MEMÓRIAS
DOUTROS AGOSTOS
O
mês de agosto é, provavelmente, no nosso país, o mais glosado, seja na fita do
cineasta, na pena do escriba, na tela do pintor, onde quer que o homem derrame
a experiência das emoções e lance a semente da criatividade. Esse estatuto
consolidou-se, sobretudo, no último meio século da nossa história, devido à
conjugação de dois fenómenos: um deles foi a emigração em massa para a Europa e
o regresso a Portugal para gozar férias no mês de agosto; o outro foi a
aquisição do direito a férias, por parte dos trabalhadores em geral, procurando
estes, sempre que possível, desfrutá-las nesse mês que ganhou fama de ser o
mais quente do ano. Esse culto pelo mês de agosto já foi maior; segundo parece,
hoje há menos emigrantes a visitarem-nos nesse mês e há mais tendência para
repartir o gozo das férias por outros meses. Até a palavra “agosto” passou a
escrever-se com letra minúscula! O certo é que, na minha memória, continuam
presentes os gloriosos agostos dos anos 70 e 80, cuja forma especial de serem
vividos na nossa região pretendo evocar.
Deixemo-nos
levar pela admirável máquina da memória e recuemos 30 ou 40 anos. Estamos em
agosto. O calor, que desde junho vem transformando o verde dos campos em
amarelo torrado, persiste. Os centeios e os fenos estão ceifados e arrumados. A
batata e o milho, à custa de regas quase diárias, vão resistindo à mudança de
cor, até que o fruto atinja dimensão satisfatória. Para o agricultor ou o
pastor, agosto, como todos os meses de abril a outubro, é sinónimo de trabalho
duro, intenso e permanente, mas é, também, o mês em que até esse trabalho
parece mais leve.
Subitamente,
as vilas e as aldeias quase duplicam a sua população. Tabernas e cafés
enchem-se de uma clientela permanente, ruidosa e de mãos largas. Instala-se um
clima de festa que chegará ao clímax no dia do padroeiro, de ano para ano,
multiplicado por dois, três, meia dúzia de dias de festa rija. Já não é só a
tradicional missa, procissão e bailarico ao som da concertina; são as bandas, os
foguetes, os torneios de futebol e sueca, as corridas de carros, de motas ou a
pé e, claro, os conjuntos de música pop com nomes como Forum, Índice, Pop Five,
etc. E quando acaba a festa numa aldeia, começa logo noutra, pelo que, para os
mais “devotos”, há festa praticamente todos os dias.
Com
festa ou sem festa, o que não faltava em nenhum dos domingos de agosto e dos
outros meses do verão era o joguinho de futebol entre aldeias. Eram desafios
para homens de barba rija, onde a canela chegava até ao pescoço e o improvisado
árbitro tinha como único objetivo chegar ao apito final sem levar uns sopapos!
Carapito, Cortiçada, Eirado, Dornelas, Penaverde, Soito, mas também Matança,
Maceira, Casal Vasco, Figueiró, Vila Chã, Sobral Pichorro, Aldeia Nova, Fuínhas
ou Forno Telheiro são algumas das aldeias que defrontei, envergando
orgulhosamente a saudosa e sagrada camisola do Sporting Clube Queirizense. A
rivalidade era enorme e as coisas nem sempre corriam pelo melhor, mas, no final
do prélio havia, quase sempre, comes e bebes e o certo é que, de tanta canelada
germinaram amizades para o resto da vida.
Os
tempos eram outros; “computador” era uma palavra desconhecida e os jovens
aspiravam por momentos de diversão e convívio que amenizassem a dureza do
trabalho diário. Os emigrantes procuravam esquecer o sofrimento e as privações
que passavam para amealhar uns cobres, vivendo esse mês, “au Portugal”, à
grande e à francesa, trazendo, com eles, além dos francos e dos marcos que
faziam gala em gastar e investir na sua terra, um conjunto de padrões culturais
diferentes que contribuíram para o desenvolvimento do nosso povo.
Hoje,
o modelo de emigração é diferente e o regresso dos emigrantes para passar as
suas férias já não ocorre nos mesmos moldes, nem tem o mesmo impacto na vida
das nossas aldeias. O jogo de futebol ao domingo foi substituído pelo
isolamento dos jogos de computador. As próprias festas perderam brilho,
grandiosidade e até juventude que prefere divertir-se em discotecas e afins.
É
assim a vida dos povos: mudam-se os tempos, mudam-se as pessoas, mudam-se os
hábitos e as tradições, muda-se a cultura. Da cultura passada fica a memória de
quem a viveu e a sua transmissão desbotada e esmorecida com o tempo. Dos
agostos doutrora restam, ainda, alguns vestígios, significativos para os que os
viveram, irrelevantes para os jovens que ouvem falar deles. O resto são
memórias que o tempo, esse alquimista da História, transformará num suave
perfume que se evanesce com a brisa da tarde.
José
Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com