sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PADRE FONSECA: INICIATIVA E VISÃO AO SERVIÇO DO OUTRO

O sr. Padre Fonseca foi, a todos os títulos, um homem extraordinário, sem dúvida uma das figuras determinantes na história de Aguiar da Beira. Tive o privilégio de trabalhar e conviver com ele nos últimos anos da sua vida.
A nível pessoal, o padre Fonseca era de uma grande afabilidade para com todos. A simpatia e o permanente sorriso nos lábios eram a sua imagem de marca. Mas o seu sorriso significava mais do que mera simpatia – ele era, também, um sinal da bondosa ironia com que interpretava pessoas e acontecimentos, a partir da sua experiência de vida e perspicácia, algo que ficou indelevelmente marcado nas crónicas por ele escritas, regularmente, no jornal “Defesa da Aldeia” e, sugestivamente, intituladas de “Sorridendo”. Sendo um grande orador no serviço eclesiástico, não era, no trato diário, uma pessoa de grandes discursos, ou de dialéticas intermináveis; no entanto, as suas pensadas e sensatas palavras, quase sempre certeiras, simples e plenas de significado, eram sinal evidente de uma inteligência social muito acima da média. Para além dessa afabilidade e dessa ironia, a simplicidade era outra das suas muitas virtudes; tinha hábitos de vida muito frugais, desprezando completamente todo o tipo de luxos, extravagâncias ou ostentações. Um velhinho “carocha” foi o carro que o transportou até aos últimos dias da sua vida, apesar de inúmeras vezes ter sido incentivado e aliciado para adquirir mais moderna viatura.
Penso que era nesta vida regrada e sóbria que o sr. Padre Fonseca ia buscar a força que o levou, também, a ser um homem de grandes iniciativas. Aquelas que tiveram mais visibilidade e marcaram a vida dos aguiarenses foram, sem dúvida, o projeto de auto-construção e a criação do colégio de Aguiar da Beira. A auto-construção, sendo totalmente pioneira, permitiu a muitos jovens casais construir a sua própria habitação a partir do seu trabalho nos tempos livres e dos materiais que o padre Fonseca ia angariando. O colégio, Externato de Aguiar da Beira, contribuiu para colocar o concelho no reduzido mapa do ensino pré-liceal no interior do país e para alargar a possibilidade de frequência desse ensino a muitos jovens que, sem ele, nunca teriam ido além da antiga 4ª classe. E mesmo quando os ventos do progresso impuseram a criação de escolas públicas, a Preparatória, primeiro, e a Secundária, mais tarde, não só nunca se opôs, como alguns maldosamente quiseram fazer crer, mas, pelo contrário, contribuiu decisivamente para que essas escolas fossem uma realidade: foi ele que alugou uma parte do seu colégio para que funcionasse a Escola Preparatória e, mais tarde, foi ele que doou os terrenos para a construção da atual sede do Agrupamento de Escolas. Ninguém fez mais pelo ensino, em Aguiar da Beira, do que ele.
A sua generosidade levou-o, ainda, a doar terrenos ao município para que pudessem ser construídas habitações tendo, dessa forma, ajudado muitos outros aguiarenses. As suas inúmeras iniciativas, impossíveis de descrever neste simples testemunho, foram sempre apontadas ao progresso e ao desenvolvimento de Aguiar da Beira.
Sei que levou, com ele, alguns sonhos por concretizar, nomeadamente a construção de um grande e digno Santuário em honra de Nossa Senhora da Estrada, que ele tanto venerava, e a implementação de uma escola profissional que pudesse oferecer aos jovens outras possibilidades de formação; além destes sonhos, que a partida algo inesperada não lhe permitiu concretizar, o sr. Padre Fonseca tinha, também, em mente, avançar com um projeto de reflorestação do concelho.
Por tudo isto e muito mais, o padre José Augusto da Fonseca foi, sem dúvida, um homem de iniciativas, de obras e de sonhos. Um pioneiro, um empreendedor e um visionário. Foi para homens da sua estirpe que Fernando Pessoa escreveu o tão conhecido e citado verso “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

José Júlio Campos

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PREVISÕES ESTAPAFÚRDIAS

A economia não é uma ciência oculta. Aliás, como muitas ciências humanas, tem mesmo alguns pontos de contacto com o saber do senso comum. Daí haver nela aspetos cuja compreensão está ao alcance de qualquer inteligência mediana, ainda que pouco familiarizada com as suas teorias mais elaboradas e complexas.
Acabou de ser aprovada no Parlamento, com a maior contestação de que há memória, a lei fundamental para a regulação da vida económica do nosso país, no que respeita ao próximo ano – o Orçamento de Estado. Maugrado o manifesto incómodo de uma maioria de deputados acéfalos e caninamente fiéis ao governo, o referido documento foi aprovado na totalidade, conforme exigido pelos seus autores. Isto, apesar de todos concordarem que este Orçamento vai agravar a recessão económica em que o país caiu, apesar de ter sido apelidado de “assalto fiscal” por elementos afetos ao partido maioritário, apesar de o partido muleta da coligação ter, agora, que engolir um sapo do tamanho do populismo do discurso do seu líder. Nada, no entanto, que possa considerar-se fora do normal, num país onde a democracia é uma palavra vã e se esgota no dia das eleições. Efetivamente, o sistema parlamentar vigente, em que os deputados estão à ordem dos partidos e não representam senão a vontade dos seus líderes, transformou a democracia numa ditadura das maiorias, sejam elas reais, ou oportunisticamente forjadas. Foi, assim, possível aprovar um OE baseado num conjunto de mentiras, presumo que deliberadas por tão evidentes, no que respeita às previsões relativas aos principais indicadores do cenário macroeconómico em que se sustenta; referirei, apenas, a título de exemplo, algumas dessas falsidades óbvias, a partir dos dados fornecidos pelo Ministério das Finanças. Prevê o governo que o consumo privado aumente de -5,9 em 2012, para -2,2 em 2013; como é possível fazer uma tal previsão quando o Orçamento assenta numa redução brutal do poder de compra de toda a população trabalhadora ou pensionista? Prevê o governo que o investimento aumente de -14,1 em 2012, para -4,2 em 2013; como é possível tal previsão face à falta de apoio da banca e à completa exaustão do mercado interno? Prevê o governo que a procura interna aumente de -7,1 em 2012, para -2,9 em 2013; como é isso possível se o Orçamento se baseia no corte de salários e pensões e num aumento inaudito de impostos? Prevê o governo, pasme-se, que o PIB aumentará de -3,0 em 2012, para -1,0 em 2013; como é possível tal previsão quando a mesma é desmentida por todas as instituições financeiras, nacionais e internacionais? Estas e outras previsões claramente delirantes em que se baseia o OE para 2013 só podem ter como consequência o mesmo que aconteceu com o OE de 2012, em que as previsões se revelaram completamente falhadas, tanto relativamente à despesa, como à receita; nesta, então, foi o descalabro total, com uma previsão do aumento de receitas do IVA em 12% face a 2011 a concretizar-se 14% abaixo dessa previsão; mas também a meta do défice, estimado para 4,5%, vai ser, seguramente, superior a 6%.
Dir-me-ão que há muitos imprevistos e contingências na economia que fazem falhar as previsões. Concordo. Mas também se concordará que apresentar as previsões que referi, com base nos dados existentes, só pode ser um exercício de má-fé política para sustentar desígnios obscuros e interesses financeiros que não são os nossos, mas sim os dos nossos credores; com este OE, o governo de Portugal mostra, claramente, que não está ao serviço dos interesses dos portugueses, mas antes dos agiotas da banca alemã e internacional. Só assim se explica que a troika iluminada da sumidade Coelho, da raridade Gaspar e da autoridade Borges, faça assentar as linhas orientadoras da economia do país num conjunto de previsões macroeconómicas que qualquer aluno do ensino secundário classificará, sem grande esforço mental, como totalmente estapafúrdias. E se, como infelizmente tem vindo a acontecer, alguns continuarem a ter razão antes do tempo lha confirmar, para o ano, por esta altura, cá estaremos a assistir ao falhanço das previsões do governo para o ano de 2013 e à aprovação de um OE para 2014 ainda mais destruidor da economia nacional e da vida dos portugueses.
O Orçamento de Estado agora aprovado é, pois, mais um passo do Dr. Coelho para atingir o tão propalado empobrecimento dos portugueses e a, por ele, tão desejada re(a)fundação do estado social.



José Júlio Campos

terça-feira, 23 de outubro de 2012

AGUIAR DA BEIRA, 1987

Passou um quarto de século desde que cheguei a Aguiar da Beira para dar continuidade a uma carreira que tinha iniciado, poucos meses antes, em Lisboa, na Escola Secundária de Linda-a-Velha. O saudoso Padre Fonseca tinha-me proporcionado a possibilidade de ocupar o lugar que ficara vago no meu grupo e, em Outubro de 1987, comecei a leccionar no antigo Externato de Aguiar da Beira até ao seu encerramento, meia dúzia de anos depois. Desses seis anos em que permaneci no Colégio ficou, para sempre, a lembrança de um ambiente familiar entre os poucos docentes que asseguravam as atividades letivas. Criei, então, algumas amizades, daquelas que perduram para toda a vida. Recordo, com especial saudade, aquele que foi o obreiro do ensino pós primário em Aguiar da Beira, o Reverendo Padre Fonseca. Com ele fiz o meu “estágio” e aprendi muito daquilo que a Universidade não me tinha ensinado, para ser professor; o lema que ele fazia questão de pôr em prática e que tentava incutir a todos os docentes era “liberdade, com responsabilidade”. Creio ter percebido este princípio e nele me tenho inspirado, ao longo dos anos, na minha função de educador; efetivamente, para além de transmitir um conjunto de saberes e competências que deverão ser úteis na vida ativa, a escola tem, também, a iniludível tarefa de se associar à família na educação e formação de cidadãos autónomos, responsáveis e participativos. Com ele aprendi, também, a gostar de Aguiar da Beira; conheci poucas pessoas que gostassem tanto de Aguiar como ele. Lembro-me que, quando lhe confidenciava a minha intenção de regressar a Lisboa, assumia aquele seu ar simultaneamente sério e prazenteiro e dizia convictamente: “Lisboa? Ó meu caro amigo, aqui é que há qualidade de vida, aqui é que há qualidade de vida!” Tinha razão, como sempre, o Sr. Padre Fonseca. De tal maneira que por cá fui ficando, e sem qualquer espécie de arrependimento; casei, nasceram-me os filhos e só dezassete anos depois, por razões profissionais, acabei por mudar de residência para um concelho vizinho. Mas continuo a sentir-me um aguiarense.
Em 1987, Aguiar da Beira era, fisicamente, bastante diferente; seria fastidioso enumerar todos os bairros, ruas e construções novas que, ao longo destes 25 anos, transformaram a sua face. Hoje, Aguiar da Beira é uma vila bastante maior, mais composta e dotada de infra-estruturas modernas e atrativas. Mas a alma duma terra não é apenas o seu aspeto físico – é, também, a sua “geografia sentimental” e humana, para usar uma expressão do nosso grande vizinho Aquilino. Essa “geografia” alimenta-se nos convívios diários que ocorrem nos seus espaços públicos e nas tradições que se vão alicerçando em práticas ancestrais, consolidando uma cultura peculiar feita de expressões, hábitos, gostos, referências, histórias … que fazem a identidade de um povo. Existem em todas as comunidades ligações umbilicais entre essa identidade e determinados locais privilegiados de interação; um desses locais que, em Aguiar da Beira, a modernização fez desaparecer foi o antigo “Café das Bombas”. Os elementos ideológicos da cultura de uma comunidade estão de tal maneira enraizados nos espaços físicos em que se desenvolvem que o desaparecimento ou modificação destes acarreta, lenta, mas inexoravelmente, a transformação ou desaparecimento daqueles; essa é uma inevitabilidade inerente ao progresso de qualquer comunidade. Importa que as novas gerações saibam integrar as transformações físicas e culturais em que vão participando, salvaguardando sempre aquela essência, aquele proprium de identidade, específico de uma comunidade, que deve constituir-se como um dos elementos estruturantes da personalidade de cada indivíduo. Para isso é absolutamente imprescindível o papel das gerações mais velhas, no sentido de transmitir e perpetuar os elementos que constituem essa herança cultural. A alma de um povo é a sua memória.
Parece-me que os aguiarenses têm sabido preservar essa identidade cultural, apesar de todas as mudanças ocorridas ao longo deste quarto de século.

