A
CAMINHO DO FIM?
Analisando
os resultados das recentes eleições para o Parlamento Europeu, não podemos
dizer que aconteceu um terramoto eleitoral, mas também será descabido assobiar
para o lado ou festejar esquizofrenicamente uma derrota histórica como aconteceu,
por cá, com a Aliança Portugal. Aliás, não deixa de ser curioso que, enquanto
em Espanha, o líder socialista Rubalcaba retirou as ilações da derrota obtida e
se demitiu, em Portugal, o PSD e o CDS, tal como já tinha acontecido nas
Autárquicas, transformam a derrota em vitória, imitando aqueles que, noutros
tempos, tanto criticavam por fazerem a mesma coisa, o PCP.
Aos
arautos do sistema em vigor e defensores de que a Europa está no bom caminho,
aconselha-se que moderem o optimismo face a estes resultados, pois eles
encerram uma ameaça que passou de latente a explícita, dentro do próprio
Parlamento. Aqueles que puseram a União Europeia neste estado, Merkel, Barroso,
Juncker e outros, não podem enterrar a cabeça na areia e respaldar-se no facto
de o seu grupo parlamentar, o PPE, continuar a ser maioritário. Se há vitórias
que são de Pirro, esta é, seguramente, uma delas. (Curiosamente, tal como a do
PS, em Portugal!)
E
porquê? Desde logo, porque ninguém com bom senso esperaria que, numa só
eleição, houvesse uma mudança radical na composição do Parlamento Europeu. O
que era expectável e, efetivamente, aconteceu, foi iniciar-se essa mudança e
logo com uma força que dificilmente deixará de ter como consequência, em
futuras eleições, uma nova correlação de forças que poderá significar o fim da
União Europeia. Isto se os senhores que viram a sua maioria renovada insistirem
em manter a cabeça na areia e continuarem a conduzir a Europa pelo mesmo
caminho. Estas eleições provaram, inequivocamente, que “algo vai mal no reino
do Velho Continente” e que este se desviou, em absoluto, da rota utopicamente
sonhada pelos seus fundadores – uma Europa solidária e igualitária, em que
todos os povos avançariam à mesma velocidade. A UE atual é claramente dominada
por uma rede de interesses egoístas e prepotentes, onde os países mais ricos
encaram as fraquezas dos mais pobres como motivo para os explorarem em proveito
do seu próprio poder e riqueza e os castigarem pela sua indigência. É a
transposição, para a relação entre países, da velha máxima da direita, tão cara
a Passos Coelho, de que “os pobres são pobres por culpa própria, porque são
preguiçosos e esbanjadores”. Começa, pois, a não fazer sentido falar em “União”
Europeia, seja no plano económico, seja no político, como se pode inferir de
uma leitura simples dos resultados destas eleições.
Senão
vejamos. Os partidos anti-europeus e da extrema-direita, que preconizam o fim
da UE ou a saída dos respetivos países, que são contra a livre circulação de
pessoas e bens, que são abertamente racistas e xenófobos, que defendem a
expulsão dos imigrantes nos seus países, enfim, que advogam uma ideologia
totalmente oposta ao espírito europeu, conseguiram eleger cerca de 140
deputados, provenientes, na sua maioria, do Partido Independente (vencedor no
Reino Unido), da Frente Nacional (vencedora em França), do Partido da
Liberdade, austríaco, do PVV, holandês e doutros. Quando, em dois dos maiores e
mais influentes países da UE, Reino Unido e França, ganham partidos deste jaez,
o que mais se pode esperar senão o princípio do fim dessa União? Como não podia
deixar de ser, os resultados eleitorais na Alemanha foram a prova de que os
alemães são os grandes responsáveis e os grandes beneficiários da Europa atual:
a CDU de Merkel, pilar do PPE, venceu folgadamente, ficando em segundo o seu
aliado SPD, principal membro do grupo socialista europeu. Ou seja, a Alemanha é
o reflexo da Europa dos últimos anos – um grande “centrão”, constituído por
populares, neo-liberais e “socialistas só de nome”, todos ao serviço dos
mercados financeiros e dos grandes grupos económicos. Foi este “centrão” ou
“bloco central”, como nós, por cá, lhe chamamos, generalizado pela Europa e que
a levou a este estado, que, apesar de ainda se manter vigoroso em países como a
Alemanha e, pasme-se, Portugal, começou a ser implodido nestas eleições. Mesmo
no nosso país, o bloco central foi a área que perdeu mais votos.
Para
além disto, e tratando-se de eleições muito heterogéneas, a maior parte das
leituras que possam fazer-se terá sempre uma dimensão simbólica, embora sempre
apontando no mesmo sentido: o crescente descontentamento dos europeus face à atual
UE. Nos países intervencionados pela troika, a tendência foi de subida para os
partidos mais à esquerda; na Grécia, por exemplo, a Esquerda Radical ganhou e
ocupou o espaço do desaparecido “socialista só de nome” PASOK. Na Itália,
ganharam os socialistas e em segundo ficou o partido de Beppe Grilo, uma
espécie de Tiririca à italiana. No país de Merkel, o partido Alternativa para a
Alemanha elegeu 7 deputados que defendem o fim do atual modelo de euro e a
expulsão dele de países como Portugal.
Estes
e muitos outros sinais são sintomas de uma doença que assola a UE e que poderá,
a médio prazo, levar à morte do paciente, se aqueles que são responsáveis pela
doença não o assumirem, não se retirarem e não permitirem que alguém faça a
urgente intervenção salvadora. Com esta gente, estamos a caminho do fim da
União Europeia, pelo menos tal como ela foi idealizada, entre outros, por Robert
Schuman e Jean Monnet.
José
Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com
jjfcampos@hotmail.com