DOM CAVACO, O ANACRÓNICO, ou “o dia
em que a máscara caiu”
No início de maio passado, enquanto viajava para a
Noruega mai-la sua Maria e a clique de empresários amigos, mais interessados em
multiplicar lucros à custa da exploração salarial do que em fazer investimentos
produtivos no país, Cavaco, em amena cavaqueira com a comitiva e os
jornalistas, comentou temas como a data das eleições legislativas, (que acabou
por marcar apenas para outubro, contra toda a sensatez, criando problemas
adicionais ao atual governo para a apresentação do projeto de Orçamento do
próximo ano, o que poderá valer um processo por incumprimento interposto pela
UE ao estado português – neste caso já não importa ser bom aluno!) e a lei que
regulamenta a cobertura jornalística das campanhas eleitorais, afirmando, sobre
ela: “eu penso que, em Portugal, é a lei mais anacrónica que existe”,
comparando-a, em termos de anacronismo, com a lei da reforma agrária que ele
terá mudado e sugerindo, pois, a necessidade da sua alteração. Acontece que,
mais anacrónico do que qualquer lei, é o próprio Cavaco, cuja obsolescência o
faz ter o desejo inconsciente e recalcado de fazer Portugal regressar à
monarquia, sendo ele o rei, e podendo eternizar-se no poder. Assentar-lhe-iam
como uma luva, a concretizar-se esse desejo, o título e o cognome de Dom
Cavaco, o anacrónico! O desprezo com que faltou às comemorações da implantação
da República, invocando desculpas mentirosas, provocatórias e, obviamente,
anacrónicas, são a prova inequívoca desse recôndito desejo. Sobram, aliás, os
exemplos do anacronismo enquanto marca indelével de toda a sua atuação, ao
longo de trinta anos de vida política. O anacronismo de Cavaco é, pois,
idiossincrático e doentio, agudizando-se pelo facto de nunca ter percebido,
muito menos assimilado, o que aconteceu no dia 25 de abril de 1974. Daí Cavaco
considerar anacrónicas as leis criadas depois dessa data, nomeadamente a lei
constitucional, que, agora, decidiu ignorar, sustentando a sua decisão sobre a
indigitação do primeiro-ministro na “tradição” e naquilo que “ele” pensa que
são os “superiores interesses da nação”. Argumentar com a “tradição” e os
“superiores interesses” é típico do tempo do “ballet rose” e do Tarrafal, em
que o país era coutada de uns ricaços amigos de Salazar, enquanto outros tinham
que emigrar, exilar-se, resignar-se à miséria ou morrer às mãos da PIDE. Para
Cavaco, o que ainda deve estar em vigor é a tradição salazarista de considerar
os partidários da esquerda, em geral, e os comunistas, em particular, como
perigosos inimigos da nação que devem ser banidos da sociedade, em nome dos
tais “superiores interesses”. Para ele, o que ainda está em vigor na sua
cabeça, é o tempo da “guerra fria”, com o mundo dividido pelo muro de Berlim e
as potências USA e URSS a disputarem entre si a ocupação de posições
estratégicas. O relógio mental de Cavaco parou no dia 25 de abril de 1974. A
visível e inevitável senilidade apenas contribui para uma crescente e manifesta
dificuldade em manter a máscara que a democracia o obrigou a afivelar para
manter o poder ao longo dos anos. Agora, a máscara caiu, como se pode ver pelo
discurso absolutamente totalitarista e anti-democrático, ou seja, completamente
anacrónico, que proferiu no dia 22 de outubro, no qual indigitou Passos Coelho
para formar governo. Apesar da sua mais que provável inutilidade, não é essa
decisão que está em causa, mas antes a sua sustentação com recurso à demagogia
e aos sofismas, à ameaça velada de que ou governam os amigos dele ou não
governa mais ninguém, à chantagem feita aos deputados pretendendo transferir
para eles o ónus de uma possível instabilidade governativa de que ele próprio é
o principal responsável. A tese de que não pode dar posse a um governo do PS
apoiado por partidos que têm no seu programa estudar a saída do euro ou a saída
da NATO foi sustentada com argumentos demagógicos (porque ele sabe
perfeitamente que o apoio desses partidos a um governo do PS não passa por
essas matérias), e falaciosos (porque apelar ao medo do desconhecido e do
rompimento com a tradição é o que se chama uma falácia “ad terrorem”),
constituindo-se, assim, como um puro exercício de desonestidade intelectual, no
qual, aliás, Cavaco é recorrente. Igualmente grave foi a ameaça implícita de
que só dará posse a governos do seu agrado; os portugueses que votaram em
partidos cujos programas e ideologias não servem a Cavaco não contam para
apoiar ou rejeitar governos. O que faria Cavaco se o povo votasse
maioritariamente num desses partidos à esquerda do PS? Chefiava um golpe de
Estado, impondo uma nova Constituição pela força das armas? Mandava repetir as
eleições, consecutivamente, todos os meses, até que os resultados permitissem
formar um governo do seu agrado? Com este discurso, estará Cavaco a dar razão
aos defensores de que não podia ter sido feita a revolução de abril para voltar
a entregar o poder nas mãos daqueles contra os quais ela se fez? Não deixa de
ser irónico que os que mais sofreram com o regime fascista e protagonizaram a
conquista da liberdade e da democracia sejam, hoje, vítimas de uma tentativa de
ostracização da vida política por parte de um partidário e servidor desse mesmo
regime!
É este o anacronismo de que padece Cavaco, hoje
conivente e a querer manter no poder o “irrevogável” líder de um partido com
menos representatividade do que aqueles que ele quer banir e que, há vinte
anos, escreveu no desaparecido “Independente” que “Cavaco merecia uns estalos”.
Foi esse mesmo ex-pseudo-jornalista, (que um dia também afirmou que se alguma
vez se viesse a dedicar à política estaria completamente louco) que agora
qualificou o miserável discurso de Cavaco como “corajoso”. Daí só podermos
concluir que, efetivamente, a profecia foi cumprida e o “homem” colapsou de
vez. Porque é preciso ter “coragem” para proferir um discurso daquele jaez, mas
ainda é preciso ter mais “coragem” para o elogiar!
No entanto, nesse dia de maio, a caminho da
Noruega, Cavaco tinha razão numa coisa: tudo o que é anacrónico tem de ser
mudado. Também ele é, desde sempre, um completo anacronismo neste país
republicano e democrático e, como tal, vai, felizmente, ser banido muito em
breve.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt