Caros
jovens:
Convosco que
nascestes nos últimos trinta anos, gostava de partilhar algumas reflexões sobre
a atualidade e os problemas que enfrentamos, quando passam já trinta e oito
anos depois do 25 de Abril de 1974.
Em primeiro
lugar queria dizer que, apesar das óbvias diferenças entre a minha geração e a
vossa, não sou daqueles que pensam que “no meu tempo é que era”, “os jovens de
hoje não sabem nada” ou “sabia-se mais no meu tempo com a 4ª classe do que
agora com tantos estudos”; digo-vos que quando eu tinha a vossa idade também
ouvia dizer isso! Essa forma de pensar é típica de todas as gerações quando
atingem a “velhice” e resulta de uma certa ignorância sobre a evolução cultural
e social dos povos; é uma tendência natural para avaliar toda a realidade pela
bitola que nos é transmitida na juventude, mas que pode tornar-se responsável
por um certo mal-estar e incompreensão que muitas vezes se instala na relação
entre gerações diferentes. Se há alguma coisa que vocês, jovens, dispensam
perfeitamente são os paternalismos bacocos e as críticas infundadas. No
entanto, tenho constatado que há algo para o qual estais perfeitamente abertos,
diria mesmo, expectantes para receber de nós mais velhos: a chamada
“experiência de vida”.
Posto este
preâmbulo, passaria ao cerne desta reflexão.
Felizmente
que, graças à geração dos vossos avós, a minha geração e a vossa já não teve de
passar pela horrível experiência de viver num regime político ditatorial,
caraterizado pela total falta de respeito pelos direitos, liberdades e
garantias dos cidadãos. Eu tinha apenas dez anos quando o 25 de Abril pôs fim a
um regime autoritário, repressivo e policial, onde, algo tão básico para nós
como dizer o que pensamos, na rua, nos cafés, na comunicação social, até em
família, podia ser motivo para uma perseguição que, quase sempre, terminava na
estigmatização social, na prisão, na destruição de uma ou várias vidas. Os
testemunhos dessa época estavam ainda muito vivos quando eu tinha a vossa idade
e me fiz homem, ao contrário de hoje em que muita gente parece ter esquecido
esses tempos, ou por estarem muito longínquos, ou por, como eu, mal os terem
vivido. Mas eles existiram e é bom que não percamos a memória deles, porque um
povo que perde a memória perde a identidade como se sofresse da doença de
Alzheimer. Devemos essa mudança a todos aqueles que enfrentaram corajosamente
um poder político infinitamente mais forte do que eles; e foram muitos os que
pagaram com a vida, ou com um futuro para sempre hipotecado, essa sua coragem,
resistência e inconformismo. E não esqueçamos que todas as revoluções são
dolorosas. Teríamos nós essa mesma coragem se tivéssemos vivido nesse tempo? É
uma questão que vos deixo para refletirdes, sabendo que não passa de uma mera hipótese
académica. Mas … e se transpusermos a questão para uma realidade mais plausível
e atual: e se hoje fosse necessário ter coragem para fazer outra revolução?
Será que teríamos essa coragem ou preferiríamos a covardia de pensar que,
enquanto o desemprego, a fome e a miséria não me afetar e for um problema do
vizinho, eu não tenho que me preocupar com isso? Será que a atual situação de
total descrença e quase desespero perante o futuro, que as atuais gerações no
poder vos estão a criar, não será um motivo suficientemente forte para vos
acordar da letargia e do conformismo em que vos acomodais no “ninho paterno”?
Será que as condições de vida que se perfilam no horizonte da sociedade atual
são menos atentatórias da dignidade humana do que as que levaram os nossos
antepassados, no nosso e noutros países, a protagonizar revoltas libertadoras?
Consciente
de que as grandes mudanças não se fazem num dia, exorto-vos apenas a que
estejais atentos e reflitais sobre os problemas que enfrentamos no mundo atual;
não vos acomodeis como aquela nêspera do poema de Mário Henrique Leiria,
superiormente recitado pelo saudoso ator Mário Viegas:
“Uma nêspera/ estava na cama /deitada/ muito calada /a ver /o que acontecia
chegou a Velha/ e disse/ olha uma nêspera /e zás comeu-a
é o que acontece /às nêsperas /que ficam deitadas/ caladas/ a esperar /o que acontece”
José Júlio Campos