Passou um quarto de
século desde que cheguei a Aguiar da Beira para dar continuidade a uma carreira
que tinha iniciado, poucos meses antes, em Lisboa, na Escola Secundária de
Linda-a-Velha. O saudoso Padre Fonseca tinha-me proporcionado a possibilidade
de ocupar o lugar que ficara vago no meu grupo e, em Outubro de 1987, comecei a
leccionar no antigo Externato de Aguiar da Beira até ao seu encerramento, meia
dúzia de anos depois. Desses seis anos em que permaneci no Colégio ficou, para
sempre, a lembrança de um ambiente familiar entre os poucos docentes que
asseguravam as atividades letivas. Criei, então, algumas amizades, daquelas que
perduram para toda a vida. Recordo, com especial saudade, aquele que foi o
obreiro do ensino pós primário em Aguiar da Beira, o Reverendo Padre Fonseca.
Com ele fiz o meu “estágio” e aprendi muito daquilo que a Universidade não me
tinha ensinado, para ser professor; o lema que ele fazia questão de pôr em
prática e que tentava incutir a todos os docentes era “liberdade, com
responsabilidade”. Creio ter percebido este princípio e nele me tenho
inspirado, ao longo dos anos, na minha função de educador; efetivamente, para
além de transmitir um conjunto de saberes e competências que deverão ser úteis
na vida ativa, a escola tem, também, a iniludível tarefa de se associar à
família na educação e formação de cidadãos autónomos, responsáveis e
participativos. Com ele aprendi, também, a gostar de Aguiar da Beira; conheci
poucas pessoas que gostassem tanto de Aguiar como ele. Lembro-me que, quando
lhe confidenciava a minha intenção de regressar a Lisboa, assumia aquele seu ar
simultaneamente sério e prazenteiro e dizia convictamente: “Lisboa? Ó meu caro
amigo, aqui é que há qualidade de vida, aqui é que há qualidade de vida!” Tinha
razão, como sempre, o Sr. Padre Fonseca. De tal maneira que por cá fui ficando,
e sem qualquer espécie de arrependimento; casei, nasceram-me os filhos e só
dezassete anos depois, por razões profissionais, acabei por mudar de residência
para um concelho vizinho. Mas continuo a sentir-me um aguiarense.
Em 1987, Aguiar da
Beira era, fisicamente, bastante diferente; seria fastidioso enumerar todos os
bairros, ruas e construções novas que, ao longo destes 25 anos, transformaram a
sua face. Hoje, Aguiar da Beira é uma vila bastante maior, mais composta e
dotada de infra-estruturas modernas e atrativas. Mas a alma duma terra não é
apenas o seu aspeto físico – é, também, a sua “geografia sentimental” e humana,
para usar uma expressão do nosso grande vizinho Aquilino. Essa “geografia”
alimenta-se nos convívios diários que ocorrem nos seus espaços públicos e nas
tradições que se vão alicerçando em práticas ancestrais, consolidando uma
cultura peculiar feita de expressões, hábitos, gostos, referências, histórias …
que fazem a identidade de um povo. Existem em todas as comunidades ligações
umbilicais entre essa identidade e determinados locais privilegiados de
interação; um desses locais que, em Aguiar da Beira, a modernização fez
desaparecer foi o antigo “Café das Bombas”. Os elementos ideológicos da cultura
de uma comunidade estão de tal maneira enraizados nos espaços físicos em que se
desenvolvem que o desaparecimento ou modificação destes acarreta, lenta, mas
inexoravelmente, a transformação ou desaparecimento daqueles; essa é uma
inevitabilidade inerente ao progresso de qualquer comunidade. Importa que as
novas gerações saibam integrar as transformações físicas e culturais em que vão
participando, salvaguardando sempre aquela essência, aquele proprium de identidade, específico de
uma comunidade, que deve constituir-se como um dos elementos estruturantes da
personalidade de cada indivíduo. Para isso é absolutamente imprescindível o
papel das gerações mais velhas, no sentido de transmitir e perpetuar os elementos
que constituem essa herança cultural. A alma de um povo é a sua memória.
Parece-me que os
aguiarenses têm sabido preservar essa identidade cultural, apesar de todas as
mudanças ocorridas ao longo deste quarto de século.
PS – Em Janeiro de 2013, completar-se-ão 20 anos
sobre o falecimento do Padre José Augusto da Fonseca. Para quando a elaboração
de uma Biografia daquele que foi a maior figura da história de Aguiar da Beira
no século XX? À atenção da Câmara Municipal, da Paróquia de Aguiar da Beira e
da sua família.