PS – Em Janeiro de 2013, completar-se-ão 20 anos sobre o falecimento do Padre José Augusto da Fonseca. Para quando a elaboração de uma Biografia daquele que foi a maior figura da história de Aguiar da Beira no século XX? À atenção da Câmara Municipal, da Paróquia de Aguiar da Beira e da sua família.


José Júlio Campos 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

UM ANO E MEIO DEPOIS…

Um ano e meio de governação parece ter sido suficiente para que a generalidade da população tenha entendido as reais intenções dos partidos da coligação. Obviamente só ainda não entendeu quem não quer, quem não tem interesse nisso, ou quem é incapaz de pensar pela própria cabeça limitando-se a repetir estribilhos simplistas como “ temos de pagar os desvarios dos outros”. Durante mais de um ano, o pessoal foi andando mais ou menos iludido entre o refrão do “custe o que custar”, numa espécie de demanda da honra perdida, e a ridícula subserviência à fraulein Merkel, perante quem os nossos governantes se derretem como alunos bem comportados e delatores que fazem mais trabalhos de casa do que lhes é pedido e estão sempre disponíveis para acusar os infratores ou os menos bem comportados, neste caso, os gregos. Parecia a alguns governantes e seus fiéis acólitos da liturgia mediática que os elogios da troika (ou tríade?) e da líder do país que elegeu Hitler eram a garantia de que tudo por cá corria como previsto pelo governo e estávamos a caminho do fim da crise, com a restauração da independência nacional a ser possível lá para daqui a um ano, quando poderíamos voltar aos mercados financeiros sem ser pela mão da troika. Afinal, esses elogios revelaram-se apenas como gorjeios de satisfação da parte de agiotas que se comprazem em ver os seus exorbitantes juros pagos religiosamente ainda que à custa do empobrecimento e miserabilização dos devedores. Dizia Passos Coelho, há um ano atrás, que “só vamos sair da crise empobrecendo”. Pelos vistos não mudou de ideias e a insistência no “custe o que custar” está sobretudo a contribuir para esse empobrecimento do país que nos limitará durante muitos anos a pagar juros (são quase dez mil milhões de euros por ano) e a contrair mais dívida para pagar os juros sem nunca nos libertarmos deste círculo vicioso para gáudio dos tais credores agiotas da troika ou doutras máfias. Empobrecimento esse que continuará, como agora se mostra claro, à custa do esbulho do trabalhador contribuinte e não dos tão candidamente prometidos emagrecimento do estado, diminuição das escandalosas rendas pagas nas PPP’s e racionalização de gastos com assessores, viaturas e outras mordomias; aliás, nestas matérias, para usar um termo tão do agrado de certos deputados da maioria para se referirem ao governo anterior, continua o regabofe. Curiosamente, no final do verão, no Pontal, à porta fechada, Passos Coelho regozijava-se: “no que é importante, não falhámos: nem no défice, nem na dívida”; e ia mais longe ao afirmar que a recuperação económica começaria já em 2013. O problema é que, poucos dias depois, a realidade e o 5º exame da troika foram madrastas para Passos Coelho: afinal, para além daquilo que a realidade já o tinha obrigado a reconhecer – o agravamento da recessão e os recordes sucessivos nas taxas de desemprego – também as metas do défice estavam fora de controlo, devido a um “desvio colossal” (!) de dois mil milhões de euros entre as receitas reais e as previstas pelo governo. Como consequência imediata, a impossibilidade de cumprir o acordado com a troika e a necessidade de prolongar o programa para 2014, obrigando ainda a mais austeridade para 2013. Vai daí, mais uma invenção do trio Gaspar-Passos-Borges – aumentar em 7% a contribuição dos trabalhadores para a segurança social e reduzir, proporcionalmente, esse encargo aos empregadores. O problema é que perante esta alarvidade não foi só a muda realidade a opor-se – foi toda a cabeça pensante e falante deste país, incluindo os próprios beneficiários da medida, que, seguramente, fizeram Passos Coelho sentir-se o protagonista daquela anedota em que um amigo telefona a outro e diz: “Oh, pá! Vais na auto-estrada? Olha que ouvi dizer nas notícias que vai um condutor em contramão!”; ao que o outro responde: “Eh, pá! Só um? Vêm todos!...”
É este conflito permanente com a mais prosaica realidade, por parte do governo, que faz temer o pior para o nosso país. Afinal, os gregos podem não ser os únicos entalados da Europa. As manifestações de 15 de Setembro são um (bom) prenúncio de que a paciência dos portugueses (tão do agrado do primeiro-ministro) também tem limites como a dos gregos. E, até ver, tiveram o efeito perverso de levar o governo a corrigir o tiro, embora sem alterar o alvo – em vez de esbulhar o trabalhador através da TSU, vai fazê-lo através do aumento do IRS; ou seja, as vítimas continuam a ser as mesmas e os efeitos previsíveis igualmente recessivos e destruidores da classe média.
A História está repleta de governantes, que teimam em ignorar a realidade e avançam temerosamente “de vitória em vitória até à derrota final”, como Sadam Hussein que proclamava vitória com os americanos já dentro de Bagdad! Esperemos que Passos Coelho não esteja firmemente decidido a engrossar esse lote de teimosos, ou cegos com poder, que conduzem o seu povo por virtuais caminhos frondosos até o fazer despenhar no mais fundo precipício.


