quinta-feira, 22 de maio de 2014

“SÃO TODOS IGUAIS” (?) (II)

(continuação da edição anterior)
Porquê, então, este paradoxo da história em que nos encontramos?
A meu ver, existem uma série de razões que poderão ser aventadas, com maior ou menor pertinência. Tentarei explicitá-las.
Desde logo, o próprio bem-estar alcançado pela maioria da população terá contribuído, perversamente, para aumentar, no cidadão comum, o comodismo e a indiferença relativamente aos poderes políticos que se sentem cada vez menos escrutinados pelas suas decisões. Esta situação permitiu que o grande capital e os grupos económicos e financeiros fossem tomando conta do poder político, de modo a recuperar alguma da riqueza que tinha revertido, paulatinamente, a favor das classes mais desfavorecidas; assim se explica a chegada ao poder, nos países líderes da Europa, de um conjunto de políticos neoliberais, como Margaret Thatcher, primeiro, Gerard Schroder, depois, e Angela Merkel, na actualidade, que mais não são do que autênticos “testas de ferro” da alta finança mundial e dos rostos por trás dos mercados financeiros especulativos. Estes, seguidos por um conjunto de “cópias” que foram surgindo em outros países do norte da Europa, como a Holanda ou a Suécia, inverteram totalmente o sentido da ação política que deixou de ter o cidadão como centro e a justiça social como objetivo e passou a ter como finalidade primordial a concentração da riqueza num pequeno grupo de privilegiados, através da submissão da economia real à especulação monetária, levada a cabo pela banca internacional que domina os mercados financeiros. Para além do controlo político, o grande capital foi, também, tomando o controlo da comunicação social (vide Murdoch), de modo a poder propagandear as ideias e os ideais políticos que permitissem o acesso e a manutenção do poder por parte desses “testas de ferro”. Uma dessas ideias, que mais fundo tem marcado a mentalidade dos povos do norte, é a de que os povos do sul tinham uma vida regalada à custa dos subsídios proporcionados pela União Europeia de que eles eram os principais contribuintes. Esta ideia teve como único objetivo destruir precisamente a União Europeia, pondo em causa o princípio que esteve subjacente à sua construção – a solidariedade e a igualdade entre os povos. E, assim, vamos assistindo ao retrocesso para uma Europa dividida entre demasiada riqueza nas mãos de uns poucos e demasiada pobreza distribuída igualmente por muitos, o que, à semelhança do que já aconteceu no passado e de acordo com alguns sinais no presente, poderá descambar em revoltas sociais sangrentas ou em guerras de dimensão incalculável. Era isto que pretendiam evitar os fundadores da CEE; é isto que querem os atuais responsáveis mais poderosos na Europa. E é por isso que a União Europeia está condenada se não houver uma mudança radical na ideologia das lideranças políticas. A ascensão generalizada dos partidos de direita nos governos dos países da UE é a principal ameaça à sustentabilidade dessa mesma UE e à manutenção da paz na Europa. Outra das ideias que tem sido inoculada até à exaustão, até mesmo nas mentes dos povos do sul, é a da insustentabilidade do modelo de estado social, recorrendo, para isso, a teorias, estatísticas e previsões deturpadas, falseadas e enviesadas que têm origem precisamente naqueles que estão interessados na destruição desse modelo.
Todo este processo se torna mais grave, lamentável e, talvez, irreversível, na medida em que não são apenas os partidos de direita a sustentarem-no; alguns partidos ditos de esquerda, nomeadamente os partidos socialistas e sociais democratas, perderam a sua identidade ideológica e deixaram-se, também, controlar pelo poder financeiro. Assim, esses partidos, quando estão na oposição, defendem ideias que se confundem com as da verdadeira esquerda; quando chegam ao poder, passam a governar à imagem e semelhança dos partidos de direita, isto é, ao serviço dos grandes interesses financeiros e apenas preocupados em defender as suas clientelas partidárias, como fez, por exemplo, Sócrates, em Portugal. Esta degeneração ideológica dos partidos socialistas está bem visível no SPD alemão no qual se acolhem, hoje, indivíduos como um tal de Thilo Sarrazin que defende ideias políticas ultranazis, semelhantes às de Hitler, e ideias económicas ultraliberais, piores que as de Merkel.
É por isso que esta homogeneização ideológica contribui para agravar a crise em que vive a Europa, principalmente os países mais pobres; esta crise foi criada propositadamente para levar a água ao moinho do grande poder financeiro, mediante a destruição da classe média e do estado social que visa a recuperação da riqueza perdida para a pequena e média economia; isso passou pelo controlo da classe política, levando os partidos a governar todos da mesma forma. Ao mesmo tempo, convenceu-se o povo de que não há dinheiro para manter os direitos alcançados, levando o cidadão a demitir-se de intervir, de votar, de participar, estribado na ideia de que “são todos iguais”. E, assim, como lhes interessa, esses partidos se vão alternando indefinidamente e indistintamente no poder.
Mas será que são todos iguais? Talvez.
Ou será que, como diria Orwell, não haverá uns que são mais iguais que os outros?
Ou, mutatis mutandis, não haverá uns que não são tão iguais como os outros?
Ou, ainda, não haverá alguns que não são tão responsáveis como os outros pelo estado a que o Estado e a Europa chegaram?
Não haverá, mesmo, aqueles que, no nosso país e na Europa, ainda não tiveram a oportunidade de mostrar que “não são todos iguais”?
Porque não dar-lhes essa oportunidade, já nestas eleições europeias?
É que, enquanto houver alguns, políticos e partidos, que não tiveram a oportunidade de mostrar se são ou não são iguais àqueles que nos têm governado, não tem qualquer lógica, nem faz o mínimo sentido, afirmar que “são todos iguais”.



