, no “melhor dos mundos possíveis”. Morrem pessoas nas urgências dos hospitais, por causa da austeridade? Que importa?! Estamos a cumprir os nossos compromissos com a troika. Aumenta a dívida pública e não baixa significativamente o desemprego? Que importa?! Agora os mercados financeiros confiam em nós. Estamos no “melhor dos mundos possíveis”! Curioso é que a tese do “melhor dos mundos possíveis foi criada, no séc. XVIII, pelo alemão Gottfried Leibniz. Será que o Schauble, a Maria Luís, o Pedro, o Paulo, o sr. Silva e o próprio Durão, se inspiraram em Leibniz e elevaram a austeridade ao papel de mónada? Farão eles parte, não do tal “glamour intelectual do pessimismo”, mas sim da “boçalidade estúpida do otimismo”? É que também estas duas atitudes se perfilam perante as alternativas do investimento e da austeridade.
Há que decidir entre os dois lados da barricada. Os gregos já o fizeram; os espanhóis preparam-se para o fazer. Será que os portugueses também terão coragem para vencer o medo infantil do papão e romper de vez com políticas e políticos que, como disse recentemente o “insuspeito” Juncker, teimam em atentar contra a dignidade destes povos? É que essa dignidade só será recuperada saindo deste vexatório labirinto da austeridade em que nos colocaram.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

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