quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANO LECTIVO NOVO, PROBLEMAS VELHOS

Passaram já três meses desde que iniciou funções o novo Governo. No entanto, fazer um balanço global, objectivo e ideologicamente imune é uma tarefa ainda com pouco sentido por demasiado prematura. Quando muito, justificar-se-ão análises pontuais a determinadas medidas e decisões que vão sendo anunciadas, sem que se perceba, ainda, rigorosamente, qual o seu alcance ou reais consequências. Na verdade podemos afirmar que antecipar resultados dessas medidas, neste momento, não passará de um exercício meramente ideológico e especulativo destituído de bases metodologicamente positivistas.
Serve este preâmbulo para, de alguma forma, enquadrar aquela que é a minha opinião sobre as medidas que vêm sendo anunciadas pelo Ministério da Educação, agora que estamos a iniciar um novo ano lectivo. Parece-me que, globalmente, algumas dessas medidas indiciam algum bom senso e equilíbrio, na medida em que têm vindo a ser apresentadas de forma serena, sem grandes rupturas nem alardes. As mudanças que o ensino em Portugal exige devem ser pensadas e debatidas amplamente, sobretudo entre os professores, em vez de serem implementadas de forma autocrática, inopinada, obedecendo a critérios meramente economicistas e, muitas vezes, ao arrepio do bom senso e da opinião generalizada da classe docente.
A forma como o Ministério decidiu na questão do encerramento de escolas do 1º ciclo é um sinal de sensatez.
A decisão de levar até ao fim uma avaliação de professores, principalmente no caso dos contratados, que estava a poucos dias de terminar, parece-me uma decisão justificada, apesar de poder configurar aspectos contraditórios relativamente a afirmações anteriormente produzidas. Já no que se refere ao novo modelo de avaliação de professores apresentado pelo Ministério e que, aliás, não difere substancialmente do anterior, parece-me exequível na globalidade, embora, numa análise muito superficial, me ocorra questionar alguns aspectos. Um deles é a avaliação externa proposta para alguns escalões – essa avaliação só é possível e credível se se investir na criação de um corpo de professores avaliadores, de preferência recrutados entre os docentes dos dois últimos escalões, que se dedicariam, em parte significativa do seu tempo lectivo, a essa tarefa; recorrer a professores de outras escolas, ou a instituições de ensino superior, não me parece adequado nem exequível; quanto à manutenção das quotas, trata-se de uma medida meramente economicista que como tal deveria ser assumida em vez de se apresentar como uma condicionante inerente à avaliação de todos os funcionários; totalmente descabido continua a ser, para mim, manter a avaliação de desempenho como um factor interveniente na graduação a concurso, até pela contradição que isso encerra relativamente à existência de quotas. Estranho é que, tendo os partidos que actualmente nos governam levantado a voz de forma tão veemente contra as políticas educativas do anterior governo, acabem, agora, por não apresentar qualquer diferença relevante nomeadamente neste caso da avaliação dos professores; facto esse que, aliás, já era esperado por muitos e que se verifica, também, em todas as outras áreas da governação.
Quanto à questão da avaliação dos alunos, discordo do Sr. Ministro da Educação quando afirmava, ainda antes de desempenhar essas funções, que a avaliação externa existente é insuficiente; a meu ver, embora seja aceitável a introdução de exames nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática do 2º ciclo, o restante é de manter; aliás, discordo completamente, por exemplo, que se entregue a avaliação externa a entidades exteriores ao Ministério. O grande busílis da avaliação em Portugal encontra-se no modelo de avaliação do ensino básico onde, passe o exagero, reter um aluno (já não se usa a palavra reprovar porque traumatiza os meninos) é burocraticamente equivalente a meter um processo em tribunal; por isso, corajoso seria, da parte do Sr. Ministro, melhorar esse modelo de avaliação e não, como já se ouve, alargá-lo também ao ensino secundário, o que seria o caos.
Finalmente, algo que me parece completamente negativo, por mais que a tríade internacional que nos governa o possa exigir, é a redução de horas para o exercício de cargos e para a implementação de projectos e outras actividades. Das duas, uma: ou o Ministério quer que os professores trabalhem de borla, ou, então, pretende que todos os projectos e actividades extra-curriculares sejam banidos das escolas. No fundo, o que se está a fazer é uma grande desonestidade com os órgãos de direcção das escolas porque estes vão sentir-se obrigados a manter o nível cultural e educativo que as escolas atingiram, sob pena de a sua avaliação ser altamente penalizada, mas para isso terão que andar a pedir aos professores (a troco de quê?) que implementem e coordenem projectos e actividades para além daquilo que o seu horário comporta. O Ministério da Educação, nesta matéria, poderá estar a querer “fazer omeletes sem ovos”; as consequências serão, pois, mais do que previsíveis, extremamente graves: milhares de professores no desemprego e diminuição significativa da qualidade da formação proporcionada aos alunos. Esperemos que as consequências que estas medidas vão ter na qualidade do ensino não venham a ser, no futuro, aproveitadas como arma de arremesso contra a credibilidade dos professores.



José Júlio Campos

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