sexta-feira, 21 de março de 2014

AMOR, O MAR, TU E EU…



Quem me dera ter-te,                                               
Ouvir-te bater comigo,
Uma e outra vez …
Como as ondas na praia.
Sentir-te subir e arquear,
Cair, esmagadora, sobre mim,
Levantando-me, misturada, contigo …
E, depois, rolarmos para o infinito.
De novo voltarias ao teu seio,
De novo eu voltaria ao fundo,
Outra vez juntos no mesmo lugar.
Um namoro eterno
De contínuas idas e vindas:
Tu, onda que respiras e ruges,
Te arqueias e cais sobre mim;
Eu, areia que te sustenho,
Te recebo e me perco em ti.
E vivermos o momento sublime
Em que, depois da rebentação,
Onda e areia geram a espuma branca,
Levemente salpicada de castanho.
É o mar bravo no seu eterno movimento.
És tu e eu …


José Júlio Fonseca Campos



O PAPA FRANCISCO E O RETORNO ÀS ORIGENS DO CRISTIANISMO (II)

(continuação da edição anterior)
A encíclica Evangelii Gaudium inclui um capítulo dedicado à inclusão social dos pobres. Nele, o Papa começa por afirmar: “Deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade”. E, no ponto 198, diz: “desejo uma Igreja pobre para os pobres”. Ou seja, em matéria de doutrina social, Cristo e o Papa são de uma clareza cristalina: o lugar da Igreja é ao lado dos pobres e dos marginalizados. Nesse sentido, a solidariedade não é vista como um ato de caridade resultante da boa vontade, tantas vezes hipócrita, de quem a pratica, mas como um ato de justiça social; diz ele, no ponto 189: “A solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde”. Também os chamados direitos sociais, cuja consecução constitui a essência do estado social, hoje tão atacado e destruído por quem tem o poder político e económico no nosso país e na Europa em geral, merecem do Papa a seguinte reflexão, no ponto 192: “Não se fala apenas de garantir a comida ou um digno «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspetos». Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum”. No que respeita à forma como muitos destes problemas poderão ser resolvidos, o Papa também aponta caminhos que, obviamente não vão no mesmo sentidos daqueles que estão a ser trilhados na Europa e que visam, apenas, aumentar as desigualdades gritantes já existentes. Diz ele no ponto 202: “Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.” E no ponto 204: “Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.” Aliás, e no que respeita às questões da “produtividade”, como gostam de lhe chamar os empresários de sucesso, e que tem sido o alibi para sonegar direitos aos trabalhadores e aumentar a horda de desempregados e excluídos sociais, o Papa deixa outra mensagem importante, no ponto 203: “A vocação de um empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”. Como era bom que os mentores da classe empresarial e os grandes educadores dos aprendizes de empresários como os Belmiros, os Santos, os Amorins e aqueles que pensam como eles, em vez de se limitarem a bater com a mão no peito ao domingo, tirassem uma horinha do seu tempo para lerem, meditarem e passarem a agir de acordo com as sábias palavras da Evangelii Gaudium. Seguramente, eles não ficariam mais pobres e os pobres teriam muito a ganhar com isso. Também os políticos merecem a atenção do Santo Padre, quando diz, no ponto 203: “Quantas palavras se tornaram incómodas para este sistema! Incomoda que se fale de ética, incomoda que se fale de solidariedade mundial, incomoda que se fale de distribuição dos bens, incomoda que se fale de defender os postos de trabalho, incomoda que se fale da dignidade dos fracos, incomoda que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça.” E no ponto 205 diz: “Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspetivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados de saúde para todos os cidadãos”. E, ainda, no ponto 57: “animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”. Não acreditando que a sra Merkel e outros governantes do norte da Europa estejam habituados a seguir as orientações do Papa, também eles não perderiam nada se fossem buscar alguma inspiração ao seu pensamento. Quanto aos nossos governantes, desde os Passos e os Portas aos Cavacos, aos Motas, aos Macedos, aos Limas, às Assunções, Cristas ou não, seria altamente aconselhável, tanto para bem da nossa saúde financeira como biológica, que, em vez de perfilarem os fatos domingueiros nos Jerónimos, para receberem D. Manuel Clemente diante das câmaras mediáticas, dedicassem um pouco do tempo que falta para a saída da troika, na sua intimidade, a ler e a meditar as palavras do Papa; e, porque não, também as de D. Januário Torgal Ferreira. Aliás, é da mais elementar justiça dizer que o Papa veio dar total razão a D. Januário. E que melhor pode desejar um bispo do que ver-lhe ser dada razão, em toda a linha, pelo próprio chefe supremo da Igreja?
Como não são de esperar conversões numa seita que há muito vendeu a alma ao dinheiro e à doutrina da exploração dos mais fracos, esperemos, pelo menos, que nunca nos faltem pessoas como D. Januário, o Papa Francisco e outros como eles, com coragem e lucidez para denunciar as malfeitorias desses lacaios do capitalismo contemporâneo. E que a Igreja Católica siga as palavras do Papa e encete decididamente o regresso às origens por que os pobres e os marginalizados tanto anseiam.


