O sr. Padre Fonseca
foi, a todos os títulos, um homem extraordinário, sem dúvida uma das figuras
determinantes na história de Aguiar da Beira. Tive o privilégio de trabalhar e
conviver com ele nos últimos anos da sua vida.
A nível pessoal, o
padre Fonseca era de uma grande afabilidade para com todos. A simpatia e o
permanente sorriso nos lábios eram a sua imagem de marca. Mas o seu sorriso
significava mais do que mera simpatia – ele era, também, um sinal da bondosa
ironia com que interpretava pessoas e acontecimentos, a partir da sua
experiência de vida e perspicácia, algo que ficou indelevelmente marcado nas
crónicas por ele escritas, regularmente, no jornal “Defesa da Aldeia” e,
sugestivamente, intituladas de “Sorridendo”. Sendo um grande orador no serviço
eclesiástico, não era, no trato diário, uma pessoa de grandes discursos, ou de
dialéticas intermináveis; no entanto, as suas pensadas e sensatas palavras,
quase sempre certeiras, simples e plenas de significado, eram sinal evidente de
uma inteligência social muito acima da média. Para além dessa afabilidade e
dessa ironia, a simplicidade era outra das suas muitas virtudes; tinha hábitos
de vida muito frugais, desprezando completamente todo o tipo de luxos,
extravagâncias ou ostentações. Um velhinho “carocha” foi o carro que o
transportou até aos últimos dias da sua vida, apesar de inúmeras vezes ter sido
incentivado e aliciado para adquirir mais moderna viatura.
Penso que era nesta
vida regrada e sóbria que o sr. Padre Fonseca ia buscar a força que o levou,
também, a ser um homem de grandes iniciativas. Aquelas que tiveram mais
visibilidade e marcaram a vida dos aguiarenses foram, sem dúvida, o projeto de
auto-construção e a criação do colégio de Aguiar da Beira. A auto-construção,
sendo totalmente pioneira, permitiu a muitos jovens casais construir a sua
própria habitação a partir do seu trabalho nos tempos livres e dos materiais
que o padre Fonseca ia angariando. O colégio, Externato de Aguiar da Beira,
contribuiu para colocar o concelho no reduzido mapa do ensino pré-liceal no
interior do país e para alargar a possibilidade de frequência desse ensino a
muitos jovens que, sem ele, nunca teriam ido além da antiga 4ª classe. E mesmo
quando os ventos do progresso impuseram a criação de escolas públicas, a Preparatória,
primeiro, e a Secundária, mais tarde, não só nunca se opôs, como alguns
maldosamente quiseram fazer crer, mas, pelo contrário, contribuiu decisivamente
para que essas escolas fossem uma realidade: foi ele que alugou uma parte do
seu colégio para que funcionasse a Escola Preparatória e, mais tarde, foi ele
que doou os terrenos para a construção da atual sede do Agrupamento de Escolas.
Ninguém fez mais pelo ensino, em Aguiar da Beira, do que ele.
A sua generosidade
levou-o, ainda, a doar terrenos ao município para que pudessem ser construídas
habitações tendo, dessa forma, ajudado muitos outros aguiarenses. As suas
inúmeras iniciativas, impossíveis de descrever neste simples testemunho, foram
sempre apontadas ao progresso e ao desenvolvimento de Aguiar da Beira.
Sei que levou, com
ele, alguns sonhos por concretizar, nomeadamente a construção de um grande e
digno Santuário em honra de Nossa Senhora da Estrada, que ele tanto venerava, e
a implementação de uma escola profissional que pudesse oferecer aos jovens
outras possibilidades de formação; além destes sonhos, que a partida algo
inesperada não lhe permitiu concretizar, o sr. Padre Fonseca tinha, também, em
mente, avançar com um projeto de reflorestação do concelho.
Por tudo isto e
muito mais, o padre José Augusto da Fonseca foi, sem dúvida, um homem de
iniciativas, de obras e de sonhos. Um pioneiro, um empreendedor e um
visionário. Foi para homens da sua estirpe que Fernando Pessoa escreveu o tão
conhecido e citado verso “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.