O
PAPA FRANCISCO E O RETORNO ÀS ORIGENS DO CRISTIANISMO (II)
(continuação
da edição anterior)
A
encíclica Evangelii Gaudium inclui um capítulo dedicado à inclusão social dos
pobres. Nele, o Papa começa por afirmar: “Deriva
da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e
marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais
abandonados da sociedade”. E, no ponto 198, diz: “desejo uma Igreja pobre para os pobres”. Ou seja, em matéria de
doutrina social, Cristo e o Papa são de uma clareza cristalina: o lugar da
Igreja é ao lado dos pobres e dos marginalizados. Nesse sentido, a
solidariedade não é vista como um ato de caridade resultante da boa vontade,
tantas vezes hipócrita, de quem a pratica, mas como um ato de justiça social;
diz ele, no ponto 189: “A solidariedade é
uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o
destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A
posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a
servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a
decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde”. Também os chamados
direitos sociais, cuja consecução constitui a essência do estado social, hoje
tão atacado e destruído por quem tem o poder político e económico no nosso país
e na Europa em geral, merecem do Papa a seguinte reflexão, no ponto 192: “Não se fala apenas de garantir a comida ou
um digno «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização nos seus
múltiplos aspetos». Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e
especialmente trabalho porque, no trabalho livre, criativo, participativo e
solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário
justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso
comum”. No que respeita à forma como muitos destes problemas poderão ser
resolvidos, o Papa também aponta caminhos que, obviamente não vão no mesmo
sentidos daqueles que estão a ser trilhados na Europa e que visam, apenas,
aumentar as desigualdades gritantes já existentes. Diz ele no ponto 202: “Enquanto não forem radicalmente
solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos
mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da
desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo,
problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.” E no ponto 204:
“Não podemos mais confiar nas forças
cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais
do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões,
programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor
distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para
uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de
mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a
remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade
reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.” Aliás, e
no que respeita às questões da “produtividade”, como gostam de lhe chamar os
empresários de sucesso, e que tem sido o alibi para sonegar direitos aos
trabalhadores e aumentar a horda de desempregados e excluídos sociais, o Papa
deixa outra mensagem importante, no ponto 203: “A vocação de um empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe
interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir
verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens
deste mundo mais acessíveis a todos”. Como era bom que os mentores da
classe empresarial e os grandes educadores dos aprendizes de empresários como
os Belmiros, os Santos, os Amorins e aqueles que pensam como eles, em vez de se
limitarem a bater com a mão no peito ao domingo, tirassem uma horinha do seu
tempo para lerem, meditarem e passarem a agir de acordo com as sábias palavras
da Evangelii Gaudium. Seguramente, eles não ficariam mais pobres e os pobres
teriam muito a ganhar com isso. Também os políticos merecem a atenção do Santo
Padre, quando diz, no ponto 203: “Quantas
palavras se tornaram incómodas para este sistema! Incomoda que se fale de
ética, incomoda que se fale de solidariedade mundial, incomoda que se fale de
distribuição dos bens, incomoda que se fale de defender os postos de trabalho,
incomoda que se fale da dignidade dos fracos, incomoda que se fale de um Deus
que exige um compromisso em prol da justiça.” E no ponto 205 diz: “Rezo ao Senhor para que nos conceda mais
políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos
pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o
olhar e alarguem as suas perspetivas, procurando que haja trabalho digno,
instrução e cuidados de saúde para todos os cidadãos”. E, ainda, no ponto
57: “animo os peritos financeiros e os
governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da
antiguidade: «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los
e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”. Não
acreditando que a sra Merkel e outros governantes do norte da Europa estejam
habituados a seguir as orientações do Papa, também eles não perderiam nada se
fossem buscar alguma inspiração ao seu pensamento. Quanto aos nossos
governantes, desde os Passos e os Portas aos Cavacos, aos Motas, aos Macedos,
aos Limas, às Assunções, Cristas ou não, seria altamente aconselhável, tanto
para bem da nossa saúde financeira como biológica, que, em vez de perfilarem os
fatos domingueiros nos Jerónimos, para receberem D. Manuel Clemente diante das
câmaras mediáticas, dedicassem um pouco do tempo que falta para a saída da
troika, na sua intimidade, a ler e a meditar as palavras do Papa; e, porque
não, também as de D. Januário Torgal Ferreira. Aliás, é da mais elementar
justiça dizer que o Papa veio dar total razão a D. Januário. E que melhor pode
desejar um bispo do que ver-lhe ser dada razão, em toda a linha, pelo próprio
chefe supremo da Igreja?
Como
não são de esperar conversões numa seita que há muito vendeu a alma ao dinheiro
e à doutrina da exploração dos mais fracos, esperemos, pelo menos, que nunca
nos faltem pessoas como D. Januário, o Papa Francisco e outros como eles, com
coragem e lucidez para denunciar as malfeitorias desses lacaios do capitalismo
contemporâneo. E que a Igreja Católica siga as palavras do Papa e encete
decididamente o regresso às origens por que os pobres e os marginalizados tanto
anseiam.
José
Júlio Campos
(pensarnotempo.blogspot.com)