terça-feira, 24 de novembro de 2015

DOM CAVACO, O ANACRÓNICO, ou “o dia em que a máscara caiu”

No início de maio passado, enquanto viajava para a Noruega mai-la sua Maria e a clique de empresários amigos, mais interessados em multiplicar lucros à custa da exploração salarial do que em fazer investimentos produtivos no país, Cavaco, em amena cavaqueira com a comitiva e os jornalistas, comentou temas como a data das eleições legislativas, (que acabou por marcar apenas para outubro, contra toda a sensatez, criando problemas adicionais ao atual governo para a apresentação do projeto de Orçamento do próximo ano, o que poderá valer um processo por incumprimento interposto pela UE ao estado português – neste caso já não importa ser bom aluno!) e a lei que regulamenta a cobertura jornalística das campanhas eleitorais, afirmando, sobre ela: “eu penso que, em Portugal, é a lei mais anacrónica que existe”, comparando-a, em termos de anacronismo, com a lei da reforma agrária que ele terá mudado e sugerindo, pois, a necessidade da sua alteração. Acontece que, mais anacrónico do que qualquer lei, é o próprio Cavaco, cuja obsolescência o faz ter o desejo inconsciente e recalcado de fazer Portugal regressar à monarquia, sendo ele o rei, e podendo eternizar-se no poder. Assentar-lhe-iam como uma luva, a concretizar-se esse desejo, o título e o cognome de Dom Cavaco, o anacrónico! O desprezo com que faltou às comemorações da implantação da República, invocando desculpas mentirosas, provocatórias e, obviamente, anacrónicas, são a prova inequívoca desse recôndito desejo. Sobram, aliás, os exemplos do anacronismo enquanto marca indelével de toda a sua atuação, ao longo de trinta anos de vida política. O anacronismo de Cavaco é, pois, idiossincrático e doentio, agudizando-se pelo facto de nunca ter percebido, muito menos assimilado, o que aconteceu no dia 25 de abril de 1974. Daí Cavaco considerar anacrónicas as leis criadas depois dessa data, nomeadamente a lei constitucional, que, agora, decidiu ignorar, sustentando a sua decisão sobre a indigitação do primeiro-ministro na “tradição” e naquilo que “ele” pensa que são os “superiores interesses da nação”. Argumentar com a “tradição” e os “superiores interesses” é típico do tempo do “ballet rose” e do Tarrafal, em que o país era coutada de uns ricaços amigos de Salazar, enquanto outros tinham que emigrar, exilar-se, resignar-se à miséria ou morrer às mãos da PIDE. Para Cavaco, o que ainda deve estar em vigor é a tradição salazarista de considerar os partidários da esquerda, em geral, e os comunistas, em particular, como perigosos inimigos da nação que devem ser banidos da sociedade, em nome dos tais “superiores interesses”. Para ele, o que ainda está em vigor na sua cabeça, é o tempo da “guerra fria”, com o mundo dividido pelo muro de Berlim e as potências USA e URSS a disputarem entre si a ocupação de posições estratégicas. O relógio mental de Cavaco parou no dia 25 de abril de 1974. A visível e inevitável senilidade apenas contribui para uma crescente e manifesta dificuldade em manter a máscara que a democracia o obrigou a afivelar para manter o poder ao longo dos