José Júlio Campos

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O POVO DORME E A SAGA CONTINUA…

Aproveitando-se deste período mais quente do ano, em que o cidadão comum tende a exorcizar os problemas diários com uns dias de férias e de festas, os nossos governantes continuam, paulatina e metodicamente, à socapa e à sorrelfa, a implementar as medidas que lhes permitirão alcançar o escopo final do neo-liberalismo que os norteia e que consiste no desmantelamento do estado social de direito e na sua substituição pelo estado negocial selvagem. Perguntar-se-á: “com que finalidade?”. A resposta é óbvia para quem estiver minimamente atento e informado: “para fazer com que aquela percentagem de riqueza que, durante o período de consolidação do estado social, transitou das bolsas recheadas do capitalista avarento para as mãos carenciadas do pobre e do remediado retorne novamente ao doce aconchego dos cofres milionários”. Desiluda-se, pois, quem alguma vez acreditou que a figura típica do avarento aceitaria de bom grado perder uma só das suas moedas. Primeiro, através das off-shores que lhe permitiram fugir ao confisco do estado e, agora, acrescentando-lhe a política neo-liberal dos governos europeus que ele manobra na sombra sob a máscara dos mercados financeiros, está a recuperar da boca dos famintos a migalha que lhe caiu da lauta mesa.
Alguma dessa estratégia neo-liberal passa por transferir os serviços da saúde e da educação para as mãos dos privados. Trata-se de uma tarefa árdua por serem áreas de excelência do estado social, cujos benefícios para o cidadão são incalculáveis e cuja perda representará o despojamento total da sua dignidade e dos seus direitos. Daí que o governo esteja a tentar fazer essa transferência com o menor ruído possível, à socapa e à sorrelfa, como já dissemos atrás. Infelizmente parece que o povo português, embalado que anda em discursos populistas reiterados por comentadores escolhidos a dedo e sempre da mesma facção política, só perceberá o alcance dessa perda tarde de mais, quando atingirmos o ponto de não retorno.
A estratégia para proceder a esse assalto a novas áreas de obtenção de riqueza, passa, essencialmente, por três etapas:
1ª – intoxicação da opinião pública relativamente aos gastos do estado nessas áreas fazendo-nos crer que gastamos mais do que podemos. Escapar a este argumento demagógico implica perceber que as áreas prioritárias de investimento, numa sociedade que se quer e se diz civilizada, devem ser precisamente a saúde e a educação; o que é necessário é haver controlo político e judicial para evitar o desperdício, a gestão danosa e a corrupção administrativa que se tornam um sorvedouro inútil da riqueza pública. O que aconteceu em Portugal foi esse desvario sem controlo como são exemplo as parcerias público-privadas nos hospitais ou as obras da Parque Escolar; mas esse desvario não é inevitável nem é da responsabilidade do estado – tem, isso sim, que ser assacado aos governantes que gerem a res publica, “coisa pública”, duma forma incompetente e impune, quiçá com a má-fé do proveito próprio ou da criação de condições objetivas para facilitar o seu desmantelamento.
2ª – destruição dessas áreas através da redução gradual e cínica do investimento e da qualidade dos serviços prestados; é nesta fase que nos encontramos atualmente. Os cortes cegos na saúde e episódios como a subcontratação de enfermeiros por empresas privadas têm o chamado efeito de um elefante numa loja de porcelanas no que respeita às intenções do governo nesta área. Na educação, o processo é mais sub-reptício, mas, também, aparentemente menos polémico por ser menos “doloroso”; no entanto, a evidência de mais uns milhares de professores desempregados no início deste ano letivo, (alguns deles com 10, 15 ou mais anos de serviço) resulta imediatamente de diplomas legais publicados no final do ano letivo passado, quando as escolas já estavam vazias de docentes e que, talvez mais por estratégia do que por vergonha, nem sequer eram publicitados no site do Ministério. Medidas como o aumento do número de alunos por turma, a redução de horas em algumas disciplinas, a redução de tempos destinados a apoios pedagógicos e ao desempenho de cargos, a morte anunciada e iniciada dos CEF e dos Cursos Profissionais vão contribuir, inevitavelmente, para aumentar o desemprego e para reduzir a qualidade do ensino e da formação prestada aos alunos por mais que o ar seráfico do ministro da tutela nos queira convencer do contrário. Aliás, aquilo que torna estes lacaios do neo-liberalismo mais insuportáveis é a permanente desconsideração que fazem à nossa inteligência através do recurso sistemático a uma argumentação ilusionista que não resiste à mais elementar hermenêutica dos factos.
3ª – entregar à iniciativa privada a prestação generalizada destes serviços reservando ao estado um papel meramente assistencialista. Quando não restar “pedra sobre pedra” do Serviço Nacional de Saúde e da educação pública, a obtenção destes serviços com qualidade equiparável àquela de que usufruímos num passado recente só é possível no setor privado e mediante o seu pagamento integral e elevado. O direito a usufruir destes serviços e a respetiva qualidade será diretamente proporcional à quantidade de zeros à direita na conta bancária. Esta terceira etapa é implementada gradualmente e  articulada com outras medidas de esvaziamento do estado como as nacionalizações em curso.
Todo este processo poderia parecer inócuo e negligenciável não fossem as consequências inevitáveis e nefastas que terá na qualidade de vida futura do cidadão comum; é por isso que não podemos deixar-nos adormecer pelo calor do Verão, nem embalar pelo som pimba das suas festas.



José Júlio Campos

quarta-feira, 18 de julho de 2012

UMA FEIRA … NOUTROS TEMPOS

(No mês em que decorre a Feira das Atividades Económicas, na sede do concelho… tentamos recriar um passeio por uma feira tradicional, como a de Penaverde, por exemplo, há trinta anos atrás.)

