quinta-feira, 28 de abril de 2011

A VOZ DA IGREJA – UM SINAL DOS TEMPOS

Ao contrário do que alguns pensam, é minha opinião que a Igreja também deve fazer ouvir a sua voz no que respeita àquilo que “é de César” e não apenas àquilo que “é de Deus”. Nesse sentido, não posso deixar de salientar a atitude de algumas figuras responsáveis da Igreja Católica portuguesa que, de há uns tempos a esta parte, se têm manifestado prodigamente sobre a situação económica e social que se vive cá e além fronteiras. Basta fazer uma breve consulta ao site da Agência Ecclesia – agência de notícias da Igreja Católica em Portugal, para termos uma noção clara desta realidade.
Os exemplos do que afirmei são, por demais, evidentes e deles me limitarei a fazer um exíguo, mas significativo, apanhado.
Uma das vozes mais contundentes e certeiras tem sido a de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, que, em Setembro de 2010, denunciava os directores de empresas que “recebem ordenados autenticamente obscenos perante a realidade social, justificando sempre que os lucros se devem às suas grandes capacidades de gestão, como se não fosse do trabalho daqueles que dão o seu melhor”; e sobre a crise económica global acrescentava que a sua origem se deve aos “grandes gestores”, alguns até com direito a um prémio Nobel da economia e que foram os responsáveis pelas teorias que nos desgraçaram. Também em 11 de Dezembro passado, este mesmo bispo denunciava corajosamente, em entrevista à RTP, a falta de vontade política, em Portugal e na Europa, para pôr fim aos abusos económicos; defende a necessidade de regular os mercados, mas aponta o facto de não haver autonomia na política nem na Comunicação Social: esta “está açambarcada pelos órgãos do poder económico e não há liberdade nem na política nem na Comunicação Social porque tudo isto é abafado por grandes grupos económicos”. Também do comunicado final da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa que decorreu de 8 a 11 de Novembro de 2010 é possível retirar ideias como a seguinte: “é hora para pôr cobro à atribuição de remunerações, pensões e recompensas exorbitantes, ao lado de pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade”. Já em Abril último, a Rede Europeia Anti-Pobreza, secção de Portugal, considera que o pedido de ajuda externa feito pelo governo não terá efeitos práticos junto de quem mais precisa; e o presidente daquela organização católica, padre Agostinho Moreira, vai mais longe ao declarar à referida agência noticiosa que “esta solução vai resolver a crise dos bancos e das empresas, mas dificilmente terá benefícios directos para os mais débeis” e que esta medida revela uma “visão apenas economicista e de um capitalismo liberal, sistema perverso que não é digno de uma sociedade que diz ter políticas sociais para o cidadão”. D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal, afirmava, há dias, que “sem verdade nem moral nas atitudes degrada-se a vida pública mediante a instituição de redes e grupos de influência que se servem dos bens públicos com o fim de enriquecimento pessoal”; e mais: “urge uma mudança de paradigma social que todos reconhecem como óbvia e necessária”. Finalmente, também o bispo da Guarda, D. Manuel Felício, criticou recentemente “uma cultura transformada em modelo de educação que insiste exclusivamente no individualismo” e apelou à coragem dos políticos para que repensem os modelos de organização da sociedade.
Concorde-se ou não com as opiniões emitidas por estes prelados, não deixa de ser curioso que a voz da Igreja aponte no sentido de uma mudança profunda das estruturas económicas e da organização social e política a nível global. Se partirmos do pressuposto generalizado, e talvez não muito polémico, de que a Igreja é, por natureza e tradição, defensora do “status quo”, então esta atitude de apelo à renovação e à mudança não pode deixar de soar como um claríssimo sinal dos tempos ao qual todos devemos estar muito atentos; a Igreja não pode ser apenas uma instituição que se ouve e reconhece quando nos dá jeito, mas também quando nos sobressalta a consciência e nos incentiva para mudar aquilo que urge ser mudado.
As próximas eleições afiguram-se como um momento em que podemos contribuir para essa mudança: assim tenhamos coragem para seguir a voz da razão e perceber que um partido político não se escolhe para toda a vida como um clube desportivo.



 José Júlio Campos

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A ESCOLA ACTUAL

Recentemente passou na Comunicação Social uma notícia que dava conta da dificuldade que uma empresa de um concelho vizinho do nosso sentia em encontrar mão-de-obra qualificada para poder investir no alargamento e modernização da sua produção. Num tempo em que o desemprego alastra, esta notícia leva-nos a questionar o papel da escola na sociedade contemporânea. Terá a escola actual condições para que a situação referida não seja mais do que uma excepção? A resposta parece-me ser afirmativa.
Efectivamente, nos últimos anos deram-se os passos correctos no sentido de criar condições para que a escola dê resposta às necessidades do mercado de trabalho. A implementação, nas escolas básicas e secundárias, dos cursos profissionais, quer de nível II (equivalente ao 3º ciclo), quer de nível III (equivalente ao Secundário), permite formar técnicos especializados nas mais diversas áreas. Estes cursos têm duas grandes vantagens: por um lado permitem variar a oferta de ensino fazendo com que a escola possa satisfazer uma maior diversidade de interesses e vocações por parte dos alunos; por outro lado servem, precisamente, para formar a espécie de mão-de-obra hoje em dia necessária a um mercado de trabalho cada vez mais especializado e heterogéneo.
No entanto, para que esta evolução na formação seja eficaz é preciso que se criem mecanismos ou condições para um maior diálogo entre a escola e a comunidade envolvente; neste sentido, os órgãos do poder autárquico podem desempenhar um papel importante enquanto elos de ligação entre a escola e o espectro das actividades económicas e sociais de uma comunidade ou região. A abertura de cursos profissionais, nas escolas básicas e secundárias, deve resultar de um diálogo entre todos os elementos da comunidade educativa representados no Conselho Geral e deve obedecer a critérios que assentem, exclusivamente, na satisfação das necessidades reais do mercado de trabalho. Se assim não for, corremos o risco de estar a cair no mesmo erro em que se caiu quando se criaram cursos do ensino superior ao desbarato, sem qualquer estudo sério do mercado de trabalho e das necessidades reais do país, algo que levou à actual situação de haver demasiados licenciados em áreas para as quais não há empregos e haver sectores de actividade que não encontram mão-de-obra qualificada para as tarefas exigidas. Que o estruturante erro histórico cometido ao nível do ensino superior, na primeira década após a adesão à União Europeia (recordam-se quem foi o Primeiro-Ministro durante esses dez anos?...), não volte a ser cometido, nos tempos que correm, ao nível dos ensinos básico e secundário.
Se esse erro não se cometer, situações como a que motivaram esta reflexão não mais serão notícia; basta, para isso, que qualquer empresário que pretenda investir numa determinada área de produção sonde o mercado de emprego e, caso neste não haja oferta de acordo com as suas necessidades, se dirija ao poder autárquico. Este deverá funcionar como o tal pivot que, recolhendo as necessidades do mercado de trabalho as fará chegar à escola, pondo mesmo o empresário a dialogar com ela, no sentido de se produzir um ensino profissional à medida dessas necessidades. A escola actual dispõe de condições para, em poucos anos, formar mão-de-obra qualificada que satisfaça o mercado de trabalho, nomeadamente em determinados “nichos” para os quais a formação específica é absolutamente indispensável.



José Júlio Campos