NOVAS FORMAS DE
ESCRAVATURA (II)
As
forças políticas e sociais, representadas e defendidas por esses partidos
maioritários, utilizam os meios de comunicação social, que ao longo de décadas
trataram de controlar, para manipular a consciência do cidadão comum que quanto
mais inculto mais facilmente é contaminado e formatado por essa ideologia
dominante. E o que essa ideologia dominante transmite é que só pode haver uma
sociedade organizada e estável se o capital se sobrepuser ao trabalho, se o
empregador não tiver espécie alguma de responsabilidade social, se todos os
meios forem legítimos para a obtenção de lucros, se o estado não intervier nas
relações de força entre as classes sociais, ou seja, toda uma cartilha liberal
e neo-liberal que interessa exclusivamente aos detentores dos meios de produção
e é totalmente contrária aos interesses do “povo”, cuja única riqueza é o seu
trabalho. Votar consecutivamente em partidos que defendem essa cartilha
liberal, como são os partidos de direita e centro direita, em detrimento dos
partidos que defendem e valorizam o trabalho e os interesses de quem depende
apenas dele para garantir a sua subsistência, não pode ser visto senão como uma
forma de alienação, aquilo que eu chamaria uma “escravatura ideológica”. O
capitalismo financeiro, os chamados “donos do mundo”, exerce este domínio sobre
a mentalidade popular através de três meios essenciais. Um deles é o controlo
dos partidos políticos mais votados que lhes permite impor as políticas mais
favoráveis aos seus interesses; para isso recorrem à criação de uma espécie de
classe político-empresarial que vai saltando de cargos públicos para empresas
privadas, cozinhando naqueles o que virão a comer nestas; são os
carreiristas da política que estão nela
apenas para servirem os seus interesses e os daqueles que lhes podem pagar boas
maquias em troca dos seus favores políticos. Outro meio é a comunicação social,
quase toda controlada por esse capitalismo financeiro, não pelo lucro que ela
dá, mas pelo poder ideológico que lhe está inerente; não é por acaso que
continuamos a assistir à destruição da comunicação social pública ou
independente por parte desses partidos que estão ao serviço desses poderes
financeiros e à sua transferência para a mão de monopólios privados. As consequências
desta privatização são, por um lado, promover uma maior estupidificação
cultural através da multiplicação de programas como os que são transmitidos na
generalidade dos canais (big brothers, splashs e quejandos); por outro lado,
levar à criação de uma classe de jornalistas e comentadores, escolhidos a dedo
na órbita desses partidos maioritários, cujas carreiras dependem de dizerem o
que interessa a quem lhes paga – os seus donos. Existe, ainda, um outro meio a
que esses senhores lançam mão para intoxicar a opinião pública: são os
analistas e comentadores de economia, tipo Medina Carreira ou César das Neves, cujas
carreiras dependem, também, desses senhores; estes economistas que pululam
entre os media, os tais partidos maioritários, as universidades e as empresas
são os “sacerdotes” desta seita de adoradores do dinheiro cuja razão de viver é
acumular fortunas incontáveis que os equiparem ao próprio “todo-poderoso”. E é
assim que, por paradoxal que pareça, o poder desses “senhores do dinheiro” se
vai perpetuando à custa e com o beneplácito das maiores vítimas desse poder – o
povo humilde, pobre, desempregado e desvalorizado. É este povo que, através do
seu voto, uma das armas legais de que dispõe em democracia, confere
legitimidade (da qual se vangloriam para fazerem tudo o que lhes apetece, como
faz Passos Coelho) àqueles que enriquecem desmesuradamente à custa do seu
empobrecimento. Chamo a este fenómeno “escravatura ideológica” porque ele só é
possível na medida em que as pessoas não têm consciência de que o voto em
determinados partidos é um voto em ideologias que são absolutamente contrárias
aos seus interesses. E aquilo que torna possível a escravatura é a alienação da
consciência dos seus direitos. É assim desde tempos imemoriais. A escravatura
só existiu porque os escravos aceitavam a sua condição de escravos como sendo
natural e determinada pela divindade; por isso viviam num estado de alienação
que os levava à resignação e à aceitação da sua condição de escravos. E eram
precisamente os senhores, os seus donos que lhes inculcavam estas crenças e
promoviam esta alienação, pois eram eles que, também nesses tempos, eram donos
deles e do mundo.
Hoje
assistimos a um novo tipo de escravatura, de natureza ideológica, que
desvirtuou a democracia. Ao controlar o voto popular mediante o controlo das
consciências, o poder capitalista continua a ter todas as condições para
agravar as desigualdades entre ricos e pobres que, como sabemos, são cada vez
maiores. Contando, para isso, com os votos desses mesmos pobres.
José
Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com