Rostos. Vidas. Temporais de sentimentos desconhecidos, não purificados no cadinho da consciência. Faces escuras comidas pelo tempo… água mole em pedra dura… Rugas cavadas pela água salgada que, secreta e insuspeitamente, olhos reflexos de vidas alheias prantearam. Vidas cruzadas misturam-se, olham-se desconfiadas ou curiosas. Feira… Lugar onde todos trazem um rosto, máscara reveladora de uma vida… de uma personalidade. O rosto na feira; o negócio; a metamorfose. A máscara que revela ou oculta inquietudes e dúvidas, recorrentes, ainda, numa feira mil vezes troteada.
Produtores, vendedores, compradores; feirantes, negociantes, tratantes; olharapos, curiosos, forasteiros; retalhistas, talhantes, tamanqueiros. O vozear alastra e excede-se onde pastores e queijeiros negoceiam ao tostão. O queijo… Vende-se como quem se separa de um ente querido… Pudera: foram mais de quarenta dias a cuidar dele como de um filho – fazê-lo, lavá-lo, mudar-lhe a “fralda”, virá-lo regularmente, voltar a lavá-lo, certificar-se que a temperatura é adequada à fase de cura… E, agora, lá vai ele, fazer as delícias de desconhecidos. E o pastor a remoer… “podia tê-lo vendido melhor; o Manel da Custódia vendeu a vinte cinco notas e não é melhor có meu…”
Negócio consumado, a deambulação pela feira, velha conhecida repleta de novidade e surpresa. Olhos atentos descodificam cada rosto, cada sinal, cada oportunidade. A alegria de ver os outros alegres. A alegria de estar ali. A tranquilidade de quem conta os dias apoiado no bordão, perdendo os olhos por cima do gado. A simplicidade de quem limpa as bagas de suor à manga de uma camisa suja, no virar de uma relha gasta ou no estrear de uma enxada nova.
Os velhos amigos, velhos também, que se reencontram todos os quinze dias para o copito e a tira de entremeada assada na brasa. O convívio. O copito. A conversa como as cerejas… “ – Carago, este ano o vinho sempre é cá uma potreia. – Vá lá, vá lá… este inda num é munto mau… prá miséria que foi. – E este ano vai pró mesmo… se num chove vai ser o bô e o bonito. – Ó parente, nem fales numa coisa dessas… s’isto continua assim…”
Vidas. Rostos. Copos que se desfazem, convívios que se partem. “ – Atão até à vista… – Já  vais imbora?... – Merenda comida, companhia desfeita! – Pois é… tamém tenho d’ir ver s’inda apanho uma comidita pró gado.”
Mais uma volta. O desfazer da feira. O copo que agora se recusa por cortesia, mas sempre se bebe por vontade. Também são como a conversa… E como as cerejas!...
Enfim, a melancolia do regresso ao mesmo de sempre, a alegria antecipada de futura jornada de feira. Os rostos mais marcados pela vivência de mais um dia. O negócio que se fez, o dinheiro que se ganhou ou se perdeu. Vidas para os outros simples, dentro delas tantas vezes dramáticas. Rostos marcas dessas vidas. Marcados.



José Júlio Campos

quarta-feira, 30 de maio de 2012

“FAZER MAIS COM MENOS”

Contrariando a lógica mais elementar do senso comum e a própria matemática em que é especialista, o actual ministro da educação iniciou o respectivo mandato, há um ano atrás, alardeando aos quatro ventos que o seu grande objectivo era, nem mais nem menos do que “fazer mais com menos”.
Aceitando como inevitável que a política de austeridade se reflectiria também na educação e que o “menos” era, à partida, um dado adquirido e incontornável, a curiosidade residia, apenas, em saber como é que o ministro iria concretizar o “mais”. E, ao longo deste ano, começámos a satisfazer essa curiosidade.
Para o ano lectivo em curso, começou o senhor ministro por implementar mais exames e pedir neles mais exigência, anunciando ainda mais para os próximos anos, qual panaceia milagrosa que, por si só, tornaria os alunos mais competentes e sabedores; simultaneamente decretou “menos” horas para actividades de complemento curricular, para cargos e para apoios pedagógicos de modo a pagar menos ordenados aos professores. Consequência deste “mais com menos”? Estão os professores, os técnicos do ministério e os pais aflitos com a previsão dos resultados nos exames nacionais de Matemática e Física e Química A, principalmente, a fazer fé nas classificações verificadas nos respectivos testes intermédios. Moral desta história: é impossível obter melhores resultados com menos professores, menos apoio educativo e menos projectos que motivem os alunos para a aprendizagem de determinadas disciplinas.
Está na forja, e, para já, com pequenas e envergonhadas amostras do que virá a ser, uma reforma curricular absolutamente inócua em termos pedagógicos e cuja única consequência previsível é a de lançar “mais” uns largos milhares de professores no desemprego, na sequência do único e grande objectivo ministerial – reduzir custos custe o que custar. O desemprego entre professores, diga-se, foi o que mais cresceu no último ano (“mais” de 130%) sendo que actualmente são já “mais” de doze mil os professores desempregados, para além dos “mais” de dez mil que, seguindo os doutos conselhos do mentor desta política, aproveitaram esta “oportunidade única” para mudar de vida ou para emigrar. Consequência deste “mais com menos”? Mais desemprego para os que ficam de fora e mais trabalho com menos vencimento para os que ficam na escola, com menos condições para proporcionar um ensino de qualidade aos alunos. Moral desta história: é impossível obter “mais” qualidade no ensino com “menos” professores, “menos” condições de trabalho, “menos” incentivos e “menos” respeito pela profissão.
Despachada está já a decisão a vigorar no próximo ano lectivo de aumentar o número mínimo e máximo de alunos por turma; este pode chegar aos trinta, em turmas do 5º ao 12º ano, e aos vinte e cinco, em turmas do pré-escolar; o mínimo será de vinte e seis e de vinte respectivamente, sendo também de vinte o número mínimo necessário para abrir uma disciplina de opção no Secundário. Consequências deste “mais com menos”? A ser implementada às cegas, como têm sido muitas outras, em obediência estrita aos números, esta medida poderá ter efeitos diversos, mas invariavelmente nefastos consoante o tipo de escolas – nos centros urbanos teremos salas de aula, por vezes com espaços exíguos, a abarrotar de alunos, tornando impossível um acompanhamento mais individualizado ou uma avaliação interna com o mínimo de seriedade; em concelhos menos populosos poderá acontecer que a falta de um número mínimo de alunos para abrir uma turma implique o encerramento de alguns cursos, no ensino secundário, obrigando os alunos a deslocar-se para os centros urbanos ou a frequentarem, por falta de alternativa, um curso para o qual não estão minimamente vocacionados; no limite, esta medida poderá significar, pura e simplesmente, o fim do ensino secundário em muitas vilas do interior. Moral da história: é impossível dar “mais” credibilidade ao ensino e “mais” igualdade de oportunidades a todos os alunos, com “menos” condições para fazer uma aprendizagem à medida das necessidades e com “menos” possibilidades de escolher o percurso curricular mais adequado às características pessoais.
Em conclusão: bastou um ano para que a prosaica lógica da realidade “ensinasse” ao senhor ministro uma regra básica da matemática que ele quis levianamente perverter, quiçá num presunçoso e inconsciente arrojo de génio: “mais por menos dá sempre menos”! O problema é que ainda há quem não queira ver a realidade e prefira navegar num mar de delírios.


