sexta-feira, 28 de maio de 2010

100 ANOS DEPOIS: PODERÁ REPETIR-SE A HISTÓRIA?

“A corrupção política está à solta”
João Cravinho, deputado europeu, em sede de Comissão Parlamentar.

“os operadores judiciais têm de fazer um exame crítico e analítico, interrogarem-se porque é que os magistrados estão no fundo da tabela de confiança dos portugueses.”
“principais problemas da justiça: falta de celeridade, défice de investigação, dificuldades no acesso dos cidadãos à justiça, problemas de credibilidade institucional.”
Alberto Martins, ministro da Justiça, em entrevista ao semanário “Expresso” de 02/04/2010.

A afirmação proferida por João Cravinho soa como uma verdade tão óbvia que, apesar da gravidade que encerra, nem sequer provocou polémica; pelo contrário, foi como se João Cravinho se tivesse limitado a dizer publicamente aquilo que qualquer cidadão pensa e afirma em privado. E nem sequer será necessário fundamentar essa afirmação tal é a quantidade de casos que a justificam, que todos os dias nos entram pelos olhos dentro e cuja enumeração seria fastidiosa de tão extensa.
Curiosamente, apesar de, dia sim, dia não, aparecerem ou reaparecerem suspeitas de corrupção, aberturas de inquéritos, ou investigações policiais envolvendo políticos de todas as dimensões, tanto da Administração Central, como da Administração Local, o certo é que, desta “montanha”, nem sequer o simples “rato” de uma condenação exemplar, de um processo levado até ao fim de forma consensualmente justa e eficaz. Porquê? Não é muito crível que de tanto fumo o fogo seja tão pouco, ou nenhum; então, bastará um exercício da lógica mais elementar para concluir que as palavras de Alberto Martins, insuspeitas por virem do mais alto responsável pela Justiça, ajudam a explicar esses resultados frustrantes para o cidadão justo e respeitador que vê os corruptos andarem à solta e com “milhões” nas respectivas contas bancárias ou off-shores, enquanto ele, cidadão honesto e trabalhador, se vê cada vez mais “esmifrado” do pouco que aufere com o suor do seu rosto, pelos PEC’s e outras medidas do género.
Vem toda esta constatação a propósito da comemoração do Centenário da Instauração da República.
E porquê? Porque basta pegar numa História de Portugal para verificarmos, com toda a limpidez, a semelhança entre a situação política e social vivida nos primeiros dez anos do séc. XX e esta primeira década do séc. XXI. Para isso nada melhor do que atentar na forma como o historiador Rui Ramos descreve essa situação na História de Portugal dirigida por José Mattoso, edição do Círculo de Leitores e Autores, vol. XI, pág. 277: “Para ele, (João Franco), os Portugueses eram, em face da Europa Central e Ocidental, o povo mais atrasado, mais pobre e mais infeliz. A causa de tanta tristeza estava na incompetência e corrupção administrativas. Tais vícios haviam prosperado prodigiosamente desde que a cumplicidade entre os dois partidos rotativos haviam assegurado aos governos que ninguém fiscalizaria o que faziam. A solução era democratizar o Estado, interessar mais gente na vida pública, responsabilizar criminalmente os políticos – enfim, sujeitar o Poder aos tribunais e à opinião pública.”
Feita esta constatação que me parece elementar, curiosa até pelo facto de também o Portugal pós 25 de Abril viver na dependência de dois partidos rotativos, resulta daqui que, no mínimo, a sociedade portuguesa se encontra num daqueles momentos em que alguma coisa tem de mudar e não, como tantas vezes acontece, para continuar tudo na mesma; aliás, esse é o estratagema dos reformistas e, destes, parece-me que já vamos tendo a nossa conta.
Então, se não é com reformismos que a sociedade se regenera, como será?
A História, mais uma vez, é a grande mestra – não há progresso real, nem evolução significativa, sem revolução.
Acontece que, para se fazerem revoluções, são precisas, pelo menos, duas coisas – cidadãos com coragem e povo lúcido e atento ao mundo em que vive. Ora, para descanso dos que chafurdam na lama da corrupção que grassa em Portugal, não me parece que essas duas condições existam, actualmente, no nosso País. Efectivamente, gente com coragem há muito pouca, nomeadamente na comunicação social, onde isso se impunha mais do que em qualquer outra área. Aliás, não é por acaso que uma actividade economicamente pouco rentável é objecto de tanta cobiça por parte do poder político e económico; é que o “status quo” só pode eternizar-se se a opinião pública estiver controlada e adormecida. Daí o controlo quase total da comunicação social por parte dos políticos e dos grupos económicos. E os jornalistas? Como meros peões de brega sacrificam a sua coragem e a sua independência intelectual à necessidade de alimentar os filhos; ou de subir na vida! Resumem-se e reduzem-se a ser “a voz do dono”. E o povo? “O povo quer é dinheiro p’ra comprar um carro novo”, como cantam os “Homens da Luta”! É o consumismo puro e duro a impor as suas leis da estupidificação e da alienação em que todos andamos mergulhados neste regime neo-liberal a que parece estarmos condenados.
Comparar o Portugal de hoje com o Portugal de há 100 anos é, pois, um exercício que faz todo o sentido no que respeita ao “estado da Nação”, mas que deixa muito a desejar se atendermos às tais condições que tornaram possível a Revolução de 5 de Outubro de 1910 e que nos parece colocar tão longe de uma mudança de regime, se calhar nos próximos 100 anos. E isto é uma crítica ao Portugal actual, mas é também um louvor a todos aqueles que lutaram pelos ideais da República e conseguiram impô-los num País decadente, pobre, inculto e mergulhado na corrupção política tanto como o de hoje.
Será necessário reactualizar a leitura e o estudo de Friedrich Nietzsche e Karl Marx, dois pensadores tão influentes nas mentalidades de há um século atrás, para que se perceba a urgência da mudança?



José Júlio Campos