anos. Agora, a máscara caiu, como se pode ver pelo discurso absolutamente totalitarista e anti-democrático, ou seja, completamente anacrónico, que proferiu no dia 22 de outubro, no qual indigitou Passos Coelho para formar governo. Apesar da sua mais que provável inutilidade, não é essa decisão que está em causa, mas antes a sua sustentação com recurso à demagogia e aos sofismas, à ameaça velada de que ou governam os amigos dele ou não governa mais ninguém, à chantagem feita aos deputados pretendendo transferir para eles o ónus de uma possível instabilidade governativa de que ele próprio é o principal responsável. A tese de que não pode dar posse a um governo do PS apoiado por partidos que têm no seu programa estudar a saída do euro ou a saída da NATO foi sustentada com argumentos demagógicos (porque ele sabe perfeitamente que o apoio desses partidos a um governo do PS não passa por essas matérias), e falaciosos (porque apelar ao medo do desconhecido e do rompimento com a tradição é o que se chama uma falácia “ad terrorem”), constituindo-se, assim, como um puro exercício de desonestidade intelectual, no qual, aliás, Cavaco é recorrente. Igualmente grave foi a ameaça implícita de que só dará posse a governos do seu agrado; os portugueses que votaram em partidos cujos programas e ideologias não servem a Cavaco não contam para apoiar ou rejeitar governos. O que faria Cavaco se o povo votasse maioritariamente num desses partidos à esquerda do PS? Chefiava um golpe de Estado, impondo uma nova Constituição pela força das armas? Mandava repetir as eleições, consecutivamente, todos os meses, até que os resultados permitissem formar um governo do seu agrado? Com este discurso, estará Cavaco a dar razão aos defensores de que não podia ter sido feita a revolução de abril para voltar a entregar o poder nas mãos daqueles contra os quais ela se fez? Não deixa de ser irónico que os que mais sofreram com o regime fascista e protagonizaram a conquista da liberdade e da democracia sejam, hoje, vítimas de uma tentativa de ostracização da vida política por parte de um partidário e servidor desse mesmo regime!
É este o anacronismo de que padece Cavaco, hoje conivente e a querer manter no poder o “irrevogável” líder de um partido com menos representatividade do que aqueles que ele quer banir e que, há vinte anos, escreveu no desaparecido “Independente” que “Cavaco merecia uns estalos”. Foi esse mesmo ex-pseudo-jornalista, (que um dia também afirmou que se alguma vez se viesse a dedicar à política estaria completamente louco) que agora qualificou o miserável discurso de Cavaco como “corajoso”. Daí só podermos concluir que, efetivamente, a profecia foi cumprida e o “homem” colapsou de vez. Porque é preciso ter “coragem” para proferir um discurso daquele jaez, mas ainda é preciso ter mais “coragem” para o elogiar!
No entanto, nesse dia de maio, a caminho da Noruega, Cavaco tinha razão numa coisa: tudo o que é anacrónico tem de ser mudado. Também ele é, desde sempre, um completo anacronismo neste país republicano e democrático e, como tal, vai, felizmente, ser banido muito em breve.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