José Júlio Campos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O DISCURSO POLÍTICO OU A BANALIZAÇÃO DA MENTIRA

Um dos aspetos mais preocupantes dos tempos que vivemos é, do meu ponto de vista, a desfaçatez e falta de vergonha com que os políticos banalizaram a mentira no seu discurso. Essa é, aliás, a razão primeira da descredibilização quase total dos políticos perante a opinião pública generalizada.
Para essa realidade contribuíram vários fatores como a falta de qualidade intelectual e ética dos indivíduos que tomaram conta dos partidos políticos, assim como a deterioração da memória do eleitorado provocada pelo bombardeamento de mensagens políticas que provocam um misto de confusão e repulsa que levam ao alheamento. No que respeita à comunicação social, a grande maioria do público prefere as mensagens relacionadas com entretenimento, desporto, coscuvilhice ou crime de “faca e alguidar” às mensagens de natureza política; e não é só por falta de formação ou de cidadania que isso acontece, mas, sobretudo, por cansaço e falta de paciência para uma tal desfaçatez com que se recorre à mentira no discurso político que, às vezes, até parece “gozo”. Esse alheamento é tanto mais preocupante na medida em que se verifica, principalmente, na faixa etária com menos de quarenta anos e ajuda a perceber a tendência para o significativo aumento da abstenção nas eleições mais recentes.
Um dos exercícios mais interessantes que alguém com uma boa dose de paciência poderá fazer é registar as afirmações que os políticos fazem, hoje, com a maior solenidade e circunstância e compará-las com aquilo que vão afirmar ou fazer, daqui a poucos meses, não com menor espavento e seriedade, sobre o mesmo assunto. Se formos pessoas bem-dispostas escreveremos, dessa forma, um divertido livro de anedotas; se formos mais coléricos, teremos, com certeza, matéria para a realização de um manifesto anti-políticos. Este exercício atingirá o seu esplendor se, pelo meio, os políticos em observação transitarem da oposição para o poder ou vice-versa, sobretudo se esse poder for absoluto como acontece atualmente no nosso país; aí é que a falta de decoro, a desfaçatez e a sem-vergonha se tornam totalmente escandalosas e insuportáveis. Tomemos como exemplo o atual primeiro-ministro. Todos (?) nos lembramos de que, há um ano atrás, esse senhor, então em campanha eleitoral, afirmava perentoriamente que jamais usaria como desculpa para as medidas que viesse a tomar aquilo que o governo anterior tinha feito; depois de ganhar as eleições e estar no governo, não houve medida relevante cuja necessidade não fosse justificada com a herança deixada pelo anterior governo. Todos (?) nos lembramos de esse senhor afirmar que “pensar em cortar os subsídios de férias e de Natal seria um grande disparate” e que a crise tinha de ser atacada com outras medidas; infelizmente, não disse quais e o corte desses subsídios aos funcionários públicos e aos reformados tornou-se a grande medida de combate à crise. Todos (?) entendemos, e bem, que esse corte, anunciado em Outubro de 2011, se aplicaria apenas nos anos de 2012 e 2013; passado apenas meio ano, e numa altura em que a propaganda do governo vem afirmando que no final de 2013 estaremos em condições de voltar aos mercados, ou seja, com a crise debelada, vêm-nos dizer que, afinal, o corte se prolongará para 2014, quiçá para 2015. De mentira em mentira é previsível que amanhã nos digam que esse corte é “ad aeternum”. Mas também, de mentira em mentira, estes senhores vão-se tornando os coveiros da democracia porque não há democracia que resista a tanta mentira. Sobretudo quando ela se tenta esconder sob a máscara do lapso e é veiculada com o ar seráfico de quem encerra um poço de virtudes. O atual governo adotou a estratégia da mentira e da matreirice (como aconteceu recentemente com a lei que impossibilita as reformas antecipadas até 2015) na sua relação com os cidadãos. Isso só pode contribuir para desacreditar ainda mais os políticos, a atividade política e a democracia criando um caldo de revolta que, minando as consciências, poderá, a médio prazo, fazer implodir o modelo social e político vigente.



