sexta-feira, 13 de junho de 2014

A CAMINHO DO FIM?

Analisando os resultados das recentes eleições para o Parlamento Europeu, não podemos dizer que aconteceu um terramoto eleitoral, mas também será descabido assobiar para o lado ou festejar esquizofrenicamente uma derrota histórica como aconteceu, por cá, com a Aliança Portugal. Aliás, não deixa de ser curioso que, enquanto em Espanha, o líder socialista Rubalcaba retirou as ilações da derrota obtida e se demitiu, em Portugal, o PSD e o CDS, tal como já tinha acontecido nas Autárquicas, transformam a derrota em vitória, imitando aqueles que, noutros tempos, tanto criticavam por fazerem a mesma coisa, o PCP.
Aos arautos do sistema em vigor e defensores de que a Europa está no bom caminho, aconselha-se que moderem o optimismo face a estes resultados, pois eles encerram uma ameaça que passou de latente a explícita, dentro do próprio Parlamento. Aqueles que puseram a União Europeia neste estado, Merkel, Barroso, Juncker e outros, não podem enterrar a cabeça na areia e respaldar-se no facto de o seu grupo parlamentar, o PPE, continuar a ser maioritário. Se há vitórias que são de Pirro, esta é, seguramente, uma delas. (Curiosamente, tal como a do PS, em Portugal!)
E porquê? Desde logo, porque ninguém com bom senso esperaria que, numa só eleição, houvesse uma mudança radical na composição do Parlamento Europeu. O que era expectável e, efetivamente, aconteceu, foi iniciar-se essa mudança e logo com uma força que dificilmente deixará de ter como consequência, em futuras eleições, uma nova correlação de forças que poderá significar o fim da União Europeia. Isto se os senhores que viram a sua maioria renovada insistirem em manter a cabeça na areia e continuarem a conduzir a Europa pelo mesmo caminho. Estas eleições provaram, inequivocamente, que “algo vai mal no reino do Velho Continente” e que este se desviou, em absoluto, da rota utopicamente sonhada pelos seus fundadores – uma Europa solidária e igualitária, em que todos os povos avançariam à mesma velocidade. A UE atual é claramente dominada por uma rede de interesses egoístas e prepotentes, onde os países mais ricos encaram as fraquezas dos mais pobres como motivo para os explorarem em proveito do seu próprio poder e riqueza e os castigarem pela sua indigência. É a transposição, para a relação entre países, da velha máxima da direita, tão cara a Passos Coelho, de que “os pobres são pobres por culpa própria, porque são preguiçosos e esbanjadores”. Começa, pois, a não fazer sentido falar em “União” Europeia, seja no plano económico, seja no político, como se pode inferir de uma leitura simples dos resultados destas eleições.
Senão vejamos. Os partidos anti-europeus e da extrema-direita, que preconizam o fim da UE ou a saída dos respetivos países, que são contra a livre circulação de pessoas e bens, que são abertamente racistas e xenófobos, que defendem a expulsão dos imigrantes nos seus países, enfim, que advogam uma ideologia totalmente oposta ao espírito europeu, conseguiram eleger cerca de 140 deputados, provenientes, na sua maioria, do Partido Independente (vencedor no Reino Unido), da Frente Nacional (vencedora em França), do Partido da Liberdade, austríaco, do PVV, holandês e doutros. Quando, em dois dos maiores e mais influentes países da UE, Reino Unido e França, ganham partidos deste jaez, o que mais se pode esperar senão o princípio do fim dessa União? Como não podia deixar de ser, os resultados eleitorais na Alemanha foram a prova de que os alemães são os grandes responsáveis e os grandes beneficiários da Europa atual: a CDU de Merkel, pilar do PPE, venceu folgadamente, ficando em segundo o seu aliado SPD, principal membro do grupo socialista europeu. Ou seja, a Alemanha é o reflexo da Europa dos últimos anos – um grande “centrão”, constituído por populares, neo-liberais e “socialistas só de nome”, todos ao serviço dos mercados financeiros e dos grandes grupos económicos. Foi este “centrão” ou “bloco central”, como nós, por cá, lhe chamamos, generalizado pela Europa e que a levou a este estado, que, apesar de ainda se manter vigoroso em países como a Alemanha e, pasme-se, Portugal, começou a ser implodido nestas eleições. Mesmo no nosso país, o bloco central foi a área que perdeu mais votos.
