A rocambolesca
deriva do governo português aquando do episódio da última renegociação da
dívida grega foi a prova inequívoca dos equívocos em que Passos Coelho e seus
acólitos têm mergulhado de forma persistente. Vá lá perceber-se porquê.
Efetivamente,
quando a Grécia, no início de dezembro, conseguiu um novo empréstimo da troika
em condições bastante mais vantajosas do que as concedidas a nós e aos
irlandeses, pensou-se, todos pensámos, inclusive o ministro Gaspar e o sr.
Juncker, que chegara a hora de os nossos credores aliviarem o garrote da
austeridade. A mais elementar lógica do bom senso fez nascer a esperança de uma
renegociação que permitisse reduzir os juros que temos de pagar à banca
troikiana e, quiçá, dilatar os prazos para esse pagamento, condição sine qua non, segundo economistas de
todas as áreas políticas, para pensar em sair da crise. Se os gregos
beneficiaram dessas condições, seria da mais elementar justiça que também os
portugueses e os irlandeses beneficiassem. Essa esperança era tão legítima que
até o ministro Gaspar cavalgou nela para Bruxelas depois de, ufanamente, a ter
aparelhado no nosso Parlamento. O problema foi que nem Gaspar, nem Passos, nem
Juncker, nem nenhum dos simples mortais portugueses contou com a retorcida
lógica da deusa Merkel que, através do oráculo do seu ministro das finanças,
fez ruir estrondosamente este sonho de uma noite de inverno, ao sibilar no
Parlamento Europeu que nós, portugueses, não beneficiaríamos nada em ter
melhores condições para pagar a dívida porque isso iria colocar-nos, aos olhos
dos mercados financeiros, ao mesmo nível da Grécia e nós não deveríamos querer
ser como os gregos por uma questão de credibilidade; ou seja, devíamos
deixar-nos de devaneios, ter juizinho e continuarmos a portar-nos como alunos
exemplares. Ajoelhado perante a argumentação merkeliana, mais não restou a
Gaspar, mal aterrou em Bruxelas, que não fosse desmontar a, novamente,
inopinada cavalgadura da esperança portuguesa e reassumir estoicamente as rédeas
da paranóica montada do “custe o que custar”, qual D. Egas Moniz da lusitana
mercearia. Sim, porque esta teimosia do governo português em apresentar-se de
corda ao pescoço, perante os agiotas da troika, dando-lhes o beneplácito de
eles a esticarem a seu bel-prazer, mais não é do que a manifestação de uma
provinciana mentalidade de tendeiro, à boa maneira salazarenta, em que a
economia do país é gerida à escala e por padrões de mercearia de bairro. A
globalizada e nada ética economia internacional exige, hoje, outros modelos de
relação económica, em que a negociação deve ser permanente e ter como objetivo
a obtenção das maiores vantagens para cada país envolvido; os nossos
governantes deviam ser uma espécie de nossos advogados a defender os nossos
interesses nos areópagos internacionais. Afinal, não são. Afinal, como se
provou com este episódio, os nossos governantes estão mais interessados em
governar e defender os interesses do FMI, do BCE e dos tubarões da banca
internacional que estão por trás dessas instituições, mesmo que a defesa desses
interesses signifique mergulhar o povo português na mais completa pobreza, como
preconiza Passos Coelho. Pobreza material e pobreza de espírito, como
antigamente, antes do 25 de abril, a avaliar pelo que está a ser feito também
na educação e na cultura.
Sejamos objetivos:
nós não somos mais ricos do que a Grécia, como provaram os últimos cálculos dos
respetivos PIB’s, para usufruirmos de condições muito mais exigentes do que as
deles, num empréstimo semelhante, embora de menor dimensão; o argumento do
“oráculo” alemão sobre o impacto nos mercados financeiros é tão retorcido que é
exatamente o oposto – seguramente, os mercados ficariam mais confiantes na
nossa economia se nós tivéssemos mais facilidades para pagar a dívida e
pudéssemos mais rapidamente sair da recessão em que os juros dessa dívida
persistem em nos afundar; os nossos credores já beneficiaram o suficiente com o
empréstimo que nos fizeram e os respetivos juros, à taxa a que estamos a pagar,
ajudam-nos mais a eles do que a nós; não só os gregos, atualmente, mas também
os próprios alemães, no passado, beneficiaram de perdões de dívida para saírem
das suas crises.
Assim sendo, e ao
contrário da doutrina repetida até à exaustão pelo governo e pelos partidos que
o sustentam irracionalmente, existem alternativas para começar uma saída da
crise; o problema é que, quando essas alternativas são apontadas, eles fazem
ouvidos de mercador e continuam teimosamente no “custe o que custar”, fugindo
da palavra “renegociação” como o diabo da cruz. Porquê? Para salvar a face em
termos políticos? Ou para defender os tais outros interesses? E, a ser esta a
resposta, a troco de quê?
Por tudo isto, não
faz sentido continuarem a fazer de nós pobres de espírito, antes do tempo,
insistindo na falta de alternativas. Neste momento, o grande peso que impede a
economia portuguesa de se levantar são os juros da dívida e os privilégios de
que alguns continuam a usufruir, como os beneficiários das PPP’s e das rendas
pagas pelo Estado. Então, é por aí que o governo deve enveredar e não pela
destruição pura e dura da vida de milhões de portugueses como tem vindo a
fazer.
José Júlio Campos