José Júlio Campos

sexta-feira, 30 de março de 2012

NÓS, OS OUTROS E O S. PEDRO

Terminou, há poucos dias, o inverno mais seco desde que existem registos de pluviosidade em Portugal. Trata-se de um facto que exige uma reflexão, para além da proverbial resignação de quem sabe que, contra as adversidades climáticas, ao homem pouco mais resta do que promover umas novenas e pedir clemência a S. Pedro como fez a ministra Cristas. Mas será que a responsabilidade pelo clima é apenas do santo que tem as chaves do Paraíso e o problema se enfrenta com as estratégias da ministra?
Até há um século atrás, poderíamos dizer que sim: sempre existiram “variações” climáticas naturais num planeta vivo, onde ocorrem permanentes transformações bioquímicas e os eventuais desvarios dos ciclos climáticos se resolviam com uma boa dose de paciência e umas orações ou umas danças!
Acontece que hoje, a esse fenómeno natural acresce e sobrepõe-se um outro designado por “alterações” climáticas, este provocado pela ação humana. Desde o séc. XIX, a civilização ocidental desenvolveu e disseminou um “monstro” conhecido como “capitalismo industrial” cuja lógica se resume ao seguinte: produzir mais, vender mais, lucrar mais. No entanto, esta lógica levada ao extremo e praticada sem limites, como tem vindo a acontecer, acabou por trazer consequências dramáticas no equilíbrio social e ambiental do planeta. A nível social, a lógica capitalista assenta na imposição de uma mentalidade consumista alimentada por uma publicidade agressiva e imoral que explora os sentimentos, as emoções e as necessidades mais básicas e vulneráveis do ser humano. Este consumismo capitalista é responsável pelo crescimento exponencial das desigualdades sociais e a consequente criação de um exército cada vez maior de miseráveis que começa a tornar-se uma ameaça séria à estabilidade e segurança das comunidades. A nível ambiental, as consequências do capitalismo industrial são, ainda, mais nefastas. A maquiavélica obsessão pelo lucro leva a uma produção incessante em que não se olha a meios e recursos para o aumentar. O deus-lucro, único que o capitalista adora, sobrepõe-se a todos e tudo é sacrificado no seu altar – a gestão equilibrada dos recursos naturais e do ambiente, a dignidade do ser humano e o seu natural direito a usufruir de condições de vida saudáveis, a partilha equitativa e justa dos bens naturais, enfim, o próprio equilíbrio ecológico do planeta. A voragem do lucro tem levado à extinção de várias espécies vegetais e animais, bem como a processos de produção industrial e hábitos de consumo altamente poluidores e diretamente responsáveis por fenómenos como o aumento da temperatura média global, a destruição da camada de ozono, o efeito de estufa ou o degelo dos glaciares. E não resta hoje qualquer dúvida que os invernos secos como este que terminou, os verões cada vez mais quentes, a desertificação de vastas regiões, como o Alentejo, as catástrofes naturais já vistas ou iminentes, como tufões, cheias, tsunamis, tornados, ou a subida do nível dos mares, são consequências diretas desse sistema económico, a que estaremos sujeitos cada vez com maior frequência e gravidade, caso os EUA, a China e quejandos continuem a fomentar esta corrida para o abismo que são as suas políticas irresponsáveis. Mas também a nível individual existe uma responsabilidade que nos impõe uma inevitável e imediata mudança de mentalidade: é urgente uma alteração radical nos nossos hábitos no sentido de consumirmos menos e melhor, valorizarmos o essencial – o ser – em detrimento do acessório – o ter, não viver para consumir, mas consumir apenas o estritamente essencial para viver. Só desta forma poderemos escapar ao apetite insaciável dos tubarões que se perfilam por trás da máquina industrial capitalista e reduzir esta marcha acelerada para a destruição do planeta.

José Júlio Campos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PRIMAVERA MULHER ESPERANÇA

Neste mês de Março ocorre-me salientar dois eventos que nele se repetem, pela simbologia que assumem no atual contexto e pela relação que é possível estabelecer entre eles. Trata-se do Dia Internacional da Mulher e do início da Primavera.
A celebração do Dia Internacional da Mulher deve ser entendida como um sinal de alerta para um dos fenómenos mais incompreensíveis e condenáveis da história da humanidade – a relação de subalternidade e submissão da mulher face ao homem e as dramáticas consequências daí decorrentes que todos conhecemos. Apesar dos progressos verificados, que o dia 8 de Março também pretende comemorar, o facto é que a mulher ainda continua a ser uma vítima generalizada da prepotência masculina, como facilmente constatamos se olharmos para o que se passa com o atropelo constante dos seus direitos, sejam eles os mais cívicos e elementares, como acontece em muitos povos islâmicos, ou os mais progressistas e ocidentalizados como os direitos sociais e laborais. No nosso país, por exemplo, onde teoricamente os direitos humanos em geral e os das mulheres em particular estão, desde a Revolução de Abril, culturalmente consolidados e legalmente instituídos, continuamos, na prática, a assistir à sua mais vergonhosa violação como o provam o aumento da violência doméstica contra as mulheres e a discriminação contra grávidas no meio laboral empresarial.
No dia 21 de Março inicia-se a estação do ano mais rica em termos de simbologia; a Primavera é, entre muitos outros, símbolo de juventude, símbolo de vida e símbolo de fertilidade.
Existe, pois, uma óbvia relação simbólica entre a Primavera e a mulher da qual podemos tirar algumas ilações neste mês de Março. É que mulheres e homens continuam a ter necessidade de lutar, juntos, pela consolidação plena da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre todos os seres humanos, princípios básicos e inalienáveis que a Revolução Francesa consolidou e que permitiram à mulher, pelo menos no mundo ocidentalizado, atenuar a absurda discriminação negativa de que foi vítima ao longo dos tempos. No mundo atual podemos constatar a emergência de alguns sinais de esperança, como a chamada “Primavera árabe” que pode funcionar para as mulheres de alguns povos islâmicos como ponto de partida para a sua emancipação individual e social; mas também continuam a proliferar os exemplos de retrocesso que tendem a aumentar com a situação de crise económica e social em que vamos vivendo, como sejam a violência doméstica, o assédio sexual, a discriminação e remuneração desigual no mercado de trabalho, o tráfico de mulheres e exploração da prostituição, etc.
Esta associação entre a Primavera e a mulher que ocorre no mês de Março pode ser um sinal de esperança para todos nós: acreditemos que o clima e o mundo vão melhorar; acreditemos que o frio e a maldade do homem vão atenuar-se; acreditemos que a água-chuva fertilizante da terra, em Abril será mil; acreditemos que a mulher revitalizadora e primavera da humanidade poderá cumprir o seu ideal.
O verde com que a Primavera veste a natureza é também o símbolo da esperança com que podemos vestir os nossos corações: acreditemos que podemos ter uma terra permanentemente primaveril e uma humanidade permanentemente feminina, isto é, igualmente férteis, revitalizantes, belas e criadoras de beleza.



