sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ULTRAPASSAR O MEDO
Escrevi, há cerca de um ano, que o mundo se está a tornar num lugar perigoso para viver. Apontava algumas razões, entre as quais o crescimento de um “monstro”, auto designado ISIS (Islamic State of Iraq and Syria). Daí para cá, infelizmente, os acontecimentos têm confirmado os meus receios. Os ataques terroristas perpetrados em Paris, em janeiro e em novembro, colocaram a Europa à beira de um ataque de nervos. O medo vive nas nossas casas, frequenta os nossos locais de lazer e de convívio, viaja connosco em comboios, autocarros, metros, barcos e aviões. A certeza de que outros ataques virão é diretamente proporcional à incerteza da hora e do local. Potencialmente, todos somos alvos da loucura insana que alimenta este terrorismo sem regras e sem quartel. Baixar a guarda, que se levanta como trancas à porta depois de casa roubada, é colocarmo-nos à mercê de novos ataques.
Perante estes factos, importa refletir sobre duas questões concomitantes, pois as possíveis respostas para uma permitirão descortinar soluções para a outra: como foi possível chegarmos a esta situação e como podemos pôr fim a esta terrível ameaça? Respostas plausíveis e eficazes para estas questões são de extrema complexidade, mas devem ser procuradas, denodadamente, pelos responsáveis políticos em particular e pela opinião pública em geral, pois a gravidade da situação assim o exige.
A procura dessas respostas, de forma muito genérica, remete para fenómenos históricos, intrincadamente conexos, de natureza religiosa, cultural e política. No plano religioso, parece que o Islamismo, não sendo promotor da violência gratuita, permite, como outras religiões, interpretações que, embora consideradas erradas pela maioria, levam os seus defensores à prática do fundamentalismo. Também o cristianismo teve os seus fundamentalismos, ao longo da História, responsáveis por muitas guerras, violências e outros desvarios. A adesão radical à lei islâmica da xária ou à interpretação da Jihad, a Guerra Santa, como forma violenta de expansão do islamismo, constituem-se como o alimento ideológico de vários grupos de muçulmanos que têm promovido, nas últimas décadas, um vasto conjunto de práticas terroristas, não só a nível internacional, mas também dentro das suas próprias comunidades. Nesta dimensão religiosa, o problema do fundamentalismo islâmico não é fácil de resolver, sendo que compete principalmente à maioria islâmica moderada assumir o controlo político das suas comunidades e combater o alastramento desse fundamentalismo e da sua radicalização. Às outras grandes religiões, como o cristianismo, o budismo ou o induísmo, compete aprofundar o diálogo inter-religioso, também com o islamismo, de modo a constituírem-se como um fator de concórdia e de paz e não o seu contrário. Trata-se de uma tarefa hercúlea, tão difícil quanto necessária.
Outro conjunto de razões prende-se com fatores de ordem étnica e cultural que radicam na evolução histórica das relações entre os povos muçulmanos e os de outras religiões, como os cristãos ou os judeus e dos próprios povos islâmicos do Médio Oriente entre si, como árabes, persas, turcos e curdos. A origem do islã e a sucessão da liderança religiosa do profeta Maomé continuam a ser, hoje, 1400 anos depois, a génese ideológica de profundas divisões como as que existem entre muçulmanos e judeus, ou das rivalidades políticas entre xiitas e sunitas, com perspetivas antagónicas no que respeita à forma de designar o chefe (o califa) de todo o islamismo. Este caldo étnico e cultural, com raízes históricas complexas, é extremamente difícil de compreender, sobretudo para nós, ocidentais. O mundo islâmico é aquilo que o filósofo espanhol Ortega y Gasset apelidava de “magma” na obra “A rebelião das massas”. A forma de minimizar os efeitos negativos deste magma cultural e étnico passa pela promoção do seu conhecimento histórico e pela reflexão sobre essas diferenças, por parte desses povos, de modo a poderem compreendê-las, relativizá-las e integrá-las de forma enriquecedora e não conflituante. Mas, para isso, é necessário que nesses países exista um clima de paz, propício ao investimento na implementação de um ensino superior laico e de qualidade que contribua para reduzir o obscurantismo religioso e “iluminar” a mentalidade desses povos. É preciso que, também os muçulmanos façam a sua própria “revolução iluminista”. Por sua vez, a civilização ocidental deve caminhar no sentido de promover no seu seio um maior estudo e uma melhor compreensão da história e das idiossincrasias desses povos, em vez de assumir uma atitude de sobranceria cultural e de tutoria política que muito tem contribuído para o sentimento de revolta que anima muitos dos que instigam ou apoiam o terrorismo contra o Ocidente. Como dizia recentemente o líder espiritual dos muçulmanos ismaelitas, Agá Khan, “alguns chamaram a isto um 'choque de civilizações'; mas é antes, no essencial, um choque de ignorâncias”.
Finalmente, mas não menos importantes, também os fatores de ordem política e económica têm um papel relevante para a compreensão do radicalismo terrorista islâmico. Sobretudo a partir da 1ª Guerra Mundial, alguns países ocidentais procuram dominar politicamente esses povos, tendo mesmo sido assinado um acordo, designado por Sykes-Picot, no qual a França e o Reino Unido dividiam entre si as zonas de controlo e de influência no Médio Oriente. Para manter esse controlo económico e geoestratégico, têm promovido e alimentado guerras e rebeliões, de modo a colocar e manter no poder uma espécie de títeres que possam comandar à distância. Mais recentemente, as intervenções desses países, liderados pelos EUA, no Irão, no Afeganistão, no Iraque ou na Síria, só têm contribuído para potenciar o ódio dos radicais muçulmanos contra os povos ocidentais e a sua cultura, traduzido no aparecimento de grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS. Este, aliás, surge, precisamente, na sequência da 2ª invasão do Iraque, decidida pelo insano Bush, constituindo-se como pólo aglutinador de um conjunto de generais “deserdados” do poder, após a queda de Saddam Hussein, aproveitando a confusão política e o vazio que lhes permitiu conquistar uma importante parcela do território iraquiano, como a região petrolífera de Mossul, para sedearem o seu projeto de vingança contra o Ocidente e de domínio do mundo islâmico. Aproveitaram a guerra civil, promovida e alimentada por americanos, franceses e russos, que fez de parte da Síria uma terra de ninguém, para alargarem o seu território, chacinarem várias comunidades cristãs e subjugarem ou expulsarem das suas terras grande quantidade de curdos. Crescem e financiam-se com a conivência de grupos económicos e líderes políticos turcos e ocidentais que lhes compram, no mercado negro, o petróleo, as obras de arte roubadas ou o algodão dos ocupados campos sírios. Neste aspeto, por muitos sapos que americanos, russos e europeus tenham que engolir, não lhes resta alternativa senão conjugar esforços políticos e militares para cortar e enterrar a última cabeça da Hidra, ou seja, a atual liderança do ISIS, seja por via da ação militar, seja por via, talvez mais eficaz, de fazer secar as suas fontes de financiamento, recorrendo a todos os meios para acabar com esse mercado negro. Enquanto isso não for feito, eles vão continuar a aproveitar-se da falta de esperança e de sentido para a vida que a sociedade consumista e capitalista ocidental produz numa grande parte dos seus jovens, para aumentar dentro do nosso próprio território, um autêntico exército de kamikazes, extremamente difícil de combater, seja pela sua dimensão, pelo facto de estarem “integrados” no nosso meio, ou por estarem dispostos a morrer para matarem o maior número possível. A Europa transformou-se num autêntico “cavalo de Tróia” comandado à distância. Enquanto não for cortada a mão que o manipula, o medo vai assombrar as nossas vidas. Mas quando (e se) isso acontecer, importa que o Ocidente tenha aprendido a lição e não volte a cometer os mesmos erros.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