Para além disto, e tratando-se de eleições muito heterogéneas, a maior parte das leituras que possam fazer-se terá sempre uma dimensão simbólica, embora sempre apontando no mesmo sentido: o crescente descontentamento dos europeus face à atual UE. Nos países intervencionados pela troika, a tendência foi de subida para os partidos mais à esquerda; na Grécia, por exemplo, a Esquerda Radical ganhou e ocupou o espaço do desaparecido “socialista só de nome” PASOK. Na Itália, ganharam os socialistas e em segundo ficou o partido de Beppe Grilo, uma espécie de Tiririca à italiana. No país de Merkel, o partido Alternativa para a Alemanha elegeu 7 deputados que defendem o fim do atual modelo de euro e a expulsão dele de países como Portugal.
Estes e muitos outros sinais são sintomas de uma doença que assola a UE e que poderá, a médio prazo, levar à morte do paciente, se aqueles que são responsáveis pela doença não o assumirem, não se retirarem e não permitirem que alguém faça a urgente intervenção salvadora. Com esta gente, estamos a caminho do fim da União Europeia, pelo menos tal como ela foi idealizada, entre outros, por Robert Schuman e Jean Monnet.

José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com
jjfcampos@hotmail.com


UM GRANDE ZÉ PÉ-DE-VENTO

O meu amigo Zé Pé-de-Vento resolveu, naquele dia, fazer um grande.
Passou pelo supermercado e começou pelas melancias. Estas começaram a voar e passaram pelo caixeiro sem lhe passarem cartucho. Os cartuchos, habituados a ser usados como embrulho na venda de figos-secos, ficaram aborrecidíssimos com o facto e resolveram apelar para o MEC (Ministério dos Embrulhos Cornudos). Dirigiram-se, em cartucho, ao dito Ministério, manifestando-se pela rua, entoando o hit-parade “Não queremos a droga”. Os figos-secos é que também não gostaram nada do comportamento dos cartuchos e resolveram acompanhá-los na sua manifestação, para se queixarem, imaginem, dos próprios cartuchos que, alegadamente, ao saírem do supermercado sem dizerem “água vai” os deixaram nas “ruas da amargura”. Estas, porém, devido a rixas antigas, não gostaram nada do facto, pois, mais uma vez, os figos-secos iriam conspurcar a beleza dos seus paralelos. E resolveram, elas próprias, boicotar a manifestação abrindo grandes brechas, onde se embrulhavam cartuchos, figos-secos, melancias e, é claro, água. Como sabemos, a água é uma coisa que só aparece quando não é precisa, quer seja a da chuva, quer a das fontes. E foi por isso que, devido ao facto de os cartuchos terem saído do supermercado sem dizerem “água vai”, a água foi. Puro espírito de contradição. Por acaso andava por ali uma (sim, uma contradição, nunca viram?!) que resolveu, também, manifestar-se devido ao seu próprio espírito. E estes também; os espíritos aproveitaram a oportunidade para se misturarem com as coisas e se divertirem à custa delas: mordiam os figos-secos, jogavam à bola com as melancias, escarravam dentro dos cartuchos e, com a água, lavavam as partes fracas, imaginem. Quanto à contradição, os espíritos não lhe fizeram nada, só para a chatearem. É a coisa pior que se pode fazer a uma contradição. Os espíritos foram mesmo maldosos e, quando chegaram ao MEC, arrancaram os ditos ao Ministro e enfiaram-nos nos outros embrulhos. Ficou o Ministério sem razão de ser e sem finalidade.
Entretanto, dentro do supermercado, o forrobodó era completo e, aqui e além, pouco digno de pessoas decentes, nada aconselhável a pessoas impressionáveis.
