Na fatídica noite
de 13 de Outubro de 2011, a partir das 20 horas, fui “navegando” entre os
canais noticiosos, com a expectativa de compreender minimamente o naufrágio que
estava a acontecer. E, à medida que a noite foi avançando e eu ia fazendo a
digestão do “bodo aos pobres” que o primeiro-ministro nos tinha acabado de
prodigalizar, aliás com um ar tão consternado que até me pareceu ver as pedras
da lareira chorarem, fui-me apercebendo que eles, os que mandam e os que
comentam, andam desesperadamente à procura de um sinal, qual gambozino
reluzente na escuridão da noite. Pus-me, também eu, à coca.
Primeiro, ainda
pensei que procurassem um sinal divino, até pelo dia que era, mas depois
percebi que o sinal era outro. E comecei a desconfiar que o famoso Graal,
objecto de tanta busca inglória ao longo dos tempos, se metamorfoseara no
malfadado sinal que hoje todos procuram e ninguém encontra. Andamos todos à
procura do sinal como quem anda à procura da rolha. Voltando à noite de 13 de
Outubro, alguns comentadores alvitravam que, embora compreendendo a
inevitabilidade das medidas anunciadas, faltava nelas um sinal claro, por mais
pequeno que fosse, de medidas que estimulassem o crescimento económico; outros
pretendiam justificar o injustificável especulando, em nome do governo, que
este orçamento teria como intenção dar um sinal aos mercados e aos nossos
amigos da onça europeus de que temos capacidade para sair deste aperto; houve,
ainda, uns poucos que avaliaram estas propostas de orçamento como um sinal de
guerra aos trabalhadores e pensionistas, rumo ao suicídio colectivo. O termo
sinal, não sei se também o conceito, foi o campeão da verborreia televisiva
dessa noite.
De tanta
preocupação com o sinal acabei por perceber uma coisa: alguns daqueles
indivíduos fazem uma ideia de como chegámos aqui, mas nenhum deles faz ideia
alguma de como vamos sair. Sabem porquê? Todos, sem excepção, concordavam que
este orçamento é recessivo, que com ele a economia não cresce e, não crescendo
a economia, não arranjamos maneira de nos libertarmos da dívida; apesar disso,
alguns afirmavam, em simultâneo, que este orçamento é inevitável, que não há
alternativa, que esta é a única forma de podermos fazer frente à crise. Perante
isto, dei comigo a pensar: ou eu sou significativamente desprovido de
capacidade mental, ou este raciocínio não tem qualquer espécie de lógica –
então, um orçamento que nos leva para uma recessão económica, ou seja, para um
buraco económico ainda maior é o único caminho para sairmos do buraco??? Só se
a saída do “buraco” for pelo outro lado, na Nova Zelândia. Nesse caso há que
mergulhar o mais fundo possível – atiremo-nos de vez para o abismo, encerre-se
o país para balanço; dessa forma, em menos de um ápice estaremos a deitar a
cabeça fora do buraco, lá no outro lado, para grande espanto dos nossos
antípodas!
E esta minha
constatação funcionou, para mim, também, como um sinal: um sinal de que existe
uma grande desorientação entre os políticos que nos desgovernam, aqui e na
Europa e igual desorientação nos comentadores que formatam e manipulam a
opinião pública; a não ser que os políticos estejam apenas a cumprir os
desígnios da alta finança mundial que os controla e os comentadores estejam
apenas a ser a voz do dono que lhes paga. Ambas as possibilidades fazem sentido
e ajudam a compreender o incompreensível das medidas impostas ao povo
português, em tudo semelhantes às do povo grego cujas costas devem ser para nós
um espelho e um sinal.
Concluí, então, que
vivemos num tempo de sinais. A política vive de sinais, a economia vive de
sinais, os mercados financeiros baseiam-se em sinais; o problema é que a
preocupação em dar e entender sinais levou o governo a esquecer a realidade dos
factos e da vida das pessoas. E, assim, só nos resta um caminho para evitar que
continuemos, cantando e rindo, de sinal em sinal, até à destruição final – esse
caminho é juntarmo-nos aos sinais de indignação e revolta que começam a
engrossar e dizer como D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas: “o
patriotismo não é estar de joelhos diante dos fundamentalistas que nos impõem
um conjunto de direcções; eu sou patriota porque não alieno a minha cabeça.”
José Júlio Campos