Terminou, há poucos
dias, o inverno mais seco desde que existem registos de pluviosidade em
Portugal. Trata-se de um facto que exige uma reflexão, para além da proverbial
resignação de quem sabe que, contra as adversidades climáticas, ao homem pouco
mais resta do que promover umas novenas e pedir clemência a S. Pedro como fez a
ministra Cristas. Mas será que a responsabilidade pelo clima é apenas do santo
que tem as chaves do Paraíso e o problema se enfrenta com as estratégias da
ministra?
Até há um século
atrás, poderíamos dizer que sim: sempre existiram “variações” climáticas
naturais num planeta vivo, onde ocorrem permanentes transformações bioquímicas
e os eventuais desvarios dos ciclos climáticos se resolviam com uma boa dose de
paciência e umas orações ou umas danças!
Acontece que hoje,
a esse fenómeno natural acresce e sobrepõe-se um outro designado por
“alterações” climáticas, este provocado pela ação humana. Desde o séc. XIX, a
civilização ocidental desenvolveu e disseminou um “monstro” conhecido como
“capitalismo industrial” cuja lógica se resume ao seguinte: produzir mais,
vender mais, lucrar mais. No entanto, esta lógica levada ao extremo e praticada
sem limites, como tem vindo a acontecer, acabou por trazer consequências
dramáticas no equilíbrio social e ambiental do planeta. A nível social, a
lógica capitalista assenta na imposição de uma mentalidade consumista
alimentada por uma publicidade agressiva e imoral que explora os sentimentos,
as emoções e as necessidades mais básicas e vulneráveis do ser humano. Este
consumismo capitalista é responsável pelo crescimento exponencial das
desigualdades sociais e a consequente criação de um exército cada vez maior de
miseráveis que começa a tornar-se uma ameaça séria à estabilidade e segurança
das comunidades. A nível ambiental, as consequências do capitalismo industrial
são, ainda, mais nefastas. A maquiavélica obsessão pelo lucro leva a uma
produção incessante em que não se olha a meios e recursos para o aumentar. O
deus-lucro, único que o capitalista adora, sobrepõe-se a todos e tudo é sacrificado
no seu altar – a gestão equilibrada dos recursos naturais e do ambiente, a
dignidade do ser humano e o seu natural direito a usufruir de condições de vida
saudáveis, a partilha equitativa e justa dos bens naturais, enfim, o próprio
equilíbrio ecológico do planeta. A voragem do lucro tem levado à extinção de
várias espécies vegetais e animais, bem como a processos de produção industrial
e hábitos de consumo altamente poluidores e diretamente responsáveis por
fenómenos como o aumento da temperatura média global, a destruição da camada de
ozono, o efeito de estufa ou o degelo dos glaciares. E não resta hoje qualquer
dúvida que os invernos secos como este que terminou, os verões cada vez mais
quentes, a desertificação de vastas regiões, como o Alentejo, as catástrofes
naturais já vistas ou iminentes, como tufões, cheias, tsunamis, tornados, ou a
subida do nível dos mares, são consequências diretas desse sistema económico, a
que estaremos sujeitos cada vez com maior frequência e gravidade, caso os EUA, a
China e quejandos continuem a fomentar esta corrida para o abismo que são as
suas políticas irresponsáveis. Mas também a nível individual existe uma
responsabilidade que nos impõe uma inevitável e imediata mudança de
mentalidade: é urgente uma alteração radical nos nossos hábitos no sentido de
consumirmos menos e melhor, valorizarmos o essencial – o ser – em detrimento do
acessório – o ter, não viver para consumir, mas consumir apenas o estritamente
essencial para viver. Só desta forma poderemos escapar ao apetite insaciável dos
tubarões que se perfilam por trás da máquina industrial capitalista e reduzir
esta marcha acelerada para a destruição do planeta.