terça-feira, 25 de setembro de 2012

UM ANO E MEIO DEPOIS…

Um ano e meio de governação parece ter sido suficiente para que a generalidade da população tenha entendido as reais intenções dos partidos da coligação. Obviamente só ainda não entendeu quem não quer, quem não tem interesse nisso, ou quem é incapaz de pensar pela própria cabeça limitando-se a repetir estribilhos simplistas como “ temos de pagar os desvarios dos outros”. Durante mais de um ano, o pessoal foi andando mais ou menos iludido entre o refrão do “custe o que custar”, numa espécie de demanda da honra perdida, e a ridícula subserviência à fraulein Merkel, perante quem os nossos governantes se derretem como alunos bem comportados e delatores que fazem mais trabalhos de casa do que lhes é pedido e estão sempre disponíveis para acusar os infratores ou os menos bem comportados, neste caso, os gregos. Parecia a alguns governantes e seus fiéis acólitos da liturgia mediática que os elogios da troika (ou tríade?) e da líder do país que elegeu Hitler eram a garantia de que tudo por cá corria como previsto pelo governo e estávamos a caminho do fim da crise, com a restauração da independência nacional a ser possível lá para daqui a um ano, quando poderíamos voltar aos mercados financeiros sem ser pela mão da troika. Afinal, esses elogios revelaram-se apenas como gorjeios de satisfação da parte de agiotas que se comprazem em ver os seus exorbitantes juros pagos religiosamente ainda que à custa do empobrecimento e miserabilização dos devedores. Dizia Passos Coelho, há um ano atrás, que “só vamos sair da crise empobrecendo”. Pelos vistos não mudou de ideias e a insistência no “custe o que custar” está sobretudo a contribuir para esse empobrecimento do país que nos limitará durante muitos anos a pagar juros (são quase dez mil milhões de euros por ano) e a contrair mais dívida para pagar os juros sem nunca nos libertarmos deste círculo vicioso para gáudio dos tais credores agiotas da troika ou doutras máfias. Empobrecimento esse que continuará, como agora se mostra claro, à custa do esbulho do trabalhador contribuinte e não dos tão candidamente prometidos emagrecimento do estado, diminuição das escandalosas rendas pagas nas PPP’s e racionalização de gastos com assessores, viaturas e outras mordomias; aliás, nestas matérias, para usar um termo tão do agrado de certos deputados da maioria para se referirem ao governo anterior, continua o regabofe. Curiosamente, no final do verão, no Pontal, à porta fechada, Passos Coelho regozijava-se: “no que é importante, não falhámos: nem no défice, nem na dívida”; e ia mais longe ao afirmar que a recuperação económica começaria já em 2013. O problema é que, poucos dias depois, a realidade e o 5º exame da troika foram madrastas para Passos Coelho: afinal, para além daquilo que a realidade já o tinha obrigado a reconhecer – o agravamento da recessão e os recordes sucessivos nas taxas de desemprego – também as metas do défice estavam fora de controlo, devido a um “desvio colossal” (!) de dois mil milhões de euros entre as receitas reais e as previstas pelo governo. Como consequência imediata, a impossibilidade de cumprir o acordado com a troika e a necessidade de prolongar o programa para 2014, obrigando ainda a mais austeridade para 2013. Vai daí, mais uma invenção do trio Gaspar-Passos-Borges – aumentar em 7% a contribuição dos trabalhadores para a segurança social e reduzir, proporcionalmente, esse encargo aos empregadores. O problema é que perante esta alarvidade não foi só a muda realidade a opor-se – foi toda a cabeça pensante e falante deste país, incluindo os próprios beneficiários da medida, que, seguramente, fizeram Passos Coelho sentir-se o protagonista daquela anedota em que um amigo telefona a outro e diz: “Oh, pá! Vais na auto-estrada? Olha que ouvi dizer nas notícias que vai um condutor em contramão!”; ao que o outro responde: “Eh, pá! Só um? Vêm todos!...”
É este conflito permanente com a mais prosaica realidade, por parte do governo, que faz temer o pior para o nosso país. Afinal, os gregos podem não ser os únicos entalados da Europa. As manifestações de 15 de Setembro são um (bom) prenúncio de que a paciência dos portugueses (tão do agrado do primeiro-ministro) também tem limites como a dos gregos. E, até ver, tiveram o efeito perverso de levar o governo a corrigir o tiro, embora sem alterar o alvo – em vez de esbulhar o trabalhador através da TSU, vai fazê-lo através do aumento do IRS; ou seja, as vítimas continuam a ser as mesmas e os efeitos previsíveis igualmente recessivos e destruidores da classe média.
A História está repleta de governantes, que teimam em ignorar a realidade e avançam temerosamente “de vitória em vitória até à derrota final”, como Sadam Hussein que proclamava vitória com os americanos já dentro de Bagdad! Esperemos que Passos Coelho não esteja firmemente decidido a engrossar esse lote de teimosos, ou cegos com poder, que conduzem o seu povo por virtuais caminhos frondosos até o fazer despenhar no mais fundo precipício.


José Júlio Campos