As rolhas bebiam todo o vinho das garrafas que tapavam e, completamente embriagadas, enfiavam-se, indiscriminadamente, na vagina das senhoras e no cu dos cavalheiros que a essa hora faziam as suas compras. Simultaneamente, desenrolavam-se cenas de pancadaria de criar bicho entre as rolhas, as cenouras, as bananas e outros objectos fálicos, todos eles desejosos de ocupar um lugar ao sol. Um lugar ao sol procurava, também, toda a outra fruta, saudosa dos tempos em que jazia e crescia nas suas plantas natais. E, assim, iam-se precipitando para a rua, sem atenderem a qualquer ordem, os alhos encavalitados nas maçãs, as peras sugando marmelos que se queixavam com gritinhos histéricos, as cebolas e os morangos agarradinhos num furioso acesso de amor pouco platónico. Entretanto, os detergentes derramavam-se pelas cabeças dos clientes que eram esfregadas por vassouras de piaçaba de todos os tamanhos cujos cabos se esgrimiam em lutas medonhas.
Alertado pela chinfrineira desta babilónia e por um tomate que, fugindo da lascívia concupiscente de umas luvas de borracha, lhe acertara inadvertidamente no nariz pedindo imensa desculpa ao mesmo, um transeunte anónimo alertou as autoridades.
Imediatamente, foram deslocadas para o local todas as forças vivas e mortas, armadas e desarmadas, de botas, de carro, de jipe, de ambulância, a cavalo ou de mota que a edilidade possuía. Ao chegarem ao local, era tal a confusão que apenas meia dúzia de polícias conseguiu, a custo, entrar no supermercado. Foi o suficiente, no entanto, para que a pândega se multiplicasse proporcionalmente ao número de polícias entrados. Em cada defensor da ordem e da lei que entrava, imediatamente, o bastão lhe fugia do devido local e, depois de uma rápida inspecção à ocorrência, procurava, também, um sítio onde pudesse satisfazer ancestrais desejos. Ora, como o único local côncavo, à altura disponível, era o ânus dos agentes, foi para lá que eles se dirigiram, sem se darem sequer ao trabalho (era o mínimo que se lhes exigia) de procurarem aquele que diariamente se bamboleava a seu lado em sã e alegre concorrência. Podemos acrescentar, no entanto, que, aquando do julgamento mais tarde realizado, esta atitude dos bastões teve como atenuante a confusão existente no infeliz momento e é elucidativo, sobre o assunto, o diálogo travado no tribunal. O advogado de acusação perorava acerbamente que “o bastão deve meter-se no cu do próprio dono”, enquanto o advogado de defesa se estribava no aforisma de que “em tempo de guerra não se limpam armas”. O juiz aceitou os argumentos da defesa, considerando que a situação vivida podia ser considerada tempo de guerra e louvou a perspicácia do advogado. Mandou em paz os bastões, mas aconselhou-os a que, sempre que possível, seguissem à risca o argumento da acusação para evitarem mais situações desagradáveis; não era bonito, que lhe desculpassem a ingénua e infeliz comparação, meter o bastão em cus alheios, tal como quem mete o nariz onde não é chamado. E mais não disse.
Voltando, no entanto, à vaca fria, salvo seja, que é como quem diz, voltando aos acontecimentos fervilhantes que estávamos a descrever, a confusão, fora do local, era indescritível e é por isso mesmo, e por uma questão de coerência e de pudor, que nos abstemos de a descrever. Acrescentaremos, apenas, para levantar o véu à imaginação do leitor, que, desde os polvos até aos bonecos articulados que havia no supermercado, todos tinham saído para a rua e se guerreavam, utilizando todas as viaturas da polícia (até cavalos), apenas com o infantil intuito de provar qual deles era o mais digno herdeiro de Juan Manuel Fangio. Foi, até, ali, naquele lugar, momento e circunstância que, pela primeira vez, foi proferida a expressão “estar armado em Fangio”. Durante anos, discutiu-se, apaixonadamente, em toda a cidade, desde a tasca do Pedrado até à Faculdade da Dificuldade, sobre a identidade do autor de tão gracioso e oportuno dito. O Miraculado, assim chamado por ter sido vítima da bondade da Senhora dos Aflitos, (havia quem garantisse que o autor do milagre tinha sido o São Gregório, o que mais uma vez atesta a tendência inata para a dúvida e a discussão entre os indígenas desta localidade) que, repentinamente, (também