A CRISE DOS REFUGIADOS

Finalmente, o Velho Continente “acordou” para a questão dos refugiados e, através do acordo alcançado pela maioria dos países da União Europeia, ter-se-á dado um primeiro passo para lidar de forma racional e sensata com este fenómeno. Obviamente, este acordo não é “a” solução para o problema. Se pensarmos que, neste momento, existem mais de oito milhões de pessoas em campos de refugiados no Médio Oriente e na África e outros incontáveis milhões que anseiam por uma oportunidade de rumar à Europa, ainda que isso lhes custe a vida, percebe-se que a gravidade e a dimensão do problema exigem outras respostas além desta, agora “acordada”. O acolhimento voluntário de cento e vinte mil refugiados, por parte de vários países da UE, constitui-se como um passo inevitável, embora insuficiente, face aos números que têm sido apontados: se 2014 bateu todos os records, com mais de duzentos mil migrantes a atravessarem o Mediterrâneo, o ano de 2015 prepara-se para bater esse record, por larga margem; basta atentarmos no facto de, só na última semana (meados de setembro), terem chegado cerca de trinta mil à Croácia. Além disso, é admissível o crescimento destes números nos próximos tempos, na medida em que esta “abertura” da Europa funcionará, para muitos, como um incentivo para enfrentarem a morte possível no mar, fugindo à morte provável nos seus países. A solução para o problema, como qualquer pessoa compreenderá, tem que ser aplicada a montante, isto é, nas suas causas, como sejam a miséria, a fome e as lutas fratricidas pelo poder, em países como a Síria, a Eritreia, o Sudão, a Etiópia e o Afeganistão, entre outros, todos eles em guerra e donde é originária a esmagadora maioria destes refugiados.
A ignorância e o egoísmo de muitos europeus levam-nos à arrogância de pensarem que não temos qualquer obrigação para com essas pessoas – nem de as acolher, nem de as ajudar a criar as condições que lhes permitam viver com dignidade nas suas terras. Alguns vão mesmo ao extremo de considerar a maioria deles como perigosos terroristas ou descendentes do terrível Almançor, cujo objetivo secreto é reeditarem, na Europa atual, as “razias” com que ele assolou os territórios cristãos no final do século X, na Península Ibérica, quando, na realidade, uma boa parte deles foge, precisamente, do fundamentalismo islâmico. Sendo compreensível a necessidade de colocar bastante precaução, entenda-se controlo, na forma como essas pessoas são integradas na nossa sociedade, já essas atitudes de egoísmo e de pura xenofobia são tão mesquinhas e irracionais que não merecem qualquer argumentação no sentido de as rebater. Importa, no entanto, ensinar a esses deserdados do conhecimento que, além de tudo o que tem a ver com direitos humanos, temos, também, responsabilidades históricas no que respeita às causas deste fenómeno. Primeiro os europeus, mais recentemente também os norte americanos, serviram-se da generalidade dos povos africanos, asiáticos e sul americanos como se fossem propriedade sua por direito natural ou divino. Exploraram-nos, saquearam-nos e sacanearam-nos, durante séculos. Apesar da independência concedida, a contragosto, não deixaram de continuar a controlá-los politicamente de forma a manter essa enorme fonte de todo o tipo de matérias primas, desde o ouro ao petróleo, acessíveis e baratas. Entretanto, sem se preocuparem minimamente com o seu desenvolvimento, para não os tornar concorrentes, foram estimulando o consumo nesses povos, como forma de alargar os imprescindíveis mercados, sem os quais o capitalismo ocidental definha, mas não os estimulando no desenvolvimento das suas infra estruturas produtivas. Por isso, a política geoestratégica do Ocidente foi sempre no sentido de manter o controlo político desses países e usar os seus povos como carne para canhão, de modo a alimentar as suas indústrias, como a do armamento, dos medicamentos e muitas outras. (Sobre isto vejam o filme “O fiel jardineiro”, do realizador Fernando Meirelles). Daí a conveniência de provocar e manter, cíclica e regularmente, umas guerrazitas, mais fáceis de alimentar quanto mais esses povos permanecerem num subdesenvolvimento atroz. O Ocidente nunca quis, verdadeiramente, a independência desses povos e, por essa razão, arranjou outras formas de os continuar a dominar e a explorar. Esta vaga de refugiados não é mais do que uma consequência dessa política. Assim sendo, temos responsabilidades históricas e morais para com essa gente. Não querer perceber isso, além de pouco inteligente é, inclusive, perigoso. A própria Merkel que, não sendo nenhuma Pandora, também não é nenhuma Eumênide, como agora aparece aos olhos desses refugiados, percebeu a gravidade da situação e contribuiu decisivamente para que esta solução de recurso fosse aprovada. Absolutamente lamentável é a atitude xenófoba de alguns países como a Eslováquia, a Roménia, a República Checa e, muito especialmente, a Hungria que votaram contra este acordo, ou a própria Finlândia que se absteve. Seria justo que, tal como ponderou a saída da Grécia do euro, por razões económicas, a UE também ponderasse, agora, a saída desses países da comunidade europeia por razões políticas e culturais. Mas esses países são governados por partidos de direita e a Grécia por um partido de esquerda, daí os dois pesos e as duas medidas. Adiante. Absolutamente inqualificável foi a declaração conjunta dos ministros do interior de França, Bernard Cazeneuve, e da Inglaterra, Theresa May, no final de julho, para justificar o comportamento violento da polícia francesa, à húngara, no sentido de impedir que centenas de migrantes atravessassem o Canal da Mancha, na região de Calais: “as nossas ruas não estão pavimentadas a ouro”. Não deixa de ser objetivamente verdade. Mas também é verdade que, se a estupidez, o cinismo e a falta de vergonha pudessem transformar-se em ouro, estes dois ministros, sozinhos, poderiam pavimentar com esse metal precioso todas as ruas da França e da Inglaterra. Fariam um belo par de calceteiros, cujo padrinho poderia, perfeitamente, ser David Cameron que, há cerca de um ano, também queria pavimentar o Mediterrâneo, não com ouro, mas com os cadáveres dos refugiados, ao defender a tese de que a Europa resolveria o problema deixando de os socorrer quando naufragam. Ou seja, mais uma prova de que não há limites para a estupidez humana.

José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt