Ao contrário do
que alguns pensam, é minha opinião que a Igreja também deve fazer ouvir a sua
voz no que respeita àquilo que “é de César” e não apenas àquilo que “é de
Deus”. Nesse sentido, não posso deixar de salientar a atitude de algumas
figuras responsáveis da Igreja Católica portuguesa que, de há uns tempos a esta
parte, se têm manifestado prodigamente sobre a situação económica e social que
se vive cá e além fronteiras. Basta fazer uma breve consulta ao site da Agência
Ecclesia – agência de notícias da Igreja Católica em Portugal, para termos uma
noção clara desta realidade.
Os exemplos do
que afirmei são, por demais, evidentes e deles me limitarei a fazer um exíguo,
mas significativo, apanhado.
Uma das vozes
mais contundentes e certeiras tem sido a de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar
de Lisboa, que, em Setembro de 2010, denunciava os directores de empresas que
“recebem ordenados autenticamente obscenos perante a realidade social,
justificando sempre que os lucros se devem às suas grandes capacidades de
gestão, como se não fosse do trabalho daqueles que dão o seu melhor”; e sobre a
crise económica global acrescentava que a sua origem se deve aos “grandes
gestores”, alguns até com direito a um prémio Nobel da economia e que foram os
responsáveis pelas teorias que nos desgraçaram. Também em 11 de Dezembro
passado, este mesmo bispo denunciava corajosamente, em entrevista à RTP, a
falta de vontade política, em Portugal e na Europa, para pôr fim aos abusos
económicos; defende a necessidade de regular os mercados, mas aponta o facto de
não haver autonomia na política nem na Comunicação Social: esta “está
açambarcada pelos órgãos do poder económico e não há liberdade nem na política
nem na Comunicação Social porque tudo isto é abafado por grandes grupos
económicos”. Também do comunicado final da Assembleia Plenária da Conferência
Episcopal Portuguesa que decorreu de 8 a 11 de Novembro de 2010 é possível
retirar ideias como a seguinte: “é hora para pôr cobro à atribuição de remunerações,
pensões e recompensas exorbitantes, ao lado de pessoas a viver sem condições
mínimas de dignidade”. Já em Abril último, a Rede Europeia Anti-Pobreza, secção
de Portugal, considera que o pedido de ajuda externa feito pelo governo não
terá efeitos práticos junto de quem mais precisa; e o presidente daquela
organização católica, padre Agostinho Moreira, vai mais longe ao declarar à
referida agência noticiosa que “esta solução vai resolver a crise dos bancos e
das empresas, mas dificilmente terá benefícios directos para os mais débeis” e
que esta medida revela uma “visão apenas economicista e de um capitalismo
liberal, sistema perverso que não é digno de uma sociedade que diz ter
políticas sociais para o cidadão”. D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência
Episcopal, afirmava, há dias, que “sem verdade nem moral nas atitudes
degrada-se a vida pública mediante a instituição de redes e grupos de
influência que se servem dos bens públicos com o fim de enriquecimento
pessoal”; e mais: “urge uma mudança de paradigma social que todos reconhecem
como óbvia e necessária”. Finalmente, também o bispo da Guarda, D. Manuel
Felício, criticou recentemente “uma cultura transformada em modelo de educação
que insiste exclusivamente no individualismo” e apelou à coragem dos políticos
para que repensem os modelos de organização da sociedade.
Concorde-se ou
não com as opiniões emitidas por estes prelados, não deixa de ser curioso que a
voz da Igreja aponte no sentido de uma mudança profunda das estruturas
económicas e da organização social e política a nível global. Se partirmos do
pressuposto generalizado, e talvez não muito polémico, de que a Igreja é, por
natureza e tradição, defensora do “status quo”, então esta atitude de apelo à
renovação e à mudança não pode deixar de soar como um claríssimo sinal dos
tempos ao qual todos devemos estar muito atentos; a Igreja não pode ser apenas
uma instituição que se ouve e reconhece quando nos dá jeito, mas também quando
nos sobressalta a consciência e nos incentiva para mudar aquilo que urge ser
mudado.
As próximas
eleições afiguram-se como um momento em que podemos contribuir para essa
mudança: assim tenhamos coragem para seguir a voz da razão e perceber que um
partido político não se escolhe para toda a vida como um clube desportivo.
José Júlio Campos