nisto as opiniões vão desde os poucos segundos até às três horas e mais, o que prova, além do já provado, que Kant não tinha razão quando afirmava que todo o homem, por natureza, trazia na cabeça um metro e um relógio), o livrara de uma monumental bebedeira de três dias, (aqui ninguém duvidava, muito embora alguns intelectuais e artistas lá do sítio hesitassem quanto à monumentalidade da borracheira), no momento em que, ao entrar em casa, deparou com a sogra em carne e osso, qual bispo da Inquisição ou Senhora dos Aflitos (seria, aliás, devido a essas comparações possíveis com a severa senhora sogra do Miraculado que os debates, durante um ano, assentaram, exclusivamente, sobre a identidade da aparição que, indiscutivelmente, para o sujeito desta enorme frase que ainda não terminou, era a sogra e por isso invocou São Gregório, tendo-lhe valido, na circunstância, é a opinião da maioria, a Senhora dos Aflitos), o Miraculado, dizíamos, afirmava, a pés juntos, ter ouvido a expressão em causa da boquinha de um Menino Jesus de barro, no momento em que disputava, com um porquinho mealheiro, o lugar ao volante de um jipe da PM. Convenhamos que, apesar de vir a opinião da boca de tão suspeito autor, ela não deixa de ter a sua lógica, pois um dito tão jocoso vem mesmo a calhar na boca de tão esperto infante. Foi por isso que, imediatamente após ter botado faladura na tasca do Pedrado, o Miraculado e a sua opinião passaram a ser defendidos e admirados por todo o exército religioso da cidade. Desde o cura até ao chefe da irmandade, passando pela Dona Sameirinho, capitã da “intrépida legião de Maria”, como ela chamava ao grupo de duas dezenas de beatas que todos os meses de maio lamuriavam a Salve Regina atrás dela, passaram a defender, com paixão, a teoria do Miraculado e introduziram, mesmo, na ladainha, apesar de o cura não ouvir isso com bons ouvidos, mais duas jaculatórias, a saber: “Mãe do Divino Autor da Graça” e “Salvadora do Miraculado”.
Coube a outra opinião mais disputada e defendida a uma ilustre catedrática da já referida Faculdade, regente da cadeira de Semiótica de Máquinas, cuja afirmava e provava, por a mais b e x vezes y, que o autor do gracioso dito tinha sido um polvo. “Um polvo?!...”, gozavam os detractores. “Sim, senhores; um polvo.”, retorquia a dita senhora que baseava experiencialmente a sua teoria. Efectivamente, a senhora encontrava-se, à data de tão marcante acontecimento para a memória dos cidadãos, dentro do supermercado. E, no preciso momento em que transpunha a saída, com uma enorme banana semi-cravada na vagina e a saia completamente levantada, mais parecendo uma dama de chicote ou um escocês de pau feito, vira, não tinha a menor dúvida apesar do seu cartesianismo, um polvo, ao volante de um carro da polícia, que dizia, revirando os olhinhos e tremelicando os tentáculos: “Agora, vou armar-me em Fangio!”. E, àqueles que objectavam com o facto de não falarem os polvos, ela contra argumentava (era aqui que entrava a semiótica, provavelmente), que se o homem veio do peixe, como diziam os antigos, entre os quais Anaximandro, (e a simples menção deste nome levantava logo dúvidas nos espíritos mais ingénuos que não acreditavam poder ter existido gente, por mais sábia, com tal apelativo), então, o gérmen da linguagem já estaria nesses peixes. O polvo, como parente afastado, mas habituado a conviver com eles, tinha aproveitado o estado de excepção do momento para fazer vir ao de cima todas as suas potencialidades culturais e linguísticas.
Todos os intelectuais de esquerda, comunistas, sindicalistas e até, mesmo, anarquistas aproveitaram a teoria para entrar em guerra aberta com a falange cristã e defendiam, com a maior erudição, aquilo que, entre eles, secretamente, consideravam ser o evolucionismo e o materialismo histórico presentes em tão douta opinião.
A discussão generalizou-se, as opiniões entrincheiraram-se e, mais de uma vez, falou-se na eminência de uma guerra civil. Salvou a situação o proverbial bom senso do meu amigo Zé Pé-de-Vento que, não tomando partido por nenhuma das facções, ia ganhando adeptos para a sua teoria: “ao Menino Jesus, o que é do Menino Jesus e ao polvo o que é do polvo.”



José Júlio Campos