quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

AFINAL, SOMOS RICOS!...

A rocambolesca deriva do governo português aquando do episódio da última renegociação da dívida grega foi a prova inequívoca dos equívocos em que Passos Coelho e seus acólitos têm mergulhado de forma persistente. Vá lá perceber-se porquê.
Efetivamente, quando a Grécia, no início de dezembro, conseguiu um novo empréstimo da troika em condições bastante mais vantajosas do que as concedidas a nós e aos irlandeses, pensou-se, todos pensámos, inclusive o ministro Gaspar e o sr. Juncker, que chegara a hora de os nossos credores aliviarem o garrote da austeridade. A mais elementar lógica do bom senso fez nascer a esperança de uma renegociação que permitisse reduzir os juros que temos de pagar à banca troikiana e, quiçá, dilatar os prazos para esse pagamento, condição sine qua non, segundo economistas de todas as áreas políticas, para pensar em sair da crise. Se os gregos beneficiaram dessas condições, seria da mais elementar justiça que também os portugueses e os irlandeses beneficiassem. Essa esperança era tão legítima que até o ministro Gaspar cavalgou nela para Bruxelas depois de, ufanamente, a ter aparelhado no nosso Parlamento. O problema foi que nem Gaspar, nem Passos, nem Juncker, nem nenhum dos simples mortais portugueses contou com a retorcida lógica da deusa Merkel que, através do oráculo do seu ministro das finanças, fez ruir estrondosamente este sonho de uma noite de inverno, ao sibilar no Parlamento Europeu que nós, portugueses, não beneficiaríamos nada em ter melhores condições para pagar a dívida porque isso iria colocar-nos, aos olhos dos mercados financeiros, ao mesmo nível da Grécia e nós não deveríamos querer ser como os gregos por uma questão de credibilidade; ou seja, devíamos deixar-nos de devaneios, ter juizinho e continuarmos a portar-nos como alunos exemplares. Ajoelhado perante a argumentação merkeliana, mais não restou a Gaspar, mal aterrou em Bruxelas, que não fosse desmontar a, novamente, inopinada cavalgadura da esperança portuguesa e reassumir estoicamente as rédeas da paranóica montada do “custe o que custar”, qual D. Egas Moniz da lusitana mercearia. Sim, porque esta teimosia do governo português em apresentar-se de corda ao pescoço, perante os agiotas da troika, dando-lhes o beneplácito de eles a esticarem a seu bel-prazer, mais não é do que a manifestação de uma provinciana mentalidade de tendeiro, à boa maneira salazarenta, em que a economia do país é gerida à escala e por padrões de mercearia de bairro. A globalizada e nada ética economia internacional exige, hoje, outros modelos de relação económica, em que a negociação deve ser permanente e ter como objetivo a obtenção das maiores vantagens para cada país envolvido; os nossos governantes deviam ser uma espécie de nossos advogados a defender os nossos interesses nos areópagos internacionais. Afinal, não são. Afinal, como se provou com este episódio, os nossos governantes estão mais interessados em governar e defender os interesses do FMI, do BCE e dos tubarões da banca internacional que estão por trás dessas instituições, mesmo que a defesa desses interesses signifique mergulhar o povo português na mais completa pobreza, como preconiza Passos Coelho. Pobreza material e pobreza de espírito, como antigamente, antes do 25 de abril, a avaliar pelo que está a ser feito também na educação e na cultura.
Sejamos objetivos: nós não somos mais ricos do que a Grécia, como provaram os últimos cálculos dos respetivos PIB’s, para usufruirmos de condições muito mais exigentes do que as deles, num empréstimo semelhante, embora de menor dimensão; o argumento do “oráculo” alemão sobre o impacto nos mercados financeiros é tão retorcido que é exatamente o oposto – seguramente, os mercados ficariam mais confiantes na nossa economia se nós tivéssemos mais facilidades para pagar a dívida e pudéssemos mais rapidamente sair da recessão em que os juros dessa dívida persistem em nos afundar; os nossos credores já beneficiaram o suficiente com o empréstimo que nos fizeram e os respetivos juros, à taxa a que estamos a pagar, ajudam-nos mais a eles do que a nós; não só os gregos, atualmente, mas também os próprios alemães, no passado, beneficiaram de perdões de dívida para saírem das suas crises.
Assim sendo, e ao contrário da doutrina repetida até à exaustão pelo governo e pelos partidos que o sustentam irracionalmente, existem alternativas para começar uma saída da crise; o problema é que, quando essas alternativas são apontadas, eles fazem ouvidos de mercador e continuam teimosamente no “custe o que custar”, fugindo da palavra “renegociação” como o diabo da cruz. Porquê? Para salvar a face em termos políticos? Ou para defender os tais outros interesses? E, a ser esta a resposta, a troco de quê?
Por tudo isto, não faz sentido continuarem a fazer de nós pobres de espírito, antes do tempo, insistindo na falta de alternativas. Neste momento, o grande peso que impede a economia portuguesa de se levantar são os juros da dívida e os privilégios de que alguns continuam a usufruir, como os beneficiários das PPP’s e das rendas pagas pelo Estado. Então, é por aí que o governo deve enveredar e não pela destruição pura e dura da vida de milhões de portugueses como tem vindo a fazer.



José Júlio Campos