quarta-feira, 19 de junho de 2013

O SR. CAVACO (II)

Num belo dia de março, Aníbal e Maria tomam posse do palácio de Belém, com o beneplácito de Sócrates que não tardaria a provar o veneno cavaquiano. Na pré-campanha para as legislativas de outubro de 2009, Cavaco entendeu ser o momento de levar o PSD ao poder e inicia, oficialmente, a guerra contra Sócrates, inventando a famigerada intentona das escutas no palácio presidencial. Malgrado todo o seu esforço, Sócrates volta a ganhar as eleições; no entanto, tem os dias contados; Cavaco não desiste e torna-se o seu principal opositor. Conseguida a reeleição, em janeiro de 2011, inicia, de imediato, a campanha para derrubar o governo socialista fazendo, logo na tomada de posse, um apelo veemente a um “sobressalto cívico” que significa um “às armas” contra Sócrates; apela a que os jovens, os pais, todos manifestem a sua indignação; declara, solenemente, aquando da apresentação do PEC IV que o povo português já não suporta mais sacrifícios. O PEC é chumbado, Sócrates pede a demissão e Cavaco utiliza a “bomba atómica”, como ele lhe chama: dissolve a Assembleia e marca eleições antecipadas. Passados tantos anos, a crise que soprava da Europa e começava a fazer estragos em Portugal dava-lhe, de mão beijada, a oportunidade de concretizar a velha ambição de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente. Recorrendo a esse ícone do cinismo, da hipocrisia e do maquiavelismo ético-político que dá pelo nome de Paulo Portas, para o qual tudo vale desde que esteja no “poleiro”, Cavaco torna-se, assim, o tutor único e supremo desta espécie de ditadura parlamentar, em que vivemos desde então. E, para quem convive mal com a democracia, à falta de um regime presidencialista, este tipo de regime pode, perfeitamente, satisfazer o seu ego; por isso tem feito tudo, contra quase todos, por mantê-lo, até porque a sorte o bafejou com um chefe de governo sem estrutura nem personalidade cuja incompetência só é comparável à teimosia e vingança que põe na sua governação, à imagem, aliás, do seu tutor. Só assim se compreende a forma totalmente anacrónica como lida com o atual governo em comparação com o anterior: agora, depois de vermos os sacrifícios terem sido triplicados, já não entende que sejam insuportáveis; agora, apesar de o governo insistir em violar a Constituição de forma grosseira e descarada, não o demite – ao invés dá-lhe “colinho”, como quando Passos o procurou, num dos atos mais patéticos e burlescos da história política recente, qual menino mimado que leva uma reprimenda do professor (o Tribunal Constitucional); uma cena de ópera bufa do género “agarrem-me senão eu mato-me!”.
E assim, o sr. Silva, como em tempos lhe chamava o cacique da Madeira, vai vivendo o seu sonho, pesadelo para a maioria dos portugueses, inspirando-se na figura histórica que reencarnou no inconsciente dos mais saudosistas; também ele tem uma Maria como musa inspiradora, com a diferença de que o “outro” a mantinha calada e servente na cozinha e na despensa, enquanto Cavaco não prescinde de a trazer a tiracolo, autorizando-lhe mesmo que rivalize com ele no que respeita às tiradas mais ridículas. Aliás, neste aspeto, Cavaco vai de mal a pior, algo que não deve ser alheio a um natural processo de degenerescência neurológica que parece manifestar-se até no modo como tem vindo a acrescentar aos esgares histriónicos o entaramelamento preocupante da fala. Será, também, essa, a explicação para algumas das suas “gaffes” mais recentes, como ter-nos apelidado de “cidadões”, ou como ter insultado os portugueses quando se queixou de receber da CGA, mai-la sua Maria, uma reforma que mal chega para pagar as despesas da casa (da dele, onde não vive, porque daquela onde vive, com pompa e mordomia, somos nós que as pagamos); só ele, de pensões variadas, recebe cerca de dez mil euros mensais. Mas o auge da tragicomédia em que se tornaram as declarações de Cavaco ocorreu no passado dia 14 de maio, quando afirmou, inspirado pela sua musa Maria, que a aprovação pela troika na 7ª avaliação a Portugal se teria devido a “uma inspiração de Nossa Senhora de Fátima”! (Não deixa de ser curioso que também houve quem tentasse associar a instauração do Estado Novo a uma intervenção divina, através de Fátima). Será que Cavaco confunde a troika com a Santíssima Trindade? E, a atentar nas suas mais recentes declarações, qual das três pessoas é o FMI?! É inqualificável este recurso à área do sagrado para explicar fenómenos sócio-políticos; é um insulto, tanto a não crentes como, sobretudo, a crentes, pois trata-se de invocar o nome de Deus em vão, como muito bem lembrou Jorge Miranda.
O diagnóstico do nosso país é, pois, elementar: temos um governo que já passou do estado de coma ao estado de decomposição, teimosamente ligado a uma máquina também ela em acelerado processo de degenerescência.
E assim vai definhando Portugal.



José Júlio Campos