José Júlio Campos

(pensarnotempo.blogspot.com)
O PAPA FRANCISCO E O RETORNO ÀS ORIGENS DO CRISTIANISMO (I)

No próximo dia treze de março, passará um ano sobre a eleição do Papa Francisco. Ao longo deste ano, tornou-se por demais evidente que estamos perante uma forma totalmente nova de seguir à frente dos caminhos da Igreja Católica. Humildade, simplicidade e proximidade são a sua imagem de marca. No entanto, na minha modesta opinião, mais relevante do que a simpatia que irradia e a afabilidade com que acolhe e se dirige a todos, é a “revolução tranquila” que está a implementar na Igreja. Essa “revolução” consiste “tão somente” em promover um retorno às origens por parte da Igreja Católica, nomeadamente por parte dos seus responsáveis eclesiásticos, constituindo-se, ele próprio, como o primeiro exemplo desse retorno. Constata-se facilmente tal desiderato tanto na sua prática quotidiana como, essencialmente, nas orientações doutrinárias que tem emanado ao longo deste ano.
Nesse sentido é incontornável o documento máximo doutrinário que facultou aos católicos, recentemente, a encíclica intitulada Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). Trata-se de um documento importante por várias razões, a começar pela clareza e profundidade com que analisa o mundo atual e pela honestidade e sabedoria com que exorta a Igreja a dar respostas adequadas aos problemas diagnosticados. De entre os vários temas abordados, sobressai a forma livre e desassombrada com que trata as questões económicas e sociais do mundo contemporâneo. Os fenómenos da pobreza e das desigualdades sociais, assim como os direitos humanos e a solidariedade mereceram do Papa uma reflexão plena de lucidez filosófica e religiosa, consubstanciada em propostas retiradas do mais puro espírito cristão e evangélico. É nestes aspetos que o retorno às origens do cristianismo e à essência da mensagem dos apóstolos contida nos Evangelhos se torna totalmente evidente. Se é certo que Cristo veio para salvar todos, também não o é menos que os fracos, os pobres, os infelizes, os desprotegidos da sorte e da fortuna e os próprios pecadores mereceram sempre uma atenção privilegiada. A mensagem do Evangelho é bem clara no que respeita à simpatia de Jesus Cristo relativamente a esta espécie de “luta de classes” entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos, como o provam a passagem das bem-aventuranças ou a célebre frase de Cristo: “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Acontece que, ao longo dos tempos, a Igreja Católica, nomeadamente na esfera superior da sua hierarquia, nem sempre esteve à altura dessa mensagem, deixando-se contaminar pelos cantos de sereia da riqueza, do poder e até da opulência. O Papa Francisco, tanto na sua prática como nesta encíclica, dá uma indicação clara à sua Igreja de que é preciso voltar à pureza original dos ensinamentos de Cristo, ultrapassando os séculos mais recentes em que, às vezes, se afastou deles.
Para percebermos claramente o alcance desta exortação doutrinária do Papa, nada melhor do que fazer uma abordagem da referida encíclica, transcrevendo e comentando algumas das suas ideias sobre o mundo atual. Desde logo, é de salientar a forma corajosa como condena determinado tipo de ideologias que hoje são dominantes no mundo, e na Europa em particular. Diz ele no ponto 53: “devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco”. E continua, no ponto 54: “alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante”. Mas a denúncia do neo-liberalismo, que domina a Europa em geral, sob as ordens da sra Merkel, servida por acólitos como o sr Passos e o sr Portas, não se fica por aqui. Escreve ele no ponto 56: “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respetivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais”. É exactamente isto que está a acontecer, como o prova um relatório apresentado recentemente no Forum Económico de Davos, segundo o qual, oitenta e cinco pessoas detêm metade da riqueza mundial.
O Papa Francisco aponta, ainda, a corrupção como causa de grande parte dos problemas económicos e não os supostos desvarios dos países e das pessoas mais pobres, como muitos “iluminados” nos querem fazer crer. Diz ele no ponto 60: “Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa «educação» que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos veem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes”. E, no ponto 190, repete: “o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente”.
(continua na próxima edição)


José Júlio Campos

(pensarnotempo.blogspot.com)