SONHO DE MENINO ADULTO

Lançado a galope
Sinto-me voar sem corpo
Por entre imaginárias árvores
Donde exala um perfume acre e doce.

Atinjo uma clareira de luz
Onde a tua aparição me extasia.

Os teus cabelos cor de fogo,
O teu corpo quase névoa
Diluem-se na bruma inebriante
Que te envolve e acaricia.

Sinto que te aproximas
Sem o mínimo movimento.

As nossas almas materializadas,
Sem contornos definidos
Voam, fundidas, pelo universo
Que é todo cheiro a maresia.

E toda esta amálgama de fantasia
Embala o meu sonho de menino adulto.




José Júlio Campos
O DESERTO

Caminho, só, pelo deserto.
A triste lua ilumina-me o rosto
Dói-me todo o corpo … caio, adormeço
E chego a um lugar desconhecido.

O sol desponta e ilumina-te a face
A ti que caminhas a meu lado,
Misteriosamente …

Árvores copadas vêem-se ao longe,
Ouve-se música de flautas;
Aqui um encantador de cobras,
Além um vendedor de tapetes, apregoando.

Por baixo dos turbantes,
Adivinham-se rostos sorridentes
Alheios à nossa felicidade.

Ansiosamente, desejo-te
Procuro o teu cabelo para acariciar,
Mas o sol queima a minha solidão:
É o deserto que de novo me tortura …




José Júlio Campos
QUERO ESCREVER A VERMELHO


Quero escrever a vermelho,
Cor de sangue, cor de fogo,
A cor mais abstracta que conheço,
A cor do que penso e do que sinto.

Quero ser teu pensamento,
Estar dentro da tua mente,
Ser a seiva que te alimenta,
Percorrer todo o teu corpo.

Quero ser o teu destino
Que tu fazes livremente,
O teu caminho obrigatório,
Embora desenhado por mim.

Quero ser o teu porto de abrigo,
O regaço materno onde repousas,
Teus cabelos, olhos, boca, seios, …
Num recanto escuro do universo.

Quero ser o pensamento que te estremece,
Quero ser o teu destino em liberdade,
Quero ser o teu ventre acolhedor.
Eu quero ser tu … eternamente.


José Júlio Campos



DESEJO


Um fogo abrasador gela-me;
Ardo, estremeço, sinto-me rebentar …
Obrigado a permanecer onde estou
Aqui sentado, a arder.

Um desejo de regatos cristalinos
Impele-me para mundos desconhecidos
Onde ateio ainda mais esse fogo,
Com a tua presença refrescante.

Árvores frondosas povoam-me o espírito.
Os raios de sol por entre a folhagem
Iluminam a tua face luarenta
Que se esconde na sombra.

Ansioso pela luz, afasto os ramos,
Que duendes poderosos teimam em juntar …
O desejo da luz do teu corpo
É ofuscado e esquecido pela noite.



José Júlio Campos