José Júlio Campos

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL (III)

A teoria da inexequibilidade do estado social tem vindo a ser alicerçada em dois argumentos que não passam de meras falácias que é imperioso desmontar.
Uma dessas falácias é o argumento de que a situação de crise em que nos encontramos se deve ao facto de “termos vivido acima das nossas possibilidades”. Trata-se, claramente, de uma falácia tecnicamente denominada de generalização precipitada, como se pode ver pelas seguintes razões. Em primeiro lugar porque se é certo que alguns terão vivido acima das suas possibilidades, iludidos pela publicidade enganosa e pela pressão para o consumo e o recurso ao crédito promovidas pelas entidades bancárias, também é verdade que isso não aconteceu com a maior parte das pessoas que se limitaram a melhorar um nível de vida que era, à data da entrada na então CEE, claramente terceiro-mundista. Portanto, no que se refere à dívida privada, o argumento apenas colhe em relação a uma parcela reduzida da população sendo, pois, falaciosa a sua generalização.
Já no que se refere à dívida pública, o argumento falha por razões ainda mais evidentes. Em primeiro lugar porque a maior parte das obras promovidas pelo Estado era absolutamente indispensável num país que padecia de décadas de atraso nas infra-estruturas existentes (em 1986 tínhamos apenas 196 Km de auto-estradas em todo o país); a construção dessas infra-estruturas era, aliás, uma condição fundamental para o aumento da produtividade e da competitividade da nossa economia. Em segundo lugar porque esse investimento do Estado foi, durante todos estes anos, o principal motor da nossa economia, ao contrário do investimento privado que ficou claramente aquém daquilo que o desenvolvimento do país exigia; e ficou aquém muito por culpa da mentalidade aforradora e socialmente insensível dos grandes empresários que tiveram como objectivo fundamental a acumulação de lucros e a sua multiplicação artificial em paraísos fiscais e mercados bolsistas em vez do seu reinvestimento na economia nacional. Além disso, o escasso reinvestimento foi feito preferencialmente no sector terciário, onde o retorno é mais imediato, mas onde a produção é quase nula; e, mais grave ainda, recorrendo preferencialmente à comercialização de produtos importados, por serem mais lucrativos, como acontece com as grandes cadeias de hipermercados, contribuindo ainda mais para a destruição da produção nacional. (Operações de cosmética mediática como a exposição de produtos nacionais na Avenida da Liberdade, patrocinada pelo Continente, não passam de formas hipócritas de lavar consciências pesadas e enganar consumidores incautos.)
Ao contrário do que muitos querem fazer crer, o investimento público não foi, na sua maior parte, desmesurado; o problema inerente e, esse sim, correctamente assacado ao investimento público tem a ver com a forma como ele foi, na generalidade, gerido pelos sucessivos governos e gestores públicos que nos desgovernaram nos últimos trinta anos; basta trazer à colação as sucessivas derrapagens nos custos finais das obras; os cambalachos nas suas adjudicações; a violação das recomendações do Tribunal de Contas; a megalomania de alguns governantes e autarcas; a satisfação de clientelas políticas e outras; enfim, a corrupção generalizada e sempre impune. Perante este cenário de má governação consecutiva não há estado social que resista; ou seja, não foi a função social do Estado que nos trouxe até esta situação, mas sim a forma danosa, incompetente e, em muitos casos, corrupta, como o Estado tem vindo a ser gerido. E esta constatação é já uma forma de desmontar a falácia demagógica da apregoada “falta de alternativas”; efectivamente existem alternativas à política de destruição do estado social que está a ser implementada no nosso país e na Europa; basta estar atento a algumas vozes lúcidas, como a do economista Paul Krugman, que vão rompendo o bloqueio a que a Comunicação Social as tem sujeitado.
Vejamos, apenas, alguns exemplos. Posto que o Estado tem vindo a ser mal gerido, a solução não é acabar com o Estado, nem com a sua função social, mas moralizar e optimizar a sua gestão. Ou seja, a solução não é, como preconiza o Governo, cortar a direito e, consequentemente, às cegas na saúde, na educação e na segurança social, mas acabar com as mordomias, os desperdícios e os “jobs for the boys” que continuam intactos; a solução não é acabar com o investimento do Estado, mas racionalizá-lo, focalizando-o para o estritamente indispensável ao desenvolvimento do país; a solução não é facilitar os despedimentos que vão aumentar o desemprego, mas implementar medidas concretas que levem à criação real de emprego. Já que os empregadores vão ver tão reforçada a sua já natural supremacia sobre os empregados, porque não exigir-lhes também algumas contrapartidas como, por exemplo, a obrigatoriedade de investir uma percentagem dos lucros (variável consoante a sua dimensão) na criação de postos de trabalho reais, na modernização das suas empresas e, porque não, na sua própria formação, já que muitos deles não têm mais do que a escolaridade mínima?
Aquilo a que estamos a assistir é à penalização dos mais indefesos e menos responsáveis pela situação actual, enquanto os verdadeiros responsáveis – governantes incompetentes, gestores públicos e grandes empresários gananciosos – continuam a ver os seus privilégios e regalias defendidos e reforçados.
As alternativas existem; assim as pessoas acordem para uma avaliação crítica e autónoma do conteúdo dos argumentos que lhes são apresentados e não continuem alienadamente agarrados a discursos formatados e demagógicos de políticos cujo único objectivo é mantê-las adormecidas para, nas suas costas, manobrarem a seu bel-prazer e em proveito próprio. Aliás, como têm feito até agora.  



José Júlio Campos