“SÃO TODOS
IGUAIS” (?) (II)
(continuação da
edição anterior)
Porquê,
então, este paradoxo da história em que nos encontramos?
A
meu ver, existem uma série de razões que poderão ser aventadas, com maior ou
menor pertinência. Tentarei explicitá-las.
Desde
logo, o próprio bem-estar alcançado pela maioria da população terá contribuído,
perversamente, para aumentar, no cidadão comum, o comodismo e a indiferença
relativamente aos poderes políticos que se sentem cada vez menos escrutinados
pelas suas decisões. Esta situação permitiu que o grande capital e os grupos
económicos e financeiros fossem tomando conta do poder político, de modo a
recuperar alguma da riqueza que tinha revertido, paulatinamente, a favor das
classes mais desfavorecidas; assim se explica a chegada ao poder, nos países
líderes da Europa, de um conjunto de políticos neoliberais, como Margaret
Thatcher, primeiro, Gerard Schroder, depois, e Angela Merkel, na actualidade,
que mais não são do que autênticos “testas de ferro” da alta finança mundial e
dos rostos por trás dos mercados financeiros especulativos. Estes, seguidos por
um conjunto de “cópias” que foram surgindo em outros países do norte da Europa,
como a Holanda ou a Suécia, inverteram totalmente o sentido da ação política
que deixou de ter o cidadão como centro e a justiça social como objetivo e
passou a ter como finalidade primordial a concentração da riqueza num pequeno
grupo de privilegiados, através da submissão da economia real à especulação
monetária, levada a cabo pela banca internacional que domina os mercados
financeiros. Para além do controlo político, o grande capital foi, também,
tomando o controlo da comunicação social (vide Murdoch), de modo a poder
propagandear as ideias e os ideais políticos que permitissem o acesso e a manutenção
do poder por parte desses “testas de ferro”. Uma dessas ideias, que mais fundo
tem marcado a mentalidade dos povos do norte, é a de que os povos do sul tinham
uma vida regalada à custa dos subsídios proporcionados pela União Europeia de
que eles eram os principais contribuintes. Esta ideia teve como único objetivo
destruir precisamente a União Europeia, pondo em causa o princípio que esteve
subjacente à sua construção – a solidariedade e a igualdade entre os povos. E,
assim, vamos assistindo ao retrocesso para uma Europa dividida entre demasiada
riqueza nas mãos de uns poucos e demasiada pobreza distribuída igualmente por
muitos, o que, à semelhança do que já aconteceu no passado e de acordo com
alguns sinais no presente, poderá descambar em revoltas sociais sangrentas ou
em guerras de dimensão incalculável. Era isto que pretendiam evitar os
fundadores da CEE; é isto que querem os atuais responsáveis mais poderosos na
Europa. E é por isso que a União Europeia está condenada se não houver uma
mudança radical na ideologia das lideranças políticas. A ascensão generalizada
dos partidos de direita nos governos dos países da UE é a principal ameaça à
sustentabilidade dessa mesma UE e à manutenção da paz na Europa. Outra das
ideias que tem sido inoculada até à exaustão, até mesmo nas mentes dos povos do
sul, é a da insustentabilidade do modelo de estado social, recorrendo, para
isso, a teorias, estatísticas e previsões deturpadas, falseadas e enviesadas
que têm origem precisamente naqueles que estão interessados na destruição desse
modelo.
Todo
este processo se torna mais grave, lamentável e, talvez, irreversível, na
medida em que não são apenas os partidos de direita a sustentarem-no; alguns
partidos ditos de esquerda, nomeadamente os partidos socialistas e sociais
democratas, perderam a sua identidade ideológica e deixaram-se, também,
controlar pelo poder financeiro. Assim, esses partidos, quando estão na
oposição, defendem ideias que se confundem com as da verdadeira esquerda;
quando chegam ao poder, passam a governar à imagem e semelhança dos partidos de
direita, isto é, ao serviço dos grandes interesses financeiros e apenas
preocupados em defender as suas clientelas partidárias, como fez, por exemplo,
Sócrates, em Portugal. Esta degeneração ideológica dos partidos socialistas está
bem visível no SPD alemão no qual se acolhem, hoje, indivíduos como um tal de
Thilo Sarrazin que defende ideias políticas ultranazis, semelhantes às de
Hitler, e ideias económicas ultraliberais, piores que as de Merkel.
É
por isso que esta homogeneização ideológica contribui para agravar a crise em
que vive a Europa, principalmente os países mais pobres; esta crise foi criada
propositadamente para levar a água ao moinho do grande poder financeiro,
mediante a destruição da classe média e do estado social que visa a recuperação
da riqueza perdida para a pequena e média economia; isso passou pelo controlo
da classe política, levando os partidos a governar todos da mesma forma. Ao
mesmo tempo, convenceu-se o povo de que não há dinheiro para manter os direitos
alcançados, levando o cidadão a demitir-se de intervir, de votar, de
participar, estribado na ideia de que “são todos iguais”. E, assim, como lhes
interessa, esses partidos se vão alternando indefinidamente e indistintamente
no poder.
Mas
será que são todos iguais? Talvez.
Ou
será que, como diria Orwell, não haverá uns que são mais iguais que os outros?
Ou,
mutatis mutandis, não haverá uns que não são tão iguais como os outros?
Ou,
ainda, não haverá alguns que não são tão responsáveis como os outros pelo
estado a que o Estado e a Europa chegaram?
Não
haverá, mesmo, aqueles que, no nosso país e na Europa, ainda não tiveram a
oportunidade de mostrar que “não são todos iguais”?
Porque
não dar-lhes essa oportunidade, já nestas eleições europeias?
É
que, enquanto houver alguns, políticos e partidos, que não tiveram a
oportunidade de mostrar se são ou não são iguais àqueles que nos têm governado,
não tem qualquer lógica, nem faz o mínimo sentido, afirmar que “são todos
iguais”.
José
Júlio Campos