José Júlio Campos
“SÃO TODOS IGUAIS” (?) (I)

A expressão que vence por larga margem o campeonato das mais ouvidas, no que se refere aos políticos, é: “são todos iguais”. Importa, pois, refletir um pouco sobre ela, de modo a aquilatar do grau de verdade nela existente.
Se atendermos aos tempos mais recentes, damos conta de que, efetivamente, as práticas dos diversos partidos que têm passado pelo poder não apresentam diferenças suficientes para desmentir a asserção em causa. As supostas diferenças ideológicas e programáticas não têm qualquer reflexo na praxis governativa a não ser em pequenas nuances propagandísticas com intenções eleitorais. Cá, como na generalidade da Europa, vêm-se dissipando as diferenças entre os diversos partidos que partilham alternadamente o poder e se auto-intitulam pertencentes ao “arco da governação”. Essa espécie de homogeneização ideológica, que sustenta a ideia de que, tal como os políticos, também os partidos são todos iguais, além de ser politicamente perigosa, é, em grande parte, a responsável pela crise do estado social e a destruição da classe média que ameaçam provocar, na Europa, um retrocesso civilizacional superior a um século.
Vamos por partes. É politicamente perigosa porque contribui para o afastamento entre o cidadão comum e a classe política, refletindo-se em fenómenos como a abstenção galopante que, ao contrário do que hipocritamente nos querem fazer crer, interessa às áreas ideológicas que se vão perpetuando no poder; uma corrida massiva às urnas só acontecerá enquanto manifestação de uma descrença total no poder instituído associada à adesão convicta a uma alternativa. É politicamente perigosa, ainda, porque afasta o cidadão das instituições, contribuindo para a diminuição da participação cívica e a desagregação social.
Este crescente alheamento das populações face à forma como os diversos partidos foram exercendo o poder que lhes era concedido criou as condições necessárias e suficientes para ir ocorrendo a referida homogeneização. Quanto mais os cidadãos se desinteressam pelo fenómeno político, mais os políticos se sentem à vontade para esquecer os cidadãos e se preocuparem, apenas, com os interesses da sua classe e do seu partido. Instala-se, assim, um ciclo vicioso, desenvolvendo-se numa espécie de carrossel em espiral, entre a apatia dos cidadãos, a constituição de uma “classe” político-partidária (uma espécie de nomenklatura) que se instala no poder, o esbatimento das diferenças ideológicas entre os membros dessa “classe”, o poder ao serviço dos interesses dos partidos e dos seus filiados (corrupção), ainda mais apatia dos cidadãos…
A Europa atingiu um nível de bem-estar e de prosperidade generalizados, nas décadas de 70 e 80, que teve como consequência mais visível a ascensão de uma nova burguesia – uma classe média numerosa e economicamente desafogada que se constituiu como um grande mercado sorvedor de toda a produção e motor da economia, mas também como uma ameaça para os detentores do grande capital que se viam, por efeito da regulação estatal introduzida nas suas relações com o mercado de trabalho, na eminência de verem reduzidos os lucros escandalosos a que estavam habituados e de ter concorrência na manutenção dos seus monopólios e oligopólios. A classe média foi uma criação da sociedade europeia, após a 2ª guerra mundial, que teve na sua génese a centenária luta de classes germinada na Revolução Francesa e tornada adulta por Marx e Engels, durante a Revolução Industrial. Os grandes responsáveis por esta criação foram os sindicatos e os partidos designados socialistas e sociais democratas, caracterizados pela defesa de ideologias sociais; foram estes partidos que criaram o modelo de estado social implementado em vários países europeus e idealizado pelos fundadores da União Europeia como paradigma para toda a Europa. Nessa época, os partidos “não eram todos iguais”. Havia uma diferenciação clara entre os partidos de direita, defensores de políticas conservadoras, de manutenção do status quo de desigualdades sociais gritantes, limitadores do exercício dos direitos de cidadania e desconfiados dos direitos humanos, e os partidos de esquerda, progressistas, defensores de uma maior justiça social e paladinos dos direitos humanos. Esta clara diferenciação ideológica deveu-se, por um lado, a um forte sentimento, por parte da população, da necessidade de criar uma sociedade mais justa e igualitária, no rescaldo de duas guerras mundiais, e, por outro lado, à lucidez e à coragem política de figuras como os suecos Olof Palm e Karl Gunnar Myrdal e o alemão ocidental Willy Brandt, entre outros. A construção do estado social e a ascensão da classe média foram dois fenómenos político-sociais inseparáveis e mutuamente implicantes que marcaram a história da Europa Ocidental e de todo o planeta, na segunda metade do séc. XX, fazendo da velha Europa uma espécie de “farol das nações”, paradigma da sociedade de bem-estar, modelo a seguir por todos os estados e centro de atração de povos e culturas.
(continua na próxima edição)


José Júlio Campos