Um ano e meio de governação parece ter sido suficiente para que a
generalidade da população tenha entendido as reais intenções dos partidos da
coligação. Obviamente só ainda não entendeu quem não quer, quem não tem
interesse nisso, ou quem é incapaz de pensar pela própria cabeça limitando-se a
repetir estribilhos simplistas como “ temos de pagar os desvarios dos outros”.
Durante mais de um ano, o pessoal foi andando mais ou menos iludido entre o
refrão do “custe o que custar”, numa espécie de demanda da honra perdida, e a
ridícula subserviência à fraulein Merkel, perante quem os nossos governantes se
derretem como alunos bem comportados e delatores que fazem mais trabalhos de
casa do que lhes é pedido e estão sempre disponíveis para acusar os infratores
ou os menos bem comportados, neste caso, os gregos. Parecia a alguns
governantes e seus fiéis acólitos da liturgia mediática que os elogios da
troika (ou tríade?) e da líder do país que elegeu Hitler eram a garantia de que
tudo por cá corria como previsto pelo governo e estávamos a caminho do fim da
crise, com a restauração da independência nacional a ser possível lá para daqui
a um ano, quando poderíamos voltar aos mercados financeiros sem ser pela mão da
troika. Afinal, esses elogios revelaram-se apenas como gorjeios de satisfação
da parte de agiotas que se comprazem em ver os seus exorbitantes juros pagos
religiosamente ainda que à custa do empobrecimento e miserabilização dos
devedores. Dizia Passos Coelho, há um ano atrás, que “só vamos sair da crise
empobrecendo”. Pelos vistos não mudou de ideias e a insistência no “custe o que
custar” está sobretudo a contribuir para esse empobrecimento do país que nos
limitará durante muitos anos a pagar juros (são quase dez mil milhões de euros
por ano) e a contrair mais dívida para pagar os juros sem nunca nos libertarmos
deste círculo vicioso para gáudio dos tais credores agiotas da troika ou
doutras máfias. Empobrecimento esse que continuará, como agora se mostra claro,
à custa do esbulho do trabalhador contribuinte e não dos tão candidamente
prometidos emagrecimento do estado, diminuição das escandalosas rendas pagas
nas PPP’s e racionalização de gastos com assessores, viaturas e outras
mordomias; aliás, nestas matérias, para usar um termo tão do agrado de certos
deputados da maioria para se referirem ao governo anterior, continua o
regabofe. Curiosamente, no final do verão, no Pontal, à porta fechada, Passos
Coelho regozijava-se: “no que é importante, não falhámos: nem no défice, nem na
dívida”; e ia mais longe ao afirmar que a recuperação económica começaria já em
2013. O problema é que, poucos dias depois, a realidade e o 5º exame da troika
foram madrastas para Passos Coelho: afinal, para além daquilo que a realidade
já o tinha obrigado a reconhecer – o agravamento da recessão e os recordes
sucessivos nas taxas de desemprego – também as metas do défice estavam fora de
controlo, devido a um “desvio colossal” (!) de dois mil milhões de euros entre
as receitas reais e as previstas pelo governo. Como consequência imediata, a
impossibilidade de cumprir o acordado com a troika e a necessidade de prolongar
o programa para 2014, obrigando ainda a mais austeridade para 2013. Vai daí,
mais uma invenção do trio Gaspar-Passos-Borges – aumentar em 7% a contribuição
dos trabalhadores para a segurança social e reduzir, proporcionalmente, esse
encargo aos empregadores. O problema é que perante esta alarvidade não foi só a
muda realidade a opor-se – foi toda a cabeça pensante e falante deste país,
incluindo os próprios beneficiários da medida, que, seguramente, fizeram Passos
Coelho sentir-se o protagonista daquela anedota em que um amigo telefona a
outro e diz: “Oh, pá! Vais na auto-estrada? Olha que ouvi dizer nas notícias
que vai um condutor em contramão!”; ao que o outro responde: “Eh, pá! Só um?
Vêm todos!...”
É este conflito permanente com a mais prosaica realidade, por parte do
governo, que faz temer o pior para o nosso país. Afinal, os gregos podem não
ser os únicos entalados da Europa. As manifestações de 15 de Setembro são um
(bom) prenúncio de que a paciência dos portugueses (tão do agrado do
primeiro-ministro) também tem limites como a dos gregos. E, até ver, tiveram o
efeito perverso de levar o governo a corrigir o tiro, embora sem alterar o alvo
– em vez de esbulhar o trabalhador através da TSU, vai fazê-lo através do
aumento do IRS; ou seja, as vítimas continuam a ser as mesmas e os efeitos
previsíveis igualmente recessivos e destruidores da classe média.
A História está repleta de governantes, que teimam em ignorar a realidade e
avançam temerosamente “de vitória em vitória até à derrota final”, como Sadam
Hussein que proclamava vitória com os americanos já dentro de Bagdad! Esperemos
que Passos Coelho não esteja firmemente decidido a engrossar esse lote de
teimosos, ou cegos com poder, que conduzem o seu povo por virtuais caminhos
frondosos até o fazer despenhar no mais fundo precipício.