O
conservadorismo do voto popular é uma questão que me intriga, de há vários anos
a esta parte, e para a qual tenho procurado algumas respostas. Porque é que a
maior parte das pessoas tem tendência a votar sempre no mesmo partido,
escolhendo-o praticamente para toda a vida como se de um clube desportivo se
tratasse? A que se deve essa cristalização abcessiva da escolha eleitoral?
A
questão faz ainda mais sentido na medida em que o fenómeno em causa é
generalizado, tanto no plano histórico como geográfico. Mas também se torna
mais incompreensível quando se constata que existe efetivamente uma tendência
para aderir e votar consecutivamente no mesmo partido, ainda que esse partido
represente, defenda e materialize tudo o que é contrário aos interesses
pessoais, profissionais e cívicos desses mesmos eleitores. Uma espécie de
masoquismo eleitoral do género “quanto mais me prejudicas, mais voto em ti”!
Tratando-se,
como disse, de um fenómeno generalizado, atentemos no caso concreto de
Portugal. Como é que se pode entender que o eleitorado continue a votar massiva
e consecutivamente no PS e no PSD, outorgando-lhe, alternadamente, mandato para
governar o país, quando é certo que existe quase unanimidade na forma muito
negativa como é avaliada a respetiva governação ao longo destes mais de trinta
anos? Se têm governado tão mal, como as pessoas dizem e eles próprios se acusam
mutuamente, por que cargas de água continuam a recolher o vota da maioria?
Tentemos
analisar um conjunto de respostas que, embora retiradas do caso português,
possam, algumas delas, ajudar a compreender o fenómeno noutras latitudes.
A
primeira resposta que aparece, explícita no próprio discurso dos partidos
maioritários, remete para a “segurança” inerente ao conhecido versus o “medo”
face ao desconhecido, ou, se quisermos, a experiência face à inexperiência
rotulada de aventureirismo. Suportando-se estas teses num vasto conjunto de
falácias, a única forma de provar a sua insustentabilidade é, precisamente,
romper com o medo que as suporta através de um voto de rutura com o passado que
será um imprescindível ato de coragem. Este voto de rutura tem de basear-se na
convicção de que, num tão vasto espectro político e ideológico, os únicos
“iluminados” (ainda por cima com as lâmpadas comprovadamente fundidas!) não
podem ser aqueles que conduziram o país a esta “apagada e vil tristeza”; e na
certeza de que a experiência, independentemente do partido a que se pertence,
não é inata, antes se adquire com a prática. Além disso, o medo de ideologias
acusadas de gostos gastronómicos tão exóticos como devorar inocentes ao pequeno
almoço é tão absurdo como usá-lo para estigmatizar determinados partidos
políticos que assim se viram condenados ao ostracismo governativo do país. Este
estigma, que hoje se reproduz e corrobora através da pomposa expressão “arco da
governação”, tem as suas raízes no Estado Novo e incorporou-se na cultura
popular por via de uma ideologia fundada nos conceitos de Deus, Pátria e
Família que Salazar utilizou como pedra basilar e sustentáculo de um regime que
durou meio século. A assimilação e acomodação destes valores na cultura popular
foram facilitadas, também, por outros fatores como o analfabetismo
generalizado, o isolamento face a outros povos e culturas e a conivência entre
o Estado Novo e a hierarquia da Igreja Católica que contribuíram para
diabolizar tudo o que cheirava a ideologias de esquerda. Ainda hoje, passados
tantos anos, a hierarquia católica, apesar de proclamar valores que estão mais
próximos da esquerda do que da direita, tem dificuldade em libertar-se das
amarras ideológicas que vêm do passado. Existe, pois, por parte da generalidade
da população mais desprotegida e marginalizada, o chamado “povo”, um receio
endémico e atávico das ideologias políticas que mais e melhor defendem os seus
interesses. É este paradoxo que carece de explicação. E, para isso, não basta
argumentar que continuamos a ser um país culturalmente atrasado apesar de
termos “evoluído” do analfabetismo para a iliteracia. É preciso perceber que,
por si só, esse atraso cultural não significa incapacidade para pensar e para
reconhecer os próprios interesses, embora contribua para isso. O cerne deste
fenómeno paradoxal está, antes, no modo como as forças políticas e sociais a
quem interessa este status quo eleitoral utilizam esse atraso cultural para o
perpetuarem de geração em geração. (Continua)
José
Júlio Campos